Entrevista com Cursinho Popular Lima Barreto


Como e quando surgiu o Cursinho Popular Lima Barreto?

Oficialmente, data de 20 de Fevereiro de 2016 o inicio letivo do cursinho. Mas seu planejamento ocorre desde 2015. O Coletivo Negro Minervino de Oliveira buscando o desenvolvimento de um trabalho de base consistente, partindo da compreensão de que são nos bairros periféricos onde se concentra a maior parte da população negra, decidimos então por esta iniciativa. Por um lado, sabemos do déficit educacional que nós, filhos de trabalhadores, sofremos nas escolas públicas. Por outro, um cursinho popular possibilitaria uma discussão política dentro do bairro, com a molecada que sofre na pele as mazelas sociais. 

Essa junção da possibilidade de uma contribuição para a melhoria de vida da nossa população mediante o ingresso na universidade e a partir disso ter uma mediação para um debate político que nos faça avançar na compreensão dos nossos problemas cotidianos e como mudar essa realidade, nos fez trabalhar para tornar a ideia do cursinho algo real. 

Houve um intervalo de mais ou menos um ano, no qual tentamos alguns lugares, mas sem sucesso. Até que em outubro de 2015 conseguimos autorização para utilizar o espaço do Centro Social Marista, situado na Vila Progresso, Zona Leste de São Paulo, mediante o contato que alguns camaradas possuíam com o espaço. Após garantir o local, foi correr para juntar as pessoas, organizar a coordenação, fazer a divulgação, chamar professores entre outras tarefas, para em fevereiro de 2016 as aulas terem início. 

Porque escolheram o nome Lima Barreto?

Procurávamos um nome que tivesse sentido para o projeto que elaboramos e o nome de Lima Barreto foi consenso no grupo. Sendo negro, pobre e autor de uma obra vasta, com a qual todos nós nos identificamos, ainda lemos com entusiasmo as mordazes críticas sobre o cotidiano do Brasil na Velha República, que acreditamos ainda gozarem de grande atualidade. Suas obras denunciam e ironizam os costumes de sua época, escancarando os comportamentos caricatose racistas da oligarquia brasileira e as duras condiçõesde sobrevivência da população negra e trabalhadora. Por sua vida, e pela riqueza de sua obra, acabamos decidindo pela homenagem a esse genial escritor brasileiro,desafortunadamente esquecido e pouquíssimo lido pela população.De certa maneira, Lima Barreto é o retrato de todo jovem negro e pobre que tenha aspirações intelectuais. Por essas razões, assistimos com muita satisfação o movimento de reabilitação de sua memória e de sua obra, como aconteceu na FLIP deste ano, por exemplo. Lima Barreto continua a ser um escritor com quem o nosso país tem muito o que aprender.

Como vocês se organizam?

Temos uma coordenação ampla, dividida em secretarias, tais como secretaria de organização, pedagógica, financeira, comunicação e política. Em cada secretaria temos em torno de 2 ou 3 pessoas cumprindo as tarefas que demandam. Há periodicamente reuniões com toda a coordenação para apuração do andamento e avaliação dos resultados obtidos. 

As aulas no cursinho ocorrem nos finais de semana no horário da manhã (das 9h às 12h30min), sendo duas aulas no sábado e duas aulas no domingo. No mínimo duas pessoas da coordenação estão presentes nos dias, responsáveis pelo suporte ao professor, comunicação com o centro social e demais tarefas que sejam necessárias. Há um rodízio entre as pessoas da coordenação para estarem presentes no dia de aula.

Os professores são voluntários. Temos uma grade de aulas com desenvolvimento prévio ao início das aulas e dotadas de um planejamento anual. Apresentamos aos professores que demonstram interesse em participar do projeto e eles escolhem quais aulas pegar. Grande parte da coordenação, também se compromete em dar aulas. 

Como ficamos a manhã inteira em atividade, há uma pausa para um café entre uma aula e outra no dia. O café é coletivo, havendo uma escala de pessoas que levaram coisas para comer e beber no final de semana. Nesta escala estão presentes alunos e membros da coordenação.Também fazemos uma cotização mensal entre os membros da coordenação (Dez reais), em um caixa que serve para despesas gerais com materiais e, eventualmente, com o custeio de condução para alunos desempregados. Também vendemos camisetas a título de política de finanças.

Quais as maiores dificuldades enfrentadas até agora para inserir no ensino superior estudantes das classes populares?

As limitações são muitas. A primeira delas é que as aulas ocorrem somente aos finais de semana. Isso nos obriga a fazer certas escolhas na grade de aulas, em grande parte dos temas não tem a possibilidade de obter o necessário aprofundamento. Outra dificuldade é que não temos professores fixos para cada matéria. Embora isso tenha seu lado bom, pois abre espaço para novos professores, não sobrecarregando as pessoas, pois o trabalho é totalmente voluntário, por vezes acaba se tendo uma oscilação entre o nível de uma aula e outra, seja por uma característica do próprio professor, seja pela falta de experiência.

Por outro lado, tem a dificuldade dos próprios estudantes em se planejarem e colocarem o estudo como algo central em suas vidas. O cursinho tem que enfrentara angústia com o desemprego, ou a exaustão de alguns alunos que trabalham e, como isso, a inclinação para o entretenimento e descanso nos fins de semana, em prejuízo da disciplina necessária ao estudo intensivo para um bom preparo. Muitos entram no cursinho totalmente certos de que querem estudar para estrarem na universidade, mas o dia a dia vai abalando essa certeza. Chega um momento que a pessoa não está mais acompanhando, encontra um emprego que alcança os fins de semana, ou fica desanimada pela grande quantidade de coisas que precisa aprender e então desiste. Nossas turmas, em sua grande maioria, são compostas por adolescentes que não estão habituados ao estudo regular e muitos apresentam dificuldades características da deficiente educação da escola pública (baixa capacidade de escrita e interpretação de textos, vocabulário restrito, etc.). Isso tudo acaba comprometendo a motivação para que prossigam. 

Vocês seguem qual linha pedagógica? Consideram importante haver essa delimitação?

É crucial se ter uma linha político pedagógica, isso irá norteia nosso planejamento e decisões. Fazemos formações sobre as linhas pedagógicas utilizadas hoje e do desenvolvimento histórico da educação popular. Nosso objetivo é consolidar uma pedagogia revolucionária, que contribua para o processo de consciência dos estudantes e obtenham clareza sobre nossa sociedade e suas contradições. Nesse sentido, nossa linha pedagógica é por excelência política. Porém, dizer que nossa pedagogia é política não significa fazer pura agitação, é necessário passar o conteúdo em seu mais alto grau, de uma forma que dialogue com a concepção de mundo atual dos estudantes e que esses compreendam o conteúdo passado. É um desafio de grande magnitude. 

Utilizo pedagogia revolucionária por falta de um nome mais adequado, o que engloba também uma pedagogia ainda em construção. Temos como tarefa incorporar aspectos positivos das diversas linhas pedagógicas que temos hoje e buscar supera-las, dentro disso inclusive a linha “freiriana” muito utilizada nas chamadas pedagogias críticas. A prática tem nos ajudado a avançar nessa tarefa, mas não de forma linear. 

O que é Educação Popular em uma sociedade dividida em classes?

É uma educação que rompe com a “neutralidade” da educação tradicional e assume um lado. Ao menos essa é a nossa concepção de educação popular. Assumir o lado da classe trabalhadora significa utilizar a educação como um dos instrumentos para a emancipação humana, mas isso somente se obtêm com a eliminação da sociedade de classes. Porém, temos que compreender os limites desse instrumento. A educação não é por si só libertadora, mas permite ampliar a concepção de mundo para uma maior compreensão da realidade. Essa maior compreensão da realidade é o objetivo da educação popular e ao mesmo tempo seu limite, pois compreender melhor o mundo não o faz transforma-lo, para isso é necessário outros passos. 

Compreendido os seus limites e possibilidades, a educação popular é um valioso recurso. Nesse sentido, ir para o ensino superior embora importante, não pode ser o único objetivo do cursinho, mas também que esse sujeito além de ingressar na faculdade, faça com uma concepção crítica de mundo e com a certeza de que mudanças mais profundas não podem prescindir de sua participação na luta. 

Quais dicas vocês dariam aos novos cursinhos populares que estão surgindo?

Que planejem bem a estrutura do cursinho, pois o planejamento diminui as chances do projeto falhar. Compreenda que um cursinho popular tem o adjetivo “popular” não por ser um cursinho direcionado a pessoas pobres, entendimento que pode fazer com que a iniciativa ganhe um caráter meramente assistencialista, mas que esse adjetivo demonstra uma posição, e essa posição denota uma responsabilidade com uma determinada classe. É necessário atingir um equilíbrio entre a discussão política e o conteúdo necessário à aprovação dos alunos, já que se pode perder de vista o objetivo de atender à necessidade imediata dos alunos, que é inserir estudantes de nossa classe no ensino superior.Outro conselho é o de que os coordenadores não coloquem os alunos na linha de fogo de disputas políticas, algo que pode ser evitado com uma coordenação consciente de suas afinidades. Afinal, prepara-los é o objetivo principal. Os alunos não podem ser feitos de degraus para ambições individuais. 

Deixem seu recado final a todos os que se relacionam com o Grupo de Estudos Americanista Cipriano Barata!

Recebam um caloroso abraço de toda a coordenação do Cursinho Popular Lima Barreto, bem como os nossos votos de que continuem a ”escovar a história a contrapelo” com esse magnífico trabalho de todos vocês.



Grito de Guerra do Cursinho Popular Lima Barreto

Sobre o Autor:
Rafael Freitas
Rafael da Silva Freitas: Nasceu no dia 29 de dezembro de 1982 em Santa Maria, RS. Historiador. Membro Permanente e fundador do Grupo de Estudos Americanista Cipriano Barata. Produtor e radialista do programa "História em Pauta" na web rádio La Integracion. Colunista no Jornal de Viamão.

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