Reposição salarial. Pagamento do piso nacional. Quadro completo de professores nas escolas. Salas de aula superlotadas – espaços onde cabem 20 alunos são abarrotadas com 35; muitas sem ar-condicionado em temperaturas que chegam a 49 graus! Enquadramento na categoria de profissionais da educação para profissionais da educação infantil. Melhorias no plano de carreira. Segurança nas escolas. Inclusões reais de alunos atípicos, com atendimento especializado e não simplesmente jogados em escolas sem estrutura e profissionais para atendê-los. São muitas demandas, mas todas elas urgentes para os professores no município de Canoas.
Para que todas essas demandas sejam cumpridas, os professores de Canoas organizaram a maior greve da categoria desde 1992! Nunca antes na história do município, tantos professores paralisaram e exigiram seus direitos, repudiados sistematicamente pelas sucessivas administrações municipais.
É curioso que Canoas, o município com o 3 maior PIB do estado e uma arrecadação bilionária, tenha tanta dificuldade em oferecer um plano de carreira decente para seus profissionais da educação. Também é inaceitável que um município com economia tão robusta tenha tantas escolas sem a mínima estrutura para conforto climático.
As articulações para um movimento forte dos professores de Canoas, iniciaram ainda em fevereiro, em reuniões no Sindicato dos Profissionais em Educação Municipal de Canoas (SINPROCAN). Na ocasião, as aulas ainda não haviam começado. Pelo calendário escolar de 2026, o início do ano letivo era dia 06 de fevereiro. Após uma reunião no sindicato e a ameaça de paralisação, a prefeitura resolveu adiar o início das aulas para dia 20 daquele mês, em meio a uma intensa onda de calor no estado, e com a maioria dos alunos sem conforto climático nas escolas – pois a prefeitura não instalou os equipamentos de ar-condicionado.
Com o início do ano letivo, os professores começaram a sentir na pele a precariedade da educação no município. Todas escolas iniciaram o ano sem o quadro completo. Para atender as turmas, professores de uma matéria passaram a dar aula de outra. Por exemplo, professores de matemática dando aula de educação física. Professores de português dando aula de biologia etc. Sem um profissional adequado na sua respectiva área do conhecimento, como as crianças vão aprender os conteúdos? Como os “índices” vão ser bons?
Essa falta de professores no início do ano letivo é simplesmente inexplicável: visto que o município fez concurso em 2025. Porque não chamou a tempo os aprovados?
Em meio a esse caos de falta de recursos humanos, temos o grave problema das falsas inclusões. Para os gestores da prefeitura e a Secretaria de Educação, a inclusão é simplesmente jogar crianças atípicas numa sala de aula. Porém, sabemos que existem vários tipos de crianças atípicas: autistas, deficientes intelectuais, deficientes motores entre outros. A prefeitura de Canoas não oferece atendimento e espaço adequado para as atipias de cada criança. Algumas nem poderiam frequentar o ambiente escolar regular, mas sim escolas especializadas. Infelizmente muitas famílias não se atentam a isso, pois sem saber dos seus direitos, e sem uma estrutura pública que a oriente, vê na escola uma espécie de “depósito” onde pode ser “livrar” do seu filho atípico por algumas horas. Ocorre que, quem acaba sofrendo com isso são os professores, uma vez que, sem monitores para auxiliar, tem que lidar com 32 crianças em sala de aula, e mais 3 ou 4 inclusões. Isso torna o trabalho docente simplesmente impraticável!
Em cerca de um mês após o retorno das aulas, a situação ficou insustentável. A falta de professores colapsava a organização das escolas. A prefeitura, diante disso, anunciava prazos. E quando esses prazos chegavam, nada mudava.
Diante do caos na educação pública de Canoas, foi organizada uma paralisação por respostas das grandes demandas da categoria. Assim, no dia 14 de abril praticamente todas escolas paralisaram pedindo respostas à prefeitura de Canoas: quando teremos mais professores nas escolas? Quando os alunos atípicos serão atendidos de verdade? Quando a categoria receberá seu aumento real de salário, que não é feito há 24 anos?
A prefeitura, sob o governo de Airton Souza (PL), ficou sob pressão. O que se seguiu foi uma grande mobilização, que chegou a contar com quase 1 mil professores na frente da prefeitura de Canoas. Algo nunca antes visto no município! As mobilizações ficaram mais fortes ao longo dos dias 15, 16 e 17 de abril e a categoria decidiu por entrar em greve. No dia 22 de abril, primeiro dia de greve, uma passeata pelas ruas do centro, esclareceu a população sobre os motivos da greve. Importante salientar, muitas mães e responsáveis de alunos estavam juntos aos professores, contribuindo e apoiando o movimento.
Ao longo de 23 dias, inúmeras reuniões foram feitas entre a prefeitura, direção sindical e comando de greve. As propostas enviadas pelo governo bolsonarista de Airton Souza, nunca contemplavam o mínimo que a categoria exigia. A prefeitura sempre alegava contenção de despesas e falta de verbas públicas. Porém, ao longo da greve, com o apoio de parlamentares do PT e PSOL, Sofia Cavedon, Luciana Genro e Laura Sito, ficou mais do que evidente que Canoas possui recursos, mas a má gestão não os aplica direito.
No dia 28 de abril, uma comitiva de grevistas foi ao encontro dos vereadores de Canoas solicitar apoio e que eles cobrassem do prefeito as verbas destinada a educação. Os vereadores, com exceção de Gabriel Constantino e Emilio Neto (ambos do PT), titubearam em realizar seu trabalho: fiscalizar o executivo.
No dia 30 de abril um golpe abalou o movimento grevista. Os vereadores, que dias antes declaram apoio aos professores, votaram uma proposta do prefeito na qual o reajuste da inflação foi parcelado em 6 vezes! Esta manobra foi um golpe, pois não passou por negociação com a direção sindical e comando de greve. Ainda assim, esse reajuste “beneficiou” todos servidores do município – que não receberiam nada ou receberiam em 12 vezes, como queria a prefeitura, se não fosse o poder dos professores em greve.
Ao longo de quase um mês, denúncias surgiram contra a prefeitura e que, inevitavelmente entravam na pauta da greve. Uma das mais polêmicas foi o obscuro contrato da prefeitura para o programa Conecta+, que ultrapassa os 40 milhões! Qual a finalidade desse programa? Nenhum professor foi consultado sobre.
A truculência da prefeitura e a falta de diálogo se agravou na última semana de greve, entre os dias 11 e 15 de maio. O prefeito e seus assessores, simplesmente fecharam a porta para qualquer negociação, indo contra orientações judiciais inclusive, que dão um prazo legal para negociações entre sindicato e prefeitura. Essa situação chegou até a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul, que requisitou uma audiência com o prefeito.
No dia 15 de maio, em assembleia, os professores decidiram pelo fim da greve. Foi uma decisão estratégica, pois a luta segue por via judicial, com prazos próprios. Ou seja, o prefeito saiu derrotado. Agora ele terá que explicar porque aplica apenas 23% dos recursos municipais na educação, quando o mínimo é 25%? Onde estão esses 2% que faltam, e que contabilizam alguns milhões de reais? Qual fundamento para o contrato milionário do Conecta+? Por que a prefeitura se recusou a negociar? São questões que em breve devem ser respondidas.
De qualquer forma, uma coisa é certa: os professores de Canoas fizeram história!
Cartazes de professores sobre as reivindicações da categoria:








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