VOCÊ CONHECE NELLIE BLY?


Imagine uma mulher de apenas 25 anos dar a volta no mundo sozinha em 72 dias, com apenas uma mala para seus pertences e roupas. Agora imagine isso no ano de 1889! 

A propósito, nem é preciso imaginar. Esse feito realmente aconteceu. Em 1889, a jornalista Nellie Bly (cujo nome de nascimento era Elizabeth Jane Cochram) partiu de Nova York para uma impressionante volta ao mundo em 72 dias. 


Inspirada pela obra “Volta ao Mundo em 80 dias” do escritor francês Júlio Verne, e pelos avanços nos transportes em fins do século 19, Bly propôs a ideia ao seu chefe, editor do jornal New York World (de Joseph Pulitzer) onde trabalhava. Ela já era conhecida por elevar o jornalismo ao extremo. Sua primeira grande reportagem impactante foi investigar as condições de vida dos internos no Hospício Blackwell, em Nova York. Na época, várias denúncias de tratamentos inadequados aos internos eram relatadas. Para descobrir se os relatos eram mesmo verdadeiros, Bly fingiu-se de louca para conseguir ser internada por 10 dias no tal hospício. Essa experiência impressionante deu origem ao livro “Dez Dias no Hospício”, publicado em 1887. O sucesso foi imediato. E lhe valeu uma promissora carreira de jornalista pelas décadas seguintes. 





Em novembro de 1889, Nellie partiu de Nova York para o Reino Unido, de lá foi para a França, onde se encontrou com o famoso escritor Júlio Verne. Após o breve e agradável encontro, Bly partiu para a Itália, de lá  pegou um navio para o Egito. Cruzando o Canal de Suez e o Mar Vermelho, Bly chegou às regiões que na época pertenciam ao império colonial britânico: atuais Sri Lanka, Malásia e China; e ao Japão, que não era colonial britânica, mas estava em plena Revolução Meiji (iniciada em 1868 e que deu ao país as condições de virar uma potência imperialista nas décadas seguintes). 


Apesar de não muito atenta e crítica em relação à história e ao desenvolvimento econômico dos lugares por onde passou, o olhar de Bly não deixou escapar a miséria influenciada pelo imperialismo estrangeiro. No Egito, Bly testemunha uma passagem interessante:


"Mal a ancora afundou, o navio foi cercado por uma frota de pequenos barcos, guiados por árabes seminus, lutando, agarrando, puxando, gritando em sua louca pressa de serem os primeiros. Nunca em minha vida vi tal demonstração de ganância voraz pelos poucos centavos que esperavam ganhar levando os passageiros para terra. Alguns barqueiros chegavam a empurrar outros para fora de seus barcos e os jogavam na água num esforço frenético de roubar os lugares uns dos outros. Quando a escada do navio foi lançada, muitos entre eles a agarraram como se fosse questão de vida ou morte, e lá se prenderam até que o capitão fosse obrigado a mandar os marinheiros baterem nos árabes para que saíssem, o que fizeram com bastões compridos, antes que os passageiros ousassem dar um passo adiante" (2021, p. 86). 


A viagem de Bly ao redor do mundo terminou em janeiro de 1890. Sua volta a Nova York foi uma festividade no país. Tornando-a ainda mais famosa. 


A curiosidade de Nellie ao chegar nos lugares mais distantes e pitorescos da época, como o Egito, Sri Lanka, China e Japão, não escondem um ar de darwinismo social e higienismo. Porém, é preciso ter em mente a época em que Bly se aventurou por esses lugares. Nos países industrializados, tal como sua terra natal, os Estados Unidos, essas ideias eram parte de um arcabouço científico que se estabelecia. 


Após a sua aventura pelo mundo, Bly se retirou por um tempo do jornalismo. Casou com um industrial, chamado Robert Seaman, e se dedicou a patentes inventivas para a indústria. Ao longo da década de 1910 ela se dedicou à causa sufragista nos EUA (onde as mulheres só conseguiram o direito de votar em 1920!). Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), Bly foi a primeira mulher a visitar como correspondente uma zona de guerra na Áustria, chegando a ser presa pelos austríacos.


Nellie Bly faleceu em janeiro de 1922. Seu legado para o jornalismo e a história, porém, são inegáveis. Viajar pelo mundo, sob a ótica de Bly, ajuda a entender as culturas e os preconceitos da época, onde a globalização ainda não tinha avançado tanto como hoje; bem como as muitas consequências nefastas do capitalismo no mundo. 





Sobre o autor:

 
 
Fábio Melo: Historiador. Membro Permanente e fundador do Grupo de Estudos Americanista Cipriano Barata (GEACB). Professor de escola pública. Produtor e radialista do programa "História em Pauta", que já passou por rádios comunitárias de Porto Alegre e Alvorada. Desenhista amador, tem um blog sobre quadrinhos, com resenhas e ênfase em histórias autorais: https://guerrilhacomix.blogspot.com/






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