ZUMBI DOS PALMARES: vendo mais ao homem e menos ao mito PARTE 06: sobre a sua relevância como um símbolo nacional



Vimos no artigo anterior que qualquer tradição, vulto histórico, símbolo identitário se faz algo artificial, sendo a sua escolha condicionada a uma intencionalidade de quem o promove. Acontecendo que a escolha de Zumbi como um símbolo do movimento negro no Brasil, se fez pela sua imagem de um guerreiro obstinado ao fim martirizado. Escolha por este perfil a representar a identidade negra brasileira no final da década de 1970, devido ao anseio coletivo por algo que demonstrasse dali em diante, o contrário de décadas de passividade imposta pela segregação racial em nosso país.

Do mesmo modo que vimos que seu vulto, com o correr do tempo e o alvorecer do revisionismo histórico, igualmente passou a receber constantes críticas e até se tornou objeto de debates sobre a sua substituição por outro herói considerado mais “legítimo”. Fato que não se restringe somente a Zumbi, mas à maioria dos vultos históricos em voga. E é a partir deste ponto que vamos analisar a relevância de Zumbi como um símbolo nacional atualmente.

Zumbi dos Palmares, por Antônio Parreiras 


Fenômeno este, de “heróis” que atualmente se debate se deveriam dar lugar a outros (isso quando chegam mesmo a ser discutidos se não deveriam ser mandados para a lixeira da história) que, vale a pena se reforçar que não se restringe nem só a Zumbi. Muito menos ao Brasil. Pois ele se acha presente, de uma forma ou outra, nas mais variadas sociedades.

Como, por exemplo, dentre outros, a figura de William Wallace, rebelde escocês contra a invasão da Inglaterra ao seu país no século XIII e que por isso se fez um personagem muito conhecido na identidade cultural da Escócia. Em parte, também, justamente pelo seu fim trágico, semelhante ao de Zumbi. E como o líder quilombola aqui analisado, este Wallace tem tido, pela moderna historiografia, muito dos méritos, até então exaltados historicamente por seus propagandistas, agora questionados.

Sendo uma curiosidade talvez interessante o fato que um filme sobre sua vida fez grande sucesso no ano em que foi produzido, 1995, Coração Valente, estrelado pelo ator Mel Gibson.


Mas voltando à realidade de nosso país, o Brasil, “heróis” em debate sobre serem ou não vistos como tal, igualmente abundam. Como é o caso da figura do líder religioso Antônio Conselheiro, responsável pelo evento que ficou conhecido nos livros como a Guerra de Canudos (1896-1897). Que pelo ponto de vista da história tradicional foi descrito como um fanático religioso, acontecendo que o revisionismo histórico atualmente o eleva a um grande símbolo das lutas de classe.

Chegando uns até mesmo a lhe definir como um “socialista” que lutava para criar uma comunidade igualitária no meio do sertão da Bahia. E que por isso os poderosos locais se sentiram obrigados a lhe destruir. Exemplo este interessante aqui citar porque neste personagem se percebem dois extremos. Na visão tradicional um criminoso ao passo que o revisionismo cria um Conselheiro revolucionário. Ambas versões que, com um maior aprofundamento nos debates históricos, se pode concluir que igualmente não correspondem à realidade.

Pois um “herói” ou um “vilão” se faz sempre em função dos que o olham, quando se enxergam junto a interesses ou ameaças representadas na sua perpetuação de sua memória.

E, caso seja preciso mais um exemplo, o que dizer então de Luis Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, patrono do Exército e cujo nascimento hoje é o chamado dia do Soldado (25 de agosto)? Para a historiografia tradicional um herói a ponto de seu “nome” Caxias ter se tornado sinônimo de pessoa que segue à risca o que entende serem suas obrigações. Já para seus críticos um instrumento de opressão a serviço do status quo escravagista e elitista da época. Ou seja, novamente, sob um extremo ou outro. Nunca um meio termo.

Ainda mais porque além das interpretações que variam sobre os fatos já comprovados, também contribui para isso os diversos mitos que para muitos se confundem com a realidade. Principalmente por serem, não raro, mais interessantes no intento de se justificar um dado ideal pregado.

Como o fato de que é provável, como já vimos antes, que Zumbi talvez nunca tenha vindo a ser escravo. Mas esta versão o torna mais cativante como um símbolo de luta contra a opressão e a exploração. Tal qual não se pode afirmar com plena certeza que ele foi de todo contrário a um acordo de paz conduzido por seu tio Ganga Zumba (que neste caso, talvez ele possa ter tentado apenas exigir maiores vantagens neste pacto, que assim o inviabilizou). Por ora, apenas incertezas e, talvez, realmente apenas mitos, lendas. Ou não.

Contudo, nada disso responde ainda ao nosso ponto principal agora: a figura de Zumbi como símbolo máximo a representar toda a uma coletividade, no atual contexto em que vivemos ainda se faz relevante? Pois em um Brasil que começava a se livrar de uma asfixiante repressão imposta pelo regime totalitário em vigor nas décadas de 1960, 1970 e 1980 se fez plenamente coerente em um momento que vozes que por longo tempo eram reprimidas querer “gritar” todo o seu ressentimento acumulado, então elegerem a figura de um guerreiro obstinado.

Logo, como conclui o pesquisador gaúcho Vinícius Finger em 2012: “Zumbi se torna o mito fundador da luta do homem negro contra os opressores” (...) feito em um “mito do invencível herói de Palmares” para assim representar uma construção moderna da identidade negra brasileira. O que nos leva a ratificar a grande questão: hoje, em meio a um crescente discurso de luta sem o uso da violência, a imagem de um símbolo que evoque a esta luta contra a desigualdade tomado de um histórico, justamente de luta violenta, guerreira, belicosa, se faz ou não controversa?

Tendo também esta mesma imagem de um guerreiro negro martirizado por opressores brancos, igualmente, ainda que não explicitamente, a possibilidade de ajudar a fomentar um dado ranço sobre esta passagem vergonhosa de nossa história. Que se por um lado ela não pode ser esquecida, por outro também não pode servir como ponta de lança para acusações às atuais gerações de erros cometidos pelos que as antecederam. Não que devamos, por outro lado, tentar encobrir, como foi feito no passado, à ferida ainda em aberto da exploração e da discriminação racial em nosso país. Porém, importando se perguntar: Zumbi ainda representa o mesmo anseio de quando foi elevado na década de 1970?

Ainda mais não faltando referências que se enquadrem neste perfil de um lutador que muito venceu sem precisar criar um sangrento confronto aberto (guerra). Como é o caso de Luiz Gama, jornalista e advogado rábula que teria conseguido a libertação de em torno de 500 escravos, além de um intenso propagandista da causa abolicionista. Um exemplo que em nada cria uma suposta ideia de acomodamento ou passividade. Quando sim o contrário.

Luiz Gama, patrono da abolição da escravidão


Ou então o mulato Nilo Peçanha que, apesar de todos os preconceitos que sofreu somada a sua origem humilde, se tornou vice-presidente e depois presidente do Brasil (de 1909 a 1910). Que apesar de suas controvérsias (como a de ter feito parte da politica do Café com Leite, dentre outras) não deixa de ser uma referência importante as atuais e futuras gerações de jovens negros sobre a possibilidade real de ascensão social em que podem se inspirar.

Citando somente dois dentre vários exemplos que poderíamos comentar, tanto como a enorme contribuição intelectual dos negros brasileiros ao nosso país e ao mundo, como foi o caso do geógrafo baiano Milton Santos. Exemplos que até, por certo, se tornam objeto de críticas aos que julguem que o combate à discriminação racial precisa ter como símbolo um “verdadeiro” guerreiro. Porém, se apegar a esta ideia não seria estar se fechando os olhos às mudanças de mentalidade?

Pois igual Isabel, princesa que assinou a Lei Áurea, a história viu seu simbolismo à identidade negra se tornar defasado, será que o vulto de Zumbi, por mais hajam resistências sobre isso, igualmente não pode estar se tornando obsoleto? Tanto que aos que justifiquem que são dois casos distintos, é interessante ver que nas redes sociais atualmente é muito comum, justamente, um esforço em dar, novamente, maior espaço a esta mesma Isabel como símbolo da causa negra. Sim, pois o “heroísmo” depende de que valores se buscam nele como, por exemplo, um crescente “saudosismo” da monarquia que assim acha interessante “resgatar” o legado de um dos seus grandes símbolos.

Logo, mais uma vez vemos uma intencionalidade na substituição de um “herói” por outro. Além, é claro de mais uma vez o extremo “herói”-“vilão”, justamente o que consideramos não precisar chegar a tanto. Pois apesar de todos os pontos negativos que são (com ou sem razão) atribuídos à sua memória não há motivos para lhe renegar à lixeira da história. Até porque enquanto um símbolo produz quaisquer efeitos benéficos que ele continue a existir, até o ponto em que ele não se torne um objeto de culto cego, idolatria inflamada, com o agravante de que a maioria de seus devotos não queira de perceber da adoração que façam, nem os riscos deste extremismo.

Logo, por mais que a perpetuação de seu simbolismo no imaginário geral se mantenha por longo tempo, sobre a sua substituição (igual antes ocorreu a Isabel) uma simples pergunta a justifica: Com quem as novas gerações de jovens negros podem mais se identificar: com um aristocrata (neto e sobrinho de monarcas que era Zumbi) ou um indivíduo em seu início marginalizado pelo sistema que o enfrentou e teve sucesso (como Luiz Gama, Nilo Peçanha, dentre outros)?

Não levando em conta nenhuma de suas polêmicas que as abordamos, até porque, inclusive, elas também se devem a uma série de fatores como os observamos anteriormente.

Portanto, a justificação de sua substituição se faz sobre a sua capacidade de melhor inspirar à posteridade com seu legado neste atual momento (e não em caráter perpétuo). O que os defensores de Zumbi, possivelmente, podem alegar que ele ainda cumpre seu papel, continuando sendo uma inspiração forte a milhões de negros em nosso país.

Mas sobre isso então pergunto: que tal inspirar a uma luta não apenas esperando concessões de fora (a reparação da dívida histórica pelas autoridades que é fato ela ser importante, mas sua concretização real esbarra em uma série de interesses)? Principalmente insistindo numa alta estima da coletividade negra que, talvez, assim, consiga chegar mais facilmente à justiça histórica que, para de fato acontecer, precisa tornar os negros protagonistas em nossa sociedade. Para isso vendo que sua história também tem vitórias.

Logo, não o jogar à lixeira da história, reitero, quando sim apenas dar vez a outra estrela ganhar mais visibilidade para atender a um novo contexto, até outro cenário possa mais uma vez exigir uma nova substituição. Por que não? Pensemos nisso...


Sobre o autor: 

LUIS MARCELO SANTOS: natural da cidade de Ponta Grossa (estado do Paraná) é professor de História da Rede Pública Estadual do estado do Paraná, Escritor e Historiador. Especialista em ensino de História e Geografia, especialista em ensino religioso e mestre em História formado pela UEPG, já publicou artigos para jornais como o Diário da Manhã e o Diário dos Campos (de Ponta Grossa) e Gazeta do Povo (de Curitiba), assim como as obras locais “A Saga do Veterano: um pouco dos 100 anos (1905-2005) em que o Clube Democrata marcou Ponta Grossa e os Campos Gerais” (em parceria com Isolde Maria Waldmann) e “Memórias e reflexões sobre um povo: Colônia Sutil”


ZUMBI DOS PALMARES: vendo mais ao homem e menos ao mito PARTE 06: o surgimento do mito



Antes de qualquer outra observação sobre o fenômeno do símbolo Zumbi, precisamos agora nos ater a alguns pontos básicos sobre como surge a imagem de um herói que passa a representar toda uma coletividade. Pois de outro jeito corremos risco de fazer uma análise extremamente parcial, meramente pendendo para um lado ou para outro. Ou exaltando ou difamando a este personagem. Justo, o contrário do que queremos fazer aqui que tentar encontrar uma visão mais próxima possível de quem foi realmente Zumbi dos Palmares. Assim como ele de fato se tornou o vulto de tamanho impacto no imaginário popular que hoje conhecemos.

Então primeiramente temos que ver como se forma a figura de um herói em qualquer lugar, qualquer tempo. Para tanto observemos que todo o herói em um imaginário coletivo surge para preencher aos anseios ideológicos deste mesmo coletivo em questão. Podendo este herói representar a um grupo que detém o poder ou mesmo a um grupo, de algum modo, excluído, marginalizado. Tanto um grupo em situação privilegiada como em condições, de alguma forma, desfavoráveis. Sendo que no primeiro caso, comumente este herói é lembrado por suas vitórias, ao contrário dos heróis dos grupos mais oprimidos ele é lembrado justamente por seus fracassos, por suas derrotas, por assim dizer.

Ou seja, diante da falta de sucessos que possam ser atribuídos a este herói, ele passa a ser exaltado pelo que pode ser entendido como o seu sacrifício (martírio) que, por sua vez, o que se entende como sua coragem e/ou idealismo, como um modelo de admiração a todo um grupo. Ou seja, não sendo possível este herói ser admirado por suas conquistas, é preciso encontrar nele outros elementos a despertar a admiração dos que venham a se sentir representados por este ídolo a ser escolhido para lhes representar. Neste caso, também, pode acontecer que a figura deste herói alimente uma ideia romântica de que os que sofrem ao fim serão consolados, os agora derrotados um dia terão a justa vitória.

Sendo um exemplo desta afirmação, o povo hebreu, no Velho Testamento, que sofre a escravidão no Egito, assim como é oprimido por povos variados (como os assírios, egípcios, os babilônicos, etc.), seus profetas sofrem perseguições, dentre outros tormentos que são destacados com o intuito de passarem a mensagem de que os males que os afligem são a provação se eles são, de fato, o povo escolhido por Deus. E, portanto, a vitória, ao fim estará com eles. A despeito de que isso acontecerá em um futuro que não tem previsão de quando poderá vir a acontecer. Ademais cabendo basicamente entendermos que qualquer símbolo/herói de uma coletividade se faz o elemento que permite um sentimento de identidade, pertencimento, empoderamento a um coletivo que se sente representado por ele.

Ou seja, um herói derrotado precisa tanto criar um sentimento de agregamento ao grupo que se espera que ele represente, como também precisa criar uma expectativa de triunfo, compensação futura quando essa coletividade se entende como desamparada, sofredora. Passando a ver este seu símbolo quando exaltado, adorado, como um reflexo de uma expectativa igual de em um futuro a grandeza, o triunfo, igualmente vir a seus adoradores.

Entendido isso, torna-se fácil constatar porque a coletividade negra em nosso país, como qualquer outra coletividade, igualmente precisava ter um herói que a representasse como um todo, congregando todas as demais diferenças possíveis, de forma que todos, por meio deste símbolo, se entenderiam como negros e herdeiros das lutas contra um sistema de exploração atroz - que foi a vergonhosa existência do sistema escravagista no Brasil.

Tanto que por ocasião da abolição total da escravidão em nosso país, este símbolo para o orgulho negro não se fez Zumbi, mas sim a Princesa Isabel de Bragança, filha de Dom Pedro II e responsável pela assinatura da lei Aurea, em 13 de maio de 1888. O que pode parecer estranho, a escolha de uma personagem branca, ligada a elite da época como representante da identidade de um coletivo marginalizado, oprimido. Contudo, como toda tradição, de alguma forma inventada, pois condicionada a dados interesses, o fim da escravidão se nutriu de uma intencionalidade voltada a “amenizar” a memória dos conflitos entre brancos e negros, se fazendo a princesa Isabel, assim, o símbolo ideal para atender a esse objetivo.


Princesa Isabel

De forma que por muito tempo a data de 13 de maio passou a ser celebrada como um elemento de identidade negra, presente inclusive em várias entidades negras, em todo o país, que por isso eram denominadas como 13 de Maio. O que aconteceu não pela falta de personalidades negras na época que combateram a escravidão neste mesmo período em que a Lei Aurea foi assinada. Tanto que houve sim grandes protagonistas neste sentido como, por exemplo, Luiz Gama e André Rebouças. Contudo, a mentalidade racista e eugenista presente no final do século XIX até a metade do século XX, queria justamente apagar essa passagem da história (o ressentimento pelos séculos de escravidão) e por consequências, aos descendentes dos envolvidos nela. Mas enfim, importando dizer que dali em diante a identidade negra, independente de ter ou não participado desta escolha, tinha agora um símbolo a lhe representar.

Dado que a mentalidade racista e eugenista presente no final do século XIX até a metade do século XX, queria justamente apagar essa passagem da história (a escravidão) e por consequências, aos descendentes dos envolvidos nela. Ou seja, um interesse em apagar ao máximo a memória de todo o protagonismo dos negros em sua luta.

O que só mudaria com o surgimento de uma nova intelectualidade com um pensamento diferente da visão elitista em voga no final do século XIX e o estouro de um anseio reprimido por décadas de maior valorização que chega ao seu ápice por ocasião do declínio do brutal regime militar em nosso país que durou de 1964 a 1985. Quando agora não só se viam os militantes negros buscando por maior valorização social que cria a necessidade de um herói negro, como também que representasse a ideia de resistência à atual estrutura de caráter sócio politica de nosso país, onde historicamente uma maioria demograficamente era feita uma minoria em termos de direitos sociais.

É a partir deste contexto se forma, a partir de 1978, o mito identitário de Zumbi dos Palmares começa a se formar. Momento em que a data de 20 de novembro, também começa a ocupar espaço nesta novo entendimento que então está se formando. Devendo se compreender mito identitário no sentido de se buscar num vulto histórico, como representação de um ideal e não necessariamente observar ao homem real por trás dela. O que não quer dizer que a escolha de sua pessoa se fez meramente aleatória ou mesmo totalmente forjada. De modo algum.

Pois, primeiramente é um fato incontestável que a manutenção de sua memória ao longo de séculos, apesar dos esforços das autoridades coloniais escravagistas em fazê-la cair no esquecimento, mostra que ele não se fez um herói de todo “fabricado”. Assim o dizendo, pois outros como, por exemplo, Joaquim José da Silva Xavier (o Tiradentes) igualmente se fez um personagem condenado ao esquecimento pelos seus algozes que, do mesmo modo, se tornou um símbolo semelhante a Zumbi. Tanto na exaltação, como nas críticas atualmente em voga sobre o seu legado.

E que, tanto um como outro, alcançou a sua posição no imaginário geral, para atender a uma necessidade ideológica. Vindo de cima para baixo, seja Tiradentes por obra do governo republicano no final do século XIX, seja Zumbi pelos intelectuais que precisavam de um símbolo que representasse justamente a luta e não a espera por concessões. Por mais que o processo concluído com o dia de 13 de Maio de 1888, em nada se fez uma concessão e personalidades negras, como os já citados Gama e Rebouças tem sim grande mérito nesta luta.

Tanto que para finalizarmos nossa jornada em busca do homem por trás do mito identitário, o Zumbi dos Palmares como homem e como símbolo; precisamos agora refletir sobre os aspectos positivos e negativos dele figurar como o principal representante de um ideal de classe. Pois é importante se discutir às motivações e desdobramentos de duas correntes opostas: defensores irrestritos de Zumbi e críticos revisionistas sobre o seu papel real na história. Por isso no próximo artigo abordaremos sobre isso, finalizando nossa longa, mas necessária jornada sobre a sua trajetória que transcende que a sua mera existência.

Haja vista quantos aspectos nós encontramos a refletir sobre o ambiente antes de seu nascimento que o pode ter assim moldado, tanto quanto aos impactos de sua memória atualmente.

Sobre o autor:

LUIS MARCELO SANTOS: natural da cidade de Ponta Grossa (estado do Paraná) é professor de História da Rede Pública Estadual do estado do Paraná, Escritor e Historiador. Especialista em ensino de História e Geografia, especialista em ensino religioso e mestre em História formado pela UEPG, já publicou artigos para jornais como o Diário da Manhã e o Diário dos Campos (de Ponta Grossa) e Gazeta do Povo (de Curitiba), assim como as obras locais “A Saga do Veterano: um pouco dos 100 anos (1905-2005) em que o Clube Democrata marcou Ponta Grossa e os Campos Gerais” (em parceria com Isolde Maria Waldmann) e “Memórias e reflexões sobre um povo: Colônia Sutil”



ZUMBI DOS PALMARES: vendo mais ao homem e menos ao mito PARTE 04: enfim o nosso personagem principal em seu início.

Finalmente chegamos ao nosso personagem central propriamente. Uma espera longa, concordo, mas infelizmente necessária. Pois por causa dela, agora é mais fácil o entender melhor sem nos levarmos por julgamentos pré concebidos. Nem como um símbolo imaculado, nem como uma vergonha da história. Apenas como um fruto do meio que o forjou. O que permite se continuar a ver Zumbi como um símbolo de luta, ao mesmo tempo que agora se entende que ele se faz uma ideia muito maior do que o homem que foi.

Como, aliás, todos os governantes que se perpetuaram no poder, até morrerem ou serem derrubados são, no mínimo, suspeitos de merecerem de fato grande admiração. Não que se defenda a lixeira da história para todos. Mas sim que sirvam apenas para sustentar uma ideia sem a idolatria, sem a idealização cega. Até mesmo para que assim consigamos melhor refletir as contradições que até hoje persistem, entre o idealizado e o realizado: ao não nos negarmos a reconhece-las e refleti-las.

Pois é fato que temos uma tendência, sem se perceber, achar normal dadas contradições, quando elas envolvem aquilo que temos devoção, admiração; querendo então justificar a elas, ou mesmo negá-las. Como é o caso de Palmares em que desde já podemos concluir que seria algo excepcionalmente revolucionário, muito acima de seu tempo, ele se tivesse sido diferente das únicas referencias que conheceu: Congo e a sociedade colonial portuguesa no Brasil. Que o poderia ter sido, mas, não o foi. Teria sido muito difícil ter sido diferente. Portanto, desde já, julgar Palmares ou negar as contradições que ele tinha dentro de si não tira o seu mérito de toda a incrível história que forjou.

Tal qual nosso personagem central, Zumbi, ao qual, nunca é demais dizer que a maior parte da sua vida é contada por fontes orais que, inevitavelmente, com o correr do tempo, começaram a se desdobrar em diferentes versões. Não diferente, inclusive do que vimos sobre sua mãe Aqualtune, onde lacunas e contradições sobre a sua vida são gritantes, exceto aos que a idealizam e não percebem que o ideal que ela representa não depende de uma dada versão a se contar. E quem sabe outras versões até a façam ainda mais incrível, apaixonante, se pararmos a pensar melhor.

Zumbi em História em Quadrinhos. Fonte: https://universohq.com/noticias/hq-sobre-zumbi-dos-palmares-busca-financiamento-no-catarse/

Como, por exemplo, a possibilidade de uma Aqualtune, que já vimos antes, sem origem nobre, que se de fato foi responsável por ter criado tão descomunal comunidade, Palmares, isso até a torna ainda mais inspiradora. E que digo, se de fato, em razão de que não existem evidências quaisquer que confirmem ou desmintam nenhuma das afirmações que se fazem sobre ela. Tal como sobre Zumbi que, até sua idade adulta, tudo que se diz sobre ele é pura incerteza. Talvez realidade, talvez pura lenda. Por ora, impossível afirmar.

Como sobre a afirmação de que por um tempo Zumbi sentiu na pele o que era ser escravizado, apesar de ele ter nascido um homem livre em Palmares. A qual se diz que ele quando tinha apenas seis anos de idade foi capturado e levado para a vila de Porto Calvo. Deste modo ele teria se tornado propriedade de um padre chamado Antônio Melo. E ainda de acordo com esta história em questão ele teria ganhado o nome de Francisco, assim o vivendo até ter conseguido fugir já com uns 15 anos de idade e voltar para seu lar em Palmares onde seu tio Ganga Zumba era agora o monarca.

Representação de Ganga Zumba. Fonte: https://www.todamateria.com.br/ganga-zumba/

Talvez de fato, talvez um mito somente para o tornar mais heroico aos seus idealizadores, uma vez que não podemos descartar a possibilidade de que, igualmente ele possa nunca ter conhecido a condição de escravo. Somente sendo certo que quando adulto Zumbi passa a se envolver diretamente nas questões politicas de Palmares, primeiramente como um chefe militar. O que não era pouco, visto que há décadas o quilombo vivia um impasse cada vez mais insustentável com a sociedade colonial escravagista de que ele era vizinho. E Zumbi, ao que parece, se mostrou um líder militar excepcional.

Como por exemplo, no ano de 1675, quando em um confronto contra os soldados portugueses comandados pelo Sargento-mor Manuel Lopes, o jovem Zumbi revela-se desde já um grande guerreiro e organizador militar, tendo apenas 20 de idade (isso mesmo, se considerarmos seu nascimento em 1655). Quando a tropa portuguesa comandada por esse Manuel Lopes, depois de uma batalha sangrenta, ocupou um mocambo (aldeamento) com mais de mil choupanas. Parecia uma vitória certa, mas o desfecho final neste conflito em especial era questão de tempo.

Pois após uma retirada de cinco meses, Zumbi desferiu um contra-ataque, obrigando este Manuel Lopes a fugir para Recife. E após essa vitória Palmares se estendia então da margem esquerda do São Francisco até o Cabo de Santo Agostinho. O trabalho de quase um século (pois se crê que Palmares teve início em 1580) se via em mais de duzentos quilômetros de extensão, formando um governo com uma rede de onze mocambos, que se assemelhavam as cidades muradas medievais da Europa, mas que no lugar das pedras havia paliçadas de madeira. O principal mocambo, o que foi fundado pelo primeiro grupo de escravos foragidos, ficava na Serra da Barriga e levava o nome de Cerca do Macaco.

Contudo, justamente pelo seu tamanho (e consequentemente força) Palmares era uma questão urgente para as autoridades coloniais conter. E, portanto, as ameaças eram constantes. Pois apesar da eficiente defesa da comunidade pela combinação de sua localização de difícil acesso e majestosas muralhas de madeira, o governo português na região cada vez mais está disposto a lhe dar fim, pelo meio que fosse. Isso principalmente por causa da questão dos ataques que Palmares promovia às fazendas para levarem seus escravos com eles. Devendo se reforçar que estes escravos, todavia, não ganhavam a liberdade em Palmares.

A despeito de que o mito que se criou sobre isso até hoje divide opiniões e emoções. E que já era uma realidade antes de Zumbi assumir o poder. Logo, ignorando esta disputa ideológica, podemos ver que Palmares era basicamente uma verdadeira nação que queria apenas se fazer respeitar como um Estado livre da subordinação portuguesa.

Ou seja, a luta de Palmares neste quesito era para a sua sobrevivência politica e pela defesa de uma classe. Mas isso não impede que sua memória se faça uma referência de luta, desde que havendo o cuidado de não deixar levar pela ilusão da luta idealizada por muitos. Por mais que isso também nos permite olhar então para outras referências, não com a intenção de substituir, mas complementar. Mostrando assim que há muitos mais exemplos que sendo então mais conhecidos, só fazem reforçar a verdade dos fatos que a luta sempre existiu, que nunca houve acomodamento de uma classe e que em diferentes momentos, pessoas se fizeram protagonistas dignas de inspirar as atuais gerações.

Inclusive quanto a compreensão de cada momento. Como, por exemplo, Palmares que, no caminho que seguia, só tinha duas opções: vencer a um império muito maior que ele ou acabar por ele, um dia, destruído. A luta não tinha condições de se sustentar eternamente. Pois a sobrevivência de toda uma estrutura de exploração dependia que o governo colonial desse fim a estes ataques, fosse pela diplomacia, fosse pelo ferro e o fogo. Portanto, desde já, vale a pena se considerar, que Ganga Zumba, o antecessor de Zumbi, que estava a considerar um tratado de paz estivesse vendo a real dimensão da condição politica de seu reino.

Diferente de outros entre ele que, por certo, viam a esta diplomacia (que envolvia o fim dos ataques para captura de escravos) como uma ameaça à economia de Palmares. Preferindo assim se apegar à ideia de que, independente de por quanto tempo resistissem, ainda o poderiam continuar a manter a mesma postura por muito mais tempo. Logo, subestimando ao inimigo.

O que leva a um ponto controverso não só sobre Zumbi como ao seu tio Ganga Zumba. Quando no ano de 1678 o governador da capitania (divisão administrativa equivalente a um estado hoje) de Pernambuco vendo o esgotamento do longo conflito com Palmares decidiu firmar um acordo de paz. Sim, apesar dos pesares, um fato considerável ao mostrar que o governo colonial não era tão onipotente a ponto de desprezar a possibilidade de um acordo pacífico. Desde que esse não ameaçasse, de forma alguma, a toda uma estrutura de exploração que era conveniente aos mais diversos extratos da sociedade da época.

Tanto que Palmares existindo, a esta altura dos fatos, era até mais interessante ser preservada do que destruída, mas desde que cessassem os ataques às vilas e aos poderosos locais. As autoridades do governo colonial se viam já desgastadas com os inúmeros ataques que, temporariamente, até conseguiam a destruição de mocambos que, todavia, ao fim, conseguiam ser reconstruídos, voltando a ser como antes. E além disso, Palmares já criara uma dada dependência às áreas vizinhas que a viam como um polo econômico importante.

Para tanto que se entenda: os habitantes desses mesmos mocambos faziam esteiras, vassouras, chapéus, cestos e leques com a palha das palmeiras, extraiam óleo da noz de palma, faziam vestimentas com cascas de algumas árvores, produziam manteiga de coco, plantavam milho, mandioca, legumes, feijão e cana e comercializavam seus produtos com pequenas povoações vizinhas, de brancos e mestiços.

Sendo assim o governador propôs ao chefe Ganga Zumba a paz e a alforria para todos os quilombolas de Palmares. Ganga Zumba, talvez o sendo realista e pragmático aceita, mas o (quem sabe) idealista (ou intolerante) Zumbi é contra. Na versão de seus admiradores mais ardorosos, isso acontece porque ele não admite que alguns negros sejam libertos e outros continuem escravos. Porém, é muito mais certo crer que o temor do impacto econômico pelo fim dos ataques, minasse muito da prosperidade do quilombo, que tenham sido o único motivo de sua oposição ao acordo. Por mais que não se possa afirmar diante da falta de provas mais consistentes.

E aos que achem absurdo isso, vejamos que o Império colonial português tirava muito de sua riqueza igualmente com a captura e exploração de escravos, pessoas que não escolheram essa condição. Riqueza esta, à custa de cruel trabalho forçado que se via ameaçada pela concorrência de Palmares que tomava a mão de obra dos ricos proprietários que, por sua vez, querem que o governador resolva esta questão de uma vez por todas.


A qual já vimos que pela força, há décadas se fazia um recurso falho. Por isso agora era feita uma tentativa de acordo mostrando inclusive como Palmares tinha o temor de seus inimigos e por causa deste temor o respeito deles. Um ponto importante frisar até mesmo para não se desfazer porque o fato de que Palmares mereceu, ao longo da história, ser o quilombo mais lembrado no imaginário geral até hoje. Porém, se estivéssemos no lugar dos palmarinos qual seria nossa escolha: uma sobrevivência controversa ou uma morte heroica? Compreendem?

Mas enfim, como já vimos, o acordo basicamente consistia em troca do quilombo reconhecer a autoridade do governo português sobre eles, Palmares teria a liberdade garantida a todos os que já eram livres. Ou seja, uma situação de vassalagem semelhante ao que aconteceria no final do século XIX no próprio reino do Congo com o manicongo (rei) Dom Pedro VI. Portanto, ou a sobrevivência ao ver de alguns obscura ou o martírio romantizado.

Já que aceitando o acordo Palmares sobreviveria, talvez até os dias de hoje, como ocorre a várias outras comunidades quilombolas, todavia, sem a queda de um dos mais temidos quilombos pelas forças opressoras, a atual identidade negra em nosso país não teria hoje o seu maior símbolo. Valendo frisar que nunca houve a necessidade um só, um único símbolo, diante de tantos exemplos que a história ainda ignora. Pois, haviam somente duas opções para Palmares: ceder ou morrer. Morte que mesmo hoje sendo uma inspiração, também não deixou de ser um grande holocausto.

Talvez, talvez eu repito, para Ganga Zumba a sobrevivência de seu reino era o mais importante, preferindo não subestimar à crescente ameaça das forças coloniais. E quem sabe por subestimarem ao poderio inimigo que muitos podem ter visto como inadmissível este acordo. Dentre os quais, o seu sobrinho Zumbi. Por mais que brigas pelo poder nas monarquias, envolvendo deposições ou, até mesmo, assassinatos sempre fossem comuns ao longo da história. Portanto, se sua oposição ao tio se fez uma questão ideológica ou mero interesse pelo poder que cada um tire suas conclusões.

Logo, em nossa continuação iremos se ater à saga de Zumbi como o líder supremo de Palmares e a sua luta que, ao contrário do senso comum, não terminou de forma rápida, tendo se mantido por exatos 15 anos ainda.

Até lá....

Sobre o autor:


LUIS MARCELO SANTOS: natural da cidade de Ponta Grossa (estado do Paraná) é professor de História da Rede Pública Estadual do estado do Paraná, Escritor e Historiador. Especialista em ensino de História e Geografia, especialista em ensino religioso e mestre em História formado pela UEPG, já publicou artigos para jornais como o Diário da Manhã e o Diário dos Campos (de Ponta Grossa) e Gazeta do Povo (de Curitiba), assim como a obra local (em parceria com Isolde Maria Waldmann) “A Saga do Veterano: um pouco dos 100 anos (1905-2005) em que o Clube Democrata marcou Ponta Grossa e os Campos Gerais”.

ZUMBI DOS PALMARES: vendo mais ao homem e menos ao mito PARTE 02: o início de tudo, o reino do Congo

 

Prosseguindo nossa busca pelo homem conhecido como Zumbi dos Palmares, precisamos ver as versões sobre sua origem que antecedem ao seu nascimento. Pois não tem outro jeito se quisermos buscar de fato entender a este personagem. Uma vez que todo personagem tem uma origem que o influencia na direção que o consagra. Logo, temos que conhecer um pouco dos fatos que o antecedem. Para ser mais exato, teremos de nos ater primeiramente às origens de sua família, ainda na África.

Começando por sua avó que seria uma princesa africana, do reino do Congo, chamada Aqualtune e a dinastia (Casa Real) a qual pertencia, assim como as suas relações de poder. O que nós veremos a partir do que foi o primeiro contato já registrado com os europeus, quando esse Reino do Congo era um estado altamente desenvolvido no centro de uma extensa rede comercial. Além dos recursos naturais e do marfim, o país fabricava e comercializava artigos de cobre, metais ferrosos, tecidos de ráfia (fibra têxtil de palmeiras) e também cerâmica.

Contudo, a prosperidade deste reino do Congo se deveu também a outro fator: a escravidão. Sim, ela já existia no Congo muito antes da chegada dos portugueses, e as primeiras cartas de Afonso I (nome de batismo do rei Nepemba Angiga, um dos mais poderosos monarcas do Congo) muito bem mostram a existência de mercados de escravos. E assim nas décadas seguintes ao ano de 1531 o Reino do Congo, entrando em contato com os portugueses tornou-se uma importante fonte de escravos para os comerciantes portugueses e outras potências europeias.

Firmando assim uma parceria tão interessante aos monarcas negros do Congo que o rei governante, na época da descoberta dos portugueses, em 1485, Anzinga a Ancua, decidiu se converter ao cristianismo para uma melhor relação com os visitantes. E como forma de homenagear o rei de Portugal João II, Anzinga adotou o nome real de João I. Iniciando deste modo uma longa e vantajosa parceria entre as duas monarquias. O que mostra que, ao menos, por algum tempo, Portugal e Congo foram grandes aliados.

Informações que podem levar muitos a se perguntar o que isso tem haver com Zumbi dos Palmares. E desde já podemos dizer que cada uma destas etapas que antecedem nosso personagem, este Zumbi, nos ajudam a entender dados pontos polêmicos que figuram sobre o legado deste mesmo Zumbi. Como, por exemplo, agora por meio deste cenário ajudando desde já sobre o argumento de ele ter tido escravos. Que, caso verdade, pelo que vimos, apesar dos pesares, se faz algo compreensível.

E aos que se assustem com isso vejamos como no reino do Congo, como em várias outras regiões da África, Ásia, América e Europa a escravidão não era apenas uma prática normal. Era até mais, se fazendo um motor da economia e das relações de poder ao longo da história. Isso mesmo.

Confuso este ponto? Talvez... E então, se assim, vejamos um simples exemplo. Este Afonso I comentado anteriormente não fez das guerras para a captura de cativos somente uma vultosa fonte de renda para si, como com elas ele ampliou seus domínios nas localidades fronteiriças ao sul e leste de seu reino. O que antes de se fazer julgamentos sobre isso, então fica a pergunta: seria ele diferente de um Júlio César que se tornou famoso também por ter invadido e anexado a Gália (hoje França), escravizando a muito dos seus povos originais? Teria este monarca africano maior demérito que um Gengis Khan que massacrou, chantageou pelo terror e escravizou incontáveis povos para criar um dos maiores impérios do mundo?

Creio que não, nada o diferencia destes, como ele também muito se iguala a outros que a história inclusive os lembra pelo título de o Grande, como Ramsés II do Egito, Alexandre da Macedônia, Justiniano do império Bizantino, Carlos (Magno) imperador dos Francos, dentre outros. Que em geral as pessoas tendem a não querer ver que as épocas de ouro criadas por eles se fizeram a custo de roubos (chamadas de conquistas) e escravidão (explicita ou mais sutil).

Compreendido isso, torna-se fácil entender que a prática da escravidão entre dados monarcas africanos, incluindo os de Congo era uma prática comum e extremamente lucrativa. Uma realidade em nada diferente da que esta possível avó de Zumbi, Aqualtune, veria a conhecer quando enviada como escrava para o Brasil. Isso mesmo, enviada como escrava. O que explicaremos melhor mais adiante. Uma polêmica por vez para irmos tratando. Tudo bem? Tanto quanto, com isso que vimos, é fácil perceber que a classe dirigente de Congo formava um governo absolutista, autocrático a quem a população restava apenas a submissão sem contestações. Ou seja, nada diferente de nenhum governo no mundo nesta época então.

Deste modo Palmares que seria fundado por esta mulher, naturalmente era guiado pela mentalidade escravagista e aristocrática presente tanto na África como neste “novo” mundo em que agora se achavam suas lideranças. Fato que nos ajuda a entender o que o historiador José Murilo de Carvalho, em sua obra "Cidadania no Brasil" entende que neste contexto "os quilombos mantinham relações com a sociedade que os cercavam, e esta sociedade era escravista”, de modo que “Não existiam linhas geográficas separando a escravidão da liberdade".

Não querendo com isso justificar a cruel exploração humana, mas mostrar que o quilombo de Palmares e as sociedades africanas em geral não teriam porque ter a obrigação de serem moralmente mais elevadas que as outras coletividades da sua época. Essa evolução de pensamento levou muito tempo para se formar e ainda mais para se consolidar.

Por mais que há os que justificam que a escravidão nos quilombos, incluindo Palmares, em nada se assemelharia à escravidão dos brancos sobre os negros. Sob esta justificativa os escravos eram considerados como membros das casas dos senhores, aos quais deviam obediência e respeito. Legal, se isso no fundo não fosse idêntico ao chamado feudalismo na Idade Média. O que no fundo não muda a exploração e a brutal hierarquização entre aristocracia e serviçais (escravos). Mas não se preocupem que há outros argumentos além deste.

Como o de que a escravidão nos quilombos era um meio de aculturar os escravos recém-libertos às práticas dos quilombos, que consistiam em trabalho árduo para a subsistência da comunidade, assim como diferenciar os ex-escravos que chegavam aos quilombos pelos próprios meios (escravos fugidos, que se arriscavam até encontrar um quilombo. Sendo, neste trajeto, perseguidos por animais selvagens e pelos antigos senhores, e ainda, correndo o risco de serem capturados por outros escravistas), daqueles trazidos por incursões de “resgate” (escravos libertados por quilombolas que iam às fazendas e vilas para libertar escravos). Todavia, essas mesmas incursões aconteciam, justamente, com o fim de se obter mão de obra a ser explorada que era essencial para o modelo econômico do quilombo que assim não diferia do antigo reino do Congo.

Mas enfim, se a alegação convence, porém, fica ao critério de cada um. Pois é fato até que aqui que estamos diante de uma sociedade semelhante as demais em seu tempo. Que mesmo não podendo ser tão mais nobre que estas, nem por isso a precisamos ver com desprezo.

Além de que contribuições com outros pontos de vista sobre este ponto da escravidão em Palmares são bem vindas, pois o interesse aqui é buscarmos um esclarecimento e não tentar uma polêmica. Que por sinal, não para por aí, pois temos mais a buscar conhecer sobre a trajetória deste líder negro, o Zumbi dos Palmares. Pois é, óbvio que ainda estamos só na ponta do iceberg. Como, por exemplo, como uma nobre (Aqualtune) deste reino acabaria como escrava aqui no Brasil? Aliás, próxima etapa de nossa saga. Então que continuemos nossa jornada nas próximas postagens. Até lá.....



(continua... não se preocupem...) 

 


Sobre o autor:

LUIS MARCELO SANTOS: natural da cidade de Ponta Grossa (estado do Paraná) é professor de História da Rede Pública Estadual do estado do Paraná, Escritor e Historiador. Especialista em ensino de História e Geografia, especialista em ensino religioso e mestre em História formado pela UEPG, já publicou artigos para jornais como o Diário da Manhã e o Diário dos Campos (de Ponta Grossa) e Gazeta do Povo (de Curitiba), assim como a obra local (em parceria com Isolde Maria Waldmann) “A Saga do Veterano: um pouco dos 100 anos (1905-2005) em que o Clube Democrata marcou Ponta Grossa e os Campos Gerais”.