RIQUEZAS JOGADAS AO VENTO

Olhemos o passado e aprendemos com ele. Do contrário, a História perde muito da sua utilidade, pois são os acertos e erros que ela nos mostra que fazem o estudo da História ser tão valioso. A começar valorizar que fizemos; o que já legamos e o que podemos ainda fazer. Desde que tenhamos consciência de tão grande somos, precisando apenas crer em nós mesmos e deste modo exijamos ser respeitados. Tanto pelas nações com que interagimos como por nossos governantes.

Por exemplo, a revolução nos transportes com a criação do automóvel em boa parte aconteceu por causa da borracha brasileira. Mas como assim? Foi a borracha das seringueiras, não só do Brasil, mas em sua maioria, brasileiras, que permitiram a existência dos pneus, já que por muito tempo toda a borracha consumida no mundo era amazônica (sendo que é preciso destacar que o Peru também foi outro significativo produtor). Contudo, este é um orgulho que, igualmente, se mistura à vergonha. Orgulho pelo que legamos ao mundo, mas também vergonha pelo modo débil que o fizemos.

Uma vez que este grande benefício se fez à custa da escravidão de milhares de pessoas que nem autoridades e nem sociedade, estavam dispostas a ver. De modo que grandes centros desta região na época como Manaus (no Brasil) e Iquitos (no Peru) se fizeram a custa do sangue destes humildes heróis anônimos. Heróis que largaram tudo, em suas terras natais (em boa parte, saídos do Ceará com a grande seca de 1877) para arriscar um destino totalmente incerto na selva Amazônica repleta de perigos e transtornos dos mais diversos.

Seringueiros na Amazônia

Tendo ainda o agravante de que esta fonte de riqueza era muito bem aproveitada, mas não cuidada, em nada zelada. Produzida num sistema totalmente rústico, em que cada seringueiro vagava em busca de árvores esparsas em meio a imensidão da selva para coletar o látex (seiva da seringueira que se torna a borracha). Tão ineficiente que bastaria apenas surgir uma concorrência que fosse só um pouco mais eficaz para ruir por completo o “boom” da borracha amazônica. Algo que cedo ou tarde aconteceria, assim que alguém adentrasse em nossas fronteiras e facilmente se apoderasse de alguns exemplares dessa valiosa planta. Fronteiras abandonadas, por acaso se deparamos ou não com este drama até hoje?

Bom, o fato é que em 1876, um aventureiro inglês Henry Wickham facilmente contrabandeou um total de 700.000 sementes de seringueira (das quais apenas 2.397 germinaram) iniciando o início do fim desta fase em que a borracha brasileira sustentava o mundo, que somente seria sentido a partir de 1912. Acontecendo que a produção mais padronizada e dinâmica no Ceilão (hoje Sri Lanka) e Malásia (na época ambas colônias da Inglaterra) fez com que, absurdamente, a situação se invertesse, passando o Brasil a ser importador de borracha.

Claro que o ambiente amazônico não permitia um sistema igual, devido à propagação de pragas, porém, nada impedia de ser feito o que mais tarde aconteceu de seringueiras serem plantadas em outras localidades mais propícias à produção intensiva. Tanto que até hoje a maior produção de borracha em nosso país acontece no estado de São Paulo. Algo que mesmo assim tem sido pouco incentivado, apesar de algumas vantagens fiscais recentemente terem sido criadas para motivar a produção nacional que ainda é insuficiente para suas necessidades. Um paradoxo que não é o único em nossa história.

Uma vez que esta história é muito semelhante à outra riqueza pouco lembrada, mas que igualmente fez a fortuna de inúmeras famílias no Paraná e no Mato Grosso (em especial onde é hoje o atual Mato Grosso do Sul): a erva-mate. Pois desde o fechamento do Paraguai (maior produtor neste tempo) aos demais países por ordem do ditador José Gaspar Francia, Argentina e Uruguai passaram a depender muito do fornecimento brasileiro de mate. E que como a borracha, gerou uma riqueza aproveitada, mas não valorizada. Nem quanto ao produto, como também não aos seus trabalhadores. Terminando assim o nosso próspero ciclo ervateiro do mesmo modo: sendo superado por outros que melhor souberam dar importância a esta cultura. Desta vez pela Argentina que, como a já fez antes a Inglaterra (com a borracha), também investiu no cultivo invés do mero extrativismo que se realizava no nosso país, de modo extremamente precário.

Com a diferença de que a Argentina o fez aprimorando o que já tinha e não invadindo território alheio para roubar uma vantagem que não lhe pertencia. Já que os ervais de mate também existiam em terras argentinas. Mas, acima de tudo, tal como os ingleses, os argentinos viram que que não poderiam ficar na dependência da preguiça e falta de visão em que o Brasil se achava por o ser mais confortável esta condição. Por mais que também devam ser consideradas todas as inúmeras dificuldades de se aprimorar a produção destes itens de consumo. Dificuldades muitas, deveras se reconheça, mas que poderiam elas, como de fato o foram, superadas se sendo empenhada a devida determinação para tanto. De modo que o Brasil em mais de uma vez perdeu seu grande momento histórico.

Charge retratando a exploração do trabalhador na Amazônia.

Em suma: Riquezas jogadas ao vento que muito me lembram a frase do escritor Eduardo Galeno, em sua obra “Veias Abertas da América Latina” que dizia sobre se ter a vaca, mas os outros tomarem o leite. Pois pior vítima é a que se conforma ao seu papel de sofredora. Papel este que me pergunto até quando todos nós vamos aceitar. Ou estarei sendo equivocado? O Brasil atualmente figura entre os maiores produtores de soja do mundo, assim como outras culturas que alimentam América Latina, Europa, EUA, China e Rússia, mas boa parte deste mérito acontece a despeito de todo o abandono que agricultores sofrem (no caso, o pequeno agricultor que todos sabemos ser à base de todo o sustento de nosso país), péssima infra-estrutura dos transportes e impostos extremamente pesados que, no mínimo há décadas se fazem presentes em nossa realidade, massacrando qualquer esforço de realmente se produzir para o Brasil e principalmente aos brasileiros.

Somemos isso a uma falta de visão de como uma maior justiça social pode ser uma benesse e não um obstáculo, por parte de muitos empregadores. Uma vez que já foi comprovado que pessoas felizes produzem mais e melhor, pessoas valorizadas possuem maior comprometimento com quem as valoriza. Uma questão que se torna mais angustiante se vermos que além da opressão salarial permitida pela lei, também persiste o trabalho escravo como uma realidade vergonhosamente forte em nosso país. Afirmação que a faço considerando que de acordo com a Comissão Pastoral da Terra (CPT), entidade ligada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e responsável pelas primeiras denúncias de trabalho escravo no país, são escravizados a cada ano pelo menos 25 mil trabalhadores, muitos deles crianças ou adolescentes.

Algo, em meu entender, muito semelhante aos desbravadores cearenses da borracha amazônica, comentados há pouco. Ou os esperançosos bolivianos que, contando com uma perspectiva, talvez diferente, ao menos, para seus filhos, hoje se submetem a uma exploração de trabalho idêntica em confecções de São Paulo.

Pois é certo que se peca em nosso país de dois modos quanto à riqueza que desperdiça. Um deles é não aprimorando, zelando, investindo no que pode nos engrandecer. O outro é desprezando toda a riqueza humana que é cada pessoa, digna da vida e da felicidade como todas o são. Afinal do que adianta grande prosperidade para poucos a custa do constante sacrifício de muitos? Do mesmo modo que vale perguntar: o que nós ainda vamos ter coragem de fazer ou, por acaso ficaremos unicamente à espera de que algum governo por si só faça o que dificilmente fará se o povo não o pressionar?

Uma questão que a provoco um pouco mais, ao a finalizar com a citação de uma outra frase de Eduardo Galeano: “Somos o que fazemos, mas somos, principalmente, o que fazemos para mudar o que somos”. Pensemos nisso. E junto, tenhamos a coragem necessária para as conclusões com as quais podemos nos deparar do que temos sido e do que queremos vir a ser.


Sobre o Autor:
Luis Marcelo Santos. O Autor é professor de História da Rede Pública Estadual do estado do Paraná e Historiador. Especialista em ensino de História e Geografia, já publicou artigos para jornais como o Diário da Manhã e o Diário dos Campos (de Ponta Grossa) e Gazeta do Povo (de Curitiba).

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