Em sua época, Cipriano José Barata de Almeida (1762–1838) foi a voz mais radical e incômoda da história popular brasileira. O personagem histórico que dá nome ao nosso grupo de estudos americanista foi cirurgião, filósofo e jornalista, a sua trajetória desenha um projeto de país que, 200 anos depois, ainda lutamos para se concretizar. A sua trajetória merece homenagens no cancioneiro latino-americano, ou em versos pelos nossos poetas, algo que, infelizmente, também não aconteceu.
O breve estudo a seguir tem como principal objetivo promover pesquisas mais amplas sobre a História Popular do Brasil. O nosso blog segue com espaço aberto para debates fraternos.
Iluminismo Rebelde
Nascido em Salvador, sua formação acadêmica em Coimbra (Filosofia e Medicina) contribuiu para o tornar um intelectual orgânico. O contato com o Iluminismo resultou em acusações de heresia pelo Santo Ofício, provando que, desde cedo, seu pensamento desafiava as estruturas de controle espiritual e político. Ao retornar, mergulhou no turbilhão das revoltas populares brasileiras, ganhando a alcunha futura de “revolucionário de todas as revoluções”. Não é exagero dizer que Cipriano é indispensável para quem deseja entender a história brasileira sob a ótica popular.
Seu jornal, Sentinela da Liberdade na Guarita de Pernambuco, inaugurou uma forma de comunicação política agressiva e pedagógica. O brado "Ó do Brasil! Alerta!" era um chamado à consciência política e à vigilância contra o despotismo. Precursor do jornalismo de opinião e das redes de mobilização, Barata via a informação como antídoto contra a tirania. Em tempos de desinformação, sua tese de que um povo educado é uma barreira contra o autoritarismo permanece atual.
Um dos aspectos mais proféticos de sua atuação foi o combate ferrenho à interferência militar na política. Cipriano defendia a supremacia absoluta do poder civil. Para ele, um exército que se torna ator político é o carrasco da liberdade. Ele entendia que a farda deve servir à nação, nunca tutelá-la.
Cipriano viveu o que muitos opositores enfrentaram na ditadura civil-militar brasileira: a tentativa de silenciamento através do cárcere. Preso por quase toda a década de 1820, ele transformou a cela em redação. Mudava o nome do jornal conforme a cidade onde era encarcerado e fundava comitês de solidariedade para garantir dignidade aos demais presos políticos. Sua luta antecipou os debates sobre direitos humanos no sistema carcerário e a proteção aos perseguidos por suas opiniões políticas. Barata sobreviveu a ameaças de morte e tentativas de suborno com uma integridade que desafia os vícios da política profissional contemporânea.
Identidade e soberania popular brasileira
Crítico feroz da centralização do poder no Rio de Janeiro, ele defendia um Brasil federalista, aonde as províncias tivessem voz. Seu "nativismo" era prático: vestia chapéu de palha e sapatos de couro de bezerro nacional para rejeitar a estética e a dependência europeia. Conforme afirmou Leonardo Lima Breda: “Em Lisboa, Cipriano era um dos poucos deputados das cortes que demonstravam uma espécie de nacionalismo brasileiro, mais assemelhado a um nativismo antilusitano, vestindo-se com casaca de algodão, sapato de couro de bezerro, chapéu de palha e bengala, todos utensílios de vestimenta originários de sua terra.“ Portanto, podemos notar que a pauta da soberania nacional autêntica, avessa ao imperialismo é um eco direto das lutas de Cipriano.
Enquanto figuras como José Bonifácio representavam a conciliação das elites, Cipriano era o lado do “underground” republicano, "maçom" (termo usado na época para estigmatizar opositores, como "subversivo" foi usado no regime de primeiro de abril) e radical. Ele não aceitava que a independência fosse um arranjo de cúpula que mantivesse a escravidão e a exclusão popular.
Provocações para o presente
Cipriano Barata é o "espírito" que assombrava o autoritarismo brasileiro há dois séculos. Seu legado é um convite à vigilância: devemos até hoje ser uma "Sentinela", afinal o Brasil pelo qual ele foi preso e perseguido ainda está em construção. O "Alerta!" de Cipriano Barata ainda ressoa, pois a guarita da liberdade não pode ficar vazia e o Grupo de Estudos Americanista Cipriano Barata (GEACB) busca trazer a tona essa História.
Sobre o autor:



Nenhum comentário:
Postar um comentário