HISTÓRIAS DO BRASIL PROFUNDO: A Rota dos Tropeiros

 



Em meados do século XVIII, ocorreu no Brasil o auge da exploração mineradora, que se deu na região de Minas Gerais. Esta atividade econômica, além de reorganizar a administração colonial portuguesa, também alterou as necessidades de recursos para o funcionamento completo das minas. E para isso, o papel do tropeirismo foi essencial.

As regiões meridionais do Brasil, na época em constantes disputas e divergências entre as potências colonialistas Espanha e Portugal, se tornaram, por acidente, terreno fértil para a exploração pecuária. O gado, oriundo da Europa, veio para essas regiões com os primeiros colonizadores portugueses e espanhóis, no século XVI e XVI. Muitos desses colonizadores pertenciam à ordens religiosas, como os jesuítas, que trataram de catequizar/colonizar os povos indígenas locais (guaranis), em vilarejos, chamados reduções – das quais São Miguel (RS) é a mais conhecida, devido as suas imponentes ruínas. Os constantes ataques de mercenários (bandeirantes) pagos para invadir aldeias (catequizadas ou não) e capturar os indígenas para transformá-los em escravizados, acabou dispersando parte do gado; que livremente se reproduziu em um ambiente muito propício como a região do Pampa – um verdadeiro pasto natural para esse tipo de animal. Além de serem valiosos pela carne, o gado também servia como tração animal, usado nos engenhos de açúcar, por exemplo; sua graxa (sebo) também tinha alguma utilidade, como para fazer velas, sabão e amaciamento de couros (outro produto extraído do gado).

Também eram muito valiosas para as minas brasileiras as mulas, muitas delas também criadas em regiões do sul do Brasil. Alguns criatórios de mulas haviam existido no norte da Argentina, instalados pela necessidade desses animais de carga para despachar as enormes quantidades de prata extraídas de Potosí, Bolívia, até o Rio da Prata, onde o metal era embarcado para a Espanha. Como burros e mulas eram os únicos animais capazes de transportar muito peso por longas distâncias, eram muito requisitados. Assim sendo, um vigoroso comércio muar foi se desenvolvendo ao longo dos séculos XVII e XVIII.

Desta forma, a exploração de gado e das mulas eram atividades econômicas muito importantes para as minas do sudeste brasileiro. Foi assim que a figura do tropeiro ganhou ainda mais importância na história colonial brasileira.

Os tropeiros, com efeito, acabaram se tornando estratégicos, pois realizavam dois importantes objetivos na expansão colonial portuguesa no sul do Brasil. Primeiro porque eles levavam os importantes recursos, gado e mulas, do sul para o polo econômico da época (minas). E também porque, ao longo do processo, muitos deles se estabeleciam em entrepostos na região, ganhando sesmarias e fazendo com que o sul fosse cada vez mais incorporado à colônia portuguesa (na época, o princípio jurídico de que um território pertencia à quem o habitava e explorava – uti possidetis – era o balizador de muitos conflitos; se são os portugueses que habitam a área, ela pertence à colônia portuguesa).

Para levar a cabo a integração entre as regiões onde havia grandes contingentes de gado e mulas, ao sul, e as regiões consumidoras, nas minhas (atual sudeste), o governo colonial abriu estradas, devidamente pedagiadas (com as patrulhas), chamados caminhos reais. Um desses caminhos, passava pelo alto da porção sul da Serra Geral, região hoje parte do Parque Nacional Aparados da Serra. Por este caminho, os tropeiros, saíam de Viamão, onde havia um grande criatório de gado e mulas, no Rio Grande do Sul, e tinham destino em Sorocaba, São Paulo, onde havia grande comércio desses animais de carga. Este caminho, passava nas proximidades da cidade de Praia Grande, hoje em Santa Catarina, às margens do Rio Mampituba.

Hoje, Praia Grande tem cerca de 8 mil habitantes e ostenta o título de “Capital dos Canyons” devido às formações montanhosas que cercam a cidade. O município também investe na imagem ligada ao turismo de aventura e ao ecoturismo, com diversas trilhas. Mas sua economia também é basicamente agrícola, se destacando as culturas de milho, arroz e bananas.

Talvez não tão famosa quanto o ecoturismo, seja a “Rota dos Tropeiros”, que passa pela cidade. Localizada a alguns quilômetros do centro da cidade, um monumento de referência aos tropeiros e um pórtico, indicam a valiosa história do tropeirismo na região.


Monumento aos tropeiros, em Praia Grande. Repare a mula, reproduzida na estátua.


Um dos afluentes do Rio Mampituba é o Rio do Boi, que corre nas proximidades de Praia Grande. Conta-se que o nome desse rio se deve aos bois que caíam da parte superior dos canyons. Desta forma, os cadáveres dos bois apareciam constantemente no rio.

Talvez falte a Praia Grande encontrar o equilíbrio entre “Capital dos Canyions” e “Rota dos Tropeiros”, quem sabe construindo algum tipo de memorial dos tropeiros, no qual haja oficinas e historiadores profissionais para criar projetos relacionados ao tema, atraindo mais turistas para o local.


Aspecto do centro de Praia Grande, SC. Dezembro de 2025.

Trilha do Canyon Malacara. 


FONTE DE PESQUISA:

O programa História em Pauta nº 19, dedicado ao tropeirismo, com a participação da historiadora Vera Barroso, é uma excelente fonte de pesquisa sobre o tropeirismo no sul do Brasil. Programa disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=xst_yFenEVM



Sobre os autor:

Fábio Melo: Historiador. Membro Permanente e fundador do Grupo de Estudos Americanista Cipriano Barata (GEACB). Professor de escola pública. Produtor e radialista do programa "História em Pauta", que já passou por rádios comunitárias de Porto Alegre e Alvorada. Desenhista amador, tem um blog sobre quadrinhos, com resenhas e ênfase em histórias autorais: https://guerrilhacomix.blogspot.com/





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