ZUMBI DOS PALMARES: vendo mais ao homem e menos ao mito PARTE 06: sobre a sua relevância como um símbolo nacional



Vimos no artigo anterior que qualquer tradição, vulto histórico, símbolo identitário se faz algo artificial, sendo a sua escolha condicionada a uma intencionalidade de quem o promove. Acontecendo que a escolha de Zumbi como um símbolo do movimento negro no Brasil, se fez pela sua imagem de um guerreiro obstinado ao fim martirizado. Escolha por este perfil a representar a identidade negra brasileira no final da década de 1970, devido ao anseio coletivo por algo que demonstrasse dali em diante, o contrário de décadas de passividade imposta pela segregação racial em nosso país.

Do mesmo modo que vimos que seu vulto, com o correr do tempo e o alvorecer do revisionismo histórico, igualmente passou a receber constantes críticas e até se tornou objeto de debates sobre a sua substituição por outro herói considerado mais “legítimo”. Fato que não se restringe somente a Zumbi, mas à maioria dos vultos históricos em voga. E é a partir deste ponto que vamos analisar a relevância de Zumbi como um símbolo nacional atualmente.

Zumbi dos Palmares, por Antônio Parreiras 


Fenômeno este, de “heróis” que atualmente se debate se deveriam dar lugar a outros (isso quando chegam mesmo a ser discutidos se não deveriam ser mandados para a lixeira da história) que, vale a pena se reforçar que não se restringe nem só a Zumbi. Muito menos ao Brasil. Pois ele se acha presente, de uma forma ou outra, nas mais variadas sociedades.

Como, por exemplo, dentre outros, a figura de William Wallace, rebelde escocês contra a invasão da Inglaterra ao seu país no século XIII e que por isso se fez um personagem muito conhecido na identidade cultural da Escócia. Em parte, também, justamente pelo seu fim trágico, semelhante ao de Zumbi. E como o líder quilombola aqui analisado, este Wallace tem tido, pela moderna historiografia, muito dos méritos, até então exaltados historicamente por seus propagandistas, agora questionados.

Sendo uma curiosidade talvez interessante o fato que um filme sobre sua vida fez grande sucesso no ano em que foi produzido, 1995, Coração Valente, estrelado pelo ator Mel Gibson.


Mas voltando à realidade de nosso país, o Brasil, “heróis” em debate sobre serem ou não vistos como tal, igualmente abundam. Como é o caso da figura do líder religioso Antônio Conselheiro, responsável pelo evento que ficou conhecido nos livros como a Guerra de Canudos (1896-1897). Que pelo ponto de vista da história tradicional foi descrito como um fanático religioso, acontecendo que o revisionismo histórico atualmente o eleva a um grande símbolo das lutas de classe.

Chegando uns até mesmo a lhe definir como um “socialista” que lutava para criar uma comunidade igualitária no meio do sertão da Bahia. E que por isso os poderosos locais se sentiram obrigados a lhe destruir. Exemplo este interessante aqui citar porque neste personagem se percebem dois extremos. Na visão tradicional um criminoso ao passo que o revisionismo cria um Conselheiro revolucionário. Ambas versões que, com um maior aprofundamento nos debates históricos, se pode concluir que igualmente não correspondem à realidade.

Pois um “herói” ou um “vilão” se faz sempre em função dos que o olham, quando se enxergam junto a interesses ou ameaças representadas na sua perpetuação de sua memória.

E, caso seja preciso mais um exemplo, o que dizer então de Luis Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, patrono do Exército e cujo nascimento hoje é o chamado dia do Soldado (25 de agosto)? Para a historiografia tradicional um herói a ponto de seu “nome” Caxias ter se tornado sinônimo de pessoa que segue à risca o que entende serem suas obrigações. Já para seus críticos um instrumento de opressão a serviço do status quo escravagista e elitista da época. Ou seja, novamente, sob um extremo ou outro. Nunca um meio termo.

Ainda mais porque além das interpretações que variam sobre os fatos já comprovados, também contribui para isso os diversos mitos que para muitos se confundem com a realidade. Principalmente por serem, não raro, mais interessantes no intento de se justificar um dado ideal pregado.

Como o fato de que é provável, como já vimos antes, que Zumbi talvez nunca tenha vindo a ser escravo. Mas esta versão o torna mais cativante como um símbolo de luta contra a opressão e a exploração. Tal qual não se pode afirmar com plena certeza que ele foi de todo contrário a um acordo de paz conduzido por seu tio Ganga Zumba (que neste caso, talvez ele possa ter tentado apenas exigir maiores vantagens neste pacto, que assim o inviabilizou). Por ora, apenas incertezas e, talvez, realmente apenas mitos, lendas. Ou não.

Contudo, nada disso responde ainda ao nosso ponto principal agora: a figura de Zumbi como símbolo máximo a representar toda a uma coletividade, no atual contexto em que vivemos ainda se faz relevante? Pois em um Brasil que começava a se livrar de uma asfixiante repressão imposta pelo regime totalitário em vigor nas décadas de 1960, 1970 e 1980 se fez plenamente coerente em um momento que vozes que por longo tempo eram reprimidas querer “gritar” todo o seu ressentimento acumulado, então elegerem a figura de um guerreiro obstinado.

Logo, como conclui o pesquisador gaúcho Vinícius Finger em 2012: “Zumbi se torna o mito fundador da luta do homem negro contra os opressores” (...) feito em um “mito do invencível herói de Palmares” para assim representar uma construção moderna da identidade negra brasileira. O que nos leva a ratificar a grande questão: hoje, em meio a um crescente discurso de luta sem o uso da violência, a imagem de um símbolo que evoque a esta luta contra a desigualdade tomado de um histórico, justamente de luta violenta, guerreira, belicosa, se faz ou não controversa?

Tendo também esta mesma imagem de um guerreiro negro martirizado por opressores brancos, igualmente, ainda que não explicitamente, a possibilidade de ajudar a fomentar um dado ranço sobre esta passagem vergonhosa de nossa história. Que se por um lado ela não pode ser esquecida, por outro também não pode servir como ponta de lança para acusações às atuais gerações de erros cometidos pelos que as antecederam. Não que devamos, por outro lado, tentar encobrir, como foi feito no passado, à ferida ainda em aberto da exploração e da discriminação racial em nosso país. Porém, importando se perguntar: Zumbi ainda representa o mesmo anseio de quando foi elevado na década de 1970?

Ainda mais não faltando referências que se enquadrem neste perfil de um lutador que muito venceu sem precisar criar um sangrento confronto aberto (guerra). Como é o caso de Luiz Gama, jornalista e advogado rábula que teria conseguido a libertação de em torno de 500 escravos, além de um intenso propagandista da causa abolicionista. Um exemplo que em nada cria uma suposta ideia de acomodamento ou passividade. Quando sim o contrário.

Luiz Gama, patrono da abolição da escravidão


Ou então o mulato Nilo Peçanha que, apesar de todos os preconceitos que sofreu somada a sua origem humilde, se tornou vice-presidente e depois presidente do Brasil (de 1909 a 1910). Que apesar de suas controvérsias (como a de ter feito parte da politica do Café com Leite, dentre outras) não deixa de ser uma referência importante as atuais e futuras gerações de jovens negros sobre a possibilidade real de ascensão social em que podem se inspirar.

Citando somente dois dentre vários exemplos que poderíamos comentar, tanto como a enorme contribuição intelectual dos negros brasileiros ao nosso país e ao mundo, como foi o caso do geógrafo baiano Milton Santos. Exemplos que até, por certo, se tornam objeto de críticas aos que julguem que o combate à discriminação racial precisa ter como símbolo um “verdadeiro” guerreiro. Porém, se apegar a esta ideia não seria estar se fechando os olhos às mudanças de mentalidade?

Pois igual Isabel, princesa que assinou a Lei Áurea, a história viu seu simbolismo à identidade negra se tornar defasado, será que o vulto de Zumbi, por mais hajam resistências sobre isso, igualmente não pode estar se tornando obsoleto? Tanto que aos que justifiquem que são dois casos distintos, é interessante ver que nas redes sociais atualmente é muito comum, justamente, um esforço em dar, novamente, maior espaço a esta mesma Isabel como símbolo da causa negra. Sim, pois o “heroísmo” depende de que valores se buscam nele como, por exemplo, um crescente “saudosismo” da monarquia que assim acha interessante “resgatar” o legado de um dos seus grandes símbolos.

Logo, mais uma vez vemos uma intencionalidade na substituição de um “herói” por outro. Além, é claro de mais uma vez o extremo “herói”-“vilão”, justamente o que consideramos não precisar chegar a tanto. Pois apesar de todos os pontos negativos que são (com ou sem razão) atribuídos à sua memória não há motivos para lhe renegar à lixeira da história. Até porque enquanto um símbolo produz quaisquer efeitos benéficos que ele continue a existir, até o ponto em que ele não se torne um objeto de culto cego, idolatria inflamada, com o agravante de que a maioria de seus devotos não queira de perceber da adoração que façam, nem os riscos deste extremismo.

Logo, por mais que a perpetuação de seu simbolismo no imaginário geral se mantenha por longo tempo, sobre a sua substituição (igual antes ocorreu a Isabel) uma simples pergunta a justifica: Com quem as novas gerações de jovens negros podem mais se identificar: com um aristocrata (neto e sobrinho de monarcas que era Zumbi) ou um indivíduo em seu início marginalizado pelo sistema que o enfrentou e teve sucesso (como Luiz Gama, Nilo Peçanha, dentre outros)?

Não levando em conta nenhuma de suas polêmicas que as abordamos, até porque, inclusive, elas também se devem a uma série de fatores como os observamos anteriormente.

Portanto, a justificação de sua substituição se faz sobre a sua capacidade de melhor inspirar à posteridade com seu legado neste atual momento (e não em caráter perpétuo). O que os defensores de Zumbi, possivelmente, podem alegar que ele ainda cumpre seu papel, continuando sendo uma inspiração forte a milhões de negros em nosso país.

Mas sobre isso então pergunto: que tal inspirar a uma luta não apenas esperando concessões de fora (a reparação da dívida histórica pelas autoridades que é fato ela ser importante, mas sua concretização real esbarra em uma série de interesses)? Principalmente insistindo numa alta estima da coletividade negra que, talvez, assim, consiga chegar mais facilmente à justiça histórica que, para de fato acontecer, precisa tornar os negros protagonistas em nossa sociedade. Para isso vendo que sua história também tem vitórias.

Logo, não o jogar à lixeira da história, reitero, quando sim apenas dar vez a outra estrela ganhar mais visibilidade para atender a um novo contexto, até outro cenário possa mais uma vez exigir uma nova substituição. Por que não? Pensemos nisso...


Sobre o autor: 

LUIS MARCELO SANTOS: natural da cidade de Ponta Grossa (estado do Paraná) é professor de História da Rede Pública Estadual do estado do Paraná, Escritor e Historiador. Especialista em ensino de História e Geografia, especialista em ensino religioso e mestre em História formado pela UEPG, já publicou artigos para jornais como o Diário da Manhã e o Diário dos Campos (de Ponta Grossa) e Gazeta do Povo (de Curitiba), assim como as obras locais “A Saga do Veterano: um pouco dos 100 anos (1905-2005) em que o Clube Democrata marcou Ponta Grossa e os Campos Gerais” (em parceria com Isolde Maria Waldmann) e “Memórias e reflexões sobre um povo: Colônia Sutil”


DEGREDO E FEITIÇARIA NA AMÉRICA PORTUGUESA: rascunhos de uma pesquisa


A História Popular do Brasil estuda os movimentos dos trabalhadores, como as lutas dos sindicatos, as revoltas populares, os quilombos. Mas não fica nisso, adentrando na magia, feitiçaria, bruxaria, macumba, e nas práticas espirituais e religiosas marginais como algo de igual importância.

Dentro deste campo de pesquisas, está o culto a entidade de Maria Padilha no Brasil, presente desde os tempos coloniais. Ora, como afirma Laura de Mello e Souza, no prefácio à obra “Maria Padilha e toda a sua Quadrilha – De amante de um rei de Castela, a pomba-gira de Umbanda”, ela era presença constante nos rituais realizados por mulheres  degredadas da Europa. 

O nome de Maria Padilha era conjurado em magias feitas a serviço da clientela que procurava Antonia para soluções amorosas ou para  enfrentar problemas do cotidiano. Somado a isso, observamos que o estudo sobre Antonia Maria é muito relevante para a historiografia, considerando que foi o primeiro registro de devoção à Maria Padilha do Brasil.

Este texto é uma introdução a uma pesquisa sobre o culto a Maria Padilha na América Portuguesa, com foco na trajetória de Antonia Maria, feiticeira degredada que atuou na província de Pernambuco no século XVIII. A partir desta experiência, a investigação busca compreender de que modo a feitiçaria operou como forma de resistência e expressão de religiosidades populares no Brasil Colonial, utilizando como fontes primárias os processos inquisitoriais de Antônia Maria, preservados no Arquivo Nacional da Torre do Tombo.


Detalhe de processo de Antonia Maria


Natural de Portugal, Antônia Maria foi denunciada à Inquisição pela primeira vez. Em seguida , degredada para Angola, mas por razões não esclarecidas pelos registros oficiais, acabou se estabelecendo no Recife. E, apesar da sua inicial condenação, continuou com sua prática mágica, agora de forma mais constante — mas não menos perigosa. Afinal foi punida em uma segunda condenação, desta vez por relapsia com os mesmos crimes de antes.

Em Recife, além dos trabalhos para terceiros, a feiticeira também usava seus conhecimentos para benefício próprio. Seduziu um vizinho que também era casado, que a descreveu para a Inquisição com uma mistura de culpa e fascínio: “de pequena estatura, alva de rosto, olhos pretos e fermosos”.

Essa descrição não é só física. Revela o impacto que ela causava. Maria Padilha e toda a sua quadrilha, nesse contexto, não era apenas uma entidade ou um demônio. Era um símbolo de liberdade feminina, transgressão e domínio sobre os próprios desejos.

As casas onde Antonia morou — todas alugadas na Ilha de Santo Antônio — logo se tornaram pontos de movimento frequente. Mas não por escândalo… por interesse. Gente de todo tipo começou a procurá-la. Pediam rezas. Previsões. Trabalhos. Amarrações.

Sem família, sem proteção, com apenas poucas aliadas ao lado — Joana Pereira, também feiticeira e também degredada, além da bruxa Pascoal Maria, Antonia fez do estigma uma estratégia de sobrevivência. E da sua casa, um espaço de fluxo vivo.

Entre suas frequentadoras mais fiéis estavam mulheres que trabalhavam com o sexo. Em pouco tempo, Antonia deixou de ser a degredada maldita. Virou a mulher que muitos queriam ouvir… esposas proibidas de saírem das suas casas pelos seus maridos, mulheres que tinham relações extra conjugais e que não queriam que seus companheiros descobrissem, além de seus clientes que eram padres, comerciantes… enquanto outros a  temiam por seus feitiços, se tornavam inimigos e  acabaram por denunciar Antônia para o Tribunal do Santo Ofício.

Antonia Maria foi uma das feiticeiras que estabeleceram na América Portuguesa a magia de conjuração, influenciadas pelas rezas dos livros atribuídos ao São Cipriano.  Ela conjurava nos portais de casa, nas cozinhas com seus fervedouros, com oferendas nas encruzilhadas.

Fonte: TRIGUEIRO (2001)

Trabalhamos com uma hipótese. O caso de Antonia Maria se insere perfeitamente na lógica do degredo como mecanismo de controle social e povoamento europeu detalhado no nosso texto Degredo no Brasil Colonial. Ela foi enviada a Angola por ”ações vans e superticiosas, feitiçaria, pacto expresso com o demônio” — uma prática que, no sistema jurídico da época, recaía sobre condutas criminalizadas pelo moralismo religioso e pelo Estado absolutista, sobretudo quando praticadas por mulheres marginalizadas. Por outro lado, no Recife, a fama de feiticeira degredada se transformou em propaganda: ao ser citada na Gazeta, tornou-se procurada para rituais, consultas e feitiços, o que confirma como o sistema tentava excluir, mas a própria vítima conseguia ressignificar o estigma em sobrevivência e atenção — exatamente o tipo de dinâmica invisível e resistente que por um tempo escapou ao antigo sistema que usava o degredo como instrumento que visava disciplinar corpos e mentes, para o povoamento europeu da América Portuguesa.

Na esteira do estudo da historiadora Gilmara Cruz “Práticas de feitiçaria. O caso de Maria Gonçalves Cajada”, propomos que as feiticeiras degredadas para o Brasil Colonial estabeleceram resistências culturais ao sistema rígido de normas religiosas da Igreja Católica. Em outras palavras, apesar das intenções da metrópole lusitana e do Santo Ofício, o degredo ajudou a criar novas religiosidades híbridas. Não há muitas informações sobre a vida de Antonia Maria em Portugal e na Terra de Santa Cruz, somente que seu pai era lavrador, que seu cônjuge era escrivão do judicial de Beja, e que na sua segunda condenação estava viúva. Era analfabeta- não assinou documento algum incluído em seus processos. Praticava feitiçarias, sendo muito pobre, para comer, conforme denunciantes e a ré. E conseguiu seu sustento por meio do ofício de feiticeira, em consequência ao degredo e em contradição a este sistema colonial.

Diante de tudo isso, torna-se evidente que a trajetória de Antônia Maria não é apenas um caso isolado de "feitiçaria" no Brasil Colonial, mas um marco significativo para compreendermos as formas de resistência simbólica, religiosa e existencial das mulheres degredadas à América Portuguesa. Sua atuação revela como figuras marginalizadas não apenas sobreviveram ao aparato punitivo do Estado e da Igreja, como também criaram espaços de saber e influência cultural. O culto a Maria Padilha, ao que tudo indica iniciado formalmente no Brasil com Antônia, se entrelaça à própria formação de uma religiosidade popular híbrida, nutrida no choque entre o sagrado oficial e o sagrado popular. Antônia Maria incorpora, portanto, não só o início documentado da devoção a essa entidade, mas também o arquétipo da mulher que transformou opressão em ofício. Estudá-la é conhecer a história das feiticeiras do passado, para reconhecer as bases espirituais e sociais de uma História do Brasil escrita também por gestos proibidos e por bocas que, mesmo silenciadas, continuaram a conjurar. Degredo e feitiçaria, nesse contexto, não foram apenas punição e transgressão — mas as duas faces de um mesmo processo: das tentativas de excluir, afastar corpos indisciplinados, acenderam novas formas de religiosidades no coração do mundo colonial.


REFERÊNCIAS

ANDERSON, Perry. Linhagens do estado absolutista. 2° ed. São Paulo: Brasiliense, 1989.

CRUZ, Gilmara. Práticas de feitiçaria. O caso de Maria Gonçalves Cajada. São José dos Pinhais: Página 42/ Editora Estronho, 2017.

HOORNAERT, Eduardo. A igreja no Brasil-colônia (1550-1800). São Paulo: Brasiliense, 1982)

MEYER, Marlise. Maria Padilha e toda a sua Quadrilha – De amante de um rei de Castela, a pomba-gira de Umbanda. São Paulo: Duas Cidades, 1993.

PIERONI, Geraldo. Vadios e ciganos, heréticos e bruxas: os degredados no Brasil-colônia. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.

PIERONI, Geraldo. Os excluídos do reino: a inquisição e o degredo para o Brasil Colônia. 2° ed. Brasília/DF: UnB, 2007.

SCHWARTZ, Stuart B. Burocracia e sociedade no Brasil colonial: a Suprema Corte da Bahia e seus juízes. 1609-1751. São Paulo: Perspectiva, 1979.

SOUZA, Laura de Mello e. O diabo e a terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil Colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

TRIGUEIRO, Tatiane de Lima. Um caso de feitiçaria na Inquisição de Pernambuco. Recife, 2001. Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Pernambuco

VAINFAS, Ronaldo. Dicionário do Brasil Colonial. 1500-1800. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000.


Sobre o autor:

Rafael Freitas: professor de História.

ZUMBI DOS PALMARES: vendo mais ao homem e menos ao mito PARTE 06: o surgimento do mito



Antes de qualquer outra observação sobre o fenômeno do símbolo Zumbi, precisamos agora nos ater a alguns pontos básicos sobre como surge a imagem de um herói que passa a representar toda uma coletividade. Pois de outro jeito corremos risco de fazer uma análise extremamente parcial, meramente pendendo para um lado ou para outro. Ou exaltando ou difamando a este personagem. Justo, o contrário do que queremos fazer aqui que tentar encontrar uma visão mais próxima possível de quem foi realmente Zumbi dos Palmares. Assim como ele de fato se tornou o vulto de tamanho impacto no imaginário popular que hoje conhecemos.

Então primeiramente temos que ver como se forma a figura de um herói em qualquer lugar, qualquer tempo. Para tanto observemos que todo o herói em um imaginário coletivo surge para preencher aos anseios ideológicos deste mesmo coletivo em questão. Podendo este herói representar a um grupo que detém o poder ou mesmo a um grupo, de algum modo, excluído, marginalizado. Tanto um grupo em situação privilegiada como em condições, de alguma forma, desfavoráveis. Sendo que no primeiro caso, comumente este herói é lembrado por suas vitórias, ao contrário dos heróis dos grupos mais oprimidos ele é lembrado justamente por seus fracassos, por suas derrotas, por assim dizer.

Ou seja, diante da falta de sucessos que possam ser atribuídos a este herói, ele passa a ser exaltado pelo que pode ser entendido como o seu sacrifício (martírio) que, por sua vez, o que se entende como sua coragem e/ou idealismo, como um modelo de admiração a todo um grupo. Ou seja, não sendo possível este herói ser admirado por suas conquistas, é preciso encontrar nele outros elementos a despertar a admiração dos que venham a se sentir representados por este ídolo a ser escolhido para lhes representar. Neste caso, também, pode acontecer que a figura deste herói alimente uma ideia romântica de que os que sofrem ao fim serão consolados, os agora derrotados um dia terão a justa vitória.

Sendo um exemplo desta afirmação, o povo hebreu, no Velho Testamento, que sofre a escravidão no Egito, assim como é oprimido por povos variados (como os assírios, egípcios, os babilônicos, etc.), seus profetas sofrem perseguições, dentre outros tormentos que são destacados com o intuito de passarem a mensagem de que os males que os afligem são a provação se eles são, de fato, o povo escolhido por Deus. E, portanto, a vitória, ao fim estará com eles. A despeito de que isso acontecerá em um futuro que não tem previsão de quando poderá vir a acontecer. Ademais cabendo basicamente entendermos que qualquer símbolo/herói de uma coletividade se faz o elemento que permite um sentimento de identidade, pertencimento, empoderamento a um coletivo que se sente representado por ele.

Ou seja, um herói derrotado precisa tanto criar um sentimento de agregamento ao grupo que se espera que ele represente, como também precisa criar uma expectativa de triunfo, compensação futura quando essa coletividade se entende como desamparada, sofredora. Passando a ver este seu símbolo quando exaltado, adorado, como um reflexo de uma expectativa igual de em um futuro a grandeza, o triunfo, igualmente vir a seus adoradores.

Entendido isso, torna-se fácil constatar porque a coletividade negra em nosso país, como qualquer outra coletividade, igualmente precisava ter um herói que a representasse como um todo, congregando todas as demais diferenças possíveis, de forma que todos, por meio deste símbolo, se entenderiam como negros e herdeiros das lutas contra um sistema de exploração atroz - que foi a vergonhosa existência do sistema escravagista no Brasil.

Tanto que por ocasião da abolição total da escravidão em nosso país, este símbolo para o orgulho negro não se fez Zumbi, mas sim a Princesa Isabel de Bragança, filha de Dom Pedro II e responsável pela assinatura da lei Aurea, em 13 de maio de 1888. O que pode parecer estranho, a escolha de uma personagem branca, ligada a elite da época como representante da identidade de um coletivo marginalizado, oprimido. Contudo, como toda tradição, de alguma forma inventada, pois condicionada a dados interesses, o fim da escravidão se nutriu de uma intencionalidade voltada a “amenizar” a memória dos conflitos entre brancos e negros, se fazendo a princesa Isabel, assim, o símbolo ideal para atender a esse objetivo.


Princesa Isabel

De forma que por muito tempo a data de 13 de maio passou a ser celebrada como um elemento de identidade negra, presente inclusive em várias entidades negras, em todo o país, que por isso eram denominadas como 13 de Maio. O que aconteceu não pela falta de personalidades negras na época que combateram a escravidão neste mesmo período em que a Lei Aurea foi assinada. Tanto que houve sim grandes protagonistas neste sentido como, por exemplo, Luiz Gama e André Rebouças. Contudo, a mentalidade racista e eugenista presente no final do século XIX até a metade do século XX, queria justamente apagar essa passagem da história (o ressentimento pelos séculos de escravidão) e por consequências, aos descendentes dos envolvidos nela. Mas enfim, importando dizer que dali em diante a identidade negra, independente de ter ou não participado desta escolha, tinha agora um símbolo a lhe representar.

Dado que a mentalidade racista e eugenista presente no final do século XIX até a metade do século XX, queria justamente apagar essa passagem da história (a escravidão) e por consequências, aos descendentes dos envolvidos nela. Ou seja, um interesse em apagar ao máximo a memória de todo o protagonismo dos negros em sua luta.

O que só mudaria com o surgimento de uma nova intelectualidade com um pensamento diferente da visão elitista em voga no final do século XIX e o estouro de um anseio reprimido por décadas de maior valorização que chega ao seu ápice por ocasião do declínio do brutal regime militar em nosso país que durou de 1964 a 1985. Quando agora não só se viam os militantes negros buscando por maior valorização social que cria a necessidade de um herói negro, como também que representasse a ideia de resistência à atual estrutura de caráter sócio politica de nosso país, onde historicamente uma maioria demograficamente era feita uma minoria em termos de direitos sociais.

É a partir deste contexto se forma, a partir de 1978, o mito identitário de Zumbi dos Palmares começa a se formar. Momento em que a data de 20 de novembro, também começa a ocupar espaço nesta novo entendimento que então está se formando. Devendo se compreender mito identitário no sentido de se buscar num vulto histórico, como representação de um ideal e não necessariamente observar ao homem real por trás dela. O que não quer dizer que a escolha de sua pessoa se fez meramente aleatória ou mesmo totalmente forjada. De modo algum.

Pois, primeiramente é um fato incontestável que a manutenção de sua memória ao longo de séculos, apesar dos esforços das autoridades coloniais escravagistas em fazê-la cair no esquecimento, mostra que ele não se fez um herói de todo “fabricado”. Assim o dizendo, pois outros como, por exemplo, Joaquim José da Silva Xavier (o Tiradentes) igualmente se fez um personagem condenado ao esquecimento pelos seus algozes que, do mesmo modo, se tornou um símbolo semelhante a Zumbi. Tanto na exaltação, como nas críticas atualmente em voga sobre o seu legado.

E que, tanto um como outro, alcançou a sua posição no imaginário geral, para atender a uma necessidade ideológica. Vindo de cima para baixo, seja Tiradentes por obra do governo republicano no final do século XIX, seja Zumbi pelos intelectuais que precisavam de um símbolo que representasse justamente a luta e não a espera por concessões. Por mais que o processo concluído com o dia de 13 de Maio de 1888, em nada se fez uma concessão e personalidades negras, como os já citados Gama e Rebouças tem sim grande mérito nesta luta.

Tanto que para finalizarmos nossa jornada em busca do homem por trás do mito identitário, o Zumbi dos Palmares como homem e como símbolo; precisamos agora refletir sobre os aspectos positivos e negativos dele figurar como o principal representante de um ideal de classe. Pois é importante se discutir às motivações e desdobramentos de duas correntes opostas: defensores irrestritos de Zumbi e críticos revisionistas sobre o seu papel real na história. Por isso no próximo artigo abordaremos sobre isso, finalizando nossa longa, mas necessária jornada sobre a sua trajetória que transcende que a sua mera existência.

Haja vista quantos aspectos nós encontramos a refletir sobre o ambiente antes de seu nascimento que o pode ter assim moldado, tanto quanto aos impactos de sua memória atualmente.

Sobre o autor:

LUIS MARCELO SANTOS: natural da cidade de Ponta Grossa (estado do Paraná) é professor de História da Rede Pública Estadual do estado do Paraná, Escritor e Historiador. Especialista em ensino de História e Geografia, especialista em ensino religioso e mestre em História formado pela UEPG, já publicou artigos para jornais como o Diário da Manhã e o Diário dos Campos (de Ponta Grossa) e Gazeta do Povo (de Curitiba), assim como as obras locais “A Saga do Veterano: um pouco dos 100 anos (1905-2005) em que o Clube Democrata marcou Ponta Grossa e os Campos Gerais” (em parceria com Isolde Maria Waldmann) e “Memórias e reflexões sobre um povo: Colônia Sutil”



Coluna Tistu Matos da Silva: O que fazer com o que o academicismo vazio fez de nós?


Primeiro, e acima de tudo, não nos iludamos! Saber acadêmico é saber institucionalizado, portanto, sequestrado, domesticado...

Ele deve parecer radical, mas apenas para oferecer algum vago: ”devemos mudar nossa perspectiva sobre...”, “devemos mudar as estruturas de...”, etc. sempre deixando entredita a palavra maldita que, salvo exceções, só aparecerá como uma caricatura vulgar: REVOLUÇÃO!



Revolução reduzida a uma “tomada de palácio”! Revolução reduzida à “estatização da sociedade”! Revolução devidamente devolvida ao “papai branco” para ser reduzida ao “eurocentrismo” enquanto as contribuições ao marxismo de autores da Ásia Central, China, Coréia do Norte, Vietnã, África e América (tanto a latina quanto das lutas dos Panteras negras nos EUA) são devidamente ignoradas, transformadas em “dogmatismo” (mesmo que as várias experiências possuam uma rica divergência teórica entre elas) ou postas na conta da “submissão ao colonizador” mesmo quando oferece contribuições originais! TODA E QUALQUER IDEIA EUROPÉIA, frente a outra realidade pode se tornar e se tornará outra coisa... menos o TOTALITÁRIO MATERIALISMO HISTÓRICO E DIALÉTICO! Esse será europeu, elabore-o quem o elabore, até porque a academia o tornará uma “deturpação” (e essa deturpação será QUALQUER leitura do marxismo que tenha resultado em uma revolução: irônico, não?) e sempre estará pronta para chamar um Althusser, um Luckács, um Badiou, etc. para corrigir as “distorções” desses asiáticos, africanos e latinos que REALIZARAM REVOLUÇÕES que os europeus não tiveram COMPETÊNCIA para realizar! Mas o que importa? Nunca era a “nossa revolução” segundo um graduado branco bancado pelo papai! E quando, por acaso, surge um José Carlos Mariatégui cujas contribuições originais não podem ser ocultadas sob o “fracasso do socialismo real”...

Ah! Transformamos em “um dos nossos”, ou seja, mais uma vez domesticamos, castramos, higienizamos e o afastamos do sujo “materialismo histórico e dialético” que, aliás, ELE APLICA EM SUAS ANÁLISES!

É preciso deixar o intelectual com a ilusão de uma utopia saída do nada para que esta possa ser preenchida com uma versão bonitinha do liberalismo ou jogá-lo na fossa imunda do niilismo! Pouco importa! O que importa é reduzi-lo à impotência! (para o povo já temos religião, moralismo, entretenimento, repressão, educação e saúde sucateadas e superexploração!) E se algo parecer fugir do comodismo e ter o risco de afetar o mundo concretamente no sentido de uma ruptura com o sistema atual... Ou é pouco rigoroso, ou coisa velha em nova embalagem, ou afetará alguma sensibilidade minoritária direta ou indiretamente (principalmente a minoria privilegiada de tais minorias, já que é aquela que pode cursar uma universidade) ou vamos revirar essa merda do avesso para impedir que cause estragos e torná-la outro “pensamento radical e controverso” que vai do nada a lugar nenhum!

Definidos os limites do que sai da cloaca acadêmica... Algo daí pode ser resgatado e devolvido à vitalidade do livre-pensamento ou a única alternativa é um irracionalismo igualmente estéril? Uma das poucas exceções dessa câmara mortuária superestimada é o professor Walter Lippold e o aspecto mais interessante de sua obra é o resgate, pelo marxismo, de reflexões sobre a colonialidade do saber e o excitante aqui é que há, de um lado, a abertura para linkar as análises sobre o pensamento de Frantz Fanon, a revolução científica como um fenômeno que envolveu a contribuição de múltiplas culturas (àrabes, chineses, japoneses, africanos, etc.), reflexões sobre o capitalismo em sua etapa atual, especificidade das experiências revolucionárias nos países subalternos sem apelo aos “especialistas europeus” em revolução não-realizada, etc.

                                                    Professor Walter Lippold


Ora! Dirá a Academia! Em Fernando Coronil há a ideia da origem do capitalismo como um produto das relações coloniais na América Latina e em Anibal Quijano, o trabalho assalariado nasce da necessidade de separar brancos das demais etnias na América colonial, ou seja, este tipo de abertura está presente no pensamento puramente acadêmico e pode e DEVE ser resgatada da perspectiva acadêmica! Porque, uma vez sequestradas pela academia, o caminho dessas contribuições é serem “elevadas” a uma qualquer abstração: uma “nova sociabilidade” abstrata, uma mudança de “perspectiva” ou “paradigma” abstratas, enfim... uma abstração qualquer destinada a morrer nas páginas de uma tese depois de outra “mudança de paradigmas ultrapassada” que também já havia morrido nas páginas de outra tese... Isso, ou a apropriação de conceitos abstratos para uma ação política centrada no puro abstrato, ignorando as questões político-econômicas concretas por uma luta “pela subjetividade”, ou por uma “nova cultura”!


No resgate do pensamento de Fanon em Walter Lippold, essa abstração já não é mais possível:

“O mundo colonizado é um mundo cortado em dois. A linha de corte, a fronteira, é indicada pelas casernas e pelos postos policiais. Nas colônias, o interlocutor legítimo e institucional do colonizado, do porta-voz do colono e do regime de opressão é o policial ou o soldado. (...) Nos países capitalistas, entre o explorado e o poder interpõe-se uma multidão de professores de moral, de conselheiros, de “desorientadores”. Nas regiões coloniais, em contrapartida, o policial e o soldado, por sua presença imediata, suas intervenções diretas e frequentes, mantêm o contato com o colonizado e lhe aconselham com coronhadas e napalm que fique quieto. Como vemos, o intermediário do poder utiliza uma linguagem de pura violência. O intermediário leva a violência para as casas e para o cérebro dos colonizados” (Frantz Fanon)

Isso é um pensamento sob as bombas, isso é a revolta feita pensamento! Não se nega que o poder “crie subjetividade”, “Crie corpos dóceis” (Foucault), mas esta é a visão do underground do sistema, a visão de quem não choruminga com algoritmos da internet ou exige o “lugar de fala” que tira de outros. Esta é a versão do corpo humilhado, torturado, metralhado, mutilado, exausto da base do sistema. Essa não é a exigência de “estatização de todos e cada um dos âmbitos do poder e da vida social” na qual Aníbal Quijano julgou definir o marxismo, mas uma força que transforma revolta em VIDA, em EXPERIÊNCIA EXISTENCIAL porque lhe dá mais que uma vaga proposição de “nova sociabilidade” (que pode ser qualquer coisa), mas outro mundo oposto a esse e cuja materialidade torna possível seu aperfeiçoamento, a partir do estudo de suas limitações! Que diferença em relação à solução dada pela “multidão de professores de moral, de conselheiros, de ‘desorientadores’” da Academia para os descendentes dos falecidos e silenciados colonizados da América:

“(...) se se pretende a superação da “Modernidade” será necessário negar a negação do mito da Modernidade. Para tanto, a “outra face” negada e vitimada da “Modernidade” deve primeiramente descobrir-se “inocente”: é a “vítima inocente” do sacrifício ritual, que ao descobrir-se inocente julga a “Modernidade” como culpada da violência sacrificadora, conquistadora originária, constitutiva, essencial (Enrique Dussel)... E ADIVINHA! Da má consciência se revela a alteridade (como a “inocência” diante do “sacrifício ritual” revela o Outro em sua irredutível complexidade?) e seguimos em linha direta para uma “Trans-Modernidade” que nega a “razão emancipadora” (porque a julga “eurocêntrica”) e depois... NADA! Um abstrato “resgate da dignidade do Outro” (como vítima?), uma cultura baseada em culpa cristã (ah! Claro! Sempre saíram coisas maravilhosas disso!) e a dominação capitalista? Vai bem, obrigado! Já não estamos nesse joguinho há uns 20 anos?

Como a culpa pode ser abertura para qualquer coisa? Culpa é o resultado de um julgamento e um julgamento só tem duas soluções de continuidade: a rejeição do que se SABE ser ruim ou a afirmação do que se SABE ser bom. Nada “novo” no front! E pior! Quanto menos referências temos para saber o que é o bem e o mal (E esse é o caso!), mais aleatória, manipulável e raivosa é a moral, mais tragédias novas ela causa (inclusive a de mandar pro espaço a “alteridade” e o “resgate da dignidade do Outro”, os únicos ganhos da “Trans-Modernidade”) e menos capacidade temos de criar mecanismos para impedir tragédias já conhecidas: basta para isso acirrar o emocionalismo (era isso a “nova subjetividade”?) e a irracionalidade (afinal, a “razão emancipadora” e, no limite, a “razão” são “eurocêntricas”!) dos argumentos contra e a favor de uma causa. Se não me engano, empoderar uma extrema-direita para forçar uma violenta polarização política foi uma estratégia muito bem sucedida nesse sentido! Acrescente que qualquer tipo de “razão emancipadora” entra nesse julgamento como ré... E durma-se com um barulho desses! Falando seriamente, com certeza não sai nenhuma “Trans-Modernidade” ou qualquer “sociabilidade nova” cada vez mais abstrata daí, porque do nada, nada sai! Só o império do senso-comum, e como este é desde sempre inimigo da inquietação, da curiosidade e da criação, voltamos aos tempos dos livros banidos ou com censura prévia, à limitação de toda liberdade artística (afinal de contas, tudo é produto e o cliente tem sempre razão!) ou de manifestação de ideias pelo temor de “ofender” alguém (geralmente alguém com a mesma mediocridade e estreiteza mental que essas ideias pretendiam mesmo ofender!), etc.

Como seria possível que, de um ambiente conservador, onde as ideias não circulam livremente, saia qualquer sociedade além da já existente? E é preciso, nesse ponto, lembrar que a sociedade existente é a que foi construída com os valores e técnicas de dominação do que Enrique Dussel chama de falsa “Modernidade” eurocêntrica? (Sendo justo, Santiago Castro-Gómez foi mais perspicaz na compreensão desse processo, mas tentou livrar a cara da pós-modernidade das críticas pós-colonialistas, então... já viu onde isso foi dar, né!)

Poderia continuar essa análise, mas tirando alguns bons insights de Fernando Coronil que mereceriam uma leitura a parte, todo o resto é a análise do saber/poder foucaultiana requentada com a palavra “colonialidade”, com a grandeza relativa e a profunda miséria desta, associada a loas às ações institucionais das ciências sociais (chaaato!) e um blá-blá-blá sobre saber local do Arturo Escobar que eu não tive saco de ler até o fim (chato, chato, chaaato!) e eis “A colonialidade do saber- Eurocentrismo e ciências sociais- Perspectivas latino americanas- Até o nome dessa joça é um tese de doutorado”.

Quanto ao título desse ensaio: a resposta é perceber que a Universidade é uma instituição burguesa. Sim! É o óbvio ululante! Qualquer aluno de graduação te diria o mesmo e ainda assim reproduziria o fetiche do “novo paradigma”... “Nosso saber é da rua!” diz a Universidade! Então nós que estamos na rua exigimos de volta o que NÓS criamos e vamos tornar esse saber motor para a ação CONCRETA! ”Queremos a práxis com vistas a mudar o mundo” diz a Universidade! Então vamos parar de tentar inventar a roda e só causar confusão e vamos rever as experiências que REALMENTE causaram mudanças no mundo, compreender seus limites, aperfeiçoa-las no que foram falhas e reatualizar o que houve de positivo! Voltemos ao materialismo histórico-dialético no que ele REALMENTE foi e não no que Aníbal Quijano acha que ele é! Voltemos às experiências libertárias e contraculturais como PRÁTICAS e não objeto de análise! Abandonemos a obsessão pelo “mais novo paradigma”, pelo “mais novo conceito”, pelo “mais novo artigo no museu de grandes novidades”... Se há algo realmente novo, gerou um novo conjunto de práticas, não uma nova tese de doutorado ou uma “ação política” puramente conceitual! Quero o irracionalismo? Por que ia querer o que eu já tenho? E eu não precisaria nem atacar a Universidade: ela tem um enorme estoque disso pra me oferecer! Quero o saber buscando a prática na vida e não nos livros! Criando-se como saber enquanto bebemos, fodemos, sabotamos, destruímos e recriamos para fazer isso ainda melhor sabendo porque fazemos e contra o quê fazemos!

“Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo.”
(Karl Marx, teses sobre Feuerbach,1845)

Sobre o autor:


TISTU MATOS DA SILVA: Professor de Filosofia. Autor de  "Fragmento do caderno de notas do dr. Mehr Diñas". 

ZUMBI DOS PALMARES: vendo mais ao homem e menos ao mito Parte 05: a luta de Zumbi.

Prosseguindo nossa saga sobre Zumbi vamos continuar a partir do ponto da luta politica em Palmares em relação ao acordo de paz proposto que vimos anteriormente. Lançado em 1678, por certo não teve resistência unicamente por parte de Zumbi, mas também de boa parte da sociedade quilombola. De modo que Ganga Zumba visto então como um entrave, acabou envenenado. Ação que não se sabe, se Zumbi veio ou não ter participação na mesma. Além de que ainda que, por mais controversa que seja, também é preciso citar uma versão diferente sobre a morte deste líder: suicídio.

Neste caso, Ganga Zumba se sentindo extremamente desgostoso com este acordo teria se matado, por mais que pareça bastante improvável. O que nesse momento não é o mais relevante. Todavia, não devendo ser ignorada, para não incorrer no risco de parcialidade. Importando sim, basicamente que, a partir desta morte, cabia a Zumbi decidir agora o futuro de Palmares, optando pela manutenção da mesma política de vizinhança vigente. Ou seja, continuando as constantes expedições de ataque aos povoados próximos como Serinhaém, Porto Calvo e Penedo. E ao que parece tiveram amplo apoio de sua gente.


Estátua em homenagem ao Zumbi dos Palmares em Porto Alegre. Fonte: https://www.correiodopovo.com.br/not%C3%ADcias/cidades/porto-alegre-ganha-est%C3%A1tua-em-exalta%C3%A7%C3%A3o-a-zumbi-dos-palmares-1.1554250


Pois ao ver de grande parte dos palmerinos, sua determinação e os esforços aumentaram o prestígio de Zumbi. Valendo lembrar que as campanhas de ataque não visavam somente tomar escravos, como também capturar armas e munições, além de saquear fazendas e estabelecimentos comerciais. Ou seja, a prosperidade econômica do quilombo estava condicionada a essa dinâmica que, os maiores beneficiados com ela, não queriam abrir mão, apesar dos riscos na insistência em manter este mesmo sistema.

Previsivelmente, quando ele ganhou autoridade, conduzindo sua estratégia agressiva, as tensões com os portugueses aumentaram rapidamente. O temor aumenta muito mais, motivo pelo qual, entre 1680 e 1686, os portugueses montaram seis expedições contra Palmares com custos significativos para o tesouro real, mas que, ao fim, nenhuma delas conseguiu derrotar Palmares. O que, à primeira vista, fazia com que Zumbi fosse visto como o governante ideal para as elites locais que assim o apoiavam, criando um governo forte, difícil de ser destruídos pelas autoridades portuguesas.

Razão pela qual, o governo colonial, paralela à repressão, tenta ainda a negociação. O que não é um sinal de consideração, mas de medo que tinham da força de Palmares. Tanto que em 1685, Dom Pedro II de Portugal mandou uma carta (atualmente na Biblioteca da Ajuda, em Portugal) para os quilombolas. Um dos trechos dizia:

"Eu, El-Rei, faço saber a vós Capitão Zumbi dos Palmares que hei por bem perdoar-vos de todos os excessos que haveis praticado, e que assim o faço por entender que vossa rebeldia teve razão nas maldades praticadas por alguns maus senhores em desobediência às minhas reais ordens. (...) Convido-vos a assistir em qualquer estância que vos convier, com vossa mulher e vossos filhos, e todos os vossos capitães, livres de qualquer cativeiro ou sujeição, como meus leais e fiéis súditos, sob minha real proteção".

Quem sabe ciente da fragilidade das forças coloniais que Zumbi, como sempre, ignorou qualquer acordo. Por outro lado, esse aumento das tensões não passava despercebido à comunidade como um todo. Entretanto, de acordo com dadas fontes (preservadas pelo vencedor, é claro) Zumbi não admitia ceder, muito menos ser contrariado com oposição ou deserção. Postura própria de um déspota, em nada diferente dos monarcas absolutistas da Europa então. Onde, o destino de todo o reino está inevitavelmente condicionado aos desejos de seu governante.

Logo, qualquer contrariedade era tratada de forma implacável, tal como o pesquisador Nina Rodrigues explica que: "Se algum escravo fugia dos Palmares, eram enviados negros no seu encalço e, se capturado, era executado pela severa justiça do quilombo”. E deste modo que sua resistência se sustentou por 15 anos.

Sim, Zumbi manteve por 15 anos sua política de hostilidade às forças coloniais. O que é bastante compreensível, diante do fato que além da localização estratégica e de suas defesas, Palmares pode ter chegado a abrigar 20 mil pessoas, sendo que só no aldeamento central, Macaco, poderia haver em torno de 06 mil pessoas. Para efeito de comparação, a cidade do Rio de Janeiro nesta época deveria ter em torno de 07 mil habitantes. Portanto, pode Zumbi meramente ter se sentido confiante o suficiente para em nada ceder. Tanto que, campanhas de extermínio ao quilombo antes já foram promovidas tanto pelos portugueses como pelos holandeses (por ocasião do governo de Maurício de Nassau).

De modo que quando o bandeirante Domingos Jorge Velho, apesar de toda a sua fama de intensa brutalidade, foi contratado pelo governador-geral de Pernambuco para dar fim a Palmares, é possível que os palmerinos não o vissem como uma grande ameaça. Tendo, inclusive, num confronto, em 1692, esse mesmo Jorge Velho sofrido uma humilhante derrota para as forças de Zumbi. Mas, como sabemos, isso não foi o fim. Tanto o orgulho, como o desejo de ser recompensado fizeram com que ele organizasse uma nova campanha, tendo demorado dois anos para reunir mais de 09 mil soldados e artilharia pesada.

O que, nos dias que se seguiram daquele ano de 1694, parecia não ser suficiente. Sua artilharia não conseguia chegar à salvo dos contra-ataques. Era necessária uma estratégia diferente, uma proteção para seus canhões chegarem perto o suficiente para arrasar com as muralhas do aldeamento.

E talvez eles tivessem falhado nisso também, caso um fato inesperado não tivesse acontecido: o descuido dos vigias das muralhas da capital do quilombo, a comunidade de Macaco, em não darem importância à montagem de uma muralha de madeira paralela à deles, pelo pessoal de Jorge Velho.

Com isso a pesada artilharia dos bandeirantes conseguiu fazer, no dia 06 de fevereiro de 1694, com que o mocambo (aldeamento) de Macaco caísse. Mas isso não era ainda o fim, visto que Zumbi teve tempo de fugir, ao que parece, para a localidade da Serra Dois Irmãos. Local onde ele pode levar a sua resistência por mais de um ano. Tendo o seu fim, acontecido não pelo poder de fogo inimigo, mas sim pelo contumaz jogo de intrigas e traições.

Para tanto que se entenda que um de seus colaboradores, de nome Antônio Soares, após ser capturado, aceitou trocar sua liberdade pela vida de Zumbi. Assim tendo este Antônio apunhalado Zumbi, em seguida, arrancando um de seus olhos e a sua mão direita. Também valendo citar a versão que diz que seu pênis foi arrancado e colocado na sua boca. Um fim humilhante que, talvez, se não fosse um descuido dos vigias em relação a muralha inimiga mandada erguer por Jorge Velho, poderia, quem sabe, não ter ocorrido.

Quadro Zumbi dos Palmares por Alex Delaterra

E quem sabe, justo pela falta de outra liderança para tomar o lugar de Zumbi que Palmares chegou ao fim. Por mais que se acredita que um novo comandante, de nome Camuanga tenha continuado a resistência até o ano de 1714. Já sobre o que se sucedeu a sua esposa Dandara (cuja versão mais aceita é que se suicidou com a tomada de Macaco em 1694) ou aos seus três filhos (Motumbo, Harmódio e Aristogíton) nada se sabe de forma confiável. Igual ocorre sobre a vida de toda família de Zumbi, incluindo ele, sua esposa, seus filhos, tios, pais e avós; as informações sobre eles, em geral, são muito esparsas e, não raro, não são plenamente confiáveis. Tanto que, ao fim importa que Palmares que tantas vezes se recuperou dos ataques, ficando ainda mais forte, nunca mais se recuperou.

Sobre assim, o que dizer? Tudo um mero erro de cálculo ou sim uma intransigência irresponsável? Para o historiador Décio Freitas em entrevista para a “Folha de S. Paulo”, em 20 de novembro de 2019 “(...) se ele (Zumbi) tivesse sido menos radical e mais diplomático, como foi seu tio Ganga-Zumba, teria possivelmente alterado os rumos da escravidão no Brasil”. Talvez. Até porque é a sua morte trágica que o faz uma referência de tamanho impacto no imaginário geral. Por mais que esta referência tenha se feito uma construção histórica relativamente recente. Tal como veremos na próxima sequência desta nossa longa jornada.

Até lá...

Sobre o autor:

LUIS MARCELO SANTOS: natural da cidade de Ponta Grossa (estado do Paraná) é professor de História da Rede Pública Estadual do estado do Paraná, Escritor e Historiador. Especialista em ensino de História e Geografia, especialista em ensino religioso e mestre em História formado pela UEPG, já publicou artigos para jornais como o Diário da Manhã e o Diário dos Campos (de Ponta Grossa) e Gazeta do Povo (de Curitiba), assim como as obras locais “A Saga do Veterano: um pouco dos 100 anos (1905-2005) em que o Clube Democrata marcou Ponta Grossa e os Campos Gerais” (em parceria com Isolde Maria Waldmann) e “Memórias e reflexões sobre um povo: Colônia Sutil”


Revolta de Vila Rica

A História Popular do Brasil tem fatos importantes e injustamente ignorados, como a Revolta de Vila Rica de 1720. Uma sedição que teve somente um executado, o português Felipe dos Santos Freire. O líder popular foi morto e esquartejado a pedido do governador da província de São Paulo e Minas do Ouro.

Antecederam a Revolta de Vila Rica, dezenas de motins contestando a autoridade real. Havia excesso de impostos, falta de alimentos, descontentamentos crescentes com o governador Dom Pedro Miguel de Almeida Portugal e Vasconcelos, também conhecido como Conde de Assumar, por poderosos locais e populares.



Gravura dá rosto ao revolucionário Felipe dos Santos. Fonte: Estado de Minas


Documentos mostram que as autoridades acusavam os rebeldes de terem como objetivo extinguir o domínio real e formar uma república. E de fato, os rebeldes elegeram um novo ouvidor geral e governador, durante uma assembleia em um exercício de autogestão. Outra acusação foi de estarem entre os rebeldes, dezenas de negros armados, e realmente os trabalhadores negros escravizados estavam participando ativamente deste motim. Eles eram os mascarados.

A participação daqueles trabalhadores que moravam nas senzalas, foi mencionada na obra clássica “Rebeliões da Senzala. Quilombos, insurreições, guerrilhas”, do sociólogo Clóvis Moura:

Na malograda revolta de Felipe dos Santos, em Minas Gerais, temos notícias da participação no movimento de “portugueses com os seus negros”, que foram presos. No dia 28 de junho de 1720, sete mascarados, juntamente com muitos pretos, armados, derivaram do morro onde se encontravam, invadindo e depredando diversas casas. Em seguida, intimaram o governador a não abrir novas casas de fundição. (1988, p. 74)

Na Revolta de Vila Rica, os "elementos cativos" participaram como aliados de outras frações de classe, sendo elementos destacados e decisivos nesta luta. À vista disso, a participação de trabalhadores negros entre os mascarados é atestada por documento assinado pelo Conde de Assumar “autorizando e recompensando a morte de mascarados”. 

Os mascarados, junto a outros rebeldes, fizeram a rebelião por diversas causas: contra a instalação das casas de fundição- que alterava a forma de cobrança do imposto do quinto, para abolir impostos cobrados para calçamento das ruas e para o sustento da Companhia dos Dragões, entre outras razões.

Mas como aconteceu a Revolta de Vila Rica? A população mascarada, armada, vinda do morro, percorre as ruas da Vila e saqueia a casa do ouvidor geral da comarca, destruindo todos os documentos e livros existentes no local. Enquanto o ouvidor Martinho Vieira Freitas fugia. Após, os rebeldes elaboram um termo com as reivindicações, na praça de Vila Rica. A petição com seis ítens é levada ao Conde de Assumar por dois representantes.

Diante da má vontade do governador, os rebeldes prendem todos os oficiais da câmara e marcham até o Conde de Assumar. Na marcha, ocorrida em 2 de julho, mais de mil pessoas, entre mineradores, artesãos, agricultores e escravizados, caminharam unidos. Eles levavam uma nova petição com mais itens e todos os oficiais presos, diretamente no palácio do governador, em Ribeirão do Carmo. A quantidade de manifestantes ia aumentando, pois muitos moradores foram aderindo ao movimento.


Julgamento de Filipe do Santos. Antônio Parreiras. Óleo sobre tela,1923. Coleção: Museu Antônio Parreiras (Juiz de Fora, Minas Gerais). Fonte: Impressões Rebeldes


Acuado, o governo oficializa um documento, chamado “Termo que se faz sobre a proposta do povo de Vila Rica na ocasião em que veio amotinado a Vila do Carmo”, contendo vinte e sete assinaturas e acatando todas as reivindicações. O povo, entusiasmado, decide nomear Mosqueira da Rosa o novo ouvidor geral da comarca, e determinam que o governador não é mais o Conde de Assumar, sim Sebastião da Veiga Cabral. Nos próximos dias, há prisões, e quebra quebras. Mas no dia 16 de julho, acaba a Revolta de Vila Rica, com a prisão de 1500 rebeldes e com a execução de Felipe dos Santos.

Anos após a execução de Felipe dos Santos, por meio de pedido da viúva dele, se verificou os “bens”, deixados pelo principal nome da Revolta de Vila Rica. Entre os pertences, há roupas femininas e cinco pessoas escravizadas: João Benguela, José Embu, Manoel Mina, Tomé Crioulo e Francisca Mina. Terá sido ela a companheira de Felipe dos Santos e a liderança que inseriu os escravizados nesta luta?

Sobre essa hipótese, falta ainda comprovação, para além de somente indícios. Desse modo, a Revolta de Vila Rica nos demonstra que progressivamente os trabalhadores negros escravizados foram se tornando a negação do sistema escravista vigente no Brasil Colonial e Império. Esta revolta considerada nativista, por visar avanços sociais -  mas sem objetivar a separação de Portugal, foi uma das inúmeras vezes que eles estiveram presentes na História Popular do Brasil, ora nos movimentos políticos  (aproveitando os tumultos para contribuir com a crise do modo de produção escravista); ora lutando sozinhos em revoltas, isolados, ou nos quilombos. Dizia Clóvis Moura que "A ação revolucionária prosseguia a sua marcha, enquanto os intelectuais na sua maioria discutiam teoria política ou aguardavam que a França viesse em socorro do Brasil" (1988, p. 80). 


Referências:

FIGUEIREDO, Luciano. Vila Rica dos motins: a revolta de 1720 e a construção da política no espaço urbano. In: Poderes e Lugares de Minas Gerais: um quadro urbano no interior brasileiro - séculos XVIII-XX.1 ed. Belo Horizonte: Grupo Editorial Scortecci, 2013, p. 63-78.

MOURA, Clóvis. Rebeliões da senzala. Quilombos, insurreições, guerrilhas. 4ª ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1988.

Gravura dá rosto ao revolucionário Felipe dos Santos. https://www.em.com.br/app/noticia/cultura/2020/09/26/interna_cultura,1189067/gravura-da-rosto-ao-revolucionario-filipe-dos-santos.shtml

Revolta de Vila Rica. https://www.historia.uff.br/impressoesrebeldes/revolta/revolta-de-vila-rica/

Sobre o autor:

Rafael Freitas: Professor de História.

Cipriano Barata: a chinelada nos reacionários

 



Cipriano Barata foi tema em destaque no livro didático "Nova História do Brasil. 500 anos de História malcontada",  escrito pelo misterioso Mario Schmidt. A obra era destinada aos estudantes do Ensino Médio e foi lançada em 1999, pela Editora Nova Geração, de São Paulo, SP. Leia o texto, na íntegra, abaixo.

Cipriano Barata era baiano, filho de tenente do exército com mulata. Estudou medicina, filosofia e matemática em Coimbra e conheceu de perto a Revolução Francesa. De volta para o Brasil, em Salvador, sua cidade natal, ficou conhecido como o médico dos pobres. Era o doutor que não cobrava consulta, o freqüentador dos terreiros de macumba, o namorador das pretas bonitas da Bahia e, antes de tudo, o agitador.

Onde houvesse uma rebelião, um protesto, um levante, lá estava Cipriano. Líder na Conjuração Baiana de 1798, na Revolução Pernambucana de 1817 e, embora preso, na Confederação do Equador. Grande jornalista, não teve papas na língua em acusar D. Pedro de tirano. Volta e meia era encarcerado, tendo estado pela última vez na cadeia com quase 70 anos de idade. Certa vez, não resistiu e deu uma surra num general reacionário. Deputado nas Cortes em Lisboa, escandalizou a todos ao propor o direito de cidadania aos escravos. Mesmo encarcerado, dava um jeito de escrever contra as autoridades. Visitado na cadeia pelo imperador, que queria vê-lo suplicando perdão, virou as costas altivamente.

Cipriano Barata poderia ter tido uma vida tranquila de intelectual à sombra dos ricos. Todavia, escolheu uma existência de combates pela liberdade e pelos direitos do povo. Foi perseguido, preso e arruinado. Jamais se arrependeu. Para ele, quaisquer sofrimentos seriam menores comparados aos de uma vida covarde, fútil e egoísta. Barata não foi um inseto asqueroso. Sabia que lutar pela liberdade, dos outros era, de alguma forma, libertar-se.

Em Lisboa, Cipriano se vestia com roupas velhas e chapéu de palha para provocar os figurões portugueses. Queria marcar sua presença como a de um homem do povo vindo da Colônia.





INCONFIDÊNCIA MINEIRA: uma herança em disputa

 


Obra Tiradentes de Cândido Portinari

A Inconfidência Mineira perdeu prestígio nos últimos anos – e eu não posso deixar de dar aos detratores uma certa razão. A Conjuração Baiana ganhou destaque por propor a abolição de forma mais efetiva. Além disso, a revolta dos alfaiates foi de fato uma revolta, enquanto a Inconfidência foi morta no nascedouro, não chegou efetivamente a acontecer.

O líder da Inconfidência, o alferes Tiradentes, é reivindicado posteriormente tanto pela PM de Minas (a revista científica da PM até hoje chama-se O Alferes) quanto por movimentos revolucionários armados como Movimento Revolucionário Tiradentes (houve pelo menos dois anos nos anos 60 e existe um hoje em dia).


Alferes Tiradentes

O líder da Revolta dos Alfaiates, Cipriano Barata, viveu muitos anos preso, mas não foi morto como Tiradentes. Sobressai muito o martírio que ele viveu. Embora nada comprove que tenha dito a frase, “se dez vidas eu tivesse, dez vidas eu daria”, ainda é incrível e emocionante ver o maravilhoso ator José Wilker dizê-la no filme Os Inconfidentes, de Joaquim Pedro Andrade (1972). O filme está no youtube.

Enquanto todos se arrependem e pedem desculpas ao poder autoritário para sobreviver, Tiradentes resiste e enfrenta a morte, seguro do significado que terá seu gesto de atirar-se para o martírio.

É fantástico o efeito crítico do final do filme, quando Tiradentes a cores pende na forca e a narrativa corta para crianças com bandeirinhas em imagens preto e branco na as comemorações oficiais em 1972, na cidade de Ouro Preto. A narrativa mistura imagens de carne sangrenta sendo batida com pedra com imagens das autoridades da ditadura comemorando a morte de Tiradentes. O efeito crítico é muito bom, bem como o estético.

O Joaquim Pedro que dirigiu esse filme sobre Joaquim, cinemanovista e ligado ao PCB, conseguiu efetivamente, com esse filme, criar uma crítica muito interessante ao regime militar. O intertexto ficou claro, desde a carne macerada no início, simbolizando a tortura. Com esse filme, Joaquim Pedro quis redimir-se de ter criado o personagem Gerson que simbolizaria os brasileiros, com a tal Lei de Gerson (é preciso tirar vantagem em tudo), bem como reforçado a ideia de que é preciso tirar vantagem em tudo. Já vinha da experiência de ter firmado Macunaíma como herói nacional, herói sem nenhum caráter. Joaquim, filho de um funcionário do Instituto de Patrimônio Histórico mineiro, dedicou esse filme ao pai e, com ele, celebrou um, até então, incontestável herói brasileiro, um dos poucos que sobressai em nossa história, sem dúvida um dos que tem a trajetória menos inquestionavelmente heroica. Há pouco a dizer contra ele. De fato, de alguns anos para cá ficou bem evidente os lados obscuros de vários de nossos heróis, desde a figura de Lampião (banditismo, etc), Pedro II (racista amigo do conde Gobineau), Duque de Caxias (organizou o genocídio da guerra do Paraguai), os bandeirantes como portugueses assassinos de índios, dentre muitos outros.


Duque de Caxias, organizador do genocídio da guerra do Paraguai

Tiradentes e a Inconfidência prosseguem atuais, por perceberam o seguinte: poderíamos viver melhor se nos libertássemos do peso de ter de alimentar também o imperialismo estrangeiro. E desde então, mudamos de senhor, passando do imperialismo português para o inglês e, agora ainda mais tragicamente, para o imperialismo de um outro país americano, Estados Unidos, país nos quais os inconfidentes enxergaram esperanças que, dolorosamente, mostraram-se vãs. O martírio é ainda inspirador, como mostrou o poeta Dantas Motta em sua "Primeira Epístola de Joaquim José da Silva Xavier - o Tiradentes - aos Ladrões Ricos":

 

Tiradentes sobe ao patíbulo, pretende falar, não o deixam, sofre 3 sermões

Jm. Jzé. da Sva. Xer.

dá entrada no LARGO DA LAMPADOSA,

e como que possuídos de furor histero-religioso,

os padres da Comunidade do Convento de Santo Antônio,

aumentando as suas vozes,

alteiam-n'as com a Recitação da Oração dos Agonizantes

36. Subindo, rápido, ao patíbulo de 24 degraus,

Tiradentes quis falar.

Não o deixaram,

Sinal próprio das épocas em que os outros têm medo

da liberdade.

Deram-lhe, porém, ao invés da fala,

água, pois que suava com abundância.

Recusou-a.

Pediu que apressassem o bárbaro espetáculo.

Prolongaram-n'o

1º — com dois sermões

2º — com o recitativo do Eu Pecador

3º — com a encomendação do seu corpo ainda vivo.

 

FONTES:

 

Andrade, Joaquim Pedro. Os Inconfidentes, filme 1972. <<https://www.youtube.com/watch?v=wDgP79urOk&ab_channel=Fl%C3%A1vioF>>

 

MOTTA, Dante. "Primeira Epístola de Joaquim José da Silva Xavier - o Tiradentes - aos Ladrões Ricos". <<http://oabsurdoeagraca.blogspot.com/2015/04/primeira-epistola-de-joaquim-jose-da.html>>


Sobre o autor:

Lúcio Junior Espírito Santo: Graduado em Filosofia. Mestre em Estudos Literários/UFMG. Blog: revistacidadesol.blogspot.com.  Bom Despacho, Minas Gerais. Nascido em Uberaba, 1974.