Victor Raúl Haya de la Torre e a tese do imperialismo como primeira etapa




Wilhelm Christian Ludwig Dilthey: filósofo hermenêutico, psicólogo, historiador, sociólogo e pedagogo alemão.

A necessidade de investigar o pensamento original dos intelectuais da América Latina — superando o eurocentrismo e a aplicação mecânica de conceitos europeus — é fundamental para compreender a nossa própria história. Essa busca por uma análise autêntica encontra forte respaldo epistemológico na hermenêutica de Wilhelm Dilthey, que buscou estabelecer os fundamentos filosóficos das ciências humanas em oposição às ciências naturais. Dilthey argumentava que, enquanto as ciências da natureza focam em explicar os fenômenos através de leis gerais e causais universais, as ciências humanas devem buscar compreender as ações e os significados dentro de seus contextos históricos específicos. Ora, as categorias de análise europeias muitas vezes não se encaixam na realidade dos nossos países, o que torna vital o resgate de intelectuais que pensaram a região a partir de suas próprias "vivências" e especificidades, em consonância com a rejeição diltheyana a determinismos universais. Para compreendermos melhor como o historicismo é válido para entendermos a América Latina, citaremos um parágrafo do livro “Ideologias e Ciência Social. Elementos para uma análise marxista”, de Michael Löwy:


Dilthey chega à conclusão que as ciências sociais são produtos históricos e têm sua validade historicamente limitada. Suas verdades não são verdades absolutas como dois mais dois é igual a quatro. As verdades, os conhecimentos produzidos pelas ciências do espírito não são desse tipo, são verdades e conhecimentos historicamente relativos. E isso vale para o conjunto de produções culturais da sociedade. (1989, p. 74)


Para compreender o desenvolvimento econômico e social da região sob uma ótica autêntica, podemos relacionar esse esforço à figura de Cipriano Barata. Considerado uma voz radical da história popular brasileira, Barata já denunciava em seus escritos a dependência e o despotismo, defendendo um projeto de nação soberana, federalista e avessa à submissão. A partir da perspectiva de Dilthey, na qual a história é um processo contínuo de interações que devem ser compreendidas a partir de seu interior e de suas próprias estruturas de experiência, a postura de Barata reflete a busca por uma consciência histórica própria da nossa formação. Mas ele esteve longe de ser o único.

O pensamento de Victor Raúl Haya de la Torre (fundador da Aliança Popular Revolucionária Americana- APRA), ao lado da reflexão de outros intelectuais críticos, exemplifica essa busca por interpretar a realidade latino-americana a partir de suas particularidades, propondo uma inversão radical da leitura clássica sobre o desenvolvimento do capitalismo. Rejeitando a ideia de que as teorias gerais poderiam predizer de forma inexorável o comportamento histórico de todas as sociedades, Haya argumentava que, enquanto na Europa o capitalismo se desenvolveu internamente a partir do feudalismo até transbordar em imperialismo, na América Latina o processo foi o oposto: o capitalismo  foi importado e imposto de fora pelas potências imperialistas.

Homenagem a Víctor Raúl Haya de la Torre (1964). Fonte: https://arkivperu.com/homenaje-a-haya-de-la-torre-1964/


Assim, para Victor Raúl Haya de la Torre, o imperialismo é a força que introduz as relações capitalistas em sociedades que ainda eram predominantemente feudais ou coloniais. Compreender essa especificidade é o que nos permitiria analisar as características do Brasil e da América Latina sem encaixá-los em determinismos ou modelos puramente importados. Essa abordagem ecoa a defesa de Barata por um país que não dependesse da dominação estrangeira e materializa o postulado de Dilthey de que a vida humana, em sua complexidade, não pode ser submetida a leis gerais que ignorem suas singularidades históricas.

Nesta visão, o capital estrangeiro atuou como o motor inicial do nosso subdesenvolvimento. Haya de la Torre via o imperialismo como uma força indutora para a modernização técnica e industrial da região, uma vez que as burguesias locais não tinham condições de liderar esse processo sozinhas. Isso reforça a tese hermenêutica de que a história de nossas nações precisa ser analisada a partir de sua própria formação, e não à luz de uma "etapa" universalista e engessada. O que o levou a distinguir dois tipos de imperialismo:

Imperialismo como estágio final (Europa): O resultado de um capitalismo maduro que busca mercados e exporta capitais.

Imperialismo como estágio inicial (América Latina ou Indo-América): Uma força externa que gera um capitalismo dependente e singular.

Como o imperialismo seria a primeira etapa do capitalismo na América Latina, Haya de la Torre acreditava que a região ainda não estava pronta para uma revolução puramente socialista. O objetivo imediato deveria ser a Libertação Nacional. Isso justificava a criação de um partido de frente ampla, sem almejar uma revolução social.

Vimos que resgatar o pensamento original dos intelectuais latino-americanos nos mostra que o desenvolvimento histórico da América Latina possui suas próprias determinações. Além disso, como podemos observar, essas interpretações relativistas tiveram diversas implicações em nossa história política. No caso do APRA, resultando em “um programa anti-imperialista, nacionalista, latino- americanista e socializante que deveria unir intelectuais, trabalhadores e camponeses em um partido-frente de âmbito latino-americano,” (2014, p. 7)

A contribuição epistemológica de Dilthey nos ajuda a  compreender as estruturas sociais americanas, analisar o contexto ao qual cada ação pertence,  e escrever uma História Popular das Américas bem longe de um mero resquício das ciências naturais. O historicismo do filósofo alemão nos serve para abandonar o eurocentrismo dogmático,  investigar as nossas raízes e construir interpretações originais, com amplas possibilidades para compreendermos as realidades sociais e históricas genuínas dos povos americanos.

Referências:

KAYSEL, André. Três Vozes, Duas Polêmicas e Um Problema: Mariátegui, Haya de La Torre, Julio Antonio Mella e as fundações do marxismo latino-americano. Trabalho preparado para o IV Seminário Discente da Pós-Graduação em Ciência  Política da USP, de 07 a 11 de abril de 2014-02-27. Disponível em: https://sdpscp.fflch.usp.br/sites/sdpscp.fflch.usp.br/files/inline-files/135-440-1-PB.pdf. Visualizado em: 10/07/2026.

LÖWY, Michael. Ideologias e Ciẽncia Social. Elementos para uma análise marxista. 5° ed. São Paulo: Cortez, 1989.

SCOCUGLIA, Javonka Baracuhey Cavalcanti. A hermenêutica de Wilheim Dilthey e a reflexão epistemológica nas ciências humanas contemporâneas. Disponível em: https://www.scielo.br/j/se/a/xmhyYJDn7xsc7VL8zbbNGqz/?lang=pt. Visualizado em: 10/07/2026.

Sobre o autor:


Rafael Freitas:
professor de História.



Cipriano Barata: a sentinela radical da soberania popular



Em sua época, Cipriano José Barata de Almeida (1762–1838) foi a voz mais radical e incômoda da história popular brasileira. O personagem histórico que dá nome ao nosso grupo de estudos americanista foi cirurgião, filósofo e jornalista, a sua trajetória desenha um projeto de país que, 200 anos depois, ainda lutamos para se concretizar. A sua trajetória merece homenagens no cancioneiro latino-americano, ou em versos pelos nossos poetas, algo que, infelizmente, também não aconteceu.

O breve estudo a seguir tem como principal objetivo promover pesquisas mais amplas sobre a História Popular do Brasil. O nosso blog segue com espaço aberto para debates fraternos.


Iluminismo Rebelde

Nascido em Salvador, sua formação acadêmica em Coimbra (Filosofia e Medicina) contribuiu para o tornar um intelectual orgânico. O contato com o Iluminismo resultou em acusações de heresia pelo Santo Ofício, provando que, desde cedo, seu pensamento desafiava as estruturas de controle espiritual e político. Ao retornar, mergulhou no turbilhão das revoltas populares brasileiras, ganhando a alcunha futura de “revolucionário de todas as revoluções”. Não é exagero dizer que Cipriano é indispensável para quem deseja entender a história brasileira sob a ótica popular.

Seu jornal, Sentinela da Liberdade na Guarita de Pernambuco, inaugurou uma forma de comunicação política agressiva e pedagógica. O brado "Ó do Brasil! Alerta!" era um chamado à consciência política e à vigilância contra o despotismo. Precursor do jornalismo de opinião e das redes de mobilização, Barata via a informação como antídoto contra a tirania. Em tempos de desinformação, sua tese de que um povo educado é uma barreira contra o autoritarismo permanece atual.

Um dos aspectos mais proféticos de sua atuação foi o combate ferrenho à interferência militar na política. Cipriano defendia a supremacia absoluta do poder civil. Para ele, um exército que se torna ator político é o carrasco da liberdade. Ele entendia que a farda deve servir à nação, nunca tutelá-la.

Cipriano viveu o que muitos opositores enfrentaram na ditadura civil-militar brasileira: a tentativa de silenciamento através do cárcere. Preso por quase toda a década de 1820, ele transformou a cela em redação. Mudava o nome do jornal conforme a cidade onde era encarcerado e fundava comitês de solidariedade para garantir dignidade aos demais presos políticos. Sua luta antecipou os debates sobre direitos humanos no sistema carcerário e a proteção aos perseguidos por suas opiniões políticas. Barata sobreviveu a ameaças de morte e tentativas de suborno com uma integridade que desafia os vícios da política profissional contemporânea.

Identidade e soberania popular brasileira

Crítico feroz da centralização do poder no Rio de Janeiro, ele defendia um Brasil federalista, aonde as províncias tivessem voz. Seu "nativismo" era prático: vestia chapéu de palha e sapatos de couro de bezerro nacional para rejeitar a estética e a dependência europeia. Conforme afirmou Leonardo Lima Breda: “Em Lisboa, Cipriano era um dos poucos deputados das cortes que demonstravam uma espécie de nacionalismo brasileiro, mais assemelhado a um nativismo antilusitano, vestindo-se com casaca de algodão, sapato de couro de bezerro, chapéu de palha e bengala, todos utensílios de vestimenta originários de sua terra.“ Portanto, podemos notar que a pauta da soberania nacional autêntica, avessa ao imperialismo é um eco direto das lutas de Cipriano.

Enquanto figuras como José Bonifácio representavam a conciliação das elites, Cipriano era o lado do “underground” republicano, "maçom" (termo usado na época para estigmatizar opositores, como "subversivo" foi usado no regime de primeiro de abril) e radical. Ele não aceitava que a independência fosse um arranjo de cúpula que mantivesse a escravidão e a exclusão popular.

Provocações para o presente

Cipriano Barata é o "espírito" que assombrava o autoritarismo brasileiro há dois séculos. Seu legado é um convite à vigilância: devemos até hoje ser uma "Sentinela", afinal o Brasil pelo qual ele foi preso e perseguido ainda está em construção. O "Alerta!" de Cipriano Barata ainda ressoa, pois a guarita da liberdade não pode ficar vazia e o Grupo de Estudos Americanista Cipriano Barata (GEACB) busca trazer a tona essa História.

Sobre o autor:

Rafael Freitas: professor de História.









ZUMBI DOS PALMARES: vendo mais ao homem e menos ao mito PARTE 06: sobre a sua relevância como um símbolo nacional



Vimos no artigo anterior que qualquer tradição, vulto histórico, símbolo identitário se faz algo artificial, sendo a sua escolha condicionada a uma intencionalidade de quem o promove. Acontecendo que a escolha de Zumbi como um símbolo do movimento negro no Brasil, se fez pela sua imagem de um guerreiro obstinado ao fim martirizado. Escolha por este perfil a representar a identidade negra brasileira no final da década de 1970, devido ao anseio coletivo por algo que demonstrasse dali em diante, o contrário de décadas de passividade imposta pela segregação racial em nosso país.

Do mesmo modo que vimos que seu vulto, com o correr do tempo e o alvorecer do revisionismo histórico, igualmente passou a receber constantes críticas e até se tornou objeto de debates sobre a sua substituição por outro herói considerado mais “legítimo”. Fato que não se restringe somente a Zumbi, mas à maioria dos vultos históricos em voga. E é a partir deste ponto que vamos analisar a relevância de Zumbi como um símbolo nacional atualmente.

Zumbi dos Palmares, por Antônio Parreiras 


Fenômeno este, de “heróis” que atualmente se debate se deveriam dar lugar a outros (isso quando chegam mesmo a ser discutidos se não deveriam ser mandados para a lixeira da história) que, vale a pena se reforçar que não se restringe nem só a Zumbi. Muito menos ao Brasil. Pois ele se acha presente, de uma forma ou outra, nas mais variadas sociedades.

Como, por exemplo, dentre outros, a figura de William Wallace, rebelde escocês contra a invasão da Inglaterra ao seu país no século XIII e que por isso se fez um personagem muito conhecido na identidade cultural da Escócia. Em parte, também, justamente pelo seu fim trágico, semelhante ao de Zumbi. E como o líder quilombola aqui analisado, este Wallace tem tido, pela moderna historiografia, muito dos méritos, até então exaltados historicamente por seus propagandistas, agora questionados.

Sendo uma curiosidade talvez interessante o fato que um filme sobre sua vida fez grande sucesso no ano em que foi produzido, 1995, Coração Valente, estrelado pelo ator Mel Gibson.


Mas voltando à realidade de nosso país, o Brasil, “heróis” em debate sobre serem ou não vistos como tal, igualmente abundam. Como é o caso da figura do líder religioso Antônio Conselheiro, responsável pelo evento que ficou conhecido nos livros como a Guerra de Canudos (1896-1897). Que pelo ponto de vista da história tradicional foi descrito como um fanático religioso, acontecendo que o revisionismo histórico atualmente o eleva a um grande símbolo das lutas de classe.

Chegando uns até mesmo a lhe definir como um “socialista” que lutava para criar uma comunidade igualitária no meio do sertão da Bahia. E que por isso os poderosos locais se sentiram obrigados a lhe destruir. Exemplo este interessante aqui citar porque neste personagem se percebem dois extremos. Na visão tradicional um criminoso ao passo que o revisionismo cria um Conselheiro revolucionário. Ambas versões que, com um maior aprofundamento nos debates históricos, se pode concluir que igualmente não correspondem à realidade.

Pois um “herói” ou um “vilão” se faz sempre em função dos que o olham, quando se enxergam junto a interesses ou ameaças representadas na sua perpetuação de sua memória.

E, caso seja preciso mais um exemplo, o que dizer então de Luis Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, patrono do Exército e cujo nascimento hoje é o chamado dia do Soldado (25 de agosto)? Para a historiografia tradicional um herói a ponto de seu “nome” Caxias ter se tornado sinônimo de pessoa que segue à risca o que entende serem suas obrigações. Já para seus críticos um instrumento de opressão a serviço do status quo escravagista e elitista da época. Ou seja, novamente, sob um extremo ou outro. Nunca um meio termo.

Ainda mais porque além das interpretações que variam sobre os fatos já comprovados, também contribui para isso os diversos mitos que para muitos se confundem com a realidade. Principalmente por serem, não raro, mais interessantes no intento de se justificar um dado ideal pregado.

Como o fato de que é provável, como já vimos antes, que Zumbi talvez nunca tenha vindo a ser escravo. Mas esta versão o torna mais cativante como um símbolo de luta contra a opressão e a exploração. Tal qual não se pode afirmar com plena certeza que ele foi de todo contrário a um acordo de paz conduzido por seu tio Ganga Zumba (que neste caso, talvez ele possa ter tentado apenas exigir maiores vantagens neste pacto, que assim o inviabilizou). Por ora, apenas incertezas e, talvez, realmente apenas mitos, lendas. Ou não.

Contudo, nada disso responde ainda ao nosso ponto principal agora: a figura de Zumbi como símbolo máximo a representar toda a uma coletividade, no atual contexto em que vivemos ainda se faz relevante? Pois em um Brasil que começava a se livrar de uma asfixiante repressão imposta pelo regime totalitário em vigor nas décadas de 1960, 1970 e 1980 se fez plenamente coerente em um momento que vozes que por longo tempo eram reprimidas querer “gritar” todo o seu ressentimento acumulado, então elegerem a figura de um guerreiro obstinado.

Logo, como conclui o pesquisador gaúcho Vinícius Finger em 2012: “Zumbi se torna o mito fundador da luta do homem negro contra os opressores” (...) feito em um “mito do invencível herói de Palmares” para assim representar uma construção moderna da identidade negra brasileira. O que nos leva a ratificar a grande questão: hoje, em meio a um crescente discurso de luta sem o uso da violência, a imagem de um símbolo que evoque a esta luta contra a desigualdade tomado de um histórico, justamente de luta violenta, guerreira, belicosa, se faz ou não controversa?

Tendo também esta mesma imagem de um guerreiro negro martirizado por opressores brancos, igualmente, ainda que não explicitamente, a possibilidade de ajudar a fomentar um dado ranço sobre esta passagem vergonhosa de nossa história. Que se por um lado ela não pode ser esquecida, por outro também não pode servir como ponta de lança para acusações às atuais gerações de erros cometidos pelos que as antecederam. Não que devamos, por outro lado, tentar encobrir, como foi feito no passado, à ferida ainda em aberto da exploração e da discriminação racial em nosso país. Porém, importando se perguntar: Zumbi ainda representa o mesmo anseio de quando foi elevado na década de 1970?

Ainda mais não faltando referências que se enquadrem neste perfil de um lutador que muito venceu sem precisar criar um sangrento confronto aberto (guerra). Como é o caso de Luiz Gama, jornalista e advogado rábula que teria conseguido a libertação de em torno de 500 escravos, além de um intenso propagandista da causa abolicionista. Um exemplo que em nada cria uma suposta ideia de acomodamento ou passividade. Quando sim o contrário.

Luiz Gama, patrono da abolição da escravidão


Ou então o mulato Nilo Peçanha que, apesar de todos os preconceitos que sofreu somada a sua origem humilde, se tornou vice-presidente e depois presidente do Brasil (de 1909 a 1910). Que apesar de suas controvérsias (como a de ter feito parte da politica do Café com Leite, dentre outras) não deixa de ser uma referência importante as atuais e futuras gerações de jovens negros sobre a possibilidade real de ascensão social em que podem se inspirar.

Citando somente dois dentre vários exemplos que poderíamos comentar, tanto como a enorme contribuição intelectual dos negros brasileiros ao nosso país e ao mundo, como foi o caso do geógrafo baiano Milton Santos. Exemplos que até, por certo, se tornam objeto de críticas aos que julguem que o combate à discriminação racial precisa ter como símbolo um “verdadeiro” guerreiro. Porém, se apegar a esta ideia não seria estar se fechando os olhos às mudanças de mentalidade?

Pois igual Isabel, princesa que assinou a Lei Áurea, a história viu seu simbolismo à identidade negra se tornar defasado, será que o vulto de Zumbi, por mais hajam resistências sobre isso, igualmente não pode estar se tornando obsoleto? Tanto que aos que justifiquem que são dois casos distintos, é interessante ver que nas redes sociais atualmente é muito comum, justamente, um esforço em dar, novamente, maior espaço a esta mesma Isabel como símbolo da causa negra. Sim, pois o “heroísmo” depende de que valores se buscam nele como, por exemplo, um crescente “saudosismo” da monarquia que assim acha interessante “resgatar” o legado de um dos seus grandes símbolos.

Logo, mais uma vez vemos uma intencionalidade na substituição de um “herói” por outro. Além, é claro de mais uma vez o extremo “herói”-“vilão”, justamente o que consideramos não precisar chegar a tanto. Pois apesar de todos os pontos negativos que são (com ou sem razão) atribuídos à sua memória não há motivos para lhe renegar à lixeira da história. Até porque enquanto um símbolo produz quaisquer efeitos benéficos que ele continue a existir, até o ponto em que ele não se torne um objeto de culto cego, idolatria inflamada, com o agravante de que a maioria de seus devotos não queira de perceber da adoração que façam, nem os riscos deste extremismo.

Logo, por mais que a perpetuação de seu simbolismo no imaginário geral se mantenha por longo tempo, sobre a sua substituição (igual antes ocorreu a Isabel) uma simples pergunta a justifica: Com quem as novas gerações de jovens negros podem mais se identificar: com um aristocrata (neto e sobrinho de monarcas que era Zumbi) ou um indivíduo em seu início marginalizado pelo sistema que o enfrentou e teve sucesso (como Luiz Gama, Nilo Peçanha, dentre outros)?

Não levando em conta nenhuma de suas polêmicas que as abordamos, até porque, inclusive, elas também se devem a uma série de fatores como os observamos anteriormente.

Portanto, a justificação de sua substituição se faz sobre a sua capacidade de melhor inspirar à posteridade com seu legado neste atual momento (e não em caráter perpétuo). O que os defensores de Zumbi, possivelmente, podem alegar que ele ainda cumpre seu papel, continuando sendo uma inspiração forte a milhões de negros em nosso país.

Mas sobre isso então pergunto: que tal inspirar a uma luta não apenas esperando concessões de fora (a reparação da dívida histórica pelas autoridades que é fato ela ser importante, mas sua concretização real esbarra em uma série de interesses)? Principalmente insistindo numa alta estima da coletividade negra que, talvez, assim, consiga chegar mais facilmente à justiça histórica que, para de fato acontecer, precisa tornar os negros protagonistas em nossa sociedade. Para isso vendo que sua história também tem vitórias.

Logo, não o jogar à lixeira da história, reitero, quando sim apenas dar vez a outra estrela ganhar mais visibilidade para atender a um novo contexto, até outro cenário possa mais uma vez exigir uma nova substituição. Por que não? Pensemos nisso...


Sobre o autor: 

LUIS MARCELO SANTOS: natural da cidade de Ponta Grossa (estado do Paraná) é professor de História da Rede Pública Estadual do estado do Paraná, Escritor e Historiador. Especialista em ensino de História e Geografia, especialista em ensino religioso e mestre em História formado pela UEPG, já publicou artigos para jornais como o Diário da Manhã e o Diário dos Campos (de Ponta Grossa) e Gazeta do Povo (de Curitiba), assim como as obras locais “A Saga do Veterano: um pouco dos 100 anos (1905-2005) em que o Clube Democrata marcou Ponta Grossa e os Campos Gerais” (em parceria com Isolde Maria Waldmann) e “Memórias e reflexões sobre um povo: Colônia Sutil”


ZUMBI DOS PALMARES: vendo mais ao homem e menos ao mito Parte 05: a luta de Zumbi.

Prosseguindo nossa saga sobre Zumbi vamos continuar a partir do ponto da luta politica em Palmares em relação ao acordo de paz proposto que vimos anteriormente. Lançado em 1678, por certo não teve resistência unicamente por parte de Zumbi, mas também de boa parte da sociedade quilombola. De modo que Ganga Zumba visto então como um entrave, acabou envenenado. Ação que não se sabe, se Zumbi veio ou não ter participação na mesma. Além de que ainda que, por mais controversa que seja, também é preciso citar uma versão diferente sobre a morte deste líder: suicídio.

Neste caso, Ganga Zumba se sentindo extremamente desgostoso com este acordo teria se matado, por mais que pareça bastante improvável. O que nesse momento não é o mais relevante. Todavia, não devendo ser ignorada, para não incorrer no risco de parcialidade. Importando sim, basicamente que, a partir desta morte, cabia a Zumbi decidir agora o futuro de Palmares, optando pela manutenção da mesma política de vizinhança vigente. Ou seja, continuando as constantes expedições de ataque aos povoados próximos como Serinhaém, Porto Calvo e Penedo. E ao que parece tiveram amplo apoio de sua gente.


Estátua em homenagem ao Zumbi dos Palmares em Porto Alegre. Fonte: https://www.correiodopovo.com.br/not%C3%ADcias/cidades/porto-alegre-ganha-est%C3%A1tua-em-exalta%C3%A7%C3%A3o-a-zumbi-dos-palmares-1.1554250


Pois ao ver de grande parte dos palmerinos, sua determinação e os esforços aumentaram o prestígio de Zumbi. Valendo lembrar que as campanhas de ataque não visavam somente tomar escravos, como também capturar armas e munições, além de saquear fazendas e estabelecimentos comerciais. Ou seja, a prosperidade econômica do quilombo estava condicionada a essa dinâmica que, os maiores beneficiados com ela, não queriam abrir mão, apesar dos riscos na insistência em manter este mesmo sistema.

Previsivelmente, quando ele ganhou autoridade, conduzindo sua estratégia agressiva, as tensões com os portugueses aumentaram rapidamente. O temor aumenta muito mais, motivo pelo qual, entre 1680 e 1686, os portugueses montaram seis expedições contra Palmares com custos significativos para o tesouro real, mas que, ao fim, nenhuma delas conseguiu derrotar Palmares. O que, à primeira vista, fazia com que Zumbi fosse visto como o governante ideal para as elites locais que assim o apoiavam, criando um governo forte, difícil de ser destruídos pelas autoridades portuguesas.

Razão pela qual, o governo colonial, paralela à repressão, tenta ainda a negociação. O que não é um sinal de consideração, mas de medo que tinham da força de Palmares. Tanto que em 1685, Dom Pedro II de Portugal mandou uma carta (atualmente na Biblioteca da Ajuda, em Portugal) para os quilombolas. Um dos trechos dizia:

"Eu, El-Rei, faço saber a vós Capitão Zumbi dos Palmares que hei por bem perdoar-vos de todos os excessos que haveis praticado, e que assim o faço por entender que vossa rebeldia teve razão nas maldades praticadas por alguns maus senhores em desobediência às minhas reais ordens. (...) Convido-vos a assistir em qualquer estância que vos convier, com vossa mulher e vossos filhos, e todos os vossos capitães, livres de qualquer cativeiro ou sujeição, como meus leais e fiéis súditos, sob minha real proteção".

Quem sabe ciente da fragilidade das forças coloniais que Zumbi, como sempre, ignorou qualquer acordo. Por outro lado, esse aumento das tensões não passava despercebido à comunidade como um todo. Entretanto, de acordo com dadas fontes (preservadas pelo vencedor, é claro) Zumbi não admitia ceder, muito menos ser contrariado com oposição ou deserção. Postura própria de um déspota, em nada diferente dos monarcas absolutistas da Europa então. Onde, o destino de todo o reino está inevitavelmente condicionado aos desejos de seu governante.

Logo, qualquer contrariedade era tratada de forma implacável, tal como o pesquisador Nina Rodrigues explica que: "Se algum escravo fugia dos Palmares, eram enviados negros no seu encalço e, se capturado, era executado pela severa justiça do quilombo”. E deste modo que sua resistência se sustentou por 15 anos.

Sim, Zumbi manteve por 15 anos sua política de hostilidade às forças coloniais. O que é bastante compreensível, diante do fato que além da localização estratégica e de suas defesas, Palmares pode ter chegado a abrigar 20 mil pessoas, sendo que só no aldeamento central, Macaco, poderia haver em torno de 06 mil pessoas. Para efeito de comparação, a cidade do Rio de Janeiro nesta época deveria ter em torno de 07 mil habitantes. Portanto, pode Zumbi meramente ter se sentido confiante o suficiente para em nada ceder. Tanto que, campanhas de extermínio ao quilombo antes já foram promovidas tanto pelos portugueses como pelos holandeses (por ocasião do governo de Maurício de Nassau).

De modo que quando o bandeirante Domingos Jorge Velho, apesar de toda a sua fama de intensa brutalidade, foi contratado pelo governador-geral de Pernambuco para dar fim a Palmares, é possível que os palmerinos não o vissem como uma grande ameaça. Tendo, inclusive, num confronto, em 1692, esse mesmo Jorge Velho sofrido uma humilhante derrota para as forças de Zumbi. Mas, como sabemos, isso não foi o fim. Tanto o orgulho, como o desejo de ser recompensado fizeram com que ele organizasse uma nova campanha, tendo demorado dois anos para reunir mais de 09 mil soldados e artilharia pesada.

O que, nos dias que se seguiram daquele ano de 1694, parecia não ser suficiente. Sua artilharia não conseguia chegar à salvo dos contra-ataques. Era necessária uma estratégia diferente, uma proteção para seus canhões chegarem perto o suficiente para arrasar com as muralhas do aldeamento.

E talvez eles tivessem falhado nisso também, caso um fato inesperado não tivesse acontecido: o descuido dos vigias das muralhas da capital do quilombo, a comunidade de Macaco, em não darem importância à montagem de uma muralha de madeira paralela à deles, pelo pessoal de Jorge Velho.

Com isso a pesada artilharia dos bandeirantes conseguiu fazer, no dia 06 de fevereiro de 1694, com que o mocambo (aldeamento) de Macaco caísse. Mas isso não era ainda o fim, visto que Zumbi teve tempo de fugir, ao que parece, para a localidade da Serra Dois Irmãos. Local onde ele pode levar a sua resistência por mais de um ano. Tendo o seu fim, acontecido não pelo poder de fogo inimigo, mas sim pelo contumaz jogo de intrigas e traições.

Para tanto que se entenda que um de seus colaboradores, de nome Antônio Soares, após ser capturado, aceitou trocar sua liberdade pela vida de Zumbi. Assim tendo este Antônio apunhalado Zumbi, em seguida, arrancando um de seus olhos e a sua mão direita. Também valendo citar a versão que diz que seu pênis foi arrancado e colocado na sua boca. Um fim humilhante que, talvez, se não fosse um descuido dos vigias em relação a muralha inimiga mandada erguer por Jorge Velho, poderia, quem sabe, não ter ocorrido.

Quadro Zumbi dos Palmares por Alex Delaterra

E quem sabe, justo pela falta de outra liderança para tomar o lugar de Zumbi que Palmares chegou ao fim. Por mais que se acredita que um novo comandante, de nome Camuanga tenha continuado a resistência até o ano de 1714. Já sobre o que se sucedeu a sua esposa Dandara (cuja versão mais aceita é que se suicidou com a tomada de Macaco em 1694) ou aos seus três filhos (Motumbo, Harmódio e Aristogíton) nada se sabe de forma confiável. Igual ocorre sobre a vida de toda família de Zumbi, incluindo ele, sua esposa, seus filhos, tios, pais e avós; as informações sobre eles, em geral, são muito esparsas e, não raro, não são plenamente confiáveis. Tanto que, ao fim importa que Palmares que tantas vezes se recuperou dos ataques, ficando ainda mais forte, nunca mais se recuperou.

Sobre assim, o que dizer? Tudo um mero erro de cálculo ou sim uma intransigência irresponsável? Para o historiador Décio Freitas em entrevista para a “Folha de S. Paulo”, em 20 de novembro de 2019 “(...) se ele (Zumbi) tivesse sido menos radical e mais diplomático, como foi seu tio Ganga-Zumba, teria possivelmente alterado os rumos da escravidão no Brasil”. Talvez. Até porque é a sua morte trágica que o faz uma referência de tamanho impacto no imaginário geral. Por mais que esta referência tenha se feito uma construção histórica relativamente recente. Tal como veremos na próxima sequência desta nossa longa jornada.

Até lá...

Sobre o autor:

LUIS MARCELO SANTOS: natural da cidade de Ponta Grossa (estado do Paraná) é professor de História da Rede Pública Estadual do estado do Paraná, Escritor e Historiador. Especialista em ensino de História e Geografia, especialista em ensino religioso e mestre em História formado pela UEPG, já publicou artigos para jornais como o Diário da Manhã e o Diário dos Campos (de Ponta Grossa) e Gazeta do Povo (de Curitiba), assim como as obras locais “A Saga do Veterano: um pouco dos 100 anos (1905-2005) em que o Clube Democrata marcou Ponta Grossa e os Campos Gerais” (em parceria com Isolde Maria Waldmann) e “Memórias e reflexões sobre um povo: Colônia Sutil”


Revolta de Vila Rica

A História Popular do Brasil tem fatos importantes e injustamente ignorados, como a Revolta de Vila Rica de 1720. Uma sedição que teve somente um executado, o português Felipe dos Santos Freire. O líder popular foi morto e esquartejado a pedido do governador da província de São Paulo e Minas do Ouro.

Antecederam a Revolta de Vila Rica, dezenas de motins contestando a autoridade real. Havia excesso de impostos, falta de alimentos, descontentamentos crescentes com o governador Dom Pedro Miguel de Almeida Portugal e Vasconcelos, também conhecido como Conde de Assumar, por poderosos locais e populares.



Gravura dá rosto ao revolucionário Felipe dos Santos. Fonte: Estado de Minas


Documentos mostram que as autoridades acusavam os rebeldes de terem como objetivo extinguir o domínio real e formar uma república. E de fato, os rebeldes elegeram um novo ouvidor geral e governador, durante uma assembleia em um exercício de autogestão. Outra acusação foi de estarem entre os rebeldes, dezenas de negros armados, e realmente os trabalhadores negros escravizados estavam participando ativamente deste motim. Eles eram os mascarados.

A participação daqueles trabalhadores que moravam nas senzalas, foi mencionada na obra clássica “Rebeliões da Senzala. Quilombos, insurreições, guerrilhas”, do sociólogo Clóvis Moura:

Na malograda revolta de Felipe dos Santos, em Minas Gerais, temos notícias da participação no movimento de “portugueses com os seus negros”, que foram presos. No dia 28 de junho de 1720, sete mascarados, juntamente com muitos pretos, armados, derivaram do morro onde se encontravam, invadindo e depredando diversas casas. Em seguida, intimaram o governador a não abrir novas casas de fundição. (1988, p. 74)

Na Revolta de Vila Rica, os "elementos cativos" participaram como aliados de outras frações de classe, sendo elementos destacados e decisivos nesta luta. À vista disso, a participação de trabalhadores negros entre os mascarados é atestada por documento assinado pelo Conde de Assumar “autorizando e recompensando a morte de mascarados”. 

Os mascarados, junto a outros rebeldes, fizeram a rebelião por diversas causas: contra a instalação das casas de fundição- que alterava a forma de cobrança do imposto do quinto, para abolir impostos cobrados para calçamento das ruas e para o sustento da Companhia dos Dragões, entre outras razões.

Mas como aconteceu a Revolta de Vila Rica? A população mascarada, armada, vinda do morro, percorre as ruas da Vila e saqueia a casa do ouvidor geral da comarca, destruindo todos os documentos e livros existentes no local. Enquanto o ouvidor Martinho Vieira Freitas fugia. Após, os rebeldes elaboram um termo com as reivindicações, na praça de Vila Rica. A petição com seis ítens é levada ao Conde de Assumar por dois representantes.

Diante da má vontade do governador, os rebeldes prendem todos os oficiais da câmara e marcham até o Conde de Assumar. Na marcha, ocorrida em 2 de julho, mais de mil pessoas, entre mineradores, artesãos, agricultores e escravizados, caminharam unidos. Eles levavam uma nova petição com mais itens e todos os oficiais presos, diretamente no palácio do governador, em Ribeirão do Carmo. A quantidade de manifestantes ia aumentando, pois muitos moradores foram aderindo ao movimento.


Julgamento de Filipe do Santos. Antônio Parreiras. Óleo sobre tela,1923. Coleção: Museu Antônio Parreiras (Juiz de Fora, Minas Gerais). Fonte: Impressões Rebeldes


Acuado, o governo oficializa um documento, chamado “Termo que se faz sobre a proposta do povo de Vila Rica na ocasião em que veio amotinado a Vila do Carmo”, contendo vinte e sete assinaturas e acatando todas as reivindicações. O povo, entusiasmado, decide nomear Mosqueira da Rosa o novo ouvidor geral da comarca, e determinam que o governador não é mais o Conde de Assumar, sim Sebastião da Veiga Cabral. Nos próximos dias, há prisões, e quebra quebras. Mas no dia 16 de julho, acaba a Revolta de Vila Rica, com a prisão de 1500 rebeldes e com a execução de Felipe dos Santos.

Anos após a execução de Felipe dos Santos, por meio de pedido da viúva dele, se verificou os “bens”, deixados pelo principal nome da Revolta de Vila Rica. Entre os pertences, há roupas femininas e cinco pessoas escravizadas: João Benguela, José Embu, Manoel Mina, Tomé Crioulo e Francisca Mina. Terá sido ela a companheira de Felipe dos Santos e a liderança que inseriu os escravizados nesta luta?

Sobre essa hipótese, falta ainda comprovação, para além de somente indícios. Desse modo, a Revolta de Vila Rica nos demonstra que progressivamente os trabalhadores negros escravizados foram se tornando a negação do sistema escravista vigente no Brasil Colonial e Império. Esta revolta considerada nativista, por visar avanços sociais -  mas sem objetivar a separação de Portugal, foi uma das inúmeras vezes que eles estiveram presentes na História Popular do Brasil, ora nos movimentos políticos  (aproveitando os tumultos para contribuir com a crise do modo de produção escravista); ora lutando sozinhos em revoltas, isolados, ou nos quilombos. Dizia Clóvis Moura que "A ação revolucionária prosseguia a sua marcha, enquanto os intelectuais na sua maioria discutiam teoria política ou aguardavam que a França viesse em socorro do Brasil" (1988, p. 80). 


Referências:

FIGUEIREDO, Luciano. Vila Rica dos motins: a revolta de 1720 e a construção da política no espaço urbano. In: Poderes e Lugares de Minas Gerais: um quadro urbano no interior brasileiro - séculos XVIII-XX.1 ed. Belo Horizonte: Grupo Editorial Scortecci, 2013, p. 63-78.

MOURA, Clóvis. Rebeliões da senzala. Quilombos, insurreições, guerrilhas. 4ª ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1988.

Gravura dá rosto ao revolucionário Felipe dos Santos. https://www.em.com.br/app/noticia/cultura/2020/09/26/interna_cultura,1189067/gravura-da-rosto-ao-revolucionario-filipe-dos-santos.shtml

Revolta de Vila Rica. https://www.historia.uff.br/impressoesrebeldes/revolta/revolta-de-vila-rica/

Sobre o autor:

Rafael Freitas: Professor de História.

Cipriano Barata: a chinelada nos reacionários

 



Cipriano Barata foi tema em destaque no livro didático "Nova História do Brasil. 500 anos de História malcontada",  escrito pelo misterioso Mario Schmidt. A obra era destinada aos estudantes do Ensino Médio e foi lançada em 1999, pela Editora Nova Geração, de São Paulo, SP. Leia o texto, na íntegra, abaixo.

Cipriano Barata era baiano, filho de tenente do exército com mulata. Estudou medicina, filosofia e matemática em Coimbra e conheceu de perto a Revolução Francesa. De volta para o Brasil, em Salvador, sua cidade natal, ficou conhecido como o médico dos pobres. Era o doutor que não cobrava consulta, o freqüentador dos terreiros de macumba, o namorador das pretas bonitas da Bahia e, antes de tudo, o agitador.

Onde houvesse uma rebelião, um protesto, um levante, lá estava Cipriano. Líder na Conjuração Baiana de 1798, na Revolução Pernambucana de 1817 e, embora preso, na Confederação do Equador. Grande jornalista, não teve papas na língua em acusar D. Pedro de tirano. Volta e meia era encarcerado, tendo estado pela última vez na cadeia com quase 70 anos de idade. Certa vez, não resistiu e deu uma surra num general reacionário. Deputado nas Cortes em Lisboa, escandalizou a todos ao propor o direito de cidadania aos escravos. Mesmo encarcerado, dava um jeito de escrever contra as autoridades. Visitado na cadeia pelo imperador, que queria vê-lo suplicando perdão, virou as costas altivamente.

Cipriano Barata poderia ter tido uma vida tranquila de intelectual à sombra dos ricos. Todavia, escolheu uma existência de combates pela liberdade e pelos direitos do povo. Foi perseguido, preso e arruinado. Jamais se arrependeu. Para ele, quaisquer sofrimentos seriam menores comparados aos de uma vida covarde, fútil e egoísta. Barata não foi um inseto asqueroso. Sabia que lutar pela liberdade, dos outros era, de alguma forma, libertar-se.

Em Lisboa, Cipriano se vestia com roupas velhas e chapéu de palha para provocar os figurões portugueses. Queria marcar sua presença como a de um homem do povo vindo da Colônia.





Republicanos e libertários: pensadores radicais da independência- Rio de Janeiro (1822), por Renato Lopes Leite


Tese para exame de doutoramento, Pós-Graduáção em Historia, Universidade Federal do Paraná- UFPR

 

RESUMO

A presente Tese pretende evidenciar a existência de um pensamento republicano no Rio de Janeiro à época da Independência do Brasil. No entretanto, o objetivo inicial deste trabalho era apreender a noção de liberdade pública dos republicanos brasileiros entre 1822-1824. Tratava-se, à época, de estudar a Confederação do Equador de forma retrospectiva. Ou seja, narrar o renascimento de um determinado republicanismo em 1822, que vai explodir na revolução confederada do norte do Brasil, em 1824. Este projeto inicial foi posteriormente redefinido, principalmente porque a documentação do ano de 1822 mostrou-se muito mais rica do que se poderia imaginar. Dentre os novos problemas que apareceram, o mais geral foi a necessidade se de investigar por que os republicanos brasileiros da Independência apoiaram o regime  monarquista de Pedro I, em 1822? Porém, para responder adequadamente a esta questão, foi necessário recorrer-se às obras de frei Caneca, Cipriano Barata e José da Natividade Saldanha, líderes da Confederação do Equador. Assim, o presente trabalho acabou se tornando a busca de um elo entre o republicanismo de 1824 e o pensamento republicano de 1822: este elo perdido se chama João Soares Lisboa, redator do periódico Correio do Rio de Janeiro.


Clique aqui para ler e estudar.

 


SOLDADO SILVIO ROBERTO VIEIRA

Já comentamos antes que não só ditos grandes atos fazem a história e agora dizemos que muito menos só os ditos grandes que a forjam. Por mais que os livros sempre comentam cruéis omissões. Tal como já mencionamos antes com um vulto de grande relevância na história das lutas indígenas, chamado Mandu Ladino que falamos sobre ele no verbete “Mandu Ladino? Quem foi Mandu Ladino?” de 15 de julho de 2015 . Ou então a brava Maria Felipa Aranha que pouco se comenta sobre sua árdua e eficaz luta contra a sociedade escravagista de seu tempo que comentamos no dia 28 de maio de 2019.

Logo, a dramática história do policial Silvio Roberto Vieira não é um caso isolado de um grande personagem ignorado pela maioria. Apesar de seu ato de coragem, mesmo de desespero a sua ação promovida em frente às câmeras, que alterou para sempre as condições de trabalho dos policiais militares, pelo menos do seu estado, Santa Catarina. Uma história que se passa num Brasil que se orgulha que de voltar à democracia, no ano de 1986 e à efervescência em discussões quanto aos direito sociais, mas que pouco difere do mesmo Brasil das oligarquias quando em 1910 estourou um levante conhecido nos livros como a Revolta da Chibata.

Pois senão vejamos: intensas horas trabalhadas, pressão nas ruas, hierarquização rígida, proibição do direito à greve, confrontos com armas de fogo e falta de acompanhamento psicológico. Uma verdadeira panela de pressão que até hoje os policiais vivem com o agravante de não terem nem sequer o direito de levar ao conhecimento geral esta situação caótica.

Foi por isso que no dia 12 de maio de 1986, esse policial, cansado das condições de trabalho e abalado psicologicamente, invadiu um programa de TV da RCE TV – Rede de Comunicações Eldorado, em Florianópolis. Portando 5 revólveres, quando ameaçou tirar a própria vida em frente às câmeras.  















Era começo de noite de uma segunda-feira, quando estava sendo apresentado o Terceiro Tempo – programa esportivo que não pode ser confundido com o mesmo atualmente no ar, transmitido pela Rede Band aos domingos. Seu apresentador Roberto Alves, da TV Cultura de Florianópolis foi pego de surpresa ao ver um homem negro, vestindo farda da polícia militar e armado com cinco revólveres calibre 38. Parecia uma cena totalmente surreal. Ou melhor, irreal, num país onde, os absurdos constantemente se tornam se realidade.

O policial Silvio estava desesperado, disse que não aguentava mais as condições de trabalho e salário. Ele expôs, com uma clara expressão de transtorno, sofrimento, angustia que com o que ganhava não dava conta de dar o mínimo de dignidade para os seis filhos. O programa continuou no ar, mesmo com o clima tenso dentro e fora do programa. Ao todo quase 30 minutos. O soldado chamou o então governador do estado, Espiridião Amin (pertencente ao PDS, antiga ARENA, partido de sustentação do Regime Militar) de vagabundo por ter descumprido suas promessas de campanha em relação aos policiais militares. O governador, diante da saia justa, querendo dar fim à situação, enviou oficiais da polícia e o chefe de Silvio para a porta do estúdio. Os quais, ao fim do incidente, o humilharam por 45 minutos, lhe acusando de ter desonrado toda a corporação com este seu ato.

Mas antes disso Silvio conseguiu expor a situação, explicando que um grupo de policiais tinha se organizado para fazer protesto, mas só ele, movido por coragem e desespero, adentrou no programa. Foi quando coronel da PM sentou ao seu lado, levando o soldado a enfiar a arma em sua boca. A imagem daquele homem negro, fardado, chorando de desespero e com uma arma na boca comoveu a opinião pública e os apresentadores. Estes, inclusive acompanharam o policial até o batalhão, e insistiram que se os superiores usassem violência, eles denunciariam ao vivo qualquer violação dos direitos de Silvio. Pois todos os que se surpreenderam com seu ato de coragem o consideravam um herói, ao ousar denunciar o péssimo tratamento fornecido pelo Estado aos agentes da lei, durante aquele programa de TV. Um duro golpe às autoridades da época que, assim, não tiveram nenhuma outra saída senão fazer alguma coisa.

Tanto que após esse ocorrido, a polícia militar de Santa Catarina passou por reformas (insuficientes, mas significativas), ainda que ao custo de Silvio ter sido expulso da corporação e condenado a quatro anos de prisão. Ainda que ele passasse toda a sua pena cumprida em regime aberto. O que não impediu que ele em seguida sofresse novas retaliações, ao ser colocado, no dia que sua pena foi encerrada, então na solitária, vestido só com uma cueca, em mais uma demonstração de autoritarismo de seus superiores. O sentimento de vingança mesquinho das autoridades exigia mais essa provação do agora ex-soldado que continuaria até o fim de sua vida a arcar com o preço de sua iniciativa.

Sem emprego, e entregue à bebida, ele passou a se oferecer para cortar grama em casas das áreas nobres de Florianópolis, contudo, não desistindo de sonhar, uma vez que em 2018, uma reportagem da TV mostrou que Silvio estava cursando a faculdade de Direito, por meio de uma Bolsa de estudos.  Contudo, ao falecer no dia 1° de março de 2021, ele encerrou uma trajetória marcada pelo alcoolismo, depressão, drogas e sérios problemas mentais. O Estado de Santa Catarina até hoje em nada admitiu a injustiça que cometeu com o soldado. E sua morte passou quase despercebida, com poucas menções sobre ela na mídia. Então que façamos nossa parte e reconheçamos o ato de coragem deste homem, invés de criticarmos seus métodos, entendendo suas motivações. Valorizando sua coragem que outros não tiveram em arcar com tal alto custo para tentar mudar algo. Logo que não deixemos cair no esquecimento à memória deste soldado Silvio Roberto Vieira.

 


 Sobre o autor:


LUIS MARCELO SANTOS: é professor de História da Rede Pública Estadual do estado do Paraná, Escritor e Historiador. Especialista em ensino de História e Geografia e mestrando em História pela UEPG, já publicou artigos para jornais como o Diário da Manhã e o Diário dos Campos (de Ponta Grossa) e Gazeta do Povo (de Curitiba), assim como a obra local (em parceria com Isolde Maria Waldmann) “A Saga do Veterano: um pouco dos 100 anos (1905-2005) em que o Clube Democrata marcou Ponta Grossa e os Campos Gerais”.