RESENHA DE LIVRO: "O País dos Privilégios"

Livro: O País dos Privilégios"

Autor: Bruno Carazza

Editora: Companhia das Letras

Ano: 2024




        Bruno Carazza, nesse livro, resolve um problema importante, e que tinha ficado no ar na pesquisa de Raymundo Faoro: quem são os donos do poder no Brasil? Faoro não tinha entrado em detalhes, o que deixou margem para o uso oportunista dessa ideia de que existe uma casta que suga o estado: Collor falou em combater os “marajás”, Guedes atacou os “parasitas”, fazendo, então, um ataque a todo o funcionalismo público, privatizando estatais como Embrafilme, etc. Eles o fizeram em favor de um setor de empresários que podemos chamar de burguesia compradora, que tem menos interesse em um estado estruturado, contra o outro setor, o burocrático. A escolha de comentar Vargas e Fernando Pimentel do PT nessa introdução feita por Bruno fez reverberar essa disputa entre esses dois setores, uma vez que Vargas e PT são caracteristicamente ligados a esse setor da burguesia que chamamos burocrático, mais ligado ao estado. Ele elenca o funcionalismo público privilegiado: magistrados, Ministério Público, elite dos poderes executivo e legislativo, políticos, militares, cartórios. A partir dessa pesquisa rigorosa, Bruno Carazza nos fez um grande favor, pois evita a utilização demagógica desse pensamento daqui em diante. Bruno tem a consciência da autocrítica e comentou que o estado brasileiro não é inchado em relação aos países desenvolvidos do mundo (embora ainda tenha se feito presente em País dos Privilégios o termo “estado inchado”, sugere-se a sua retirada em uma nova edição). O próprio autor comentou, de forma bastante lúcida que “o tamanho do corpo dos servidores públicos do país é bem menor do que o apregoado pelos defensores do estado mínimo” (CARAZZA, 2017, p. 154).

Por outro lado, livro baseia-se em pesquisa empírica, traz dados, mas não consta de País dos Privilégios a bibliografia recente a respeito do mesmo tema, o texto Elite do Atraso, de Jessé Souza, bem como amplo debate a respeito de Faoro realizado por Leonardo Avritzer no site A Terra é Redonda. Visto à luz das reflexões de Jessé de Souza, o texto de Carazza adota o que Jessé chama de vira-latismo e racismo culturalista (por pensar no Brasil em um país pior do que os outros), bem como apresenta um pensamento liberal que aponta corrupção de origem cultural lusa presente no estado como maior de nossos problemas (o que, para Jessé, leva aos abusos da lava-jato). Como explicou Jessé de Souza:


A partir de Raymundo Faoro, inclusive, o mercado passa a ser visto como o céu na terra, prenhe de virtudes democráticas que apenas o estado não permite florescer. O cidadão comum é convidado a ver o mercado como competição real do mais apto, como nas padarias da esquina que disputam quem produz o melhor pão. Nada é dito sobre o grande mercado controlado por monopólios que fraudam a sociedade sob a forma de controle de preços, juros extorsivos e assalto ao orçamento público, via isenções fiscais fraudulentas, sonegação de impostos, etc (SOUZA, 2019, p. 146).


Podemos dizer, à luz de Jessé Souza, que o título colocou uma excepcionalidade do Brasil em termos de privilégios que não cabe. Se são privilegiados os funcionários públicos brasileiros, o quanto o são os funcionários do complexo industrial-militar estadunidense que presidiram a invasão do Iraque? Em todo mundo, o poder está nas altas esferas do poder e nos escritórios das multinacionais. Curioso como surge a ideia de um capitalismo já estruturado em Portugal:


Utilizando um conceito formulado por Max Weber, Faoro classifica como “capitalismo politicamente orientado” a estratégia inaugurada por D. João I e seguida por todos os monarcas que o sucederam nos séculos posteriores, de se lançarem ao mar em busca de novos negócios (CARAZZA, 2024, p. 15).

 

        Faoro, ao nosso ver, deixa-se levar demais por autores portugueses que postulam que a primeira revolução burguesa foi a revolução de Avis, bem como a hipótese de que não existiu feudalismo em Portugal, primeiramente colocada por Jaime Cortesão, mas que parece ter se tornado hegemônica. Para Weber, existem dois tipos de “capitalismo”, o politicamente orientado, em que o estado tem um papel, e o economicamente orientado; mas nem Weber e nem Marx falaram sobre o precoce “capitalismo” português em suas obras. Como deixariam de ter detectado os fenômenos mencionados pelos portugueses, a não- existência do feudalismo (o que faz pensar que o capitalismo é o mesmo que trocas comerciais) e a tal revolução burguesa pioneira?

Portanto, “capitalismo” não nos parece um termo adequado. O melhor seria, sim, o mercantilismo, a penúltima fase do feudalismo. O capitalismo ainda estava embrionário. E equívoco veio de Faoro. Faoro pensava que o mercantilismo era o primeiro passo para o capitalismo industrial. Ao nosso ver, muito do que Carazza apontou no passado deveu-se à presença dos estamentos feudais, para os quais não havia diferença entre público e privado, bem como da exportação do feudalismo para o Brasil e suas sobrevivências atuais (restos feudais, sob a forma de latifúndio). A ideia de soberania popular surgiu no tempo do Iluminismo e procurá-la em tempos anteriores pareceu-nos anacronismo, bem como a imutabilidade desse estamento no decorrer das épocas. Quando Portugal exportava para aqui um certo número de nobres (citado por Bruno), de forma alguma ela era numerosa em relação à população da colônia. Eles eram algo bem diferente do funcionário público hoje existente. Eram grandes proprietários de terra e executavam poder de vida e morte sobre seus comandados, sempre em nome do rei e da Igreja Católica (existia fusão estado e Igreja Católica, vale lembrar, traço tipicamente feudal).

Prosseguindo, para Bruno Carazza, “após aportar no Brasil em 1500, os portugueses implantaram por aqui esse mesmo sistema extrativista” (CARAZZA, 2024, p. 15). A grande questão aqui é que não importamos o mesmo sistema extrativista e sim algo mais atrasado e, que, segundo Jessé Souza, nos moldou, o escravismo. Podemos supor que não exportou o “capitalismo”, mas predominantemente escravismo e feudalismo, embora também outros modos de produção não hegemônicos, como o capital mercantil. O açúcar no Nordeste já era plantado com auxílio de capitais holandeses.

        Isto posto, pode-se esperar que tais pontos sejam debatidos nos volumes a seguir de País dos Privilégios (trata-se de uma trilogia).



Bibliografia:

CARAZZA, Bruno. País dos Privilégios. Companhia das Letras: 2004.

Raymundo Faoro, Críticas Equivocadas<https://aterraeredonda.com.br/raymundo-faoro-criticas-equivocadas/>>.

SOUZA, Jessé. Elite do Atraso. Rio de Janeiro: Estação Brasil, 2019.


Sobre o Autor:



Lúcio Junior Espírito Santo. Graduado em Filosofia. Mestre em Estudos Literários/UFMG. Blog: revistacidadesol.blogspot.com). Bom Despacho, Minas Gerais. Nascido em Uberaba, 1974.


Resenha de "Escravismo Colonial", de Jacob Gorender

 



1.Originais mesmo no sofrimento

A tese principal dessa obra é que existiu no Brasil um modo de produção singular, uma “jabuticaba” nacional, no mau sentido sempre repetido pelos nossos economistas: o escravismo colonial, uma descoberta que, segundo Gorender, está de acordo com o materialismo histórico moderno: “ou inventamos ou erramos”, poderiam ter dito os portugueses ao colonizar o Brasil. Se somos originais até no sofrimento, imagine quando independentes.

Se essa ideia de um modo de produção nacional em uma nação que não era nação já é sim audaciosa, o que se segue é mais ainda: “O modo de produção feudal, dominante no Portugal da época, não se transferiu ao país conquistado". A suposição de que a transferência deveria ocorrer não é nenhum absurdo do ponto de vista do materialismo histórico. Mas para Gorender isso é apenas o passado, o “stalinismo”.

Essa negação do feudalismo é uma tomada de posição na historiografia. Toma-se partido de Caio Prado Júnior contra Nelson Werneck Sodré, embora de forma muito bem disfarçada. Gorender recusa a dicotomia entre capitalismo ou feudalismo e para resolver isso cria um novo modo de produção, o escravismo colonial. Esse escravismo, diferente daquele que fez com que Platão fosse capital-dinheiro em Siracusa (não sejamos dogmáticos e nem stalinistas, ora!), no entanto, não evoluiria para o feudalismo e sim para o capitalismo, ou seja, já teria em si o embrião desse novo modo de produção. Ele “descobre” um modo de produção original inventado pela portugalidade. Se havia escravidão até na Irlanda, resta saber se até lá havia escravismo colonial.

Para ele, trata-se de uma “realidade histórica nacionalmente caracterizada” num país que não era nação, embora “síntese mais universal possível” no império português. Como parte dessa originalidade, ele reivindica o termo “plantagem”, pois essa forma de plantação (plantation) para exportar teria começado nas ilhas atlânticas portuguesas e sido copiada pelos franceses e ingleses. Gorender retomaria o fio de Ariadne dessa nossa civilização luso-tropi-capitalista.

Para Gorender, o servo diferencia-se do escravo porque ele tem seus próprios meios de produção, seria quase livre se não fosse um cambão aqui e uma corveia acolá. Ele pensa talvez que quando o servo trabalha a terra do senhor feudal, a terra é dele, é uma pequena propriedade e que talvez tenha havido reforma agrária na Idade Média.

No afã de, quem sabe, portugalizar e “mulatizar” o materialismo histórico, Gorender recusa o ensaio de I. Stuchevski e L.Vassíliev sobre modelos de desenvolvimento histórico. Afinal, segundo Gorender, os autores fariam confusão entre escravidão, servidão e o modo de produção asiático. Faltou combinar com os russos, que consideraram a diferença entre os três inessencial.

Gorender vai para o lado oposto ao desses “stalinistas”: aproxima escravidão assalariada e escravidão no Brasil colônia. Chega a citar o termo de Marx “escravidão industrial”, utilizando habilmente os seus Rascunhos (Gundrisse). Se ao citar plantation nas citações de Marx, ele assim mesmo insiste em traduzir por plantagem, talvez devesse patrioticamente traduzir Gundrisse por Rascunhos. O esforço de Gorender é em distinguir completamente servo e “escravo colonial”. Ele admite, no entanto, que a plantation (sic) tem elementos semelhantes ao feudalismo: latifúndio, povoados isolados, vontade do senhor de engenho ou fazendeiro erigida em lei. Gorender comentou a associação da plantation com algodão, fumo e café em “condições econômicas vantajosas”. Nessa linha de raciocínio, numa quase invenção da agroecologia no Brasil colônia, Gorender chega a afirmar que a cachaça era de fácil acesso às populações locais. Igualmente, éramos avançados com o “estabelecimento de produção em grande escala, a plantagem já apresentava uma divisão do trabalho avançada, se nos ativermos à técnica europeia do século XVI, divisão do trabalho não só quantitativa, mas também qualitativa”. No Brasil colônia já tínhamos, quase, agroecologia e fordismo, num êxtase da portugalidade antifeudal. Português não erra, inventa.



2. Pulando uma pinguela histórica sem guerra

Mais adiante, Gorender debate o seguinte problema: é praticamente um consenso dizer que Portugal ficou para trás em relação a Holanda e Inglaterra, preso em estruturas feudais. Mas toda a linha do raciocínio dele é no sentido de nos fazer, a nós brasileiros, pular a “pinguela histórica” do feudalismo, então é preciso fazer o raciocínio no sentido inverso. Ele resolve dizendo que o avanço do mercantilismo faz com que haja progresso no sentido do capitalismo (no nosso caso), mas pode fazer com que haja retrocesso no sentido de uma nova servidão (no caso da Europa centro-oriental estudada por Engels). Como a Europa oriental participou no mercantilismo nas Américas é uma incógnita. Mas não há como negar que a generosa originalidade da portugalidade nos fez um favor ao nos possibilitar a possibilidade de pular sem guerra civil o feudalismo, essa verdadeira “pinguela histórica”.

Inicialmente, Gorender postulou que nada do feudalismo veio para cá. No entanto, aceitou a hipótese de que o feudalismo ficou forte porque Portugal conquistou o Brasil, mas não exportou essa “força estranha” para cá. Como é que poderia o feudalismo atrasar Portugal, depois ficar forte quando Portugal conquistou o Brasil, para logo a seguir não ser exportado em nada para cá? Mais uma incógnita que permaneceu sem emplasto.

Verdade seja dita, Gorender encontrou uma passagem no Capital que fala que o servo tem propriedade própria, é autônomo. Gorender tem de se haver com a questão do escravismo ter sido exportado de Portugal e não o feudalismo e diz que existia escravismo no Portugal continental, cerca de dez por cento da população de Lisboa era de escravos negros. Ele vai por esse caminho, depois recua: não se pode deduzir o modo de produção escravista colonial da atuação colonizadora de Portugal no Brasil, tem a originalidade luso-tropi-capitalista. Até então, ele parecia querer fazer isso, falando na “plantagem” que teria surgido, não de sua cabeça, mas das ilhas atlânticas.

Há quem negue o feudalismo até em Portugal. Herculano e Gama Barros negaram ao seu país uma época feudal. O termo feudalismo, segundo Gorender, teria sido criado pelos adversários do fato social dessa maneira por ele designado. Essa afirmação carece de lógica, uma vez que dá a entender que quem é contra a ideia de exportação do feudalismo é a favor do fato social. Por isso esses autores seriam contra aproximar mercantilismo e capitalismo. Ou seja: Gorender, Caio Prado Júnior seriam a favor do feudalismo. Não deixa de ser uma hipótese pitoresca, mas atraente.

O feudalismo, segundo Gorender, seria uma superestrutura, não elemento da estrutura. Ele coloca uma posição: se você for marxista, feudo tem que ser organização jurídica e política. Não basta a organização econômica. Bom, ele mesmo admite que o direito feudal aportou aqui, logo algo do feudalismo foi exportado, apenas passou por metamorfoses sociais mirabolantes, não se sabe se por Gorender ou se por nossos bispos Sardinhas famintos de dízimos. Mesmo assim, não se exigiria o mesmo rigor de todos e um Caio Prado Júnior pode ser marxista e falar em burguesia rural, segundo Gorender. Esses termos não teriam mais o significado que tinham no passado. Para ele, só depois da abolição da escravidão os camponeses brasileiros teriam “descoberto” a meia e a terça. Com certeza adoraram a novidade. E tudo graças aos elementos originais e nada feudais do escravismo colonial. A possível tradução de corveia em cambão fica de fora dessa originalidade –mas foge ao nosso entendimento o motivo.


3.Originalidade luso-tropi-capitalista

Gorender diz que a mais valia na sociedade escravista é diferente da mais valia da sociedade capitalista. Ele fala em escravo como capital-dinheiro e renda feudal. Há também renda escravista industrial e renda escravista da terra. Gorender, seguindo a senda criativa da portugalidade, descobre as leis do escravismo colonial. Elas saem originais, bem no estilo da portugalidade que criou o escravismo colonial, mas igualmente bastante aparentadas com aquelas apresentadas pelo Capital de Marx para analisar a economia inglesa. Embora existam essas semelhanças, “a renda da terra no Brasil teve um ponto de partida original e uma evolução também original”.

Outra hipótese curiosa: Herculano e Gama Barros proporcionaram “à revelia de sua visão teórica, os elementos factuais conducentes à conclusão, sobre a existência da época feudal na história do remo lusitano”. Tem gente que defende que o feudalismo não existe e faz com que a tese oposta ganhe força. Gorender apoia-se num tal C. R. Boxer para falar em “forma portuguesa de feudalismo”. Além de inventar escravismo singular, os portugueses inventaram um feudalismo original. Igualmente originalíssima é a terminologia a seguir usada por Gorender: “considerando o localismo peculiar ao regime feudal e as diferenciações dentro da massa camponesa, no meio da qual já se sobressai uma camada aburguesada,” ou seja, tem burguesia feudal e camponês burguês. Sem dúvida, é relaxar mais do que o Urso do Cabelo Duro na hora de definir conceitos.

Gorender acredita muito na originalidade da portugalidade, mas recua diante de seus impulsos e nega que a revolução de 1383-1385 fosse a primeira revolução burguesa ou revolução popular e burguesa. Gorender não aceitou a revolução burguesa de Avis. Seria ir longe demais ao pensar na portugalidade inventando o capitalismo antes dos ingleses? Os portugueses teriam: 1) inventado o escravismo colonial, modo de produção original; 2) inventado um feudalismo original; 3) inventado o capitalismo, modo de produção hegemônico no mundo inteiro. Felizmente, ao que parece, para Gorender, nos países ibéricos, a exploração colonialista não favoreceu, mas obstaculizou o desenvolvimento do modo de produção capitalista. A sanha da portugalidade foi aplacada em sua inventividade feroz.

Mas voltando: se Portugal era assim atrasado em 1500, como não exportaria feudalismo? A seguir, ao menos, Gorender ao menos admite o feudalismo em Portugal: “é um vezo de historiadores brasileiros imaginar a formação social portuguesa, que colonizou o Brasil, como sociedade urbana capitalista. No entanto – demonstrou-o Magalhães Godinho –, no ápice de sua força imperial, durante o recenseamento de 1527-1531, a população urbana correspondia apenas a 12,7% da população total do reino lusitano40. E, do mesmo autor, igualmente se infere que a estrutura da sociedade portuguesa dos séculos XVI-XVIII, nas novas condições da expansão ultramarina, cristalizou-se rigidamente segundo as linhas preexistentes da ordem feudal”. Por outro lado, ele também afirma que existia trabalho escravo na sociedade portuguesa medieval, sua fonte eram os sarracenos aprisionados. Bom, isso talvez explique a preferência da exportação do modo escravista original ao invés do feudalismo. Ou a exportação só do direito feudal. Ou simplesmente não explique nada, afinal.

Gorender prossegue: “do ponto de vista mais abstrato, não há diferença entre o escravo, o servo e o operário assalariado.” Nisso, nosso teórico vai além do stalinismo que dizia que quase não há diferença entre escravo e servo, agrupando também o operário assalariado. Daí que poderíamos inovar bastante falando em mais valia aristotélica ou Platão vendido como capital-dinheiro. Os conceitos se mostram elásticos. Como o escravismo prossegue, a periodização de Brasil colônia e Brasil império passa, para ele, a não ter relevância. Ora, com o país independente, abre-se o campo para a originalidade mais profunda. Sodré é um autor que é citado bastante negativamente nesse texto, ao contrário de Caio Prado Júnior e o então prestigiado “marxista” Fernando Henrique Cardoso. Esse sim, “marxista” de boa cepa! Sodré é citado no decorrer do texto, leva um pé na bunda em pés de página, mas não é citado na bibliografia final. Gorender comenta brevemente que nos Estados Unidos também houve o salto histórico do escravismo para o capitalismo com a guerra civil, pulando a “pinguela histórica” do feudalismo. Camarada Lênin divergia, achava que houve semifeudalismo no sul dos USA.

Quando pensávamos que nada do feudalismo tinha vindo aqui, vem o Gorender falando que precisava pensar na “questão do processo jurídico de repartição do fundo agrário colonial por meio da doação de sesmarias. Vejamos como foi aplicado no Brasil esse instituto do direito feudal português”. Mas veio o direito feudal português e não veio feudalismo? Mas Gorender mesmo disse que se tiver a superestrutura feudal, o aparato jurídico e político, já é meio caminho andado para o feudalismo. Difícil solução, mas nosso Gorbachev dos trópicos resolve: esse direito sofreu uma “metamorfose” social ambulante. E prossegue o nosso Procusto: “Além desse episódio, houve algumas tentativas frustradas de transplantar procedimentos feudais ao âmbito colonial.” Felizmente, diríamos, não é? Um dos fracassos do feudalismo seria justamente o fracasso do nobre Brás Cubas! Felizmente, a doação de sesmaria a esse nobre que deu nome a um emplasto famoso teve “características que não prevaleceram no regime territorial brasileiro”. É ou não é piada pronta?

Felizmente, diríamos, Portugal fracassou em exportar o feudalismo. Se exportasse poderia exportar, quem sabe, mais um modo de produção único, o feudalismo português. Santa originalidade. A seguir, ficaram ainda alguns emplastos para resolver: “Cumpre agora esclarecer o caráter e a função que tiveram no Brasil certos institutos também procedentes de Portugal: o dízimo eclesiástico, os foros enfitêuticos e os morgadios.” Ficamos aqui matutando: é o direito feudal que passa por uma metamorfose social e institucional, no ânimo antropofágico de nossos bispos Sardinhas, ou Gorender quem, “raulseixisticamente”, metamorfoseia o direito feudal em outra coisa para caber em sua tese, cujo materialismo é muito mais inspirado em Procusto do que Epicuro, ouso supor?

Quando Gorender confronta Sodré consigo mesmo é ainda mais doloroso. Ele cobra a Sodré lógica, justapondo duas citações. Gostaríamos de não ser dogmáticos e nem stalinistas, mas Gorender nos obriga. Por exemplo: por que não poderia haver a dissociação de feudalismo e latifúndio? Não poderia existir feudalismo com pequena propriedade? Feudalismo agroindustrial? Feudalismo em Cuba socialista? Gorender nos traz o óbvio ululante: “a grande propriedade da terra em nenhum caso explica por si só o sistema econômico. O que é óbvio e trivial, mas infelizmente passa despercebido a quem tem por dogma a associação de latifúndio e feudalismo”. A grande propriedade da terra pode até não explicar todo o sistema econômico, mas na colônia, como disse Sodré acertadamente em citação colocada em pé de página do texto, o que fez a distinção entre classes no Brasil colônia foi a propriedade da terra. Caio Prado foi perdoado em todos os conceitos confusos, mas a Sodré foi cobrado rigor. A tomada de partido é bem clara, Gorender sofisticou e tornou aceitável o que em Caio Prado era uma barbaridade: o Brasil capitalista desde 1500, a confusão de relações mercantis com capitalismo, etc. Rigor esse que Gorender não esbanja, diga-se de passagem.



Conclusão

Então retomo para concluir: a meu ver, inequivocamente, se falamos em feudalismo aqui é porque efetivamente somos contra o latifúndio, somos contra o fato social. Esse ponto é o mais triste, evidentemente, nessa resenha, mas foi colocado pelo próprio Gorender, pois ele e Caio Prado, ao invisibilizar o feudalismo, acabam por tomar o partido dos latifundiários, ou seja, uma posição reacionária. Gorender, então: supôs um modo de produção original exportado e criado pelos portugueses. Esse modo seria a solução para o problema do país ser capitalista ou feudal em seu tempo de colônia. Parece engenhosa solução, mas é uma tomada de partido disfarçada a favor de Caio Prado Júnior. Ele sofistica e torna aceitáveis as posições de Caio Prado. A postura de Caio levou-nos a supor que existia capitalismo aqui no Brasil enquanto não havia na Europa. Felizmente, Gorender contornou a postura que poderia ocorrer de supor não só um escravismo colonial original, quanto também um feudalismo português ou até mesmo a invenção do capitalismo, pioneiramente, na terrinha.

Ao mesmo tempo, Gorender afirmou que não foi exportado feudalismo, mas enredou-se em contradições ao falar em exportação e metamorfose do direito feudal por nossos “bispos sardinhas”. O escravismo colonial, ao contrário do antigo, metamorfoseia-se em capitalismo e não em feudalismo, ao carregar, portanto, os embriões desse modo de produção. Aproveitando essa brecha, Gorender adapta as leis de O Capital e cria as leis do escravismo colonial a partir daquelas: fala-se em renda feudal, escravo como capital-dinheiro, escravismo industrial e outros conceitos que, afinal, sobrenadam em boa companhia ao lado de conceitos de Caio Prado como burguesia feudal e camponês burguês. Isso nos fez divagar em Platão vendido como capital-dinheiro e em mais valia aristotélica, afinal, não somos stalinistas dogmáticos e sim abertos a inventividades luso-tropi-capitalistas. Finalmente, podemos concluir que materialismo histórico moderno de Gorender, para lá de original, enfim, é muito mais inspirado em Procusto do que em Epicuro.


Bibliografia:

GORENDER, Jacob. Escravismo Colonial. São Paulo: Expressão Popular, 2016.


Sobre o Autor:



Lúcio Junior Espírito Santo. Graduado em Filosofia. Mestre em Estudos Literários/UFMG. Blog: revistacidadesol.blogspot.com). Bom Despacho, Minas Gerais. Nascido em Uberaba, 1974.




O BANQUETE, OBRA INACABADA DE MÁRIO DE ANDRADE

Esse texto de Mário de Andrade foi escrito por volta de 1943, quando Mário de Andrade escrevia crônicas musicais na Folha da Manhã. O texto foi elaborado em forma de diálogos, de forma a poder adaptar-se à publicação semanal. Trata-se de dez capítulos onde dialogam cinco personagens. Tratam de música, arte e criação na sociedade brasileira. O texto “Arte Inglesa” foi publicado no Baile de Quatro Artes. As crônicas com frequência preocupam-se com o passado, mas também enfocam o folclore, a criação musical brasileira, debatem Debussy, mas também os cantadores.

 


O Banquete, escrito deixado inacabado por Mário de Andrade, publicado posteriormente por sugestão de Gilda de Mello e Sousa, tem fluência e humor que o associam ao escrito platônico. Mas, antes de mais nada, reflete as preocupações de Mário de Andrade com as questões que a música grega levantou sobre psicologia e forma, assim como a arte como terapia, a função social do artista, etc.. Mário estava, então, preocupado com a relação entre a música e a sociedade. A situação global é a mesma do banquete grego, um espaço onde os convivas, num jantar luxuoso, debatem sempre um assunto preciso, num determinado momento, o amor, em outro, a música.

 

Mário de Andrade, nessa época, aos vinte anos da Semana (1942), fez uma autocrítica sobre a Semana de Arte Moderna. Em suma, ele julgou que deveria ter “pegado a máscara do tempo e esbofeteado com ela merece”. Ao pensar, nos anos 40, sobre a função social do artista e da arte, concluiu amargamente que apenas destruiu velhos valores consagrados burgueses, mas construiu outros, burgueses também. Sua arte não foi proletária, não atingiu as multidões, nem foi capaz de mover as massas. Quando Mário começa a refletir sobre isso, associa sempre o tema do artista como alguém que tem que sacrificar-se, fazer uma arte empenhada, empenhada no sentido de transitória, capaz de interferir no momento.

 

Os personagens representam tipos sociais: a judia Sarah Light, nascida em New York, que gosta de salada, “sem cheiro”. Mário dizia que estava “longe de não gostar dos judeus”, apesar disso, Sarah representa os milionários estrangeiros e ricaços que deram as costas aos modernistas, mais do que famílias como os Prado e dona Olívia Penteado (uma das patrocinadoras da Semana de Arte Moderna que faz 100 anos esse ano). Outro “vilão” é o Felix de Cima, político da classe dominante e amante da boa mesa e da farra com mulheres, podendo ser associado ao gigante Piaimã de Macunaíma.

 


O flerte com a arte engajada é bastante evidente no personagem do compositor Janjão, personagem que encarna valores positivos em O Banquete e que escreve Escherzo Antifascista e Sinfonia do Trabalho, com simpatias com uma arte proletária na qual ressoam influências comunistas, das quais Mário de Andrade, ao contrário de Oswald de Andrade, estava distante até então. Nisso, Janjão combina com a cantora Siomara Ponga. A ideia de Janjão e Siomara é sempre em torno de construir uma arte que seja irrecuperável pelas classes dominantes, uma arte que mude o mundo e não seja somente para o prazer. Pode-se dizer que Mário, na obra O Café esteve mais próximo das concepções de Janjão e Siomara. A cantora  a certa altura diz: “O fazer bem e certinho lhe sossegava uma consciência fácil, o conformismo domesticado, subserviência às classes dominantes” (ANDRADE, 1977, p. 26). Esse tipo de arte que não causa mal estar na sociedade é chamada por Janjão como apenas renovador de valores burgueses, arte para dar prazer para burguês, “capitalismo”. Ele estimula Pastor Fido a ir além e critica o Prefácio Interessantíssimo do próprio Mário de Andrade como sendo apologia desse tipo de arte. Para Janjão, é preciso fazer diferente, fazer uma arte, no seguinte sentido: “No sentido de conter germes destruidores e intoxicadores, que malestarizem a vida ambiente e ajudem a botar por terra as formas gastas da sociedade” (ANDRADE, 1977, p. 33.)

 

O estudante Pastor Fido também apoia as concepções de Janjão e Siomara contra Felix de Cima e Sarah Light, tidos como “os dominantes”. Por fim, Pastor Fido destina-se ao jornalismo e cede aos encantos gostosos de Sarah Light.

 

O personagem de Janjão é inspirado em Carlos Gomes, artista até então não valorizado pelos modernistas. Mário aponta em Carlos Gomes um artista que vendeu a alma ao diabo, ao abandonar as inovações de Fosca, que iam além da ópera italiana de seu tempo, agregando a influência de Wagner e as soluções de Carmen de Bizet, experimentação que deixou de lado em prol de algo mais palatável ao público em Salvator Rosa, numa volta à italianidade com a qual fez sucesso na própria Itália com O Guarani. Siomara Ponga, por vezes, parece inspirada numa cantora da época, Helsie Huston, que fez muito pela música brasileira. Em outras, Siomara é Mário, quando, por exemplo, o tema é o debate sobre a pintura O Homem Amarelo, debate ocorrido com a autora Anita Malfatti, que parece esboçar um episódio autobiográfico realmente ocorrido próximo ao período da Semana de Arte Moderna: ao ver o quadro, Mário riu, foi repreendido pela autora, ao que dedicou a ele um poema... um soneto!

 

Janjão é um músico rebelde que frequenta os salões da classe dominante falando em arte proletária, fazendo suspirar as grã-finas com suas composições, criando a ponte entre Vicente Celestino e Mozart. Essas simpatias à esquerda nunca ficaram tão evidentes nas produções de Mário de Andrade anteriormente quanto estão em O Banquete.

 

A obra O Banquete, em parte publicada no jornal Folha da Manhã como um folhetim, foi reunida em livro no ano de 1977 pela editora Duas Cidades e elogiada como um dos grandes momentos da meditação estética brasileira.

 

REFERÊNCIA:

 

ANDRADE, Mário. O Banquete. São Paulo: Duas Cidades, 1977.

 

Sobre o autor:


Lúcio Junior Espírito Santo: Graduado em Filosofia. Mestre em Estudos Literários/UFMG. Blog: revistacidadesol.blogspot.com.  Bom Despacho, Minas Gerais. Nascido em Uberaba, 1974.

JOSÉ VASCONCELOS: A RAÇA CÓSMICA E O PROFESSOR DA AMÉRICA

José Vasconcelos (1860-1959) foi o autor mexicano que fez a “redenção cósmica” dos mestiços. Era filósofo, escritor, místico, educador, político. Era uma figura muito intensa e apaixonada e uma das principais figuras do século XX mexicano.

 


 

Nasceu em Oaxaca em 1882 e seu pai aceitou, junto de sua família, trabalhar no deserto de Sonora, onde era perigoso trabalhar devido aos ataques dos apaches. Estudou na infância numa escola norte-americana bilíngue da fronteira. Foi criado junto da mãe muito religiosa, a quem mesmo depois de morta manteve o cordão umbilical espiritual. Aos 18 anos, na época da morte de sua mãe, foi estudar na capital e misturava ciência e misticismo: positivismo de Comte, espiritismo e maçonaria.

Vasconcelos foi um apoiador do presidente Madero bastante convicto, combatendo os porfiristas e empolgando-se com a revolução mexicana; Posteriormente com a morte de Madero, ligou-se a Carranzas e Pancho Vila. Com o assassinato de Carranzas, foi para a Europa, fugindo das lutas políticas que, segundo ele, tinham feito a revolução mexicana perder-se em rivalidades mesquinhas.

Nesse período dos anos 20, tido como seu período progressista, era chamado “Professor da América”. Nessa época, entre 1921 e 1924, Vasconcelos tornou-se secretário da educação pública, criada no governo de Alvaro Obregón. Lançou grande campanha de alfabetização. A seguir, criou o periódico O Mestre, pois queria instaurar no magistério de seu país o seu espírito redentor. Nesse período, Vasconcelos vislumbrou, no livro Raça Cósmica (1925), a América Latina como um crisol de todas as culturas do mundo, mas falava especialmente que raça cósmica nasceria no Brasil e em segundo lugar, tinha destaque a Argentina. O México foi descrito por ele como selvagem e fracassado. Pode-se dizer que a influência de Nietzsche faz pensar que em La Raza Cósmica gera a profecia de que o super-homem ia nascer entre o Amazonas e o Prata. Devido a suas idas e vindas ao exílio, Vasconcelos ficou conhecido como “Ulisses crioulo”.

Dentre muitos artistas de vanguarda, Diego Rivera, Siqueros e Orozco eram vasconcelistas convictos. Nas grandes paredes da Escola Nacional, esses muralistas pintaram Quetzalcoatl, Platão, Frei Bartolomeu de Las Casas, dentre outros, para ele, símbolos de sua síntese universal. Era a teoria dos impérios étnicos:

 

Temos então quatro etapas e quatro troncos: o negro, o índio, o mongol e o branco. Este último, depois de organizar-se na Europa, converteu-se em invasor do mundo, e se acreditou que ia predominar, ao mesmo tempo em que acredita que as raças anteriores, cada uma em sua época de império. Era claro que o predomínio do branco seria temporal, mas sua missão é diferente de seus predecessores, sua missão era ser ponte, colocando as bases materiais e morais para união de todos os homens em uma quinta raça universal, fruto das anteriores e superação do passado (VASCONCELOS, apud: SILVA , 2013)

 

Como educador, na secretaria de educação pública, Vasconcelos desencadeou uma cruzada espiritual sem precedentes no México. Ao tentar candidatar-se, fracassa e deixa a secretaria em 1923, exilando-se. No exílio nos USA e Europa, sempre publica artigos críticos ao regime.

Em 1928, de volta ao país, Vasconcelos marcou época novamente e criou sua famosa campanha presidencial, apoiada principalmente por estudantes e operários. Ficou conhecida como “campanha vasconcelista”. Foi marcada pela violência política, pois era basicamente uma campanha de românticos num país oligárquico.

O fracasso dessa campanha, supostamente fraudada pelo adversário, fez com que Vasconcelos voltasse aos USA e Europa em seu exílio mais amargo e trágico de todos. Seus seguidores sentiram-se abandonados. O exílio foi muito amargo e a esposa e escritora Antonieta Rivas Mercado suicidou-se com a arma de Vasconcellos. Ele voltou, então, a um catolicismo de lembranças maternas. Era muito difícil suportar o convívio com o “profeta solitário” e “Cristo caído” que era, então, José Vasconcelos, segundo a escritora. Vasconcelos já vinha de um outro casamento em que tinha deixado de viver com a mulher para dar aulas junto da amante no Peru, mas ela deixou-o e foi viver em New York com um de seus amigos, o que foi enorme baque trágico para Vasconcelos.

Como católico, assumiu em 1930 a Universidade de Sonora, mas ao dar opiniões políticas, terminou demitido. Retornou, Igualmente, ao exílio, e, em meio à depressão e angústia, encontrou um ex-inimigo reacionário e conciliou-se com ele, o que para os antigos vasconcelistas foi uma vergonha.

De volta ao México somente em 1938, novamente católico depois do suicídio da esposa Antonieta em plena igreja Notre Dame, estando muito contra a extrema-esquerda, Vasconcellos aproximou-se da Alemanha nazista e fundou a revista Timón, que produziu alguns números onde defendeu vigorosamente suas ideias a favor da raça cósmica, retomou Nietzsche, etc. Nos seus últimos anos, refugiou-se na mística, visitou Batista, Franco e outros reacionários, mas também Fidel Castro, a quem aconselhou ser duro, pois senão o povo não responderia positivamente, citando sua experiência junto ao presidente Madero.

No final da vida, pode-se ver que descobriu uma simpatia grande no brasileiro Érico Veríssimo, “gaúcho de Porto Alegre” que ele menciona como um brasileiro diferente dos demais, pois em geral, comentou ele, os brasileiros que conheceu sentiam-se desdenhosos e superiores diante dos problemas mexicanos, mas Veríssimo dizia ter sangue índio e sentia-se mexicano, logo após pisar o solo do país. Vasconcelos cita-o várias vezes em vídeos disponíveis no youTube. Homem tocado pelo absoluto, uma palavra pode definir bem esse homem de múltiplos talentos: a palavra grandeza.

 

REFERÊNCIAS:

SILVA. Ascenso João Gabriel da. A redenção cósmica do mestiço: inversão semântica do conceito de raça na Raza cósmica de José Vasconcelos. Est. Hist., Rio de Janeiro, vol. 26, nº 52, p. 294-315, julho-dezembro de 2013.

Charlas Mexicanas com José Vasconcelos <<https://www.youtube.com/watch?v=Hmhq1bcnrKM&ab_channel=AndrosE.R.Aguilera>>.

La Pasion de Vasconcelos. <<https://www.youtube.com/watch?v=fubakzN00AM&ab_channel=Cl%C3%Ado>>

 

Sobre o autor:


 
Lúcio Junior Espírito Santo: Graduado em Filosofia. Mestre em Estudos Literários/UFMG. Blog: revistacidadesol.blogspot.com.  Bom Despacho, Minas Gerais. Nascido em Uberaba, 1974.

 

JOSÉ MARIA DE VARGAS VILA: UM NIETZSCHE COLOMBIANO DIANTE DOS BÁRBAROS

José Maria de La Concepción de Vargas Vila Bonilla (1860-1933), conhecido simplesmente como Vargas Vila, é um dos maiores escritores colombianos, mas pouco conhecido no Brasil. Eu o conheci através de Ezio Flavio Bazzo, admirador de Cioran e de Nietzsche. Seu estilo apaixonado foi frequentemente comparado a Nietzsche, de quem foi contemporâneo. Vargas Lhosa admitiu ter lido seus romances quando adolescente. Os romances de Vargas Vila, tais como Ibis, eram recheados de cenas eróticas e donos de um estilo apaixonado, colorido e cativante, altamente libertário e anticlerical. Ibis lhe valeu a excomunhão pela Igreja Católica. Vargas Vila agradeceu publicamente. Antonio Cândido chegou a dizer que aceitava Nietzsche, mas não Vargas Vila. No entanto, Vargas Vila é essencial: foi o primeiro romancista latino-americano a comprar casa e fazer sucesso editorial em língua espanhola internacionalmente, muito antes de Garcia Marquez e Vargas Lhosa conseguirem essa façanha.

 

                                    Vargas Vila: Ante los bárbaros
 

Vargas Vila escreveu mais de vinte romances, tais como Lírio Vermelho, Aurora e as Violetas, dentre outros. Seu ódio às mulheres e o tema presente da homossexualidade também criaram espanto já em sua época. Como era polêmico, a forma que os amigos conseguiram que fosse protegido era o trabalho diplomático. Mesmo assim, como cônsul do Equador na Itália, negou-se a dobrar o joelho diante do Papa, causando escândalo. Ao que ele respondeu: “nunca me ajoelhei diante de nenhum mortal”.

Como era um liberal entusiasta e figura importante nas disputas políticas envolvendo as ideias liberais na Colômbia, seu verbo vigoroso era comum nos jornais liberais, o que lhe ganhou muitos inimigos na Colômbia rural de então. Trabalhou como professor em liceu, mas a situação como professor complicou-se devido à sua inimizade contra os católicos. Filho de um general militar liberal que morreu degregado no Panamá, então colônia penal colombiana cheia de pântanos, deixando a família na miséria, Vargas Villa cresceu autodidata. Escrevia uma prosa barroca, retorcida, deslumbrante.

Após participar daquela que é considerada a última revolução colombiana significativa em 1883 e ser derrotado, Vargas Vila passou a correr risco de vida e mudou-se sucessivamente para Nicarágua, México e Venezuela, países onde fez muitos amigos. Nesse último país chegou a ocupar postos públicos em 1893. Em 1898 foi para Nova York ajudar a fundar a Revista Hispano-Americana. Publicou, então, Diante dos Bárbaros, apaixonado panfleto literário contra o que chamava “yankismo”, publicado em meio aos norte-americanos, que chamava de bárbaros nos seguintes termos:

 

Washington apunhala Bolívar pelas costas, e rouba seus tesouros; E os yankees se entregam ao butim e a pilhagem da América Latina e o mundo ignora esse butim feito pelos piratas de Cartago, acreditando na derrota de Roma (...) Para vingar a derrota de sua ganância, eles caíram no Haiti; a Ilha, verde e dourada, os seduziu, como uma joia caída do céu; pousaram lá, se declararam senhores daquela turbulenta democracia de negros atrasados [que] foram fuzilados em praças públicas, foram assassinados no campo, se apoderaram de sua alfândega, e se declararam seus senhores, aproveitando o fato de que a França, sua antiga metrópole, não poderia ajudar a indefesa Ilha caída sob o escudo de Kir (Vila, 2021).

 

Logo a seguir, em 1900, ocorreu o que Vargas Vila chamou de “o crime do Panamá”, crise em que USA ajudou a província do Panamá a tornar-se independente, complicando as relações com a Colômbia e despertando sentimentos anti-yankees e patrióticos na juventude colombiana, que deu razão a Vargas Vila em seus gritos em forma de panfletos.

 

 

Os problemas junto aos USA começaram logo a seguir, quando Vargas Vila fundou a revista Némesis, levando adiante a campanha contra a intervenção yankee na América Latina. Ficou amigo de José Martí nesse período, tendo dedicado a ele um livro, Martí, Apóstolo e Libertador. Escreveu também um livro sobre o poeta nicaraguense Rubén Dario. Némesis despertou atenção na polícia e a solução encontrada, mais honrosa, foi que Vargas Vila mudou-se para a Espanha como cônsul nomeado por seus amigos na Nicarágua. Némesis passou a ser editada em Paris.

Para complicar, Vargas Vila era uma figura temperamental, extravagante, misógina e a única mulher com a qual, durante toda vida, teve relações sempre amistosas foi somente a mãe. Na Itália registrou-se o suicídio de uma das mulheres com as quais envolveu-se. Embora sempre nacionalista colombiano fervente, suas posições políticas intransigentes contra os USA e contra os católicos fizeram com que fosse proscrito em seu país natal, embora sempre sonhasse em voltar. Morreu em Barcelona e suas cinzas só foram levadas para a Colômbia em 1981.

 

REFERÊNCIAS:

José María Vargas Vila: biografia, estilo, obras, frases. <<https://maestrovirtuale.com/jose-maria-vargas-vila-biografia-estilo-obras-frases/>>.

Vila, Vargas. Ante Los Bárbaros. <<https://www.gftaognosticaespiritual.com/wp-content/uploads/2012/08/32-03-ANTE-LOS-BARBAROS-VARGAS-VILA-www.gftaognosticaespiritual.org_.pdf>>

 

Sobre o autor:

 
Lúcio Junior Espírito Santo: Graduado em Filosofia. Mestre em Estudos Literários/UFMG. Blog: revistacidadesol.blogspot.com.  Bom Despacho, Minas Gerais. Nascido em Uberaba, 1974.