RESENHA DE LIVRO: “A que custo?”

Livro: A que custo? O capitalismo (moderno) e o futuro da saúde

Autor: Nicholas Freudenberg

Editora: Elefante

Ano: 2022


Quais os custos individuais e sociais do capitalismo? Quais impactos na saúde física e mental de trabalhadores, homens e mulheres, das grandes corporações? Como construir alternativas sólidas e coletivas de resistência e enfrentamento ao sistema? Essas e outras questões importantes são abordadas no livro “A que custo? O capitalismo (moderno) e o futuro da saúde”, escrita pelo professor de saúde pública da Universidade da Cidade de Nova York Nicholas Freundenberg.

Ao longo de mais de 500 páginas, o professor Freundenberg destrincha o custo social, ambiental, físico e mental que o capitalismo moderno vem causando na humanidade. Para isso, o autor divide o livro em cinco “pilares da saúde”: alimentos, educação, sistema de saúde, trabalho, mobilidade urbana e relações sociais. Em cada um destes cinco pilares, Freudenberg analisa os impactos nocivos do capitalismo, tal como está estruturado hoje: grandes corporações, redes sociais que promovem o individualismo e o consumismo, trabalho precarizado, privatização da saúde pública etc. Publicado originalmente em 2021, o autor traz também os impactos da pandemia global de covid-19 nos seus 5 pilares da saúde.

Embora a obra tenha um foco maior nos Estados Unidos, é perfeitamente possível fazer associações com o Brasil, visto que aqui também se adotou um receituário neoliberal para gerir o capitalismo brasileiro.




TRECHOS DO LIVRO:


“A crise financeira de 2008 poderia ter sido um ponto de virada. Poderia ter levado o povo e o governo dos Estados Unidos a examinar de maneira mais detida se a crescente influência da economia de mercado na vida cotidiana precisava mudar. Mas não houve mudança. Em vez disso, durante a última década testemunhamos a deterioração da saúde de muitos estadunidenses, o endividamento crescente, a desigualdade sistemática, o aumento da mão de obra com baixos salários, a desconfiança da maioria das instituições sociais, conflitos políticos aparentemente irreconciliáveis e o agravamento do aquecimento global. Poderá o declínio econômico global desencadeado pela pandemia de covid-19 proporcionar outra oportunidade para construir alternativas?” (p. 42).


“As longas jornadas de trabalho, as tarefas de cuidado da casa e dos filhos e o tempo necessário para alocar recursos limitados para assegurar a sobrevivência do ambiente familiar impõem, muitas vezes, um sentimento de urgência temporal aos trabalhadores mal-remunerados, uma sensação associada a problemas de saúde mental e física […]. Tanto os ricos quanto os pobres experimentam a escassez de tempo, mas os ricos podem comprar tempo de volta no mercado. Podem, por exemplo, pagar empregadas domésticas para limpar a casa, babás para cuidar dos filhos e contadores para elaborar a declaração de impostos. Para os trabalhadores mal-pagos, o fardo adicional da escassez de tempo esgota ainda mais a capacidade de proteger a saúde” (p. 318).


“Hoje, embora o capitalismo global tenha características próprias, ele não é monolítico ou homogêneo, mas varia ao longo do tempo e lugar. Cada variante tem arranjos diferentes para o que é público, o que é privado e quem decide o quê, e cada variante é forjada por interações locais e nacionais entre forças sociais concorrentes” (p. 464).



Sobre o autor:

 
Fábio Melo: Historiador. Membro Permanente e fundador do Grupo de Estudos Americanista Cipriano Barata (GEACB). Professor de escola pública. Produtor e radialista do programa "História em Pauta", que já passou por rádios comunitárias de Porto Alegre e Alvorada. Desenhista amador, tem um blog sobre quadrinhos, com resenhas e ênfase em histórias autorais: https://guerrilhacomix.blogspot.com/



VOCÊ CONHECE NELLIE BLY?


Imagine uma mulher de apenas 25 anos dar a volta no mundo sozinha em 72 dias, com apenas uma mala para seus pertences e roupas. Agora imagine isso no ano de 1889! 

A propósito, nem é preciso imaginar. Esse feito realmente aconteceu. Em 1889, a jornalista Nellie Bly (cujo nome de nascimento era Elizabeth Jane Cochram) partiu de Nova York para uma impressionante volta ao mundo em 72 dias. 


Inspirada pela obra “Volta ao Mundo em 80 dias” do escritor francês Júlio Verne, e pelos avanços nos transportes em fins do século 19, Bly propôs a ideia ao seu chefe, editor do jornal New York World (de Joseph Pulitzer) onde trabalhava. Ela já era conhecida por elevar o jornalismo ao extremo. Sua primeira grande reportagem impactante foi investigar as condições de vida dos internos no Hospício Blackwell, em Nova York. Na época, várias denúncias de tratamentos inadequados aos internos eram relatadas. Para descobrir se os relatos eram mesmo verdadeiros, Bly fingiu-se de louca para conseguir ser internada por 10 dias no tal hospício. Essa experiência impressionante deu origem ao livro “Dez Dias no Hospício”, publicado em 1887. O sucesso foi imediato. E lhe valeu uma promissora carreira de jornalista pelas décadas seguintes. 





Em novembro de 1889, Nellie partiu de Nova York para o Reino Unido, de lá foi para a França, onde se encontrou com o famoso escritor Júlio Verne. Após o breve e agradável encontro, Bly partiu para a Itália, de lá  pegou um navio para o Egito. Cruzando o Canal de Suez e o Mar Vermelho, Bly chegou às regiões que na época pertenciam ao império colonial britânico: atuais Sri Lanka, Malásia e China; e ao Japão, que não era colonial britânica, mas estava em plena Revolução Meiji (iniciada em 1868 e que deu ao país as condições de virar uma potência imperialista nas décadas seguintes). 


Apesar de não muito atenta e crítica em relação à história e ao desenvolvimento econômico dos lugares por onde passou, o olhar de Bly não deixou escapar a miséria influenciada pelo imperialismo estrangeiro. No Egito, Bly testemunha uma passagem interessante:


"Mal a ancora afundou, o navio foi cercado por uma frota de pequenos barcos, guiados por árabes seminus, lutando, agarrando, puxando, gritando em sua louca pressa de serem os primeiros. Nunca em minha vida vi tal demonstração de ganância voraz pelos poucos centavos que esperavam ganhar levando os passageiros para terra. Alguns barqueiros chegavam a empurrar outros para fora de seus barcos e os jogavam na água num esforço frenético de roubar os lugares uns dos outros. Quando a escada do navio foi lançada, muitos entre eles a agarraram como se fosse questão de vida ou morte, e lá se prenderam até que o capitão fosse obrigado a mandar os marinheiros baterem nos árabes para que saíssem, o que fizeram com bastões compridos, antes que os passageiros ousassem dar um passo adiante" (2021, p. 86). 


A viagem de Bly ao redor do mundo terminou em janeiro de 1890. Sua volta a Nova York foi uma festividade no país. Tornando-a ainda mais famosa. 


A curiosidade de Nellie ao chegar nos lugares mais distantes e pitorescos da época, como o Egito, Sri Lanka, China e Japão, não escondem um ar de darwinismo social e higienismo. Porém, é preciso ter em mente a época em que Bly se aventurou por esses lugares. Nos países industrializados, tal como sua terra natal, os Estados Unidos, essas ideias eram parte de um arcabouço científico que se estabelecia. 


Após a sua aventura pelo mundo, Bly se retirou por um tempo do jornalismo. Casou com um industrial, chamado Robert Seaman, e se dedicou a patentes inventivas para a indústria. Ao longo da década de 1910 ela se dedicou à causa sufragista nos EUA (onde as mulheres só conseguiram o direito de votar em 1920!). Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), Bly foi a primeira mulher a visitar como correspondente uma zona de guerra na Áustria, chegando a ser presa pelos austríacos.


Nellie Bly faleceu em janeiro de 1922. Seu legado para o jornalismo e a história, porém, são inegáveis. Viajar pelo mundo, sob a ótica de Bly, ajuda a entender as culturas e os preconceitos da época, onde a globalização ainda não tinha avançado tanto como hoje; bem como as muitas consequências nefastas do capitalismo no mundo. 





Sobre o autor:

 
 
Fábio Melo: Historiador. Membro Permanente e fundador do Grupo de Estudos Americanista Cipriano Barata (GEACB). Professor de escola pública. Produtor e radialista do programa "História em Pauta", que já passou por rádios comunitárias de Porto Alegre e Alvorada. Desenhista amador, tem um blog sobre quadrinhos, com resenhas e ênfase em histórias autorais: https://guerrilhacomix.blogspot.com/






UM BRASILEIRO CHAMADO RONDON: Resenha do livro “Rondon: uma biografia” de Larry Rohter

 Livro: Rondon: uma biografia

Autor: Larry Rohter

Editora: Objetiva

Ano: 2019



Cândido Mariano Rondon (1865-1958) foi uma das mais impressionantes personalidades brasileiras. De família humilde, com origens indígenas, Rondon se interessou desde muito jovem pelos estudos e ingressou no Exército em 1881, época em que o Brasil ainda era monarquia.

Uma vez na instituição, Rondon acabou influenciado por três importantes correntes ideológicas que contagiavam os jovens oficiais: o abolicionismo, a república e o positivismo. Rondon abolicionista lutou, não apenas pela libertação dos negros escravizados, que constantemente via ao longo de sua infância no Mato Grosso, mas também dedicou sua vida pela liberdade dos povos indígenas, capturados e tratados como escravizados, por fazendeiros, grileiros e posseiros, mesmo após a abolição legal da escravidão no Brasil, em 1888. Como positivista e republicano, Rondon viveu esses ideais fielmente, o que, em muitas ocasiões, lhe rendeu desavenças políticas severas.

Graças a essas influências, Rondon acabou se tornando famoso graças a suas expedições pelo interior remoto do Brasil – de 1890 até 1930 vastas áreas do Mato Grosso, Amazônia e os atuais estados de Rondônia (nome que é uma homenagem a Rondon), Roraima e Tocantins ainda eram completamente desconhecidas para governos, estudiosos, cientistas e pela sociedade brasileira em geral. Como consequência dessas expedições, que iniciaram em fins do século XIX como parte de um plano nacional para instalação de linhas telegráficas, Rondon se voltou para a defesa dos povos indígenas, que há milênios habitavam essas regiões. Com o lema “Morrer, se for preciso. Matar, nunca”, as expedições chefiadas por Rondon instalaram milhares de quilômetros de cabos telegráficos, ao mesmo tempo em que entrava em contato com povos indígenas, buscando estudá-los e manter relações pacíficas.

Em princípios do século XX, porém, a ideologia dominante era enxergar os povos indígenas como “atrasados”, “primitivos” e “indefesos”, de modo que os governos deveriam buscar estratégias de “assimilação” desses povos, ou seja, torná-los agricultores, ligados a estruturação de um mercado de gêneros alimentícios, ou pecuaristas. Contra essa visão geral sobre os indígenas, Rondon adotou uma ideologia de que esses povos deveriam simplesmente serem “deixados em paz”, vivendo de acordo com suas próprias estruturas políticas, econômicas e culturais em seus territórios originais – mas sem negar-lhes auxílio, caso esses povos precisassem. Foi imbuído desse ideal que Rondon conseguiu do presidente Nilo Peçanha que fosse criado o Serviço de Proteção dos Índios (SPI) em 1910. Ao longo de sua vida, porém, Rondon era atormentado com a política nacional de preservação e respeito aos indígenas, visto que por mais de 40 anos as políticas indigenistas eram interrompidas, desvalorizadas, invalidadas, dependendo do governo da ocasião. O livro de Larry Rohter explora bem esses desafios, não apenas de Rondon, mas de seu círculo de amigos e seguidores, que sempre lutaram pelos povos originais do Brasil.

Um dos grandes destaques do livro é a famosa Expedição Rondon-Roosevelt, entre 1913 e 1914, com o ex-presidente dos Estados Unidos Theodore Roosevelt. A expedição tinha como objetivo mapear um rio desconhecido na região entre Rondônia e Mato Grosso, chamado até então de Rio da Dúvida. No trajeto, a equipe exploradora, além de mapear o rio, deveria realizar uma grande pesquisa biológica de espécimes da região. Depois de mapeado, o rio ganhou o nome de Rio Roosevelt, e é um dos afluentes do Rio Madeira.

Outro momento da vida de Rondon que o livro aborda é sua participação no combate contra a Coluna Prestes. Na década de 1920, com a ascensão do movimento tenentista no Brasil, levantes militares foram uma constante e seu auge foi a Coluna Prestes, liderada pelo capitão Luís Carlos Prestes e que percorreu mais de 25 mil km no interior do país. Rondon, que sempre tentou se manter distante de política partidária, acabou enfrentando um grande dilema pessoal: como positivista, ele era contra revoluções e tomadas de poder por grupos rebeldes, se mantendo fiel ao princípio de que a ordem deveria ser preservada para o bom desenvolvimento nacional. Ao mesmo tempo, sempre nutriu uma grande desconfiança e desapontamento em relação aos governos republicanos, que jamais se comprometeram em criar políticas nacionais de desenvolvimento sociais, não apenas para os indígenas, mas para a população pobre, que crescia no mesmo ritmo das cidades, como o Rio de Janeiro. Ainda assim, Rondon permaneceu fiel ao seu dever militar, e foi para o estado do Paraná combater os rebeldes liderados por Prestes e Miguel Costa.

Na década de 1930 e 1940, Rondon conheceu um certo ostracismo em sua carreira. Como a Revolução de 1930 agregou muitos tenentistas da década anterior, muitos deles desafetos de Rondon, o general foi posto em várias funções burocráticas no exército e no SPI. Um breve alento foi a política da “Marcha para o Oeste”, formulada por Getúlio Vargas no fim da década de 1930 com o objetivo de colonizar áreas do oeste brasileiro, ainda pouco habitadas. Para tanto, Rondon foi muito consultado para equilibrar os desafios dessa marcha, ao mesmo tempo em que deveria haver certa proteção aos povos indígenas.

A vida e o legado de Rondon têm um valor inestimável para a história do Brasil. Suas contradições são muito mais desejos de um legítimo patriota devotado a servir ao país e à nobre causa da defesa dos indígenas, do que ambição ou falha de caráter. Como aponta Rohter:

“Sessenta anos após a morte de Rondon, muitas atitudes políticas que ele combateu permanecem profundamente arraigadas (como demonstra a tentativa de implementar o cínico ‘marco temporal’). Mas pergunto: isso representa uma falha por parte de Rondon? Podemos talvez criticá-lo por ser excessivamente idealista, por ter sido ingênuo a ponto de acreditar que seus esforços pudessem de algum modo ajudar a ‘transformas a Terra em paraíso’. Mas Rondon não decepcionou o Brasil. A bem da verdade, foi o contrário: gerações subsequentes de líderes fracassaram em viver à altura dos ideais que ele abraçou e sobretudo dos elevados parâmetros de conduta estabelecidos por ele” (2019, p. 488).


Enfim, o livro de Larry Rohter é uma leitura prazerosa, repleta de referências e bem contextualizada. Uma obra que o Brasil devia aos brasileiros.




Sobre o autor:

 
 
Fábio Melo: Historiador. Membro Permanente e fundador do Grupo de Estudos Americanista Cipriano Barata (GEACB). Professor de escola pública. Produtor e radialista do programa "História em Pauta", que já passou por rádios comunitárias de Porto Alegre e Alvorada. Desenhista amador, tem um blog sobre quadrinhos, com resenhas e ênfase em histórias autorais: https://guerrilhacomix.blogspot.com/




RESENHA DE LIVRO: "Lucro: uma história ambiental"

Livro: Lucro: uma história ambiental

Autor: Mark Stoll

Editora: Edições 70

Ano: 2023


Qual o impacto ambiental das sociedades humanas? Quais consequências para o meio ambiente e para a natureza do capitalismo de consumo desenfreado dos dias atuais? Essas são perguntas que o historiador Mark Stoll se empenha para responder na obra "Lucro: uma história ambiental". 

No livro, Stoll faz um grande esforço de apresentar de quais formas os seres humanos impactam a natureza, desde os tempos mais primórdios, onde a espécie humana ainda se restringia a grupos de caçadores-coletores, até a era atual capitalista. Evidente que, ao longo do desenvolvimento das sociedades modernas, forjadas sob o espectro do colonialismo, imperialismo, escravidão e da ascensão da indústria, com a revolução industrial, o impacto humano ao meio ambiente ganhou contornos muito mais dramáticos e apocalípticos. Os recentes eventos climáticos extremos, enchentes, incêndios e secas são um exemplo disso. 

A poluição no ar, nos mares e oceanos; a extração mineral; fertilização com compostos químicos dos solos agrícolas e o uso indiscriminado de pesticidas; o uso de energia nuclear e do plástico. Todos esses itens são abordados como causadores de uma mudança climática e ambiental com potencial desastroso para os seres humanos. E isso se soma ao modelo capitalista, na qual as sociedades estão assentadas, que impacta de forma diferente ricos e pobres, países desenvolvidos e em desenvolvimento (subdesenvolvidos). Também são apontadas as responsabilidades das grandes empresas que lucram com a destruição dos recursos naturais. 


TRECHOS DO LIVRO:


"Como é que o crime ambiental que é o smartphone foi parar nas mãos de milhares de milhões de pessoas que têm muito pouca noção dos seus custos ambientais?" (p. 18).


"Em 2021, a Amazon era a empresa mais valiosa do mundo, e o seu fundador, Jeff Bezos, a pessoa mais rica do planeta. Contrariamente à U.S. Steel, à Standard Oil ou à GM, a Amazon.com não produz praticamente nada. Herdeira mais dos grandes armazéns do que da fábrica ou refinaria, a empresa serve de intermediária entre produtores e consumidores" (p. 249). 


"Desde a Revolução Industrial até a década de 1960, as pessoas especulavam, muitas vezes entusiasticamente, a respeito do futuro e das maravilhas que ele traria. O ano 200 chegou sem grandes previsões  em relação ao grande e glorioso século ou milênio que estava pela frente. O cinismo e o pessimismo dominavam o estado de espírito" (p. 257).


"A partir da Cúpula de Estocolmo de 1972, as nações mais pobres deixaram claro que o desenvolvimento econômico, e não as questões ambientais, eram para elas prioritárias. Isso, claro está, representa um enorme obstáculo para a viabilização das propostas dos cidadãos das nações ricas do hemisfério norte no sentido de desmantelar o capitalismo para salvar o ambiente" (p. 305).


"Os ambientalistas nunca falaram a uma só voz. Muitos atacavam o consumo como uma escolha moral individual, como se a escolha de comprar um carro elétrico, de reciclar e de comer alimentos biológicos salvasse, por si só, a Terra. As empresas favorecem esta perspectiva, visto que ela deposita a responsabilidade pelos problemas ambientais nos consumidores e não nelas" (p. 314).





Sobre os autor:

Fábio Melo: Historiador. Membro Permanente e fundador do Grupo de Estudos Americanista Cipriano Barata (GEACB). Professor de escola pública. Produtor e radialista do programa "História em Pauta", que já passou por rádios comunitárias de Porto Alegre e Alvorada. Desenhista amador, tem um blog sobre quadrinhos, com resenhas e ênfase em histórias autorais: https://guerrilhacomix.blogspot.com/


CORAÇÕES SUJOS: A fake news que causou mortes e caos social em São Paulo na década de 1940

 

O livro “corações sujos” de Fernando Moraes traz uma história bastante curiosa, e pouco lembrada no Brasil. Era o ano de 1945. O país estava vivendo os últimos dias da ditadura do Estado Novo, sob a presidência de Getúlio Vargas. A segunda guerra terminava na Europa e no  Extremo Oriente com a derrota das potências do Eixo – Alemanha, Itália e Japão.

O envolvimento do Brasil no conflito trouxe algumas consequências para os descendentes dos imigrantes alemães, italianos e japoneses. Estes estavam proibidos de expressar qualquer coisa relacionada a seus países de origem. Ou seja, eram proibidos de falar e imprimir materiais em outra língua e as escolas deveriam ensinar apenas o português brasileiro. 

Essas censuras se tornaram dramáticas especialmente estado de São Paulo, onde se concentrava a maior densidade de japoneses e seus descendentes

Após a rendição japonesa, um grupo de fanáticos, japoneses de nascença e seus descendentes, organizaram um grupo, Shindo Renmei, que não aceitava a derrota japonesa. Eles diziam que a rendição do imperador japonês Hiroito era uma mentira inventada pelos Estados Unidos e disseminada pelo governo brasileiro. Para esses fanáticos, os que acreditavam na verdade, na derrota japonesa, não passavam de “corações sujos” e deveriam ser mortos.

E foi isso que ocorreu entre os últimos meses de 1945 e ao longo de 1946. Os fanáticos da Shindo Renmei vigiavam seus desafetos, marcavam suas residências, entravam nelas e cometiam os crimes. Em seguida, alguns deles se entregavam à polícia. Como se não bastasse a onda de violência perpetrada pelos japoneses no interior de São Paulo, a população brasileira começou a nutrir ódio pelos japoneses e seus descendentes. Esse ódio levou a um verdadeiro espetáculo de violência pública, quando japoneses foram linchados na cidade de Osvaldo Cruz, em julho de 1946.

Após vários episódios de violência, os principais membros da seita foram presos e o grupo se desarticulou, encerrando, assim, seu ciclo de mortes e disseminação de notícias falsas. 




É interessante fazer um paralelo do caso Shindo Renmei com a atualidade. Hoje em dia, com as tecnologias da informação tão avançadas, e o apego às redes sociais, ainda é possível pessoas, aparentemente comuns, caírem ou contribuírem para redes de desinformação e disseminação de notícias falsas – as fake news. Fatos assim, onde um grupo dissemina falsidade e ódio, aparentemente são traços que ocorrem em certas circunstâncias na sociedade, de tempos em tempos. Atualmente, em meio a toda possibilidade das tecnologias da informação, uma notícia falsa só ganha maior repercussão. E suas consequências, tal como outrora, podem ser fatais.



Sobre os autor:

 
Fábio Melo: Historiador. Membro Permanente e fundador do Grupo de Estudos Americanista Cipriano Barata (GEACB). Professor de escola pública. Produtor e radialista do programa "História em Pauta", que já passou por rádios comunitárias de Porto Alegre e Alvorada. Desenhista amador, tem um blog sobre quadrinhos, com resenhas e ênfase em histórias autorais: https://guerrilhacomix.blogspot.com/


O IMPACTO DO IMPROVÁVEL NA HISTÓRIA


O que um trader do mercado financeiro teria de importante para contribuir com a História? 

Em seu livro “A Lógica do Cisne Negro: o impacto do altamente improvável”, o matemático e negociador de ações Nassim Nicholas Taleb aborda eventos chamados de Cisnes Negros, que possuem 3 principais características: 1. São eventos que fogem, escapam, das expectativas; de acordo com o autor, “nada no passado consegue apontar de modo convincente essa possibilidade” (p.12). 2. Exercem um impacto extremo; e 3. “A natureza humana nos faz engendrar explicações para sua ocorrência após o fato, tornando-o um evento explicável e previsível” (p.12). 


Se analisarmos friamente esses três tópicos, é possível aplicá-los a todos fatos históricos! 


A ideia de Cisne Negro de Taleb, apesar da desconfiança de ter vindo de um matemático negociador de ações (Taleb também nutre desconfiança de historiadores), faz muito sentido ao nos debruçarmos sobre a História. Afinal de contas, os eventos históricos (por mais triviais que sejam), são, em boa parte, eventos aleatórios, pouco esperados e/ou totalmente improváveis. Isso pode ser elevado ao extremo se pensarmos que cada pessoa, ou grupos, em lugares diferentes tem sua própria história. Não podemos prever tudo. Cabe justamente ao historiador traçar a “cronologia epistemológica” que organiza esses eventos em uma narrativa. 


Podemos até usar a lógica que todo historiador é um historiador do improvável, do aleatório; afinal, a história se baseia em um acumulado de eventos, fatos e culturas materiais que ocorrem ao mesmo tempo em lugares diferentes. Qualquer realidade histórica é um acumulado caótico de bilhões de eventos acontecendo ao mesmo tempo. E muitos desses eventos que marcam profundamente a história podem até ser chamados de Cisnes Negros, tal como na definição de Taleb. 


Na prática, o historiador dá a seu objeto de estudo uma importância retrospectiva. Ou, de acordo com o próprio Nassim Taleb: “Por história, não me refiro apenas àqueles livros eruditos, mas enfadonhos, da seção de história (com pinturas renascentistas na capa para atrair compradores). A história, vou repetir, é qualquer sucessão de eventos vista sob o efeito da posterioridade (p. 144)


A obra também apresenta um conceito interessante no qual “quanto mais sabemos, menos conhecemos”. Tipo assim, enquanto estamos presos a modelos, não somos capazes de explicar completamente alguma coisa nova, ou inesperada. Isso pode se aplicar à História no sentido de que, em certos momentos, a teoria parece valer mais que a metodologia. Na academia é assim. Com efeito, o autor faz uma grande apologia ao empirismo - ele se considera um "empirista cético". Uma coincidência, pois um dos lemas de nosso GEACB diz que o "empirismo é nosso ponto de partida".




O livro de Nassim Taleb, apesar de ser às vezes pouco claro e objetivo, é, sim, bem inovador. A obra pode ser mais interessante e empolgante para quem curte apostas, aplicações e outras variantes ligadas ao mercado financeiro. Mas é preciso reconhecer que poucos se dedicam a estudar o acaso, o aleatório; e pouquíssimos, assim como Taleb, acreditam que é possível viver bem tendo a consciência de que o mundo é aleatório.



Referência:

TALEB, Nassim Nicholas. A lógica do Cisne Negro: O impacto do altamente improvável. Rio de Janeiro: Objetiva, 2021.



Sobre os autor:

 

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SOBREVIVENDO AOS ESTADOS UNIDOS: Os nômades do século XXI


O livro “Nomadland: sobrevivendo na América no século XXI” da jornalista Jéssica Bruder é um retrato do evidente: o sistema capitalista não funciona! Alguns incautos podem até se perguntar: “Ora, mas se o sistema não funciona, como está aí há mais de 5 séculos, gerando riqueza e de alguma forma melhorando a vida das pessoas?”

A esta pergunta eu respondo: as riquezas não são geradas para serem distribuídas de forma justa, em geral ficam concentradas nas mãos de algumas pessoas. Em relação a melhoria de vida de muitas pessoas, como o acesso à saúde, educação e aumento da expectativa de vida, a resposta é: se houve melhorias não foi graças ao sistema, mas apesar dele!

Mas então se o sistema é falho, como dura por tanto tempo?

Essa questão é mais fácil de responder. Dura a tanto tempo porque os que controlam o sistema não são capazes de reverter seu funcionamento. Já estão há gerações se beneficiando às custas de milhões que vivem na miséria. Mesmo com todos problemas sociais e ambientais que o sistema capitalista vem causando, nenhum grupo de países ou corporações ousa abandonar suas práticas destrutivas.

No mais, como é possível um sistema dar certo se não proporciona conforto para as pessoas? No caso do então país mais rico do mundo (um agora decadente Estados Unidos), como é possível um sistema dar certo se não há saúde gratuita e de qualidade para todos? Se estudantes passam a vida com o peso das dívidas do financiamento estudantil? Se as economias e o patrimônio de uma vida toda viram pó por causa dos caprichos do sistema financeiro?

É justamente a crise do sistema financeiro de 2008¹ o ponto de partida do livro de Jéssica Bruder. Essa crise (mais uma de um sistema que vive de crises…) foi responsável pela mudança radical de milhares de estadunidenses, em sua maioria de meia idade, entre seus 60 e 70 anos. Após uma vida de empregos relativamente estáveis (enquanto vigorou o estado de bem-estar social nos Estados Unidos, entre as décadas de 1930 e 1980), que proporcionou a aquisição de casas e a expectativa de uma boa aposentadoria (com a aplicação em fundos de aposentadoria), trabalhadores estadunidenses viveram sua ruína com a crise. A partir de 2008 o valor dos imóveis despencou. Já não era mais possível pagar a hipoteca. Os fundos de aposentadoria evaporaram. As dívidas aumentando. Sem alternativa, a opção foi a vida nômade: comprar um trailer equipado para viver na estrada com o mínimo possível, numa constante busca por empregos precarizados e temporários.



No livro Nomadland, alguns encaram esse estilo de vida como libertador (sem pagar hipotecas e outros impostos relacionados a propriedades imobiliárias). Mas na prática revela o verdadeiro lado do sistema: sem políticas sociais de proteção à velhice, sem saúde pública adequada, com a previdência irrisória e a mentalidade estadunidense de que “depender do Estado é ruim”, as pessoas lutam pela sobrevivência na única forma possível: o estilo de vida nômade.

Esses nômades do século XXI acabaram criando uma cultura própria, uma forma de vida peculiar, compartilhada em fóruns de internet e encontros anuais. Para manter esse estilo de vida, eles trabalham em empregos temporários, durante alguns meses por ano, seja como monitores de acampamentos, vigilantes em florestas, na colheita de beterrabas ou nos depósitos da Amazon. Quando acaba o período no emprego, eles se deslocam para outros estados, em busca de mais uma vaga temporária. Existe até um termo criado para esse tipo de trabalhadores: workampers – a junção de work (trabalhar) e camper (campista; de acampar com os trailers perto dos locais de trabalho).

“Os workampers são mão de obra pronta para uso, o epítome da conveniência para empregadores em busca de pessoal temporário. Eles aparecem onde e quando são necessários. Levam a própria casa, transformando estacionamentos em cidades-empresa efêmeras que se esvaziam depois que os trabalhos terminam. Não ficam juntos por tempo suficiente para se sindicalizarem. Em trabalhos que são fisicamente difíceis, muitos ficam cansados demais até para socializar depois dos turnos”²

A jornalista Jessica Bruder se entrega de verdade na elaboração de sua obra. Além de entrevistar centenas de nômades, ela passa pela experiência de viver em uma van e trabalhar como uma workamper!

O livro inspirou um filme de mesmo nome que chegou a ganhar importantes prêmios em 2021. A obra nos faz pensar sobre a decadência do capitalismo, suas falsas ilusões inculcadas na mente das pessoas e também sobre o que realmente é um padrão de vida adequado para as pessoas. E mais, nos faz pensar sobre as relações sociais e de trabalho nestas primeiras décadas do século XXI.  


NOTAS:

¹ Para saber mais sobre a crise de 2008, acesse: https://geaciprianobarata.blogspot.com/search?q=crise+de+2008

² BRUDER, Jessica. Nomadland: sobrevivendo na América no século XXI. Rio de Janeiro: Rocco, 2021, p. 75. 


Sobre os autor:

 

Fábio Melo: Historiador. Membro Permanente e fundador do Grupo de Estudos Americanista Cipriano Barata (GEACB). Professor de escola pública. Produtor e radialista do programa "História em Pauta", que já passou por rádios comunitárias de Porto Alegre e Alvorada. Desenhista amador, tem um blog sobre quadrinhos, com resenhas e ênfase em histórias autorais: https://guerrilhacomix.blogspot.com/


RESENHA DE LIVRO: "O Despertar de Tudo"

Livro: "O despertar de tudo: uma nova história da humanidade"

Autores: David Graeber e David Wengrow

Editora: Companhia das Letras


Ano: 2022



O famoso antropólogo David Graeber e o arqueólogo David Wengrow trazem uma nova perspectiva sobre os primeiros milênios da humanidade. Com base nos mais recentes estudos e achados arqueológicos, os autores propõem uma interpretação que foge dos padrões convencionais. Ao invés de uma linha evolutiva concebida como “estágios de organização social e produção” (de caçadores-coletores até sedentários agricultores, passando pela revolução agrícola e revolução urbana), Graeber e Wengrow nos apresentam uma enorme diversidade entre os povos antigos, que, simultaneamente em vários lugares (Eurásia, América e África), desenvolveram sistemas sociais, políticos e econômicos próprios, além de complexos - muitos, inclusive, rejeitando deliberadamente a agricultura e a hierarquia social entre dominadores e dominados, reis e servos, burocratas e serviçais. 


O livro começa pela crítica às grandes narrativas de “estado de natureza” que surgiram no Iluminismo e continuam influenciando muito a mente de pesquisadores, que ainda se utilizam dos modelos Rousseano ("o bom selvagem") e/ou Hobbesiano ("todos contra todos") para se referir a povos antigos, antes da formação de “Estados”. 


Além de uma história original sobre as origens da humanidade, o livro também aborda como o conceito de democracia moderna que se difundiu justamente no Iluminismo europeu, e que vai ganhar contornos políticos internacionais com a Independência dos Estados Unidos (1776) e a Revolução Francesa (1789), foi, em grande parte, uma herança dos povos originais americanos.


Embora original, falta ao livro imagens ou fotografias dos inúmeros lugares e objetos citados. Fotos de tais materiais iriam enriquecer a narrativa, além de dar uma dimensão mais precisa sobre o que os autores estão falando. 



TRECHOS DO LIVRO:


"E se, em vez de contar uma história narrando como nossa espécie decaiu de algum idílico estado de igualdade, perguntássemos como acabamos presos em grilhões conceituais tão rígidos que não conseguimos mais sequer imaginar a possibilidade de nos reinventar?" (p. 23)


"Sugerimos aqui que existe uma razão para tantos pensadores fundamentais do Iluminismo insistirem que seus ideais de liberdade individual e de igualdade política se inspiravam em fontes e exemplos ameríndios: porque era verdade" (p. 53). 


"Em termos de liberdade pessoal, a igualdade entre homens e mulheres , os costumes sexuais ou a soberania popular - ou mesmo, diga-se de passagem, de teorias da psicologia profunda -, a postura dos indígenas americanos provavelmente estão muito mais próximas das atitudes do leitor do que as dos europeus do século XVII" (p. 57).


"Uma das coisas que nos diferenciam dos animais não humanos é que eles produzem única e exclusivamente aquilo que precisam; os seres humanos produzem sempre mais. Somos criaturas de excessos, e é isto que nos torna a mais criativa e ao mesmo tempo mais destrutiva entre todas as espécies. As classes dirigentes são simplesmente aquelas que organizaram a sociedade de tal maneira que podem pegar para si a parte do leão desse excedente, seja com a tributação, a escravização, as obrigações feudais ou a manipulação dos mecanismos de livre mercado" (p. 147). 


"Sim, um forrageador poderia parecer paupérrimo de acordo com nossos critérios - mas aplicar nossos critérios era claramente ridículo. A 'fartura' não é uma medida absoluta. Refere-se apenas a uma situação em que se tem acesso a tudo o que se julga necessário para ter uma vida feliz e confortável. [...]. O próprio fato de que muitos caçadores-coletores e mesmo horticultores pareciam passar apenas de duas a quatro horas por dia fazendo algo que se poderia considerar 'trabalho' prova como era fácil atender às suas necessidades" (p. 156). 


"De fato, para quase todos nós, parece difícil até mesmo imaginar como funcionaria em grande escala um igualitarismo consciente. Mas isso demonstra apenas a forma automática com que aceitamos a narrativa evolutiva, na qual o governo autoritário é de alguma forma o resultado natural sempre que se junta um grupo numeroso de pessoas [...]" (p. 346).


"Uma das principais funções do ayllu era redistribuir as terras de cultivo à medida que as famílias aumentavam ou diminuíam, de modo que nenhuma enriquecesse mais que as outras" (p. 451).








Sobre o autor:

 
 

Fábio Melo: Historiador. Membro Permanente e fundador do Grupo de Estudos Americanista Cipriano Barata (GEACB). Professor de escola pública. Produtor e radialista do programa "História em Pauta", que já passou por rádios comunitárias de Porto Alegre e Alvorada. Também desenha quadrinhos com temas relacionados a História.