Livro: Rondon: uma biografia
Autor:
Larry Rohter
Editora:
Objetiva
Ano:
2019
Cândido Mariano Rondon (1865-1958) foi uma das mais impressionantes
personalidades brasileiras. De família humilde, com origens
indígenas, Rondon se interessou desde muito jovem pelos estudos e
ingressou no Exército em 1881, época em que o Brasil ainda era
monarquia.
Uma
vez na instituição, Rondon acabou influenciado por três
importantes correntes ideológicas que contagiavam os jovens oficiais: o
abolicionismo, a república e o positivismo. Rondon abolicionista
lutou, não apenas pela libertação dos negros escravizados, que constantemente via ao longo de sua infância no Mato Grosso, mas também
dedicou sua vida pela liberdade dos povos indígenas, capturados e tratados como escravizados, por fazendeiros, grileiros e
posseiros, mesmo após a abolição legal da escravidão no Brasil,
em 1888. Como positivista e republicano, Rondon viveu esses ideais
fielmente, o que, em muitas ocasiões, lhe rendeu desavenças
políticas severas.
Graças
a essas influências, Rondon acabou se tornando famoso graças a suas
expedições pelo interior remoto do Brasil – de 1890 até 1930
vastas áreas do Mato Grosso, Amazônia e os atuais estados de
Rondônia (nome que é uma homenagem a Rondon), Roraima e Tocantins
ainda eram completamente desconhecidas para governos, estudiosos,
cientistas e pela sociedade brasileira em geral. Como consequência
dessas expedições, que iniciaram em fins do século XIX como parte
de um plano nacional para instalação de linhas telegráficas,
Rondon se voltou para a defesa dos povos indígenas, que há milênios
habitavam essas regiões. Com o lema “Morrer, se for preciso.
Matar, nunca”, as expedições chefiadas por Rondon instalaram
milhares de quilômetros de cabos telegráficos, ao mesmo tempo em
que entrava em contato com povos indígenas, buscando estudá-los e
manter relações pacíficas.
Em
princípios do século XX, porém, a ideologia dominante era enxergar
os povos indígenas como “atrasados”, “primitivos” e
“indefesos”, de modo que os governos deveriam buscar
estratégias de “assimilação” desses povos, ou seja, torná-los
agricultores, ligados a estruturação de um mercado de
gêneros alimentícios, ou pecuaristas. Contra essa visão geral
sobre os indígenas, Rondon adotou uma ideologia de que esses povos
deveriam simplesmente serem “deixados em paz”, vivendo de acordo
com suas próprias estruturas políticas, econômicas e culturais em
seus territórios originais – mas sem negar-lhes auxílio, caso esses
povos precisassem. Foi imbuído desse ideal que Rondon conseguiu do
presidente Nilo Peçanha que fosse criado o Serviço de Proteção
dos Índios (SPI) em 1910. Ao longo de sua vida, porém, Rondon era
atormentado com a política nacional de preservação e respeito aos
indígenas, visto que por mais de 40 anos as políticas indigenistas
eram interrompidas, desvalorizadas, invalidadas, dependendo do
governo da ocasião. O livro de Larry Rohter explora bem esses
desafios, não apenas de Rondon, mas de seu círculo de amigos e
seguidores, que sempre lutaram pelos povos originais do Brasil.
Um
dos grandes destaques do livro é a famosa Expedição
Rondon-Roosevelt, entre 1913 e 1914, com o ex-presidente dos Estados
Unidos Theodore Roosevelt. A expedição tinha como objetivo mapear
um rio desconhecido na região entre Rondônia e Mato Grosso, chamado
até então de Rio da Dúvida. No trajeto, a equipe exploradora, além
de mapear o rio, deveria realizar uma grande pesquisa biológica de
espécimes da região. Depois de mapeado, o rio ganhou o nome de Rio
Roosevelt, e é um dos afluentes do Rio Madeira.
Outro
momento da vida de Rondon que o livro aborda é sua participação no
combate contra a Coluna Prestes. Na década de 1920, com a ascensão
do movimento tenentista no Brasil, levantes militares foram uma
constante e seu auge foi a Coluna Prestes, liderada pelo capitão
Luís Carlos Prestes e que percorreu mais de 25 mil km no interior do
país. Rondon, que sempre tentou se manter distante de política
partidária, acabou enfrentando um grande dilema pessoal: como
positivista, ele era contra revoluções e tomadas de poder por
grupos rebeldes, se mantendo fiel ao princípio de que a ordem
deveria ser preservada para o bom desenvolvimento nacional. Ao mesmo
tempo, sempre nutriu uma grande desconfiança e desapontamento em
relação aos governos republicanos, que jamais se comprometeram em
criar políticas nacionais de desenvolvimento sociais, não apenas
para os indígenas, mas para a população pobre, que crescia no
mesmo ritmo das cidades, como o Rio de Janeiro. Ainda assim, Rondon
permaneceu fiel ao seu dever militar, e foi para o estado do Paraná
combater os rebeldes liderados por Prestes e Miguel Costa.
Na
década de 1930 e 1940, Rondon conheceu um certo ostracismo em sua
carreira. Como a Revolução de 1930 agregou muitos tenentistas da
década anterior, muitos deles desafetos de Rondon, o general foi posto em
várias funções burocráticas no exército e no SPI. Um breve
alento foi a política da “Marcha para o Oeste”, formulada por
Getúlio Vargas no fim da década de 1930 com o objetivo de colonizar
áreas do oeste brasileiro, ainda pouco habitadas. Para tanto, Rondon
foi muito consultado para equilibrar os desafios dessa marcha, ao
mesmo tempo em que deveria haver certa proteção aos povos
indígenas.
A
vida e o legado de Rondon têm um valor inestimável para a história
do Brasil. Suas contradições são muito mais desejos de um legítimo
patriota devotado a servir ao país e à nobre causa da defesa dos
indígenas, do que ambição ou falha de caráter. Como aponta
Rohter:
“Sessenta
anos após a morte de Rondon, muitas atitudes políticas que ele
combateu permanecem profundamente arraigadas (como demonstra a
tentativa de implementar o cínico ‘marco temporal’). Mas
pergunto: isso representa uma falha por parte de Rondon? Podemos
talvez criticá-lo por ser excessivamente idealista, por ter sido
ingênuo a ponto de acreditar que seus esforços pudessem de algum
modo ajudar a ‘transformas a Terra em paraíso’. Mas Rondon não
decepcionou o Brasil. A bem da verdade, foi o contrário: gerações
subsequentes de líderes fracassaram em viver à altura dos ideais
que ele abraçou e sobretudo dos elevados parâmetros de conduta
estabelecidos por ele” (2019, p. 488).
Enfim,
o livro de Larry Rohter é uma leitura prazerosa, repleta de
referências e bem contextualizada. Uma obra que o Brasil devia aos
brasileiros.
Sobre o autor:
Fábio Melo: Historiador. Membro Permanente e fundador do Grupo de Estudos Americanista Cipriano Barata (GEACB). Professor de escola pública. Produtor e radialista do programa "História em Pauta", que já passou por rádios comunitárias de Porto Alegre e Alvorada. Desenhista amador, tem um blog sobre quadrinhos, com resenhas e ênfase em histórias autorais: https://guerrilhacomix.blogspot.com/.