SIMÓN RODRIGUEZ: O PRIMEIRO EDUCADOR POPULAR DA AMÉRICA LATINA

Ou inventamos ou erramos.
Simón Rodriguez


Simón Narciso Jesús Rodríguez nasceu (1771 – em Caracas, Venezuela) e morreu (1854 – em Amotape, Peru) na América. Foi um personagem de nossa história marcado pela originalidade. Foi filho de Cayetano Carreño, provavelmente um padre, e dona Rosália. Na época em que nasceu, a sociedade colonial já mostrava claros sinais de desgaste. Os criollos, donos de terras, minas e trabalhadores escravizados, já não suportavam mais o peso de uma burocracia parasitária e de uma Coroa que lhes impunham tributos sobre tudo o que produziam e consumiam.

Em 1791, com apenas 20 anos de idade, Rodriguez é designado “Maestro de Escuela Pública de Primeras Letras de la Ciudade de Carácas”. Chegou a este cargo não apenas por sua dedicação aos estudos, mas provavelmente pela influência de sua família. De 1791 até 1795, ano em que renuncia o cargo, Rodríguez tem mais de 150 discípulos, entre eles está o futuro libertador Simón Bolívar. Em 1793 Simón Rodríguez se casa com Maria de los Santos Roncos. Sua visão revolucionária faz com que ele proponha aos criollos a criação de uma escola para meninas e que a ideologia escolar deixe de ser pautada por ideias religiosas e passe a agregar elementos do iluminismo europeu. Não se prendia a uma única disciplina. Do liberalismo chegou ao socialismo, tendo participado de reuniões secretas de caráter socialista.

Em 1794 publica seu estudo: “Reflexões sobre os defeitos que viciam a Escola de Primeiras Letras de Caracas e os meios para uma reforma por um novo estabelecimento”. Nesta estão suas ideias básicas para uma educação americanista: criação de novas escolas, formação de bons professores, inclusão entre os alunos de crianças negras e indígenas, diminuição progressiva do ensino particular, defesa de salários justos aos professores. Uma crítica embasada nas teorias europeias, mas relacionadas com a realidade concreta americana. Um novo método de ensino estava sendo buscado desde então. O professor deveria prestar atenção nas brincadeiras dos seus alunos. Como ele lia vorazmente, seu pensamento educativo foi sendo desenvolvido. Estas reflexões não foram aceitas. Ele deixa o cargo de mestre e começa a lecionar em sua casa – que se torna um verdadeiro ponto de encontro e integração de intelectuais. Desde então começa a participar da intensa movimentação política em Caracas pela independência da América colonizada pelos espanhóis.

Símón Rodriguez

Em 1795, renunciou ao seu cargo e se pôs em viagem pela América e Europa. Passa pela Jamaica (então uma colônia britânica) e Estados Unidos; da cidade de Baltimore, ruma para a Europa – um continente estremecido pela Revolução Francesa de 1789. Em Paris, Rodriguez se torna tradutor de alguns expoentes da literatura francesa. Em 1804 se reencontra com seu antigo aluno, Simón Bolívar. Ambos viajam juntos por diversas cidades da Europa, entre as quais Viena. Na Itália, no Monte Sacro, Rodriguez assiste o juramento de seu discípulo de libertar a América. Em 1806, Rodriguez e Bolívar se separam: este volta a América enquanto o mestre peregrina pela Europa, aprofundando seus estudos. Conheceu a Alemanha, Prússia, Polônia, Rússia e a Inglaterra.

Em 1823, no auge das lutas pela independência, Simón Rodriguez retorna a América e se instala em Bogotá, onde pretende desenvolver seu projeto de escolas populares – uma escola na qual devem estudar os filhos dos pobres e dos ricos, onde todos aprendiam os mesmos conteúdos e onde os filhos dos ricos aprenderiam a trabalhar, tal como os pais dos pobres faziam; desta forma criando uma consciência social que ajudasse a construir na América recém independente um sentimento de justiça social. Contudo, suas ideias despertam resistências tanto de conservadores como de religiosos (que de fato detinham o monopólio sobre a educação). Após a independência da região setentrional da América do Sul, Bolívar nomeia seu mestre “Diretor de Educação Pública, de Ciência Física, Matemáticas e Arte”. A partir dai Rodriguez pretende expandir o seu modelo de escola de Bogotá em Chuquisaca, no Peru. Mais uma vez suas ideias provocavam a fúria das elites, e sem o apoio político de Bolívar, Simón Rodriguez renuncia em julho de 1826. Mesmo sem ocupar cargos burocráticos, Rodriguez defende que as recém-independentes repúblicas latino-americanas, só poderão se consolidar definitivamente através da educação e do trabalho produtivo. Em 1830, ano da morte de seu mais famoso discípulo (Bolívar), Simón Rodriguez se casa com Manuela Gómez.

Nas décadas de 1830 e 1840, Rodríguez escreve as seguintes obras: Luces y virtudes sociales (1834) e Extracto sucinto de mi obra sobre la educacion republicana (1849). Também é convidado pelo governo do Chile para por em prática suas ideias educacionais. Dizia que “La Instrucción pública, en el siglo 19, pide mucha filosofía. El interés general está clamando por una REFORMA y... la América está llamada, por las circunstancias, a emprenderla. Atrevida paradoja parecerá... no importa: los acontecimientos irán probando América no debe imitar servilmente, sino ser ORIGINAL”.

Sem nunca deixar de militar pela educação popular, Simon Rodriguez pode ser considerado o primeiro educador da América. Até os dias de hoje as faculdades brasileiras de formação de professores tem uma dívida histórica com Simon Rodriguez. Nossas instituições de ensino só falam em Piaget, Vigotsky, Wallon, Skinner entre outros. Nosso ensino continua colonial...


REFERENCIAS

LUQUE, Guilhermo. Simón Rodríguez. In: Claves para comprender la revolución bolivariana. Governo Bolivariano da Venezuela, sem data.


Sobre o Autor:
Fábio Melo
Fábio Melo. Membro Permanente e fundador do Grupo de Estudos Americanista Cipriano Barata. Pesquisa sobre História Social da América e Educação na América (América Latina e Estados Unidos). Produtor e radialista do programa "História em Pauta" na rádio La Integracion. Tem diversos textos escritos sobre educação, cultura e política. 

Sobre o Autor:
Rafael Freitas
Rafael da Silva Freitas: Nasceu no dia 29 de dezembro de 1982 em Santa Maria, RS. Historiador. Membro Permanente e fundador do Grupo de Estudos Americanista Cipriano Barata. Produtor e radialista do programa "História em Pauta" na web rádio La Integracion. Colunista no Jornal de Viamão.

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