Coluna Tistu Matos da Silva: O que fazer com o que o academicismo vazio fez de nós?


Primeiro, e acima de tudo, não nos iludamos! Saber acadêmico é saber institucionalizado, portanto, sequestrado, domesticado...

Ele deve parecer radical, mas apenas para oferecer algum vago: ”devemos mudar nossa perspectiva sobre...”, “devemos mudar as estruturas de...”, etc. sempre deixando entredita a palavra maldita que, salvo exceções, só aparecerá como uma caricatura vulgar: REVOLUÇÃO!



Revolução reduzida a uma “tomada de palácio”! Revolução reduzida à “estatização da sociedade”! Revolução devidamente devolvida ao “papai branco” para ser reduzida ao “eurocentrismo” enquanto as contribuições ao marxismo de autores da Ásia Central, China, Coréia do Norte, Vietnã, África e América (tanto a latina quanto das lutas dos Panteras negras nos EUA) são devidamente ignoradas, transformadas em “dogmatismo” (mesmo que as várias experiências possuam uma rica divergência teórica entre elas) ou postas na conta da “submissão ao colonizador” mesmo quando oferece contribuições originais! TODA E QUALQUER IDEIA EUROPÉIA, frente a outra realidade pode se tornar e se tornará outra coisa... menos o TOTALITÁRIO MATERIALISMO HISTÓRICO E DIALÉTICO! Esse será europeu, elabore-o quem o elabore, até porque a academia o tornará uma “deturpação” (e essa deturpação será QUALQUER leitura do marxismo que tenha resultado em uma revolução: irônico, não?) e sempre estará pronta para chamar um Althusser, um Luckács, um Badiou, etc. para corrigir as “distorções” desses asiáticos, africanos e latinos que REALIZARAM REVOLUÇÕES que os europeus não tiveram COMPETÊNCIA para realizar! Mas o que importa? Nunca era a “nossa revolução” segundo um graduado branco bancado pelo papai! E quando, por acaso, surge um José Carlos Mariatégui cujas contribuições originais não podem ser ocultadas sob o “fracasso do socialismo real”...

Ah! Transformamos em “um dos nossos”, ou seja, mais uma vez domesticamos, castramos, higienizamos e o afastamos do sujo “materialismo histórico e dialético” que, aliás, ELE APLICA EM SUAS ANÁLISES!

É preciso deixar o intelectual com a ilusão de uma utopia saída do nada para que esta possa ser preenchida com uma versão bonitinha do liberalismo ou jogá-lo na fossa imunda do niilismo! Pouco importa! O que importa é reduzi-lo à impotência! (para o povo já temos religião, moralismo, entretenimento, repressão, educação e saúde sucateadas e superexploração!) E se algo parecer fugir do comodismo e ter o risco de afetar o mundo concretamente no sentido de uma ruptura com o sistema atual... Ou é pouco rigoroso, ou coisa velha em nova embalagem, ou afetará alguma sensibilidade minoritária direta ou indiretamente (principalmente a minoria privilegiada de tais minorias, já que é aquela que pode cursar uma universidade) ou vamos revirar essa merda do avesso para impedir que cause estragos e torná-la outro “pensamento radical e controverso” que vai do nada a lugar nenhum!

Definidos os limites do que sai da cloaca acadêmica... Algo daí pode ser resgatado e devolvido à vitalidade do livre-pensamento ou a única alternativa é um irracionalismo igualmente estéril? Uma das poucas exceções dessa câmara mortuária superestimada é o professor Walter Lippold e o aspecto mais interessante de sua obra é o resgate, pelo marxismo, de reflexões sobre a colonialidade do saber e o excitante aqui é que há, de um lado, a abertura para linkar as análises sobre o pensamento de Frantz Fanon, a revolução científica como um fenômeno que envolveu a contribuição de múltiplas culturas (àrabes, chineses, japoneses, africanos, etc.), reflexões sobre o capitalismo em sua etapa atual, especificidade das experiências revolucionárias nos países subalternos sem apelo aos “especialistas europeus” em revolução não-realizada, etc.

                                                    Professor Walter Lippold


Ora! Dirá a Academia! Em Fernando Coronil há a ideia da origem do capitalismo como um produto das relações coloniais na América Latina e em Anibal Quijano, o trabalho assalariado nasce da necessidade de separar brancos das demais etnias na América colonial, ou seja, este tipo de abertura está presente no pensamento puramente acadêmico e pode e DEVE ser resgatada da perspectiva acadêmica! Porque, uma vez sequestradas pela academia, o caminho dessas contribuições é serem “elevadas” a uma qualquer abstração: uma “nova sociabilidade” abstrata, uma mudança de “perspectiva” ou “paradigma” abstratas, enfim... uma abstração qualquer destinada a morrer nas páginas de uma tese depois de outra “mudança de paradigmas ultrapassada” que também já havia morrido nas páginas de outra tese... Isso, ou a apropriação de conceitos abstratos para uma ação política centrada no puro abstrato, ignorando as questões político-econômicas concretas por uma luta “pela subjetividade”, ou por uma “nova cultura”!


No resgate do pensamento de Fanon em Walter Lippold, essa abstração já não é mais possível:

“O mundo colonizado é um mundo cortado em dois. A linha de corte, a fronteira, é indicada pelas casernas e pelos postos policiais. Nas colônias, o interlocutor legítimo e institucional do colonizado, do porta-voz do colono e do regime de opressão é o policial ou o soldado. (...) Nos países capitalistas, entre o explorado e o poder interpõe-se uma multidão de professores de moral, de conselheiros, de “desorientadores”. Nas regiões coloniais, em contrapartida, o policial e o soldado, por sua presença imediata, suas intervenções diretas e frequentes, mantêm o contato com o colonizado e lhe aconselham com coronhadas e napalm que fique quieto. Como vemos, o intermediário do poder utiliza uma linguagem de pura violência. O intermediário leva a violência para as casas e para o cérebro dos colonizados” (Frantz Fanon)

Isso é um pensamento sob as bombas, isso é a revolta feita pensamento! Não se nega que o poder “crie subjetividade”, “Crie corpos dóceis” (Foucault), mas esta é a visão do underground do sistema, a visão de quem não choruminga com algoritmos da internet ou exige o “lugar de fala” que tira de outros. Esta é a versão do corpo humilhado, torturado, metralhado, mutilado, exausto da base do sistema. Essa não é a exigência de “estatização de todos e cada um dos âmbitos do poder e da vida social” na qual Aníbal Quijano julgou definir o marxismo, mas uma força que transforma revolta em VIDA, em EXPERIÊNCIA EXISTENCIAL porque lhe dá mais que uma vaga proposição de “nova sociabilidade” (que pode ser qualquer coisa), mas outro mundo oposto a esse e cuja materialidade torna possível seu aperfeiçoamento, a partir do estudo de suas limitações! Que diferença em relação à solução dada pela “multidão de professores de moral, de conselheiros, de ‘desorientadores’” da Academia para os descendentes dos falecidos e silenciados colonizados da América:

“(...) se se pretende a superação da “Modernidade” será necessário negar a negação do mito da Modernidade. Para tanto, a “outra face” negada e vitimada da “Modernidade” deve primeiramente descobrir-se “inocente”: é a “vítima inocente” do sacrifício ritual, que ao descobrir-se inocente julga a “Modernidade” como culpada da violência sacrificadora, conquistadora originária, constitutiva, essencial (Enrique Dussel)... E ADIVINHA! Da má consciência se revela a alteridade (como a “inocência” diante do “sacrifício ritual” revela o Outro em sua irredutível complexidade?) e seguimos em linha direta para uma “Trans-Modernidade” que nega a “razão emancipadora” (porque a julga “eurocêntrica”) e depois... NADA! Um abstrato “resgate da dignidade do Outro” (como vítima?), uma cultura baseada em culpa cristã (ah! Claro! Sempre saíram coisas maravilhosas disso!) e a dominação capitalista? Vai bem, obrigado! Já não estamos nesse joguinho há uns 20 anos?

Como a culpa pode ser abertura para qualquer coisa? Culpa é o resultado de um julgamento e um julgamento só tem duas soluções de continuidade: a rejeição do que se SABE ser ruim ou a afirmação do que se SABE ser bom. Nada “novo” no front! E pior! Quanto menos referências temos para saber o que é o bem e o mal (E esse é o caso!), mais aleatória, manipulável e raivosa é a moral, mais tragédias novas ela causa (inclusive a de mandar pro espaço a “alteridade” e o “resgate da dignidade do Outro”, os únicos ganhos da “Trans-Modernidade”) e menos capacidade temos de criar mecanismos para impedir tragédias já conhecidas: basta para isso acirrar o emocionalismo (era isso a “nova subjetividade”?) e a irracionalidade (afinal, a “razão emancipadora” e, no limite, a “razão” são “eurocêntricas”!) dos argumentos contra e a favor de uma causa. Se não me engano, empoderar uma extrema-direita para forçar uma violenta polarização política foi uma estratégia muito bem sucedida nesse sentido! Acrescente que qualquer tipo de “razão emancipadora” entra nesse julgamento como ré... E durma-se com um barulho desses! Falando seriamente, com certeza não sai nenhuma “Trans-Modernidade” ou qualquer “sociabilidade nova” cada vez mais abstrata daí, porque do nada, nada sai! Só o império do senso-comum, e como este é desde sempre inimigo da inquietação, da curiosidade e da criação, voltamos aos tempos dos livros banidos ou com censura prévia, à limitação de toda liberdade artística (afinal de contas, tudo é produto e o cliente tem sempre razão!) ou de manifestação de ideias pelo temor de “ofender” alguém (geralmente alguém com a mesma mediocridade e estreiteza mental que essas ideias pretendiam mesmo ofender!), etc.

Como seria possível que, de um ambiente conservador, onde as ideias não circulam livremente, saia qualquer sociedade além da já existente? E é preciso, nesse ponto, lembrar que a sociedade existente é a que foi construída com os valores e técnicas de dominação do que Enrique Dussel chama de falsa “Modernidade” eurocêntrica? (Sendo justo, Santiago Castro-Gómez foi mais perspicaz na compreensão desse processo, mas tentou livrar a cara da pós-modernidade das críticas pós-colonialistas, então... já viu onde isso foi dar, né!)

Poderia continuar essa análise, mas tirando alguns bons insights de Fernando Coronil que mereceriam uma leitura a parte, todo o resto é a análise do saber/poder foucaultiana requentada com a palavra “colonialidade”, com a grandeza relativa e a profunda miséria desta, associada a loas às ações institucionais das ciências sociais (chaaato!) e um blá-blá-blá sobre saber local do Arturo Escobar que eu não tive saco de ler até o fim (chato, chato, chaaato!) e eis “A colonialidade do saber- Eurocentrismo e ciências sociais- Perspectivas latino americanas- Até o nome dessa joça é um tese de doutorado”.

Quanto ao título desse ensaio: a resposta é perceber que a Universidade é uma instituição burguesa. Sim! É o óbvio ululante! Qualquer aluno de graduação te diria o mesmo e ainda assim reproduziria o fetiche do “novo paradigma”... “Nosso saber é da rua!” diz a Universidade! Então nós que estamos na rua exigimos de volta o que NÓS criamos e vamos tornar esse saber motor para a ação CONCRETA! ”Queremos a práxis com vistas a mudar o mundo” diz a Universidade! Então vamos parar de tentar inventar a roda e só causar confusão e vamos rever as experiências que REALMENTE causaram mudanças no mundo, compreender seus limites, aperfeiçoa-las no que foram falhas e reatualizar o que houve de positivo! Voltemos ao materialismo histórico-dialético no que ele REALMENTE foi e não no que Aníbal Quijano acha que ele é! Voltemos às experiências libertárias e contraculturais como PRÁTICAS e não objeto de análise! Abandonemos a obsessão pelo “mais novo paradigma”, pelo “mais novo conceito”, pelo “mais novo artigo no museu de grandes novidades”... Se há algo realmente novo, gerou um novo conjunto de práticas, não uma nova tese de doutorado ou uma “ação política” puramente conceitual! Quero o irracionalismo? Por que ia querer o que eu já tenho? E eu não precisaria nem atacar a Universidade: ela tem um enorme estoque disso pra me oferecer! Quero o saber buscando a prática na vida e não nos livros! Criando-se como saber enquanto bebemos, fodemos, sabotamos, destruímos e recriamos para fazer isso ainda melhor sabendo porque fazemos e contra o quê fazemos!

“Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo.”
(Karl Marx, teses sobre Feuerbach,1845)

Sobre o autor:


TISTU MATOS DA SILVA: Professor de Filosofia. Autor de  "Fragmento do caderno de notas do dr. Mehr Diñas". 

100 ANOS DE LEONEL BRIZOLA: um jacobino de bombacha e chimarrão

Em um dos atos de 2021 pelo fora Bolsonaro eu estava na Vila Oliveira em tarefa de mobilização e quando fui conversar com uma senhora sobre os retrocessos que o país vive e a importância de ir na marcha ela retrucou algo como: eu sei meu filho, Bolsonaro é um canalha que odeia pobre, mas depois que Brizola morreu eu não tenho mais esperanças, esse país está perdido. Já voltaremos nisso, mas hoje Leonel de Moura Brizola faria seu centenário.

 


 

Acho que não existe definição melhor do que a do companheiro Leonardo Da Rocha Botega, em recente coluna para explicar Brizola: um nacionalista-reformista, típico de um jacobino, um Robespierre de bombacha e chimarrão.

 

Leonal Brizola pode não ter sido um comunista, mas foi um homem íntegro que dedicou sua vida a enfrentar os privilégios e injustiças, defendendo sempre o povo pobre, os trabalhadores e o Brasil. Aguerrido e combativo de oratória impressionante, ainda governador do Rio Grande do Sul colocou a Brigada Militar de prontidão e armou o povo para a luta armada contra os milicos golpistas e atrasou o golpe para 1964, mas por conta da vacilação de outros setores reformistas sua tática foi derrotada e lhe restou o exílio. Criou Estatais Gaúchas e expropriou o imperialismo, também foi um aguerrido defensor dos pequenos agricultores e da Reforma Agrária, disposto a levar às últimas consequências suas peleias. Como Governador do RJ foi o primeiro e talvez o único a ocupar um alto cargo executivo no Brasil a combater o genocídio da população negra, proibiu antes mesmo da constituição de 88 a invasão de lares na periferia sem mandato. Tratou educação como investimento e não como gasto, pela primeira vez usou escolas para garantir comida para quem tem fome de modo que os estudantes pudessem aprender. Por isso, foi brutalmente perseguido pela golpista e mentirosa Rede Globo, inimiga do povo brasileiro, mas não se intimidou e até hoje foi o único candidato a presidente, com grande popularidade, que prometeu fechá-la.

 

Brizola teve sim seus defeitos, apesar de morrer reivindicando um socialismo difuso e em sua história ter feito alianças com o Partido Comunista, teve formação anticomunista e não acreditava que a única solução para superação do Brasil era a organização do povo. Lutava pelos trabalhadores, e não com os trabalhadores, é daí que vem a imagem popular de caudilho, reforçada pela senhorinha que idealizava só em seu grande líder seu bem estar social e me tentava convencer dessa compreensão fatalista. No entanto, lutava pelo povo de forma convicta e não demagógica. Se tivesse sido presidente, eleito em 1989 ou em 1994, seria o melhor que este país já teve. Seu legado precisa ser atualizado de forma crítica, nos apropriando de sua ética e de sua combatividade, mas usando isso para construção do Poder Popular e do Socialismo. Hoje, o Brasil continua saqueado pelo imperialismo, e o PDT de Lupi e os Governos do RS e do RJ não valem a bóia que comem. De um Ciro Gomes cachorrinho da Globo a um Eduardo Leite privatista da CEEE, temos muito trabalho de base para fazer. Por isso, não basta só ficar no “Brizola Vive” do discurso nostálgico e partirmos para a prática!

Sobre o autor: 

Ricardo Gancine: Provável formando do curso de Licenciatura em História da UFSM. Militou nos últimos 5 anos no movimento estudantil e de massas do coração do rio grande e atualmente é militante da Unidade Classista e Secretário Político da Célula Santa Maria do Partido Comunista Brasileiro (PCB), onde também é membro do Comitê Regional Rio Grande do Sul.

DE ESTÁTUA EM ESTÁTUA...

 


O antigo linguista soviético Volochínov já dizia que a luta de classes se dá também no campo dos signos. A queda ou a queima de uma estátua, portanto, não é um fato fortuito, mas um acontecimento que expressa determinado conflito. Mas, de antemão, gostaria de dizer que lamentavelmente a estátua de Borba Gato, incendiada na semana passada em São Paulo, pode ser restaurada, assim como muita barbárie pode ser e está sendo restaurada no Brasil (depois de escrever esse texto, descobri que um empresário irá custear a restauração). Minhas reflexões aqui serão bem limitadas, visto que não entrarei no campo da arte.

A polêmica da estátua de Borba Gato é só mais um capítulo na míope polêmica dos que insistem na aproximação de ações “radicalizadas” da esquerda com ações da direita (e, sim, a direita também derruba estátuas). Não quero discutir se ela deveria ser queimada ou posta em um museu. Nem entrar em uma discussão elitista sobre o “bom-gosto” da obra: há quem use isso para tangenciar a discussão, como se dissessem: se possui valor estético fica, a despeito do que representa, ou, então, sai.

 

Parece mesmo que precisamos pensar sobre “quem somos nós, afinal?” Muita gente, até mesmo do campo político progressista, tem um tique nervoso em procurar aproximação entre as ações mais "contundentes" da esquerda com as ações da direita.

 

Sejamos bem realistas: os capitalistas têm a vantagem da hegemonia e do modo de produção dominante na maior parte do mundo. Vejamos a dialética: só existimos, enquanto pólo oposto, por causa deles, e não a despeito deles: princípio de identidade dos contrários. Então, seria bom pararmos de pensar que estamos em um lugar privilegiado da realidade, dotado de pureza, quase místico. Só existem os socialistas porque existem os capitalistas, não somos uma criação à parte, fruto do verbo de algum deus específico. Retiremos, de vez, a narrativa sagrada de nossa consciência. Isso quer dizer: podemos derrubar estátuas, sim. E não estamos em uma relação de equilíbrio com a direita: para eles manterem o seu sistema, basta usar de sua força econômica, política, militar e ideológica; para os combatermos, precisamos de muitíssimos sacrifícios e esforços.

 


Grandes transformações, revoluções ou mesmo a luta anticolonial no século XX não se deram com rosas, ou com povos eleitos, mas, sim, com homens e mulheres que assumiram seu lugar nas relações de antagonismo, e lutaram da forma que foi possível. Isso é um ponto a favor da queima da estátua? Sim. A destruição de estátuas é algo essencialmente bom ou mau? Não. Cada estátua, uma sentença.

 

Os reacionários na Ucrânia derrubaram, em 2014, uma das maiores estátuas de Lênin da Europa: a direita delira de êxtase e certa esquerda autofóbica comemora o aniversário dos mesmos feitos. É bom lembrar que a direita e parte da esquerda aplaude até hoje a derrubada das estátuas de Stálin na antiga URSS, no chamado processo de desestalinização. Inclusive daquelas que foram construídas no contexto da Segunda Guerra, quando da derrota do nazismo, para a qual a luta de Stálin foi imprescindível.

 

Enfim, em pleno governo Bolsonaro, com mais de meio milhão de mortos, a polemica da queda da estátua nem deveria existir entre nós da esquerda, tampouco se tem ou não validade como forma eficaz de luta. Deveria ser apenas mais uma postagem do tiozão do whatsapp ou do grupo da Igreja


Sobre o autor: 




Pedro Amaral: Militante do PCB (Célula de Alegrete), membro do Comitê Regional do PCB-RS. Mestre em Ensino de Línguas pela Universidade Federal do Pampa.

COLÔMBIA EM LUTA! Solidariedade aos colombianos que enfrentam a violência policial contra as desigualdades!

Acompanhe por meio de nosso blog, as lutas do povo colombiano por melhores condições de vida. Em breve, publicaremos textos de análise referentes a greve, mobillização popular e repressão policial na terra de Bolívar.

Viva o povo da América Latina em luta, em especial o colombiano!

Solidariedade aos manifestantes colombianos que enfrentam bravamente a violência policial contra as desigualdades!


VIVA TIRADENTES! ABAIXO OS MUITOS SILVÉRIOS DOS REIS!

Por um bom tempo eu neguei o dia de Tiradentes, por considerar a Conjuração Mineira uma rebelião da elite, politicamente moderada frente à Cabanagem, Conjuração Baiana e outros levantes de independência mais radicalizados e compostos por gente genuinamente "do povo", tais como trabalhadores pobres e escravos. Hoje, no entanto, reconheço a grandeza dessa data e de reivindicar Tiradentes como um ícone da nossa pretensão de liberdade.

Joaquim José da Silva Xavier, "Tiradentes", era um alferes (2o tenente do exército), o único líder do movimento que fazia parte das classes subalternas em meio aos demais que eram padres, poetas, mineradores e fazendeiros. Por assim ser, era a "liga" dos conjurados com as camadas pobres da população mineira.

Tiradentes representado como alferes

Silvério dos Reis, delator do movimento, era um dos vários membros da nossa elite que estava com a "corda no pescoço", correndo o risco de perder suas posses durante a cobrança da "derrama", execução das dívidas imposta pela metrópole Portugal aos mineradores brasileiros. Em troca do perdão de suas dívidas, Silvério entregou o movimento, colocando abaixo todo o projeto de liberdade que nele residia e assassinando Tiradentes.

Como dizia o velho Brizola, "o Brasil está cheio de Silvério dos Reis", traidores apátridas pertencentes à nossa elite econômica e política capazes de entregar nossa soberania ao imperialismo em troca de alguns patacos. Em contrapartida, essa data nos ajuda a rememorar os vários Tiradentes que tivemos, lutadores sociais heroicos que foram duramente perseguidos, torturados e mortos por lutarem pela nossa libertação econômica e política do jugo do império português, inglês e, mais recentemente, estadunidense.

Há um pouco de Tiradentes em todos os que ansiaram e anseiam nossa liberdade. Há um pouco de Silvério dos Reis em todos os que contribuem diretamente para com a nossa dependência, traindo seu próprio povo e se comportando como lacaios do imperialismo.

Viva Tiradentes!



Sobre o autor:


Thomaz Joezer Herler: Nascido no Rio de Janeiro/RJ em 1989. Licenciado em História no ano de 2012 pela UFMS/Campus do Pantanal. Mestre em História pela Unioeste/Campus de Marechal Candido Rondon, com dissertação defendida em 2015. Tem como objetos de estudo a Ditadura Empresarial-Militar brasileira, organizações armadas revolucionárias e resistentes e a revolução brasileira.















 

https://www.youtube.com/watch?v=6UDsBW-we34

Análise da música Fotografia 3X4 Belchior


A música Fotografia 3X4 nos relata as dificuldades do migrante nordestino para a região sul do país, mostrando todas as dificuldades que ele passa em busca de uma vida melhor . Através da interpretação de Belchior podemos compreender um pouco dessas dificuldades.   


Fotografia 3X4 Belchior




Eu me lembro muito bem do dia que eu cheguei
Jovem que desce do Norte pra cidade grande
Os pés cansados e feridos de andar légua tirana
De lágrimas nos olhos de ler o Pessoa
E de ver o verde da cana

Nesse inicio de música já observamos a proposta que o compositor quer dar em sua música mostrando a migração que ocorre no Brasil. 

Por questões econômicas e climáticas durante muito tempo no Brasil aconteceu e ainda acontece uma grande migração de pessoas que vem do nordeste e do norte para as regiões mais ricas como sul-desde e o sul . 

Em cada esquina que eu passava um guarda me parava
Pedia os meus documentos e depois sorria
Examinando o 3x4 da fotografia
E estranhando o nome do lugar de onde eu vinha

Nesse trecho podemos perceber o momento histórico que a música se passa, aqui temos um guarda , documentos e foto. Situação bastante comum na época da ditadura militar onde a repressão ao cidadão era grande. 

Pois o que pesa no Norte, pela lei da gravidade
Disso Newton já sabia: cai no Sul, grande cidade
São Paulo violento, corre o Rio que me engana
Copacabana, Zona Norte e os cabarés da Lapa onde eu morei

Podemos observamos o contraste que o migrante faz de sua terra com sua nova morada. Se no norte as coisas ainda aconteciam de forma mais divagar e com menos violência, no sul as coisas já eram diferente , com cidades mais populosas e mais ricas acaba gerando problemas, como a violência e a falta de empatia com o próximo. 

Mesmo vivendo assim, não me esqueci de amar
Que o homem é pra mulher e o coração pra gente dar
Mas a mulher, a mulher que eu amei
Não pôde me seguir não

Aqui o compositor entende que apesar das dificuldades vividas em sua terra, ele não deixou de construir sua história e de se relacionar com as pessoas. No trecho vemos a questão familiar dessas pessoas que abandonam seus amores e amigos em busca de uma vida melhor. 

Esses casos de família e de dinheiro eu nunca entendi bem
Veloso, o sol não é tão bonito pra quem vem do Norte e vai viver na rua
A noite fria me ensinou a amar mais o meu dia
E pela dor eu descobri o poder da alegria
E a certeza de que tenho coisas novas
Coisas novas pra dizer

Esse trecho nos mostra as dificuldades de quem larga tudo que construiu em sua cidade para morar em outra sem conhecer ninguém que possa o auxiliar sua chegada. Porém jamais perde a espereça de uma vida melhor, o sonho do nordestino que chega para ganhar a vida na cidade grande. 

A minha história é talvez
É talvez igual a tua, jovem que desceu do Norte
Que no sul viveu na rua
E ficou desnorteado, como é comum no seu tempo
E que ficou desapontado, como é comum no seu tempo
E que ficou apaixonado e violento como eu como você

Aqui já temos uma visão um pouco mais realista desse jornada. Na música o cantor fala direto com seus conterrâneos demonstrando que dentro dele muita coisa mudou, o rapaz que desceu do norte, acabou endurecendo e o tornou mais frio. A vida tornou ele menos sonhador e mais realista.

A minha história é talvez
É talvez igual a tua, jovem que desceu do Norte
Que no sul viveu na rua
E que ficou desnorteado, como é comum no seu tempo
E que ficou desapontado, como é comum no seu tempo
E que ficou apaixonado e violento como eu como você

Aqui já temos uma visão um pouco mais realista desse jornada. Na música o cantor fala direto com seus conterrâneos demonstrando que dentro dele muita coisa mudou, o rapaz que desceu do norte, acabou endurecendo e o tornou mais frio. A vida tornou ele menos sonhador e mais realista.

Eu sou como você
Eu sou como você
Eu sou como você que me ouve agora
Eu, eu sou como você
Eu sou como você
Eu sou como você
Eu sou como você
Eu sou como você
Eu sou como você

Nesse trecho o cantor novamente se comunica com seu público de forma direta mostrando que está junto com essas pessoas que as dificuldades vividas por elas também e vivida por muitos que tem uma história muito parecida.


Sobre o Autor:
Felipe Carreira
Felipe Carreira. Historiador e técnico em informática. Especialista em uso de mídias e tecnologias em educação. Estuda sobre a pirataria no Atlântico com ênfase no século XVII e XVIII. Criador deste espaço virtual para o GEACB. Produz vídeos e documentários sobre a História da América,.

TREM, TREM, SERÁ QUE TE LEVAM TAMBÉM? (parte final)

No artigo anterior, publicado no dia 17 de dezembro de 2017, eu havia tido a ousadia de afirmar que uma velha locomotiva, relativamente, abandonada numa simples praça de uma cidade, em meio a tantas outras, do interior do Paraná, de certo modo, tinha maior importância que uma das primeiras locomotivas do país e que até hoje se encontra toda preservada, a Baroneza[1]. Sim, eu afirmei e ainda sustento isso. Mas como? 

Por um detalhe que hoje pode parecer estanho: em outros tempos foram raras as locomotivas a vapor fabricadas em nosso país. Por exemplo, esta mesma locomotiva Baroneza foi fabricada na Inglaterra como já vimos anteriormente. Não foi uma criação daqui.

Bem ao contrário do velho trem largado numa praça central desta cidade de Ponta Grossa, que fica interior do estado do Paraná que, foi sim, de certo modo, uma tecnologia nativa. Interessante? Pois então acompanhe meu pensamento: 

O velho trem de que falo foi feito aqui em nosso país, ao invés de ter sido comprado no exterior como as outras duas locomotivas que já vimos na primeira parte deste artigo. Ou seja: a Baroneza no Rio de Janeiro e a de número 310 precariamente conservada na antiga estação do município de União da Vitória, também no estado do Paraná. 

Logo, vamos conhecer a história dessa locomotiva 250 (que hoje, aliás, não tem nem mais a identificação deste número na sua frente). Obra de dois engenheiros locais: Evaldo e seu filho, Germano Kruger. 

Os quais, partindo da criatividade de se aproveitar partes de um trem já existente e fabricando outras em sua oficina conseguiram realizar algo que poucas cidades podem se orgulhar. Sim, o status raro de uma cidade daqui, do Brasil (e do Paraná) em tempos remotos já terem construído trens. Terem feito algo além de se acomodar na dependência de se comprar já pronto de fora. Algo excepcional então. 

Informação que ao interessado que quiser, pode conferir, por enquanto, na própria locomotiva duas placas de metal vermelho, uma dentro e outra fora dela confirmando ter sido feita nas oficinas de Ponta Grossa em 1940. Por mais que a iniciativa aqui tenha se limitado a pouca coisa além desta máquina ainda precariamente conservada. 

Trem, trem, será que te levam também

Oportunidade, essa de conferir pessoalmente essas informações, contudo, talvez por tempo limitado. Pois somente até não darem fim às placas como já deram a vários componentes dela. Sejam os vândalos ou a mera ação do tempo que lentamente corrói o metal e apodrece a madeira.

Ora, ora, que triste agonia, a um objeto que tanta inspiração a muitos jovens poderia despertar! Inspiração em criar, ousar, improvisar, tentar além. Por mais que esta Maria Fumaça de número 250, de modo algum seja o único exemplar na história do Brasil de maquinários nas décadas de 1930 e de 1940 montados pela nossa própria gente. 

Deste grande exemplo de empreendedorismo, ao invés de só se conformarmos em apenas comprar tudo já pronto de outros pelo preço que aceitávamos passivamente. Algo que ainda fazemos muito, aliás, com incontáveis outros itens. 

Mas vamos ao que interessa: temos de ser coerentes e ver que este espirito inovador não é um orgulho exclusivo dos paranaenses através desta sua cidade de Ponta Grossa. Isso mesmo. Pois pelo menos, há mais um dono deste mérito a comentar aqui.

Lá em Divinópolis/ MG, (atualmente o 12º. Município mais populoso do estado, segundo o IBGE), que pelas mesmas razões fez algo igual, em 1942. Em vista da falta de peças de reposição e de locomotivas para a demanda de transporte, eles tiveram a mesma ideia de construir suas próprias máquinas.

Disso, duas locomotivas foram criadas: uma de número 340 e outra de número 339. Esta última, em 1955, explodiu devido a uma falha grosseira na manutenção. Já a sua irmã continuou operando por mais 10 anos, até ser aposentada e somente muito mais tarde colocada em local apropriado para exposição.

Logo, bem diferente da velha 250 no interior do Paraná, abandonada e relegada sob as desculpas das autoridades locais de que algo em breve será feito por ela. E dos ditos pensadores que não enxergam o quanto poderíamos aprender com mais esta prova de que querendo nós também temos capacidade de criar, inventar. 

Buscarmos autossuficiência, ao invés de apenas nos conformar ao comodismo de sermos apenas fornecedores de matérias-primas a outros. Que, aliás, se aproveitam desta nossa “preguiça”, inclusive mental e emocional.

Ora, ora! Mais este outro bravo trem, ó 250. Tal como a sua parente distante que já vimos sofrer igual lá em União da Vitória. O que será de ti em meio a tantos agressores? Descaso e vandalismo, ação do sol e da chuva, castigado pelo tempo que cobra apenas o preço por tu ousares querer sobreviver a ele.

Trem, trem, será que te levam também? Será que a ação do tempo, a depredação e o descaso com a própria história vão te consumir como já o fizeram a outros tesouros do passado? Trem, trem, será que te resgatam também?

E assim conosco continua a inspirar perguntas diversas. Como nos fazer pensar porque não fizeram a outras como tu, fomentando aqui uma linha de montagem. Ou mostrar que alguns de nossos heróis fizeram mais do que o senso comum mostra. 

Tantos exemplos que poderiam nos inspirar iniciativas, mas que, na maioria das vezes, no máximo acabam (isto é, quando acabam) segregados em meros nomes de logradouros. Daí a importância de heroínas como as veteranas: Baroneza (no Rio de Janeiro), 310 (em União da Vitória - PR e Porto União - SC) - que as mencionamos na primeira parte deste artigo publicado em 17 de dezembro de 2017 -, esta 250 (em Ponta Grossa) e a 339 (em Divinópolis).

Por exemplo, o Germano Kruger inventor que, em sua cidade (Ponta Grossa), muitos só o lembram como o nome de um estádio de futebol (o que já é algo, reconhecerem pelo menos, todo o incentivo que ele já prestou ao hoje único time oficial de sua cidade: o Operário Ferroviário Esporte Clube que, aliás, neste ano anterior de 2017 inclusive se fez o campeão da série D do campeonato brasileiro). Ou então o que dizer do operário João Morato lá de Divinópolis – MG, igualmente lembrado mais como só um nome numa placa a denominar uma rua? 

Quantos lá na cidade, de fato sabem que este grande orgulho da locomotiva número 339 só foi possível graças ele? Que apesar da pouca instrução, sua capacidade sobressaíra a do engenheiro-chefe que não via as falhas que o mesmo percebera facilmente no projeto original. E só assim este grande orgulho aconteceu, graças a este João Morato, meramente lembrado por muitos como só uma rua do centro de sua cidade. Entendem o que eu digo? 

Estas peças são um atrativo para se saber algo sobre a história delas e também de seus agentes. Suas histórias podem inspirar outros agora a pensarem um empreender igual. Tais referências tem muito mais potencial do se pode perceber. 

Contudo, todas essas referências somente continuarão tão fortes como agora, somente se as agressões e o descaso não consumirem antes com estas injustiçadas. Tais como a veterana 250 que resiste há 77 anos, tanto na ativa, quanto agora na sua desprezada aposentaria. 

Grande trem, trem, trem que não te levem também! Apelo a filhos e não filhos destas cidades e de outras com lutadoras semelhantes, Incluindo sim neste meu apelo a tantas outras deste vasto Brasil que eu não mencionei. Apelo que encerro com uma reflexão. 

Por que não investir na revitalização delas como atrativo para que mais pessoas as visitem? Por que não ver o potencial delas na alto-estima das gerações que delas podem se orgulhar. Quem sabe? Por que não ousar, como já não ousaram antes com a brava 310 lá em União da Vitória[2]? Mesmo o tendo que reconhecer que esta o foi por pouco tempo, tão maravilhosa experiência. 

Mesmo assim não por ser inviável, quando sim por causa da já comentada preguiça e má vontade, doença que nos relega ao atraso. Doença encoberta por desculpas, muitas vezes muito bem montadas. 

E nisso, falando em desculpas, pode acontecer que alguém diga: Calma! Por que não ter só mais um pouco de paciência? Porque tanto drama por algo que, no tempo certo as pessoas vão perceber o seu valor? Simples: Por que quem garante que essas velhas guerreiras, como a 250, a 310 e tantas outras, realmente terão tempo suficiente para conseguir o resgate que lhes é merecido, se ficarmos somente a adiar uma solução?

Notas:

[1] Que neste mesmo artigo anterior eu havia mencionado ela ter sido encomendada pelo Visconde de Mauá em 1852.

[2] Que como vimos na primeira parte deste artigo, publicado em 17/12/2017, foi reformada e posta em funcionamento, se fazendo um grande sucesso para os moradores cidade em si e também para os turistas. Sendo que questões de burocracia politica foram a maior razão do abandono deste projeto. 


Sobre o Autor:
LUIS MARCELO SANTOS: é professor de História da Rede Pública Estadual do estado do Paraná, Escritor e Historiador. Especialista em ensino de História e Geografia, já publicou artigos para jornais como o Diário da Manhã e o Diário dos Campos (de Ponta Grossa) e Gazeta do Povo (de Curitiba), assim como a obra local (em parceria com Isolde Maria Waldmann) “A Saga do Veterano: um pouco dos 100 anos (1905-2005) em que o Clube Democrata marcou Ponta Grossa e os Campos Gerais”.

Músicas com a temática Migração



A migração é algo corriqueiro em nosso país principalmente em regiões de seca, onde o cidadão tem que deixar sua terra em busca de emprego e condições de vida mais humana.

A migração e tema bastante utilizado em nossa MBP para relatar a vida do nosso povo. Abaixo temos algumas música com essa temática.

Migração - Jair Rodrigues




Música cantada por Jair Rodrigues que nos remete a luta por uma vida melhor do sertanejo que busca uma vida melhor na cidade grande. A música aborda as dificuldades dessas pessoas que saem de seu canto.


Asa Branca - Luis Gonzaga



Talvez a música mais famosa da nossa MPB com o tema migração . Luis Gonzaga com seu forro desenvolve uma cantoria acessível a todos que chama a atenção para as dificuldades de quem mora em localidades de seca.


FOTOGRAFIA 3 X 4 - BELCHIOR



Nessa música temos uma abordagem um pouco diferente em relação a migração fugindo um pouco da migração do sertanejo pobre que foge da seca que prejudica sua permanência no sertão. Nessa música temos a migração do jovem que corre atrás de seus sonhos.


Faroeste Caboclo - Legião Urbana



Renato Russo nos narra a vida de João de Santo Cristo.  Jovem revoltado que busca uma vida melhor, e o acaso acaba levando ele para Brasília.

Sina de caboclo - João do Vale




Música com muito sentimento mostrando a tristeza do sertanejo ao deixar sua terra. 


ASSENTAMENTO - CHICO BUARQUE



Música de Chico Buarque que demonstra a amor do sertanejo pela sua terra.


Sobre o Autor:
Felipe Carreira
Felipe Carreira. Historiador e técnico em informática. Especialista em uso de mídias e tecnologias em educação. Estuda sobre a pirataria no Atlântico com ênfase no século XVII e XVIII. Criador deste espaço virtual para o GEACB. Produz vídeos e documentários sobre a História da América,.

A ATUALIDADE DA REVOLTA DOS MARINHEIROS perguntas sobre uma das revoltas na República Velha.

Marinheiros 

A história do Brasil é a expressão completa da luta de classes. E a revolta dos marinheiros contra a chibata é o exemplo máximo disso. Baseado nos nossos estudos sobre esta revolta popular, vamos apresentar um texto em forma de perguntas, para o estudo sobre este movimento.


A revolta da chibata mostra uma consciência de classe dos trabalhadores?

Sim. É a expressão máxima das lutas de classe no Brasil. Diferente do modelo europeu, aqui em nosso país as lutas de classe não ocorreram diretamente entre duas classes opostas (burguesia X proletariado); e sim entre “estratos” de classes (escravizados X latifundiários, trabalhadores urbanos X capitalistas, capitalistas X latifundiários). Desta forma, a Revolta dos Marinheiros (ou da Chibata) só pode ser entendida como um levante entre a classe popular (da qual muitos eram ex-escravizados, ou oriundos das camadas mais pobres da sociedade) contra uma fração da elite dominante (vinculada aos interesses dos donos de terra). 

Quais as reivindicações dos revoltosos?

Os revoltosos queriam, de imediato, o fim dos castigos corporais (chibata) e melhores condições de trabalho. Além, por óbvio, deixar de serem descriminados e tratados como se fossem trabalhadores escravizados. 

Que comparações podemos fazer entre a revolta da chibata e outras revoltas ocorridas durante a primeira República?

O período da República Velha (1889-1930) é muito mais rico de lutas populares do que se pode imaginar. 

Foi um período onde a revolta popular estava crescendo e se desenvolvendo contra a oligarquia dominante. Dentro disto, havia, também, a necessidade de se construir um mínimo de assistência social e de um Estado de fato no Brasil. É bom lembrar que na República Velha não havia leis trabalhistas, nem previdência, muito menos serviços públicos que atendessem aqueles que mais necessitassem. 

Por isso, que a revolta dos marinheiros teve relações com outras revoltas da época. Por exemplo, a Revolta da Vacina (em 1904 no Rio de Janeiro) foi um movimento contra a vacina obrigatória. As classes populares eram contra isso. O “Estado” existente impunha a vacina sem nem uma campanha esclarecedora. A picada da agulha da vacina, pode ser relacionada com a chibata, no sentido de violação do corpo; obviamente não na mesma proporção. Também é possível fazer um paralelo entre a revolta dos marinheiros com o movimento tenentista que vai surgir no início da década de 1920 – ambos lutavam contra o modelo oligárquico de governo (representado na chibata no comportamento elitista da marinha) 

Houve alguma influência da revolta do encouraçado Potemkin na Rússia em 1905 na Revolta da Chibata? 

Potemkin era o principal encouraçado da frota de guerra russa, e foi lugar de uma revolta em 27 de junho de 1905, em um contexto de revolução contra o absolutismo e de guerra contra o Japão. Para o historiador Mario Maestri, a revolta do encouraçado Potemkin “devia ser” de conhecimento de todos os marinheiros rebelados e discutida nos porões dos navios de armada (nome dado à época para a marinha). Gritavam os rebeldes: “Abaixo a ginástica, viva a liberdade”, enquanto no mar Negro o grito era de “Viva a Revolução”. O lema brasileiro referia-se a uma das reivindicações da marujada negra e mulata no Rio de Janeiro, pois entre os castigos físicos que eles sofriam estavam as ginásticas excessivas. Enquanto, na revolta de 1905 na Rússia, havia participação de militantes do Partido Social Democrata, e mesmo que as motivações para as duas revoltas fossem semelhantes, no Potemkin houve maior adesão do povo, apoio inclusive de oficiais e de manifestantes e grevistas, que se somaram aos rebeldes de lá. Portanto, as duas revoltas tiveram semelhanças e diferenças, além de uma relação muito incerta.

João Candido

Quem foi João Cândido? 

Qual sua importância para a revolta dos marinheiros? João Cândido nasceu em 1880 e tão logo participou da vida política no Rio Grande do Sul, sua terra de origem. Aos treze anos de idade já esteve envolvido com a Revolta Federalista (1893-1895). 

Em 1910, quando liderou os marinheiros revoltosos, fazia quinze anos que servia à armada brasileira. A sua vida foi repleta de problemas pessoais, foi viúvo, e depois teve uma companheira e uma filha que suicidaram-se. O Almirante Negro desde muito cedo e por toda a sua vida foi também um trabalhador, exercendo atividades nas embarcações e depois da Revolta, foi um pescador, morando na periferia no Rio de Janeiro, sem posses, e participando da política, seja se relacionando com o liberalismo, o integralismo ou com o comunismo.

Qual a relação entre a mentalidade escravista brasileira e a revolta? 

O Brasil foi o último país da América a acabar (pelo menos legalmente) com o regime de escravidão – no ano de 1888. Os negros, em geral, em toda parte do país, foram relegados a condições precárias de sobrevivência: não receberam se quer um pedaço de terra ou ajuda do governo para trabalharem e se manter dignamente. 

Um dos setores sociais que mais sentiu o fim da escravidão foi a Marinha brasileira. Pela tradição naval portuguesa, e por grande influência da família real que se mudou para o Brasil em 1808, a Marinha do Brasil foi construída em cima da classe dos nobres que aqui chegaram, ou dos filhos dos grandes proprietários de terra e escravos mais próximos ao poder governamental exercido pela monarquia Bragança e sua descendência que aqui permaneceu governando – dom Pedro I e Pedro II. No início do período republicano a maior parte dos marinheiros provinha de classes pobres urbanas e rurais, que buscavam nas forças armadas melhores condições de vida. Negros que não conseguiam emprego ou estudo no pós abolição vislumbravam no ingresso às forças armadas uma possibilidade de colocação e ascensão social. 

Sendo assim, por sua natureza “nobre”, não é de se estranhar que mesmo após o fim da escravidão, alguns oficiais da marinha brasileira mantivessem algumas práticas comuns no período em que a escravidão era vigente. Entre elas estava a chibata: que consistia em castigos corporais com chicotes. Isto era mais frequente quando os marinheiros eram negros. As condições de trabalho na armada brasileira eram escravistas. O soldo era péssimo (se trabalhava quase de graça), se comia muito mal, e o trabalho era pesado. O “recrutamento” era forçado, feito pela polícia, que selecionava quem “sentava praça” entre os desempregados, filhos rebeldes, quem estava na criminalidade: a marujada era formada por cerca de 80% de homens negros e mulatos. Eles não tinham diversões, não podiam casar-se, e eram vítimas de castigos físicos que eram legais, mesmo após a abolição da escravidão em 1888: em 189o foi criado o dispositivo na lei que permitia a chibata como castigo corporal ao marujos negros da armada brasileira. A escravidão continuava, embora velada. A chibata não era a única tortura, havia a gunilha, a palmatória ou bolo, o ferro, a sueca, muitos marujos não podiam olhar aos oficiais de cabeça erguida. Embora a armada se modernizasse com os novos encouraçados, a mentalidade escravista rondava a armada.

Porque a Revolta da Chibata tem que ser estudada atualmente? 

A atualidade da revolta da chibata está no fato de que qualquer cidadão não pode aceitar condições humilhantes de sobrevivência. A organização, a união dos despossuídos contra os seus opressores é a principal base da revolta. E isto deve servir de exemplo nos dias atuais, principalmente diante de tantas perdas sociais que nós, o povo brasileiro, estamos sofrendo – sem empregos, sem leis trabalhistas, e podemos agora ficar sem a previdência social. Sem justiça social não há democracia!


Sobre o Autor:
Fábio Melo
Fábio Melo: Membro Permanente e fundador do Grupo de Estudos Americanista Cipriano Barata. Pesquisa sobre História Social da América e Educação na América (América Latina e Estados Unidos). Produtor e radialista do programa "História em Pauta" na rádio A Voz do Morro. Tem diversos textos escritos sobre educação, cultura e política. 

Sobre o Autor:
Rafael Freitas
Rafael da Silva Freitas: Nasceu no dia 29 de dezembro de 1982 em Santa Maria, RS. Historiador. Membro Permanente e fundador do Grupo de Estudos Americanista Cipriano Barata. Produtor e radialista do programa "História em Pauta" na  rádio A Voz do Morro. Colunista no Jornal de Viamão.