Abaixo, uma breve tentativa de interpretação da letra da música:
"Um certo povo, escravo do poder / Cresceu e se multiplicou (...) O rei, o rei, o rei para sempre, apesar das correntes".
O Brasil era o de 1985, recém-saído de mais de duas décadas de um regime ditatorial que controlou rigidamente os meios de comunicação e perseguiu manifestações artísticas. Para a juventude que consumia e produzia rock pesado na época, os versos que descreviam um "povo escravo do poder" e a luta "apesar das correntes" podem ter soado de forma muito real, traduzindo o sufocamento social recém-vivido.
Neemias aponta que, a partir do século XVIII, Espártaco passou a ser sistematicamente apropriado como um "símbolo de revoluções" e de emancipação popular. No Brasil de 1985, a contracultura do heavy metal resgatou esse símbolo de revolta. O Espártaco do Santuário tornou-se o veículo para externalizar a indignação reprimida contra o terrorismo de Estado que havia marcado o regime anterior.
"A podridão os fez crer / Que nada os salvaria / Covardes, matar pra viver / Na arena sobreviveria".
A tese de Neemias critica o processo contemporâneo da Indústria Cultural, que reduziu o mito de Espártaco a uma "mercadoria", voltado ao consumo de suplementos, jogos eletrônicos e estética de academias. No entanto, em 1985, a banda Santuário utilizou o guerreiro em um sentido oposto. A "podridão" e a necessidade de lutar para "sobreviver na arena" poderiam expressar a repulsa à hipocrisia social do período de transição. Nos termos de Dominique Kalifa citados na tese, os jovens headbangers encontravam na "afirmação de uma virilidade agressiva um instrumento de defesa coletiva" contra as pressões cotidianas de uma sociedade que ainda mantinha as estruturas do autoritarismo intactas.
"E junto dele surgiu um novo rei / Espártaco se denominou (...) Mas até os reis morrem, / E a fé perpetua".
Enquanto o campo político da esquerda brasileira de 1985 se reorganizava pela via partidária clássica, a juventude contracultural do heavy metal buscava canais de expressão que privilegiavam a emoção e o mito.
Transformar Espártaco em "rei" individualiza o herói, afastando-o da realidade de escravizado miserável. No heavy metal de 1985, essa leitura heróica e messiânica de um "rei que morre, mas cuja fé perpetua" alinha-se perfeitamente ao que Paul Veyne define como a "estética da intensidade". A juventude contracultural do heavy metal parecia buscar a inspiração de um herói trágico e inconformista que preferiu cair em combate de forma gloriosa a se submeter às regras do poder constituído.
Rafael Freitas: professor de História.




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