Victor Raúl Haya de la Torre e a tese do imperialismo como primeira etapa




Wilhelm Christian Ludwig Dilthey: filósofo hermenêutico, psicólogo, historiador, sociólogo e pedagogo alemão.

A necessidade de investigar o pensamento original dos intelectuais da América Latina — superando o eurocentrismo e a aplicação mecânica de conceitos europeus — é fundamental para compreender a nossa própria história. Essa busca por uma análise autêntica encontra forte respaldo epistemológico na hermenêutica de Wilhelm Dilthey, que buscou estabelecer os fundamentos filosóficos das ciências humanas em oposição às ciências naturais. Dilthey argumentava que, enquanto as ciências da natureza focam em explicar os fenômenos através de leis gerais e causais universais, as ciências humanas devem buscar compreender as ações e os significados dentro de seus contextos históricos específicos. Ora, as categorias de análise europeias muitas vezes não se encaixam na realidade dos nossos países, o que torna vital o resgate de intelectuais que pensaram a região a partir de suas próprias "vivências" e especificidades, em consonância com a rejeição diltheyana a determinismos universais. Para compreendermos melhor como o historicismo é válido para entendermos a América Latina, citaremos um parágrafo do livro “Ideologias e Ciência Social. Elementos para uma análise marxista”, de Michael Löwy:


Dilthey chega à conclusão que as ciências sociais são produtos históricos e têm sua validade historicamente limitada. Suas verdades não são verdades absolutas como dois mais dois é igual a quatro. As verdades, os conhecimentos produzidos pelas ciências do espírito não são desse tipo, são verdades e conhecimentos historicamente relativos. E isso vale para o conjunto de produções culturais da sociedade. (1989, p. 74)


Para compreender o desenvolvimento econômico e social da região sob uma ótica autêntica, podemos relacionar esse esforço à figura de Cipriano Barata. Considerado uma voz radical da história popular brasileira, Barata já denunciava em seus escritos a dependência e o despotismo, defendendo um projeto de nação soberana, federalista e avessa à submissão. A partir da perspectiva de Dilthey, na qual a história é um processo contínuo de interações que devem ser compreendidas a partir de seu interior e de suas próprias estruturas de experiência, a postura de Barata reflete a busca por uma consciência histórica própria da nossa formação. Mas ele esteve longe de ser o único.

O pensamento de Victor Raúl Haya de la Torre (fundador da Aliança Popular Revolucionária Americana- APRA), ao lado da reflexão de outros intelectuais críticos, exemplifica essa busca por interpretar a realidade latino-americana a partir de suas particularidades, propondo uma inversão radical da leitura clássica sobre o desenvolvimento do capitalismo. Rejeitando a ideia de que as teorias gerais poderiam predizer de forma inexorável o comportamento histórico de todas as sociedades, Haya argumentava que, enquanto na Europa o capitalismo se desenvolveu internamente a partir do feudalismo até transbordar em imperialismo, na América Latina o processo foi o oposto: o capitalismo  foi importado e imposto de fora pelas potências imperialistas.

Homenagem a Víctor Raúl Haya de la Torre (1964). Fonte: https://arkivperu.com/homenaje-a-haya-de-la-torre-1964/


Assim, para Victor Raúl Haya de la Torre, o imperialismo é a força que introduz as relações capitalistas em sociedades que ainda eram predominantemente feudais ou coloniais. Compreender essa especificidade é o que nos permitiria analisar as características do Brasil e da América Latina sem encaixá-los em determinismos ou modelos puramente importados. Essa abordagem ecoa a defesa de Barata por um país que não dependesse da dominação estrangeira e materializa o postulado de Dilthey de que a vida humana, em sua complexidade, não pode ser submetida a leis gerais que ignorem suas singularidades históricas.

Nesta visão, o capital estrangeiro atuou como o motor inicial do nosso subdesenvolvimento. Haya de la Torre via o imperialismo como uma força indutora para a modernização técnica e industrial da região, uma vez que as burguesias locais não tinham condições de liderar esse processo sozinhas. Isso reforça a tese hermenêutica de que a história de nossas nações precisa ser analisada a partir de sua própria formação, e não à luz de uma "etapa" universalista e engessada. O que o levou a distinguir dois tipos de imperialismo:

Imperialismo como estágio final (Europa): O resultado de um capitalismo maduro que busca mercados e exporta capitais.

Imperialismo como estágio inicial (América Latina ou Indo-América): Uma força externa que gera um capitalismo dependente e singular.

Como o imperialismo seria a primeira etapa do capitalismo na América Latina, Haya de la Torre acreditava que a região ainda não estava pronta para uma revolução puramente socialista. O objetivo imediato deveria ser a Libertação Nacional. Isso justificava a criação de um partido de frente ampla, sem almejar uma revolução social.

Vimos que resgatar o pensamento original dos intelectuais latino-americanos nos mostra que o desenvolvimento histórico da América Latina possui suas próprias determinações. Além disso, como podemos observar, essas interpretações relativistas tiveram diversas implicações em nossa história política. No caso do APRA, resultando em “um programa anti-imperialista, nacionalista, latino- americanista e socializante que deveria unir intelectuais, trabalhadores e camponeses em um partido-frente de âmbito latino-americano,” (2014, p. 7)

A contribuição epistemológica de Dilthey nos ajuda a  compreender as estruturas sociais americanas, analisar o contexto ao qual cada ação pertence,  e escrever uma História Popular das Américas bem longe de um mero resquício das ciências naturais. O historicismo do filósofo alemão nos serve para abandonar o eurocentrismo dogmático,  investigar as nossas raízes e construir interpretações originais, com amplas possibilidades para compreendermos as realidades sociais e históricas genuínas dos povos americanos.

Referências:

KAYSEL, André. Três Vozes, Duas Polêmicas e Um Problema: Mariátegui, Haya de La Torre, Julio Antonio Mella e as fundações do marxismo latino-americano. Trabalho preparado para o IV Seminário Discente da Pós-Graduação em Ciência  Política da USP, de 07 a 11 de abril de 2014-02-27. Disponível em: https://sdpscp.fflch.usp.br/sites/sdpscp.fflch.usp.br/files/inline-files/135-440-1-PB.pdf. Visualizado em: 10/07/2026.

LÖWY, Michael. Ideologias e Ciẽncia Social. Elementos para uma análise marxista. 5° ed. São Paulo: Cortez, 1989.

SCOCUGLIA, Javonka Baracuhey Cavalcanti. A hermenêutica de Wilheim Dilthey e a reflexão epistemológica nas ciências humanas contemporâneas. Disponível em: https://www.scielo.br/j/se/a/xmhyYJDn7xsc7VL8zbbNGqz/?lang=pt. Visualizado em: 10/07/2026.

Sobre o autor:


Rafael Freitas:
professor de História.



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