ZUMBI DOS PALMARES: vendo mais ao homem e menos ao mito Parte 05: a luta de Zumbi.

Prosseguindo nossa saga sobre Zumbi vamos continuar a partir do ponto da luta politica em Palmares em relação ao acordo de paz proposto que vimos anteriormente. Lançado em 1678, por certo não teve resistência unicamente por parte de Zumbi, mas também de boa parte da sociedade quilombola. De modo que Ganga Zumba visto então como um entrave, acabou envenenado. Ação que não se sabe, se Zumbi veio ou não ter participação na mesma. Além de que ainda que, por mais controversa que seja, também é preciso citar uma versão diferente sobre a morte deste líder: suicídio.

Neste caso, Ganga Zumba se sentindo extremamente desgostoso com este acordo teria se matado, por mais que pareça bastante improvável. O que nesse momento não é o mais relevante. Todavia, não devendo ser ignorada, para não incorrer no risco de parcialidade. Importando sim, basicamente que, a partir desta morte, cabia a Zumbi decidir agora o futuro de Palmares, optando pela manutenção da mesma política de vizinhança vigente. Ou seja, continuando as constantes expedições de ataque aos povoados próximos como Serinhaém, Porto Calvo e Penedo. E ao que parece tiveram amplo apoio de sua gente.


Estátua em homenagem ao Zumbi dos Palmares em Porto Alegre. Fonte: https://www.correiodopovo.com.br/not%C3%ADcias/cidades/porto-alegre-ganha-est%C3%A1tua-em-exalta%C3%A7%C3%A3o-a-zumbi-dos-palmares-1.1554250


Pois ao ver de grande parte dos palmerinos, sua determinação e os esforços aumentaram o prestígio de Zumbi. Valendo lembrar que as campanhas de ataque não visavam somente tomar escravos, como também capturar armas e munições, além de saquear fazendas e estabelecimentos comerciais. Ou seja, a prosperidade econômica do quilombo estava condicionada a essa dinâmica que, os maiores beneficiados com ela, não queriam abrir mão, apesar dos riscos na insistência em manter este mesmo sistema.

Previsivelmente, quando ele ganhou autoridade, conduzindo sua estratégia agressiva, as tensões com os portugueses aumentaram rapidamente. O temor aumenta muito mais, motivo pelo qual, entre 1680 e 1686, os portugueses montaram seis expedições contra Palmares com custos significativos para o tesouro real, mas que, ao fim, nenhuma delas conseguiu derrotar Palmares. O que, à primeira vista, fazia com que Zumbi fosse visto como o governante ideal para as elites locais que assim o apoiavam, criando um governo forte, difícil de ser destruídos pelas autoridades portuguesas.

Razão pela qual, o governo colonial, paralela à repressão, tenta ainda a negociação. O que não é um sinal de consideração, mas de medo que tinham da força de Palmares. Tanto que em 1685, Dom Pedro II de Portugal mandou uma carta (atualmente na Biblioteca da Ajuda, em Portugal) para os quilombolas. Um dos trechos dizia:

"Eu, El-Rei, faço saber a vós Capitão Zumbi dos Palmares que hei por bem perdoar-vos de todos os excessos que haveis praticado, e que assim o faço por entender que vossa rebeldia teve razão nas maldades praticadas por alguns maus senhores em desobediência às minhas reais ordens. (...) Convido-vos a assistir em qualquer estância que vos convier, com vossa mulher e vossos filhos, e todos os vossos capitães, livres de qualquer cativeiro ou sujeição, como meus leais e fiéis súditos, sob minha real proteção".

Quem sabe ciente da fragilidade das forças coloniais que Zumbi, como sempre, ignorou qualquer acordo. Por outro lado, esse aumento das tensões não passava despercebido à comunidade como um todo. Entretanto, de acordo com dadas fontes (preservadas pelo vencedor, é claro) Zumbi não admitia ceder, muito menos ser contrariado com oposição ou deserção. Postura própria de um déspota, em nada diferente dos monarcas absolutistas da Europa então. Onde, o destino de todo o reino está inevitavelmente condicionado aos desejos de seu governante.

Logo, qualquer contrariedade era tratada de forma implacável, tal como o pesquisador Nina Rodrigues explica que: "Se algum escravo fugia dos Palmares, eram enviados negros no seu encalço e, se capturado, era executado pela severa justiça do quilombo”. E deste modo que sua resistência se sustentou por 15 anos.

Sim, Zumbi manteve por 15 anos sua política de hostilidade às forças coloniais. O que é bastante compreensível, diante do fato que além da localização estratégica e de suas defesas, Palmares pode ter chegado a abrigar 20 mil pessoas, sendo que só no aldeamento central, Macaco, poderia haver em torno de 06 mil pessoas. Para efeito de comparação, a cidade do Rio de Janeiro nesta época deveria ter em torno de 07 mil habitantes. Portanto, pode Zumbi meramente ter se sentido confiante o suficiente para em nada ceder. Tanto que, campanhas de extermínio ao quilombo antes já foram promovidas tanto pelos portugueses como pelos holandeses (por ocasião do governo de Maurício de Nassau).

De modo que quando o bandeirante Domingos Jorge Velho, apesar de toda a sua fama de intensa brutalidade, foi contratado pelo governador-geral de Pernambuco para dar fim a Palmares, é possível que os palmerinos não o vissem como uma grande ameaça. Tendo, inclusive, num confronto, em 1692, esse mesmo Jorge Velho sofrido uma humilhante derrota para as forças de Zumbi. Mas, como sabemos, isso não foi o fim. Tanto o orgulho, como o desejo de ser recompensado fizeram com que ele organizasse uma nova campanha, tendo demorado dois anos para reunir mais de 09 mil soldados e artilharia pesada.

O que, nos dias que se seguiram daquele ano de 1694, parecia não ser suficiente. Sua artilharia não conseguia chegar à salvo dos contra-ataques. Era necessária uma estratégia diferente, uma proteção para seus canhões chegarem perto o suficiente para arrasar com as muralhas do aldeamento.

E talvez eles tivessem falhado nisso também, caso um fato inesperado não tivesse acontecido: o descuido dos vigias das muralhas da capital do quilombo, a comunidade de Macaco, em não darem importância à montagem de uma muralha de madeira paralela à deles, pelo pessoal de Jorge Velho.

Com isso a pesada artilharia dos bandeirantes conseguiu fazer, no dia 06 de fevereiro de 1694, com que o mocambo (aldeamento) de Macaco caísse. Mas isso não era ainda o fim, visto que Zumbi teve tempo de fugir, ao que parece, para a localidade da Serra Dois Irmãos. Local onde ele pode levar a sua resistência por mais de um ano. Tendo o seu fim, acontecido não pelo poder de fogo inimigo, mas sim pelo contumaz jogo de intrigas e traições.

Para tanto que se entenda que um de seus colaboradores, de nome Antônio Soares, após ser capturado, aceitou trocar sua liberdade pela vida de Zumbi. Assim tendo este Antônio apunhalado Zumbi, em seguida, arrancando um de seus olhos e a sua mão direita. Também valendo citar a versão que diz que seu pênis foi arrancado e colocado na sua boca. Um fim humilhante que, talvez, se não fosse um descuido dos vigias em relação a muralha inimiga mandada erguer por Jorge Velho, poderia, quem sabe, não ter ocorrido.

Quadro Zumbi dos Palmares por Alex Delaterra

E quem sabe, justo pela falta de outra liderança para tomar o lugar de Zumbi que Palmares chegou ao fim. Por mais que se acredita que um novo comandante, de nome Camuanga tenha continuado a resistência até o ano de 1714. Já sobre o que se sucedeu a sua esposa Dandara (cuja versão mais aceita é que se suicidou com a tomada de Macaco em 1694) ou aos seus três filhos (Motumbo, Harmódio e Aristogíton) nada se sabe de forma confiável. Igual ocorre sobre a vida de toda família de Zumbi, incluindo ele, sua esposa, seus filhos, tios, pais e avós; as informações sobre eles, em geral, são muito esparsas e, não raro, não são plenamente confiáveis. Tanto que, ao fim importa que Palmares que tantas vezes se recuperou dos ataques, ficando ainda mais forte, nunca mais se recuperou.

Sobre assim, o que dizer? Tudo um mero erro de cálculo ou sim uma intransigência irresponsável? Para o historiador Décio Freitas em entrevista para a “Folha de S. Paulo”, em 20 de novembro de 2019 “(...) se ele (Zumbi) tivesse sido menos radical e mais diplomático, como foi seu tio Ganga-Zumba, teria possivelmente alterado os rumos da escravidão no Brasil”. Talvez. Até porque é a sua morte trágica que o faz uma referência de tamanho impacto no imaginário geral. Por mais que esta referência tenha se feito uma construção histórica relativamente recente. Tal como veremos na próxima sequência desta nossa longa jornada.

Até lá...

Sobre o autor:

LUIS MARCELO SANTOS: natural da cidade de Ponta Grossa (estado do Paraná) é professor de História da Rede Pública Estadual do estado do Paraná, Escritor e Historiador. Especialista em ensino de História e Geografia, especialista em ensino religioso e mestre em História formado pela UEPG, já publicou artigos para jornais como o Diário da Manhã e o Diário dos Campos (de Ponta Grossa) e Gazeta do Povo (de Curitiba), assim como as obras locais “A Saga do Veterano: um pouco dos 100 anos (1905-2005) em que o Clube Democrata marcou Ponta Grossa e os Campos Gerais” (em parceria com Isolde Maria Waldmann) e “Memórias e reflexões sobre um povo: Colônia Sutil”


ZUMBI DOS PALMARES: vendo mais ao homem e menos ao mito PARTE 04: enfim o nosso personagem principal em seu início.

Finalmente chegamos ao nosso personagem central propriamente. Uma espera longa, concordo, mas infelizmente necessária. Pois por causa dela, agora é mais fácil o entender melhor sem nos levarmos por julgamentos pré concebidos. Nem como um símbolo imaculado, nem como uma vergonha da história. Apenas como um fruto do meio que o forjou. O que permite se continuar a ver Zumbi como um símbolo de luta, ao mesmo tempo que agora se entende que ele se faz uma ideia muito maior do que o homem que foi.

Como, aliás, todos os governantes que se perpetuaram no poder, até morrerem ou serem derrubados são, no mínimo, suspeitos de merecerem de fato grande admiração. Não que se defenda a lixeira da história para todos. Mas sim que sirvam apenas para sustentar uma ideia sem a idolatria, sem a idealização cega. Até mesmo para que assim consigamos melhor refletir as contradições que até hoje persistem, entre o idealizado e o realizado: ao não nos negarmos a reconhece-las e refleti-las.

Pois é fato que temos uma tendência, sem se perceber, achar normal dadas contradições, quando elas envolvem aquilo que temos devoção, admiração; querendo então justificar a elas, ou mesmo negá-las. Como é o caso de Palmares em que desde já podemos concluir que seria algo excepcionalmente revolucionário, muito acima de seu tempo, ele se tivesse sido diferente das únicas referencias que conheceu: Congo e a sociedade colonial portuguesa no Brasil. Que o poderia ter sido, mas, não o foi. Teria sido muito difícil ter sido diferente. Portanto, desde já, julgar Palmares ou negar as contradições que ele tinha dentro de si não tira o seu mérito de toda a incrível história que forjou.

Tal qual nosso personagem central, Zumbi, ao qual, nunca é demais dizer que a maior parte da sua vida é contada por fontes orais que, inevitavelmente, com o correr do tempo, começaram a se desdobrar em diferentes versões. Não diferente, inclusive do que vimos sobre sua mãe Aqualtune, onde lacunas e contradições sobre a sua vida são gritantes, exceto aos que a idealizam e não percebem que o ideal que ela representa não depende de uma dada versão a se contar. E quem sabe outras versões até a façam ainda mais incrível, apaixonante, se pararmos a pensar melhor.

Zumbi em História em Quadrinhos. Fonte: https://universohq.com/noticias/hq-sobre-zumbi-dos-palmares-busca-financiamento-no-catarse/

Como, por exemplo, a possibilidade de uma Aqualtune, que já vimos antes, sem origem nobre, que se de fato foi responsável por ter criado tão descomunal comunidade, Palmares, isso até a torna ainda mais inspiradora. E que digo, se de fato, em razão de que não existem evidências quaisquer que confirmem ou desmintam nenhuma das afirmações que se fazem sobre ela. Tal como sobre Zumbi que, até sua idade adulta, tudo que se diz sobre ele é pura incerteza. Talvez realidade, talvez pura lenda. Por ora, impossível afirmar.

Como sobre a afirmação de que por um tempo Zumbi sentiu na pele o que era ser escravizado, apesar de ele ter nascido um homem livre em Palmares. A qual se diz que ele quando tinha apenas seis anos de idade foi capturado e levado para a vila de Porto Calvo. Deste modo ele teria se tornado propriedade de um padre chamado Antônio Melo. E ainda de acordo com esta história em questão ele teria ganhado o nome de Francisco, assim o vivendo até ter conseguido fugir já com uns 15 anos de idade e voltar para seu lar em Palmares onde seu tio Ganga Zumba era agora o monarca.

Representação de Ganga Zumba. Fonte: https://www.todamateria.com.br/ganga-zumba/

Talvez de fato, talvez um mito somente para o tornar mais heroico aos seus idealizadores, uma vez que não podemos descartar a possibilidade de que, igualmente ele possa nunca ter conhecido a condição de escravo. Somente sendo certo que quando adulto Zumbi passa a se envolver diretamente nas questões politicas de Palmares, primeiramente como um chefe militar. O que não era pouco, visto que há décadas o quilombo vivia um impasse cada vez mais insustentável com a sociedade colonial escravagista de que ele era vizinho. E Zumbi, ao que parece, se mostrou um líder militar excepcional.

Como por exemplo, no ano de 1675, quando em um confronto contra os soldados portugueses comandados pelo Sargento-mor Manuel Lopes, o jovem Zumbi revela-se desde já um grande guerreiro e organizador militar, tendo apenas 20 de idade (isso mesmo, se considerarmos seu nascimento em 1655). Quando a tropa portuguesa comandada por esse Manuel Lopes, depois de uma batalha sangrenta, ocupou um mocambo (aldeamento) com mais de mil choupanas. Parecia uma vitória certa, mas o desfecho final neste conflito em especial era questão de tempo.

Pois após uma retirada de cinco meses, Zumbi desferiu um contra-ataque, obrigando este Manuel Lopes a fugir para Recife. E após essa vitória Palmares se estendia então da margem esquerda do São Francisco até o Cabo de Santo Agostinho. O trabalho de quase um século (pois se crê que Palmares teve início em 1580) se via em mais de duzentos quilômetros de extensão, formando um governo com uma rede de onze mocambos, que se assemelhavam as cidades muradas medievais da Europa, mas que no lugar das pedras havia paliçadas de madeira. O principal mocambo, o que foi fundado pelo primeiro grupo de escravos foragidos, ficava na Serra da Barriga e levava o nome de Cerca do Macaco.

Contudo, justamente pelo seu tamanho (e consequentemente força) Palmares era uma questão urgente para as autoridades coloniais conter. E, portanto, as ameaças eram constantes. Pois apesar da eficiente defesa da comunidade pela combinação de sua localização de difícil acesso e majestosas muralhas de madeira, o governo português na região cada vez mais está disposto a lhe dar fim, pelo meio que fosse. Isso principalmente por causa da questão dos ataques que Palmares promovia às fazendas para levarem seus escravos com eles. Devendo se reforçar que estes escravos, todavia, não ganhavam a liberdade em Palmares.

A despeito de que o mito que se criou sobre isso até hoje divide opiniões e emoções. E que já era uma realidade antes de Zumbi assumir o poder. Logo, ignorando esta disputa ideológica, podemos ver que Palmares era basicamente uma verdadeira nação que queria apenas se fazer respeitar como um Estado livre da subordinação portuguesa.

Ou seja, a luta de Palmares neste quesito era para a sua sobrevivência politica e pela defesa de uma classe. Mas isso não impede que sua memória se faça uma referência de luta, desde que havendo o cuidado de não deixar levar pela ilusão da luta idealizada por muitos. Por mais que isso também nos permite olhar então para outras referências, não com a intenção de substituir, mas complementar. Mostrando assim que há muitos mais exemplos que sendo então mais conhecidos, só fazem reforçar a verdade dos fatos que a luta sempre existiu, que nunca houve acomodamento de uma classe e que em diferentes momentos, pessoas se fizeram protagonistas dignas de inspirar as atuais gerações.

Inclusive quanto a compreensão de cada momento. Como, por exemplo, Palmares que, no caminho que seguia, só tinha duas opções: vencer a um império muito maior que ele ou acabar por ele, um dia, destruído. A luta não tinha condições de se sustentar eternamente. Pois a sobrevivência de toda uma estrutura de exploração dependia que o governo colonial desse fim a estes ataques, fosse pela diplomacia, fosse pelo ferro e o fogo. Portanto, desde já, vale a pena se considerar, que Ganga Zumba, o antecessor de Zumbi, que estava a considerar um tratado de paz estivesse vendo a real dimensão da condição politica de seu reino.

Diferente de outros entre ele que, por certo, viam a esta diplomacia (que envolvia o fim dos ataques para captura de escravos) como uma ameaça à economia de Palmares. Preferindo assim se apegar à ideia de que, independente de por quanto tempo resistissem, ainda o poderiam continuar a manter a mesma postura por muito mais tempo. Logo, subestimando ao inimigo.

O que leva a um ponto controverso não só sobre Zumbi como ao seu tio Ganga Zumba. Quando no ano de 1678 o governador da capitania (divisão administrativa equivalente a um estado hoje) de Pernambuco vendo o esgotamento do longo conflito com Palmares decidiu firmar um acordo de paz. Sim, apesar dos pesares, um fato considerável ao mostrar que o governo colonial não era tão onipotente a ponto de desprezar a possibilidade de um acordo pacífico. Desde que esse não ameaçasse, de forma alguma, a toda uma estrutura de exploração que era conveniente aos mais diversos extratos da sociedade da época.

Tanto que Palmares existindo, a esta altura dos fatos, era até mais interessante ser preservada do que destruída, mas desde que cessassem os ataques às vilas e aos poderosos locais. As autoridades do governo colonial se viam já desgastadas com os inúmeros ataques que, temporariamente, até conseguiam a destruição de mocambos que, todavia, ao fim, conseguiam ser reconstruídos, voltando a ser como antes. E além disso, Palmares já criara uma dada dependência às áreas vizinhas que a viam como um polo econômico importante.

Para tanto que se entenda: os habitantes desses mesmos mocambos faziam esteiras, vassouras, chapéus, cestos e leques com a palha das palmeiras, extraiam óleo da noz de palma, faziam vestimentas com cascas de algumas árvores, produziam manteiga de coco, plantavam milho, mandioca, legumes, feijão e cana e comercializavam seus produtos com pequenas povoações vizinhas, de brancos e mestiços.

Sendo assim o governador propôs ao chefe Ganga Zumba a paz e a alforria para todos os quilombolas de Palmares. Ganga Zumba, talvez o sendo realista e pragmático aceita, mas o (quem sabe) idealista (ou intolerante) Zumbi é contra. Na versão de seus admiradores mais ardorosos, isso acontece porque ele não admite que alguns negros sejam libertos e outros continuem escravos. Porém, é muito mais certo crer que o temor do impacto econômico pelo fim dos ataques, minasse muito da prosperidade do quilombo, que tenham sido o único motivo de sua oposição ao acordo. Por mais que não se possa afirmar diante da falta de provas mais consistentes.

E aos que achem absurdo isso, vejamos que o Império colonial português tirava muito de sua riqueza igualmente com a captura e exploração de escravos, pessoas que não escolheram essa condição. Riqueza esta, à custa de cruel trabalho forçado que se via ameaçada pela concorrência de Palmares que tomava a mão de obra dos ricos proprietários que, por sua vez, querem que o governador resolva esta questão de uma vez por todas.


A qual já vimos que pela força, há décadas se fazia um recurso falho. Por isso agora era feita uma tentativa de acordo mostrando inclusive como Palmares tinha o temor de seus inimigos e por causa deste temor o respeito deles. Um ponto importante frisar até mesmo para não se desfazer porque o fato de que Palmares mereceu, ao longo da história, ser o quilombo mais lembrado no imaginário geral até hoje. Porém, se estivéssemos no lugar dos palmarinos qual seria nossa escolha: uma sobrevivência controversa ou uma morte heroica? Compreendem?

Mas enfim, como já vimos, o acordo basicamente consistia em troca do quilombo reconhecer a autoridade do governo português sobre eles, Palmares teria a liberdade garantida a todos os que já eram livres. Ou seja, uma situação de vassalagem semelhante ao que aconteceria no final do século XIX no próprio reino do Congo com o manicongo (rei) Dom Pedro VI. Portanto, ou a sobrevivência ao ver de alguns obscura ou o martírio romantizado.

Já que aceitando o acordo Palmares sobreviveria, talvez até os dias de hoje, como ocorre a várias outras comunidades quilombolas, todavia, sem a queda de um dos mais temidos quilombos pelas forças opressoras, a atual identidade negra em nosso país não teria hoje o seu maior símbolo. Valendo frisar que nunca houve a necessidade um só, um único símbolo, diante de tantos exemplos que a história ainda ignora. Pois, haviam somente duas opções para Palmares: ceder ou morrer. Morte que mesmo hoje sendo uma inspiração, também não deixou de ser um grande holocausto.

Talvez, talvez eu repito, para Ganga Zumba a sobrevivência de seu reino era o mais importante, preferindo não subestimar à crescente ameaça das forças coloniais. E quem sabe por subestimarem ao poderio inimigo que muitos podem ter visto como inadmissível este acordo. Dentre os quais, o seu sobrinho Zumbi. Por mais que brigas pelo poder nas monarquias, envolvendo deposições ou, até mesmo, assassinatos sempre fossem comuns ao longo da história. Portanto, se sua oposição ao tio se fez uma questão ideológica ou mero interesse pelo poder que cada um tire suas conclusões.

Logo, em nossa continuação iremos se ater à saga de Zumbi como o líder supremo de Palmares e a sua luta que, ao contrário do senso comum, não terminou de forma rápida, tendo se mantido por exatos 15 anos ainda.

Até lá....

Sobre o autor:


LUIS MARCELO SANTOS: natural da cidade de Ponta Grossa (estado do Paraná) é professor de História da Rede Pública Estadual do estado do Paraná, Escritor e Historiador. Especialista em ensino de História e Geografia, especialista em ensino religioso e mestre em História formado pela UEPG, já publicou artigos para jornais como o Diário da Manhã e o Diário dos Campos (de Ponta Grossa) e Gazeta do Povo (de Curitiba), assim como a obra local (em parceria com Isolde Maria Waldmann) “A Saga do Veterano: um pouco dos 100 anos (1905-2005) em que o Clube Democrata marcou Ponta Grossa e os Campos Gerais”.

ZUMBI DOS PALMARES: vendo mais ao homem e menos ao mito PARTE 03: a jornada no Brasil que o antecede - Aqualtune

Representação do Reino do Congo


Aos que continuam seguindo essa nossa pequena série sobre Zumbi dos Palmares, vamos vasculhar a um pouco mais a sua gênese que o antecede. Na qual já vimos a sua possível origem, o reino do Congo e a sua dinastia, a Casa de Quinzala. Uma monarquia absolutista, conquistadora e escravagista, aspectos vistos que nos ajudam a entender polêmica que ainda vamos nos ater sobre um Zumbi tirano e escravagista. Por mais que essa opinião não seja unânime, principalmente entre os olham com um grande símbolo de liberdade e resistência à opressão.

Contudo, como já foi dito a pouco, sobre Zumbi propriamente ainda não iremos tratar. Pois ainda há mais a dizer sobre sua possível origem. Sim, isso mesmo, eu disse uma possível origem. Como assim? Para responder a isso vamos agora se ater, novamente, a sua avó Aqualtune que já comentamos ter vindo para o Brasil como escrava.

Sim, uma nobre da casa real vendida como escrava. O que pode levar muitos a se perguntarem: mas Congo e Portugal não haviam firmado uma longa e vantajosa parceria entre essas duas monarquias? O que levaria a um incidente que, por certo, poderia abalar para sempre as relações entre essas duas nações, Portugal vender a um membro da família que lhe era uma grande parceira comercial?

Responder isso exige que vejamos a alguns aspectos. O primeiro que a ruína do reino do Congo (que só seria aniquilado como nação, somente no final do século XIX) não demorou a germinar já com as constantes intrigas e guerras pela sucessão ao trono que coincidem com o crescimento e prosperidade conseguidos por meio do tráfico humano e da expansão territorial. Sim, também nas brigas pelo poder, a monarquia do Congo também muito se assemelhava às monarquias europeias.

Os golpes, alianças, assassinatos e outros desdobramentos em nada ficavam a dever a uma França e uma Inglaterra da Guerra dos Cem Anos, da Guerra das Duas Rosas, etc. Ou então a um Portugal da Guerra da Alfarrobeira em que o rei Afonso V e o Infante D. Pedro seu tio, em 20 de maio de 1449 começaram uma luta pelo poder que prejudicou seu país para sempre. Assim como qualquer outra monarquia que queiramos vasculhar seu histórico de intrigas, deposições, golpes, etc.

Entendido isso se torna mais fácil ver que esta avó de Zumbi, pode ter tido, talvez, seu destino traçado pela desgraça provocada por este que pode ter sido seu irmão, o rei Nvita a Nkanga (1617-1665), batizado como Antonio I, morto em 1665 após uma trágica derrota imposta pelos portugueses. E como isso pode ter acontecido?




O motivo para o confronto foi a sua tentativa em ignorar ao tratado feito por seu antecessor, Garcia II (tio deste Antônio), com os portugueses. Um acordo desvantajoso para seu reino, uma vez que cedia o controle de terras e montanhas para a exploração de prata e jazidas de ouro. E que por sinal este Garcia II só o fez por um erro de cálculo político. Para tanto se entenda.

Garcia II e Antônio pertenciam à sexta família que chegava ao poder no reino. Como era comum nas monarquias, os golpes e guerras eram constantes. O que por sua vez levava a necessidade de aliados nestas conspirações. De modo que o irmão de Garcia II, seu antecessor no trono, o rei Álvaro VI era um fiel aliado dos portugueses. E assim, quando Garcia II assume o trono ele acha que os holandeses, que nesta época estavam tentando tomar Angola para eles seria um parceiro de negócios mais interessante.

Contudo, seus planos não saíram como era esperado: Portugal conseguiu afastar os holandeses, sendo agora o momento de se acertar com os “traidores”- no entender dos vencedores. Como as forças portuguesas não tinham como conquistar por completo o reino do Congo, ao menos se contentaram com um acordo extremamente benéfico aos seus interesses econômicos, que Garcia não tinha como recusar. Justamente o erro de seu herdeiro Antônio que assume o poder, logo justifica que o Congo não devia nada a Portugal e que os portugueses não tinham mais direitos sobre as terras.

As rivalidades politicas entre as várias famílias que queriam tomar o poder, além dos descontentamentos das populações nativas submetidas à autoridade do Congo, como por exemplo os Jagas, facilitaram ao governador de Luanda (a colônia de Angola), André Vidal de Negreiros (sim, o mesmo lembrado nos livros pela sua participação na chamada Insurreição Pernambucana contra os holandeses) vencer a questão numa única batalha. E segundo uma versão sobre a origem de Zumbi, Aqualtune teria acabado capturada e enviada como escrava para o Brasil.

Contudo, é incerto, diante do mosaico de interesses a se explorar, se Portugal iria arriscar permitir um incidente diplomático com uma facção que ainda lutava pelo poder, enviando um membro importante como escravo. Pois as relações de amizade e inimizade eram sempre instáveis. Tanto que o filho e herdeiro deste Garcia II, Dom Afonso, que foi condenado a morte justamente por, supostamente, conspirar contra seu pai tendo o apoio lusitano.

E tem mais: de acordo com esta versão, como cativa assim ela deu a luz a três filhos: Ganga Zumba (que seria o líder de Palmares, antes de Zumbi), Ganga Zona e Sabina (que seria a mãe de Zumbi). Porém, se Ganga Zumba se tornou o governante do Quilombo de Palmares em 1670, já sendo pai de família, como tradicionalmente é colocado, ele teria que ter nascido no Reino do Congo (muito antes da captura de sua mãe em 1665) e não no Brasil.

Sendo que não pára por aí a lista de lacunas nesta história, já que as informações sobre ela vêm apenas de fontes orais, não havendo menção sobre ela nos anais da história do reino do Congo.

Semelhante, não igual, ressalta-se. O que vale relembrar que uma justificativa para a escravidão seria que os escravos eram considerados como membros das casas dos senhores, aos quais deviam obediência e respeito e que concluímos não diferir muito das relações servis do chamado feudalismo na Idade Média. Tanto quanto o controle das províncias que não raro, tinham sua posse definida pela hereditariedade. O que não estamos dizendo que era igual a forma de servidão na Europa feudal e no reino do Congo.

Logo, há uma forte possibilidade que ela tenha inventado sua origem nobre, aristocrática. Algo que não é novidade na história em geral. Sendo um exemplo dessa afirmação, um herói nacional, no país de nome Romênia (na Europa Oriental), chamado de Miguel, o Bravo. Que como Aqualtune, hoje é um vulto histórico muito popular entre seu povo, mas possivelmente, só conseguiu isso, chegar ao poder e impor seu legado, primeiramente alegando ter origem na tradicional família Draculesti que por séculos governava a região. Mas provavelmente sua alegação era uma grande mentira. E que como dissemos, não foi um caso isolado.

Júlio César, hoje o mais lembrado dos governantes romanos, também se dizia descendente de um herói mítico chamado Eneas e por aí vai. Por mais que não haja como afirmar por completo que a origem nobre de Aqualtune seja um mito. Importando que com a ajuda deste passado que ela liderou um grupo de 200 pessoas numa fuga para a Serra da Barriga, uma localidade de difícil acesso que intimidaria a repressão dos colonos em tentar lhes recapturar. Assim nascendo o Quilombo de Palmares segundo a versão mais aceita.

Uma sociedade que, evidentemente reproduzia os valores do seu lar ancestral, o Reino do Congo que não era uma sociedade democrática, muito menos igualitária. Como aliás, não havia em nenhum lugar do mundo nesta época. Fossem em gigantescos impérios como Portugal e Espanha contemporâneos a Palmares, fossem pequenos reinos tribais; era regra geral a brutal hierarquização definindo bem a aristocracia (elite governante) do resto do povo.

Por mais que é um fato que em Palmares não apenas negros encontravam refúgio, pois a arqueologia já encontrou a evidência de que brancos e índios também conviviam com os negros nos aldeamentos de Palmares. Sim, o local era uma oportunidade para outros grupos marginalizados refazerem suas vidas. O que se faz um ponto importante destacar, mas que não tem como justificar Palmares ter se feito em algum momento uma sociedade igualitária.

Entretanto, todo este exposto não muda o fato que com base numa alegada origem nobre, Zumbi, com ou sem polêmicas, se fez sim um vulto que muito mais marcou a memória popular do que qualquer um de seus supostos antecessores. E que, independente de seus erros e acertos, méritos e defeitos, por ora é um símbolo que inspira valores. Por isso essa tentativa de entender o homem de verdade por trás do símbolo. Uma tarefa difícil, mas que vamos tentar a concluir da forma mais serena possível, afim de amenizar polemicas e não as fomentar ainda mais. Tal como vamos ver na sequencia de nossa saga sobre ele. Quando vamos enfim nos focar em Zumbi e não em seus antecedentes.





(continua....)

Sobre o autor: 
LUIS MARCELO SANTOS: natural da cidade de Ponta Grossa (estado do Paraná) é professor de História da Rede Pública Estadual do estado do Paraná, Escritor e Historiador. Especialista em ensino de História e Geografia, especialista em ensino religioso e mestre em História formado pela UEPG, já publicou artigos para jornais como o Diário da Manhã e o Diário dos Campos (de Ponta Grossa) e Gazeta do Povo (de Curitiba), assim como a obra local (em parceria com Isolde Maria Waldmann) “A Saga do Veterano: um pouco dos 100 anos (1905-2005) em que o Clube Democrata marcou Ponta Grossa e os Campos Gerais”.






ZUMBI DOS PALMARES: vendo mais ao homem e menos ao mito PARTE 02: o início de tudo, o reino do Congo

 

Prosseguindo nossa busca pelo homem conhecido como Zumbi dos Palmares, precisamos ver as versões sobre sua origem que antecedem ao seu nascimento. Pois não tem outro jeito se quisermos buscar de fato entender a este personagem. Uma vez que todo personagem tem uma origem que o influencia na direção que o consagra. Logo, temos que conhecer um pouco dos fatos que o antecedem. Para ser mais exato, teremos de nos ater primeiramente às origens de sua família, ainda na África.

Começando por sua avó que seria uma princesa africana, do reino do Congo, chamada Aqualtune e a dinastia (Casa Real) a qual pertencia, assim como as suas relações de poder. O que nós veremos a partir do que foi o primeiro contato já registrado com os europeus, quando esse Reino do Congo era um estado altamente desenvolvido no centro de uma extensa rede comercial. Além dos recursos naturais e do marfim, o país fabricava e comercializava artigos de cobre, metais ferrosos, tecidos de ráfia (fibra têxtil de palmeiras) e também cerâmica.

Contudo, a prosperidade deste reino do Congo se deveu também a outro fator: a escravidão. Sim, ela já existia no Congo muito antes da chegada dos portugueses, e as primeiras cartas de Afonso I (nome de batismo do rei Nepemba Angiga, um dos mais poderosos monarcas do Congo) muito bem mostram a existência de mercados de escravos. E assim nas décadas seguintes ao ano de 1531 o Reino do Congo, entrando em contato com os portugueses tornou-se uma importante fonte de escravos para os comerciantes portugueses e outras potências europeias.

Firmando assim uma parceria tão interessante aos monarcas negros do Congo que o rei governante, na época da descoberta dos portugueses, em 1485, Anzinga a Ancua, decidiu se converter ao cristianismo para uma melhor relação com os visitantes. E como forma de homenagear o rei de Portugal João II, Anzinga adotou o nome real de João I. Iniciando deste modo uma longa e vantajosa parceria entre as duas monarquias. O que mostra que, ao menos, por algum tempo, Portugal e Congo foram grandes aliados.

Informações que podem levar muitos a se perguntar o que isso tem haver com Zumbi dos Palmares. E desde já podemos dizer que cada uma destas etapas que antecedem nosso personagem, este Zumbi, nos ajudam a entender dados pontos polêmicos que figuram sobre o legado deste mesmo Zumbi. Como, por exemplo, agora por meio deste cenário ajudando desde já sobre o argumento de ele ter tido escravos. Que, caso verdade, pelo que vimos, apesar dos pesares, se faz algo compreensível.

E aos que se assustem com isso vejamos como no reino do Congo, como em várias outras regiões da África, Ásia, América e Europa a escravidão não era apenas uma prática normal. Era até mais, se fazendo um motor da economia e das relações de poder ao longo da história. Isso mesmo.

Confuso este ponto? Talvez... E então, se assim, vejamos um simples exemplo. Este Afonso I comentado anteriormente não fez das guerras para a captura de cativos somente uma vultosa fonte de renda para si, como com elas ele ampliou seus domínios nas localidades fronteiriças ao sul e leste de seu reino. O que antes de se fazer julgamentos sobre isso, então fica a pergunta: seria ele diferente de um Júlio César que se tornou famoso também por ter invadido e anexado a Gália (hoje França), escravizando a muito dos seus povos originais? Teria este monarca africano maior demérito que um Gengis Khan que massacrou, chantageou pelo terror e escravizou incontáveis povos para criar um dos maiores impérios do mundo?

Creio que não, nada o diferencia destes, como ele também muito se iguala a outros que a história inclusive os lembra pelo título de o Grande, como Ramsés II do Egito, Alexandre da Macedônia, Justiniano do império Bizantino, Carlos (Magno) imperador dos Francos, dentre outros. Que em geral as pessoas tendem a não querer ver que as épocas de ouro criadas por eles se fizeram a custo de roubos (chamadas de conquistas) e escravidão (explicita ou mais sutil).

Compreendido isso, torna-se fácil entender que a prática da escravidão entre dados monarcas africanos, incluindo os de Congo era uma prática comum e extremamente lucrativa. Uma realidade em nada diferente da que esta possível avó de Zumbi, Aqualtune, veria a conhecer quando enviada como escrava para o Brasil. Isso mesmo, enviada como escrava. O que explicaremos melhor mais adiante. Uma polêmica por vez para irmos tratando. Tudo bem? Tanto quanto, com isso que vimos, é fácil perceber que a classe dirigente de Congo formava um governo absolutista, autocrático a quem a população restava apenas a submissão sem contestações. Ou seja, nada diferente de nenhum governo no mundo nesta época então.

Deste modo Palmares que seria fundado por esta mulher, naturalmente era guiado pela mentalidade escravagista e aristocrática presente tanto na África como neste “novo” mundo em que agora se achavam suas lideranças. Fato que nos ajuda a entender o que o historiador José Murilo de Carvalho, em sua obra "Cidadania no Brasil" entende que neste contexto "os quilombos mantinham relações com a sociedade que os cercavam, e esta sociedade era escravista”, de modo que “Não existiam linhas geográficas separando a escravidão da liberdade".

Não querendo com isso justificar a cruel exploração humana, mas mostrar que o quilombo de Palmares e as sociedades africanas em geral não teriam porque ter a obrigação de serem moralmente mais elevadas que as outras coletividades da sua época. Essa evolução de pensamento levou muito tempo para se formar e ainda mais para se consolidar.

Por mais que há os que justificam que a escravidão nos quilombos, incluindo Palmares, em nada se assemelharia à escravidão dos brancos sobre os negros. Sob esta justificativa os escravos eram considerados como membros das casas dos senhores, aos quais deviam obediência e respeito. Legal, se isso no fundo não fosse idêntico ao chamado feudalismo na Idade Média. O que no fundo não muda a exploração e a brutal hierarquização entre aristocracia e serviçais (escravos). Mas não se preocupem que há outros argumentos além deste.

Como o de que a escravidão nos quilombos era um meio de aculturar os escravos recém-libertos às práticas dos quilombos, que consistiam em trabalho árduo para a subsistência da comunidade, assim como diferenciar os ex-escravos que chegavam aos quilombos pelos próprios meios (escravos fugidos, que se arriscavam até encontrar um quilombo. Sendo, neste trajeto, perseguidos por animais selvagens e pelos antigos senhores, e ainda, correndo o risco de serem capturados por outros escravistas), daqueles trazidos por incursões de “resgate” (escravos libertados por quilombolas que iam às fazendas e vilas para libertar escravos). Todavia, essas mesmas incursões aconteciam, justamente, com o fim de se obter mão de obra a ser explorada que era essencial para o modelo econômico do quilombo que assim não diferia do antigo reino do Congo.

Mas enfim, se a alegação convence, porém, fica ao critério de cada um. Pois é fato até que aqui que estamos diante de uma sociedade semelhante as demais em seu tempo. Que mesmo não podendo ser tão mais nobre que estas, nem por isso a precisamos ver com desprezo.

Além de que contribuições com outros pontos de vista sobre este ponto da escravidão em Palmares são bem vindas, pois o interesse aqui é buscarmos um esclarecimento e não tentar uma polêmica. Que por sinal, não para por aí, pois temos mais a buscar conhecer sobre a trajetória deste líder negro, o Zumbi dos Palmares. Pois é, óbvio que ainda estamos só na ponta do iceberg. Como, por exemplo, como uma nobre (Aqualtune) deste reino acabaria como escrava aqui no Brasil? Aliás, próxima etapa de nossa saga. Então que continuemos nossa jornada nas próximas postagens. Até lá.....



(continua... não se preocupem...) 

 


Sobre o autor:

LUIS MARCELO SANTOS: natural da cidade de Ponta Grossa (estado do Paraná) é professor de História da Rede Pública Estadual do estado do Paraná, Escritor e Historiador. Especialista em ensino de História e Geografia, especialista em ensino religioso e mestre em História formado pela UEPG, já publicou artigos para jornais como o Diário da Manhã e o Diário dos Campos (de Ponta Grossa) e Gazeta do Povo (de Curitiba), assim como a obra local (em parceria com Isolde Maria Waldmann) “A Saga do Veterano: um pouco dos 100 anos (1905-2005) em que o Clube Democrata marcou Ponta Grossa e os Campos Gerais”.


ZUMBI DOS PALMARES: vendo mais ao homem e menos ao mito PARTE 01

 Zumbi foi um dos líderes do Quilombo dos Palmares e acabou sendo morto por bandeirantes portugueses em 20 de novembro de 1695.[1]

 

É fato que toda e qualquer data histórica como, por exemplo, o dia 20 de novembro tem uma forte, intensa, importante simbologia que inspira valores, evoca ideais e por isso referências como essa sempre merecem uma atenção ainda maior do que o mero celebrar. Precisando ver a elas um pouco mais a fundo. Afinal datas comemorativas tanto podem estimular grandes inspirações como igualmente podem meramente exaltar heróis e nada mais.

Isso mesmo, por mais que muitos podem se perguntar qual é a diferença. O que, assim, me leva a pretensão de afirmar que heróis são (sob o ponto de vista dos seus adoradores, é claro) os ídolos imaculados, perfeitos como os protagonistas das grandes epopeias. Por mais que, igualmente as pessoas não admitam isso. Não, mas podemos perceber isso quando então as pessoas que o adoram simplesmente o exaltam sem, comumente, sem querer realmente aprender algo com esta referência.

Tanto que quando se nota a adoração, também se percebe que seus adoradores se fecham às criticas sobre seu ídolo. Dizem que o apontar de possíveis falhas é caluniar, difamar seu herói, olham como uma heresia não concordar com a mesma visão que eles.

Ao passo que inspirações são exemplos que vemos em alguém, modelos em que podemos nos apoiar, sem que para isso precisemos se cegar aos seus defeitos ou simplesmente sua condição humana, imperfeita. Ou seja, tentar ver o indivíduo como um todo, reconhecendo seus valores, sem se cegar às suas falhas que possivelmente devem existir. Simples assim. Não que nós precisemos de uma busca por polêmicas e falhas em alguém para se acharmos críticos, conscientes. Não mesmo.

Pois o ponto em que quero chegar é que todos nós precisamos de referencias em que se apoiar, todos. Podendo ser elas pessoas do nosso cotidiano e também vultos de grande repercussão. Mas acima de tudo seres humanos, não seres tão acima de nós como costumam muitos a ver seu herói. E por isso digo que triste é a sina dos que precisam se apegar a heróis. Digo heróis e não inspirações. Por mais que também seja mais comum do que parece a dificuldade de achar a fronteira entre um e outro.

Mais um motivo porque muitos se recusam a admitir isso, até mesmo para si próprios, mas isso não muda o fato que seu objeto de admiração o leve a uma ardente adoração, o torne incapaz de ver as falhas deste a quem tem por modelo. E comece a querer crer que apenas os valores que ele trazia eram os mais certos, se fechando a outros pontos de vista. O que se reforça meu entender do herói ser uma idealização por seus seguidores.

Pois eu arrisco a pretensão de afirmar que o termo herói para mim é uma idealização que não aceita que se sequer se arranhe a imagem de seu símbolo adorado. Mesmo quando seus adoradores digam que não o adoram, mas defendem raivosamente a qualquer crítica sobre ele. E, após todo este tempo que estou falando sobre isso, por certo, vocês podem se perguntar: aonde quer chegar com isso? E assim eu vou dizer agora.

Para ajudar a entender melhor aos erros e acertos do passado, também se faz interessante analisarmos as motivações, inspirações e desdobramentos de eventos promovidos por qualquer personagem histórico. Buscarmos uma compreensão dos avanços, retrocessos e permanências que ele pode ter proporcionado.

Compararmos se suas visões de mundo quando então viveram (ou ainda vivem) se elas ainda se aplicam a nossa realidade como um todo ou parcialmente.

Mas isso exige se despir do medo, em não enxergar a um ídolo com todas as virtudes possíveis, pois para muitos fazer isso é o mesmo que não conseguir mais admirá-lo se o ver como algo mais parecido com os demais “mortais”. E claro que temos o inverso também, tão controverso quanto ao que acusam em seus opostos.

Ou seja, aqueles que só conseguem ver o pior de um personagem com base em apenas em seus defeitos, em nada reconhecendo aos seus méritos junto. Pois para estes só importa então destruir a um ídolo sem se importar com o que esteja junto. Ignorando aos benefícios que o simbolismo deste personagem pode inspirar em outros. Ou mesmo o fato de que igual o fanatismo na idolatria, a obsessão em destruir algo apenas por uma fixação igualmente é uma tolice.

Mas aqueles que o fazem acreditam estarem sendo mais sábias, serem mais inteligentes; como se ser crítico apenas pela crítica, ser um aficionado por polêmicas fosse um atestado de maior evolução intelectual. E parando para refletir sobre isso, é claro que tanto um extremo como outro não leva muito longe.

Por mais que seja muito, muito comum no revisionismo histórico atualmente, esse extremismo de alguns em se defender que do “pedestal” se passe para a lixeira da história ao menos dados personagens.O que, evidentemente, é só a outra face de uma mesma moeda que a dos que tão só sabem idolatrar. Pois não é difícil concluir que tanto os adoradores como os detratores assumem exatamente uma mesma idolatria em “santificar” ou “demonizar” um vulto histórico por uma mesma necessidade de afirmação dos seus valores ideológicos. Por um anseio de mostrar aos outros que tem mais razão, que está mais certo.

Por mais que quase sempre não consigam ver que querem apenas afirmar algo que querem ter como a sua única verdade. Como é o caso, dentre vários outros exemplos, justamente do líder negro conhecido como Zumbi dos Palmares. Pois é fato que seu nome comumente aparece entre esses dois extremos: adoração ou detratação, herói ou vilão. Invés de procurar se entender suas motivações, o ambiente que o forjou, etc.

E como isso seus defensores olham aos que o criticam como ao serviço do conservadorismo, dos valores elitistas. Ao passo que seus acusadores olham aos que o exaltam como militantes deslumbrados. Pesado? Infelizmente sim. E digo mais: não há razão para essas acusações de um lado sobre o outro. E por isso que quero começar aqui uma reflexão a ser proposta: debater um olhar diferente destes dois extremos, claramente, sem grandes pretensões, do homem Zumbi.

Claramente não ignorando como ele já foi amplamente estudado em trabalhos acadêmicos e por isso apenas oferecendo algo simples que aos que gostem da ideia nada impede que se aprofundem mais futuramente com pesquisas ainda mais profundas.

Então vamos tentar fazer justamente isso: aos poucos vir a entender a dados aspectos do homem imortalizado pela alcunha de Zumbi dos Palmares por detrás do mito que o recobre. Não para lhe julgar sob um ou outro ponto de vista, mas para que cada lado, admiradores e detratores, possa refletir um pouco mais sobre a opinião contrária da sua.

Onde alguns tendem a criar uma imagem mais próxima de um herói popular, símbolo da luta contra a opressão e escravidão. O que muitos a lerem podem afirmar que é sim isso mesmo. E essa afirmação neste artigo em questão não nos cabe questionar se certa ou errada. Até porque pessoas se ocupando ardentemente com essa polêmica mais que abundam.

Já outros o mostram como um líder aristocrático, elitista, como, aliás, em geral são os membros das monarquias em geral. O que muitos a lerem também podem afirmar que é sim isso mesmo. E do mesmo jeito digo que só espero ajudar num esforço para se escapar, nem que seja um pouco somente, desta dicotomia, onde ou ele é santificado ou demonizado e com isso pode se perder de conhecer uma história ainda mais rica como a que vamos tentar fazer mostrar. Que começa muito antes do próprio nascimento deste Zumbi e que continua após a sua morte.

Aspectos que começaremos a ver assim em uma pequena série, a se iniciar a partir de nossa próxima postagem, para assim oportunizar as pessoas que queiram, lentamente possam refletir sobre esta discussão. Começando é claro por um rico contexto que antecede ao nascimento de este líder guerreiro. Sendo, por ora, ainda interessante, lembrar que a imagem, para qualquer vulto histórico, seja de herói “sagrado”, seja de vilão da história nunca poderá ser uma questão de todo encerrada. Pois em toda a trama, quem é herói ou vilão, depende acima de tudo, dos olhos de quem o vê.

(continua....)

 

Sobre  o autor: 

LUIS MARCELO SANTOS: natural da cidade de Ponta Grossa (estado do Paraná) é professor de História da Rede Pública Estadual do estado do Paraná, Escritor e Historiador. Especialista em ensino de História e Geografia, especialista em ensino religioso e mestre em História formado pela UEPG, já publicou artigos para jornais como o Diário da Manhã e o Diário dos Campos (de Ponta Grossa) e Gazeta do Povo (de Curitiba), assim como a obra local (em parceria com Isolde Maria Waldmann) “A Saga do Veterano: um pouco dos 100 anos (1905-2005) em que o Clube Democrata marcou Ponta Grossa e os Campos Gerais”.