A CRISE DE 2008

Crise 2008

Após os ataques terroristas às Torres Gêmeas na cidade de Nova York, em 11 de setembro de 2001, a economia dos Estados Unidos, sob a orientação do presidente George W. Bush (Republicano), iniciou um período de consumo sem controle – com crédito fácil e juros baixos. O presidente e seus assessores acreditavam que só um amplo estímulo ao consumismo faria a população superar o trauma dos ataques terroristas.

Em 2007-2008, a falta de regulamentação nas instituições financeiras que forneciam créditos nos Estados Unidos, provocou uma grande crise econômica que em pouco tempo (graças aos fluxos de capitais) se espalhou por vários países.

A origem desta crise está nas hipotecas de imóveis. Muitos cidadãos estadunidenses hipotecavam seus imóveis para conseguir créditos ou dinheiro em bancos. Os imóveis tinham seu valor definido pela especulação imobiliária. Mas algumas pessoas não tinham um “bom histórico” de pagamento; ainda assim, os bancos concediam-lhes créditos chamados de “alto risco” (chamados de subprime). Essas hipotecas eram negociadas em instituições financeiras – os chamados “banco de investimento”. Os compradores destas subprimes acreditavam que podiam resgatar o dinheiro desses créditos com juros.

Quando bancos e outras instituições financeiras executavam as hipotecas, tomando a casa das pessoas, por exemplo, estas propriedades ficavam disponíveis para a venda. Os bancos esperavam recuperar o dinheiro com a venda dos imóveis por um valor muito mais alto do que eles realmente tinham. Mas praticamente não haviam compradores – visto que muita gente havia feito suas hipotecas. Essa bola de neve só cresceu e se espalhou pelo mundo. Uma “bolha imobiliária” cresceu. Apesar das críticas dos defensores do “livre mercado” e da “não interferência estatal”, a falta de regulamentação desse sistema especulativo baseado em créditos de pessoas que não tinham condições de pagar arrastou o sistema financeiro dos EUA e do mundo.

Uma das maneiras de exemplificar as causas da crise é relacioná-la ao chamado “esquema Ponzi”. Esse “esquema” deve seu nome ao italiano Carlo Ponzi (1882-1949), que imigrou para os Estados Unidos no início do século XX. Na década de 1920, Ponzi foi condenado por suas “trapaças” e falsificação no Canadá; vindo a morrer no Brasil! O esquema é o mesmo usado nas atuais “pirâmides financeiras”. Uma pessoa promete algum lucro (vamos chamá-lo de investidor número 1), mas o lucro virá só se interessados estiverem dispostos a investir num “negócio”. Os interessados investem seu dinheiro e precisam incluir mais pessoas no negócio, ficando com parte do lucro dos novos investidores; enquanto que o investidor número 1 fica com parcelas de lucro de todos que vão sendo inseridos nos “esquema” – por isso a alusão à pirâmide. Na prática, o “negócio lucrativo” é um chamariz que na maioria das vezes não produz nenhum valor. Exemplos deste tipo de “esquema de Ponzi” são dos mais variados. Aqui no Brasil se destacam os casos da empresa Avestruz Master[1] (na qual os donos da empresa prometiam lucros fabulosos para quem investisse na compra e venda de avestruzes) e da Fazenda Boi Gordo[2] ; ambos os casos ocorridos nas décadas de 1990 e 2000.

Protesto nos EUA

O bizarro é que esses esquemas se multiplicam, mesmo após a experiência em escala global da crise de 2008. Investimentos em criptomoedas (como no caso Kriptacoin nos EUA, em 2017- 2018[3] ) e em empresas que vão de produtos alimentícios até de investidoras em “ações” são maus exemplos de que essa prática ainda é muito comum. Voltando as raízes da crise. “Os bancos concedem empréstimos na esperança de que os preços dos imóveis continuem subindo, mas ao emprestar tanto dinheiro ajudam a inflar os preços. Nos dez anos que antecedem a crise, os preços de imóveis norte-americanos mais do que duplicaram. Credores e tomadores criavam uma espiral ascendente autorrealizada, o que os economistas chamam de ‘bolha’. [...] O problema é que as bolhas explodem. Então vem o momento Minsky* quando os credores se acovardam e começam a pedir que os empréstimos sejam saldados. Eles param de emprestar dinheiro para tomadores arriscados, e os preços dos imóveis param de subir tão de pressa. Isso mina o esquema de finanças Ponzi, que depende de aumentos rápidos. As pessoas começam a vender os imóveis, e os preços caem. Os tomadores percebem que não conseguem saldar os empréstimos, e os bancos começam a apoderar-se de suas casas. As empresas de construção param de construir imóveis novos, o investimento na economia é interrompido, e o país entra em recessão”[4]

Um dos símbolos desta crise foi a falência do famoso banco de investimento Lehman Brothers, em setembro de 2008. O Lehman Brother foi fundado em 1850 e tinha atuação global, ou seja, tinha uma larga tradição e experiência em finanças. Por isso, a falência deste banco se tornou um dos símbolos da crise. Crise de 2008 teve consequências desastrosas. Basta pensarmos que a economia global está conectada na estrutura da Divisão Internacional do Trabalho[5] , reforçada com a globalização. Porém, alguns países sofreram mais que outros, de acordo com os “mecanismos de defesa” disponíveis em cada um. Os Estados Unidos, país onde o fundamentalismo especulativo teve início com a questão dos subprimes, começou esforços para resolver a crise dando dinheiro para os bancos! No último ano de governo George W. Bush, o governo dos EUA concedeu empréstimos milionários aos bancos e empresas falidas. O presidente seguinte, Barack Obama (Democrata), seguiu com a política de empréstimos; chegando a cerca de US$ 700 bilhões de dólares em 2009.

As causas e consequências dessa crise, que muitos historiadores avaliam como a mais impactante desde a crise de 1929, nos faz pensar na regulação do sistema financeiro e na proibição da especulação. O sistema capitalista vive em constante crise. Uma centena de instituições econômicas jogam com as finanças mundiais para o lucro de poucas famílias, as mais ricas do mundo que detém cerca de 90% das riquezas produzidas no mundo[6] . O dinheiro não é investido em produção, é colocado nos circuitos internacionais especulativos (improdutivos). Um sistema assim é inviável em várias dimensões: sociais, ambientais e culturais. Ainda assim, se mantém de pé graças ao que chamo de “capitalismo de reserva” (conceito que pretendo desenvolver em uma série de artigos).

Notas:


1 https://jornalggn.com.br/economia/consumidor/relembrando-o-golpe-do-avestruz-master/
2 https://oglobo.globo.com/economia/investidores-da-boi-gordo-vao-comecar-ser-ressarcidos-22882739
3 https://g1.globo.com/df/distrito-federal/noticia/2019/10/09/kriptacoin-justica-do-df-aumenta-pena-e-mantem- condenacao-de-envolvidos-em-esquema-de-piramide.ghtml
* Momento Minsky é se refere ao economista estadunidense Hyman Minsky (1919-1996) que estudou as crises financeiras.
4 KISHTAINY, p. 257-8
5 http://geaciprianobarata.blogspot.com/2017/01/miseria-das-nacoes-divisao.html
6 https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/01/160118_riqueza_estudo_oxfam_fn

REFERÊNCIAS

DOWBOR, Ladislau. A era do capital improdutivo. São Paulo: Autonomia Literária, 2017.
FERGUSON, Niall. A ascensão do dinheiro: a história financeira do mundo. São Paulo: Planeta,
2017.
HARVEY, David. 17 contradições e o fim do capitalismo. São Paulo: Boitempo, 2016.
KISHTAINY, Niall. Uma breve história da economia. Porto Alegre: L&PM, 2018.

Sobre o Autor:
Fábio Melo
Fábio Melo: Membro Permanente e fundador do Grupo de Estudos Americanista Cipriano Barata. Pesquisa sobre História Social da América e Educação na América (América Latina e Estados Unidos). Produtor e radialista do programa "História em Pauta" na rádio A Voz do Morro. Tem diversos textos escritos sobre educação, cultura e política. 

SOBREVIVENDO AOS ESTADOS UNIDOS: Os nômades do século XXI


O livro “Nomadland: sobrevivendo na América no século XXI” da jornalista Jéssica Bruder é um retrato do evidente: o sistema capitalista não funciona! Alguns incautos podem até se perguntar: “Ora, mas se o sistema não funciona, como está aí há mais de 5 séculos, gerando riqueza e de alguma forma melhorando a vida das pessoas?”

A esta pergunta eu respondo: as riquezas não são geradas para serem distribuídas de forma justa, em geral ficam concentradas nas mãos de algumas pessoas. Em relação a melhoria de vida de muitas pessoas, como o acesso à saúde, educação e aumento da expectativa de vida, a resposta é: se houve melhorias não foi graças ao sistema, mas apesar dele!

Mas então se o sistema é falho, como dura por tanto tempo?

Essa questão é mais fácil de responder. Dura a tanto tempo porque os que controlam o sistema não são capazes de reverter seu funcionamento. Já estão há gerações se beneficiando às custas de milhões que vivem na miséria. Mesmo com todos problemas sociais e ambientais que o sistema capitalista vem causando, nenhum grupo de países ou corporações ousa abandonar suas práticas destrutivas.

No mais, como é possível um sistema dar certo se não proporciona conforto para as pessoas? No caso do então país mais rico do mundo (um agora decadente Estados Unidos), como é possível um sistema dar certo se não há saúde gratuita e de qualidade para todos? Se estudantes passam a vida com o peso das dívidas do financiamento estudantil? Se as economias e o patrimônio de uma vida toda viram pó por causa dos caprichos do sistema financeiro?

É justamente a crise do sistema financeiro de 2008¹ o ponto de partida do livro de Jéssica Bruder. Essa crise (mais uma de um sistema que vive de crises…) foi responsável pela mudança radical de milhares de estadunidenses, em sua maioria de meia idade, entre seus 60 e 70 anos. Após uma vida de empregos relativamente estáveis (enquanto vigorou o estado de bem-estar social nos Estados Unidos, entre as décadas de 1930 e 1980), que proporcionou a aquisição de casas e a expectativa de uma boa aposentadoria (com a aplicação em fundos de aposentadoria), trabalhadores estadunidenses viveram sua ruína com a crise. A partir de 2008 o valor dos imóveis despencou. Já não era mais possível pagar a hipoteca. Os fundos de aposentadoria evaporaram. As dívidas aumentando. Sem alternativa, a opção foi a vida nômade: comprar um trailer equipado para viver na estrada com o mínimo possível, numa constante busca por empregos precarizados e temporários.



No livro Nomadland, alguns encaram esse estilo de vida como libertador (sem pagar hipotecas e outros impostos relacionados a propriedades imobiliárias). Mas na prática revela o verdadeiro lado do sistema: sem políticas sociais de proteção à velhice, sem saúde pública adequada, com a previdência irrisória e a mentalidade estadunidense de que “depender do Estado é ruim”, as pessoas lutam pela sobrevivência na única forma possível: o estilo de vida nômade.

Esses nômades do século XXI acabaram criando uma cultura própria, uma forma de vida peculiar, compartilhada em fóruns de internet e encontros anuais. Para manter esse estilo de vida, eles trabalham em empregos temporários, durante alguns meses por ano, seja como monitores de acampamentos, vigilantes em florestas, na colheita de beterrabas ou nos depósitos da Amazon. Quando acaba o período no emprego, eles se deslocam para outros estados, em busca de mais uma vaga temporária. Existe até um termo criado para esse tipo de trabalhadores: workampers – a junção de work (trabalhar) e camper (campista; de acampar com os trailers perto dos locais de trabalho).

“Os workampers são mão de obra pronta para uso, o epítome da conveniência para empregadores em busca de pessoal temporário. Eles aparecem onde e quando são necessários. Levam a própria casa, transformando estacionamentos em cidades-empresa efêmeras que se esvaziam depois que os trabalhos terminam. Não ficam juntos por tempo suficiente para se sindicalizarem. Em trabalhos que são fisicamente difíceis, muitos ficam cansados demais até para socializar depois dos turnos”²

A jornalista Jessica Bruder se entrega de verdade na elaboração de sua obra. Além de entrevistar centenas de nômades, ela passa pela experiência de viver em uma van e trabalhar como uma workamper!

O livro inspirou um filme de mesmo nome que chegou a ganhar importantes prêmios em 2021. A obra nos faz pensar sobre a decadência do capitalismo, suas falsas ilusões inculcadas na mente das pessoas e também sobre o que realmente é um padrão de vida adequado para as pessoas. E mais, nos faz pensar sobre as relações sociais e de trabalho nestas primeiras décadas do século XXI.  


NOTAS:

¹ Para saber mais sobre a crise de 2008, acesse: https://geaciprianobarata.blogspot.com/search?q=crise+de+2008

² BRUDER, Jessica. Nomadland: sobrevivendo na América no século XXI. Rio de Janeiro: Rocco, 2021, p. 75. 


Sobre os autor:

 

Fábio Melo: Historiador. Membro Permanente e fundador do Grupo de Estudos Americanista Cipriano Barata (GEACB). Professor de escola pública. Produtor e radialista do programa "História em Pauta", que já passou por rádios comunitárias de Porto Alegre e Alvorada. Desenhista amador, tem um blog sobre quadrinhos, com resenhas e ênfase em histórias autorais: https://guerrilhacomix.blogspot.com/. 


A TERCEIRA VIA NA AMÉRICA LATINA

Vias do capitalismo

Proponho dividir a história econômica do capitalismo pós-crise de 1929 em quatro fases. A primeira fase vai de 1930 até o final da segunda guerra mundial (1945); é a fase da “reconstrução”. Ao longo deste período, os governos, as corporações e as organizações operárias em muitos países contribuíram para reconstruir as economias nacionais após a crise capitalista de 1929. Essa reconstrução só foi possível dentro do capitalismo porque as elites econômicas tiveram que ceder; era necessário abrir mão de certos privilégios para manter o sistema – e evitar a revolução socialista. Importantes direitos sociais, como as leis trabalhistas, a previdência, o voto popular e o voto feminino, são desta época. O Estado se redefiniu como organizador da economia nacional. Nos países subdesenvolvidos, periferia do núcleo capitalista dentro da Divisão Internacional do Trabalho[1], essa fase favoreceu a industrialização, através da “substituição de importações”.

A segunda fase vai de 1945 até cerca de 1980; é a fase do Estado de Bem-estar Social (welfare state). Após a consolidação de muitos direitos políticos e sociais, houve um grande esforço de governos, empresas e trabalhadores em garantir a manutenção e ampliação desses benefícios sociais. O padrão de vida aumentou. As classes médias foram ampliadas. Os serviços públicos cresceram. Nos países subdesenvolvidos que haviam alcançado uma relativa industrialização do período anterior (como Brasil, Argentina, México, Chile) este período foi o do chamado “nacional- desenvolvimentismo”, ou desenvolvimentismo, ou “capitalismo autônomo” (de relativa autonomia). 

A terceira fase vai de 1980 até cerca de 2000. É a fase do neoliberalismo. Este período é marcado pelas privatizações. Pelo incentivo as especulações financeiras. Pelo poder absoluto dos bancos e rentistas nas economias nacionais. Os governos de Margaret Thatcher no Reino Unido e de Ronald Reagan nos Estados Unidos marcam a aplicação e expansão do neoliberalismo no mundo (embora o “ensaio geral” de aplicação desse modelo tenha sido no Chile, a partir de 1973, através da violenta ditadura de Augusto Pinochet[2]). Em países da América Latina, como Brasil, Argentina e México, houve o desmonte de todo parque industrial dos períodos anteriores.

Por fim, o último período que proponho aqui, a quarta fase, é a “Terceira Via”, que é o foco deste texto.

Antes é preciso deixar claro que muitas das políticas econômicas apresentadas nas fases acima nem sempre surgiram dentro dos períodos citados. Por exemplo, a previdência social surgiu no Império Alemão conservador de Bismarck e do kaiser Guilherme I. Porém, essa ideia (de origem socialista) só se espalhou pelo mundo ao longo do século XX, principalmente entre as décadas de 1930 e 1950.

O que é a “Terceira Via”? É uma tentativa de síntese (ou conciliação) entre o neoliberalismo econômico e algumas políticas sociais. Essa ideia surgiu no início da década de 1990, dentro de um grupo de trabalhistas ingleses (do “novo trabalhismo”). Por isso “terceira via”: nem a “via neoliberal extrema”, nem a via “socialista”.

Entre os adeptos da terceira via estão o sociólogo inglês Anthony Giddens e o político Tony Blair, também inglês e membro da ala direita do Labour Party, partido que estabeleceu as bases do Estado de Bem-estar social no Reino Unido nos anos 1940-1950. Ainda nos anos 1990, a ideia da terceira via chegou aos Estados Unidos, ganhando força no governo do democrata Bill Clinton (presidente em dois mandatos de 1993 até 2001). A partir de então muitos que defendiam a Terceira Via se autoproclamaram “sociais liberais” ou “liberais sociais”. Atenção: o neoliberalismo não terminou nessa fase, ele apenas ganhou um verniz timidamente (muito tímido, quase inexpressivo) “social”. Apesar de sucessivas crises, o neoliberalismo e suas premissas seguem fortes em todo mundo.

Na América Latina, que possui uma realidade histórica particular e dinâmicas sociais, políticas e econômicas bem diversas do que ocorre nos países capitalistas mais avançados, essa ideia de “terceira via” foi absorvida por partidos ditos de esquerda.

Um dos exemplos mais evidentes disso é o do Brasil. Ao longo da década de 1990, os governos brasileiros desenvolveram políticas nitidamente neoliberais. As privatizações, a partir do governo Fernando Collor seguidas por Fernando Henrique Cardoso, e a criação do Plano Real, seguindo as receitas do FMI, Banco Mundial e do Consenso de Washington. Curioso é que Fernando Henrique Cardoso (FHC), que governou o Brasil de 1994 até 2002, é do Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB), contudo, tanto seu partido como seu governo são adeptos do neoliberalismo (principalmente no que diz respeito a privatizações e parcerias público-privadas). O governo FHC foi eficaz na implantação inicial da terceira via no Brasil: manteve o neoliberalismo e iniciou um tímido programa de distribuição de renda e políticas sociais, tais como o Bolsa-Escola, o auxílio gás e o Programa Renda Mínima. Esses programas foram continuados pelo presidente Lula, a partir de 2003, e até ampliados, como o Bolsa Família. Contudo, o poder dos bancos, as flexibilizações nas leis e direitos trabalhistas e a transferência de renda pública para grandes corporações econômicas também marcaram esses governos.

Sendo assim, no caso brasileiro, o governo do PT foi muito mais próximo da Terceira Via do que de uma política realmente de esquerda. Visto que os anos nos quais o Partido dos Trabalhadores (primeiro com Lula e depois com Dilma Rousseff) governou, de 2003 até 2016, não houve uma grande reforma agrária, ou reforma urbana, ou controle dos bancos ou um combate mais efetivo a desigualdade social (que ainda persiste, apesar de muita coisa feita ao longo desses governos).

Porém, o Brasil não é o único caso em que a Terceira Via foi absorvida por partidos de esquerda que chegaram ao poder. Na América Latina, muitos analistas e historiadores ao tratar do período no qual governos de esquerda chegaram o poder dentro dessa lógica da terceira via usam termos diferentes: “novo desenvolvimentismo”, “período progressista”, “governos de esquerda” etc. Independente do nome que se dá, esse período se estende de 1999, quando da posse de Hugo Chavez na Venezuela, até a queda de Dilma Rousseff em 2016, no Brasil. Durante esse tempo, os Kirchner (Nestor e Cristina) chegaram ao poder na Argentina, em 2003; a Frente Ampla uruguaia se manteve no governo desde 2005 (até recentemente – 2020); Evo Morales na Bolívia, em 2006; e Rafael Correa no Equador, em 2007. Todos esses governaram num amplo espectro da Terceira Via, que vai do modelo mais radical de enfrentamento (Venezuela) ao modelo mais conservador de conciliação com o neoliberalismo (Brasil e México). Esses governos não romperam totalmente com o neoliberalismo, com o capital financeiro mundial, embora em muitos casos, como na Bolívia e na Venezuela, reformais sociais tiveram grande disseminação em setores excluídos ou marginalizados nas respectivas sociedades (como a reforma agrária e nacionalizações). Na prática, a tal “onda progressista” foi sem dúvida uma “onda da terceira via”. O erro de parte da esquerda que participou desses processos e governos em alguns países foi não enxergar os limites e contradições dessa conciliação – e não acreditar que os governos “progressistas” não faziam os enfrentamentos possíveis, principalmente em países que tinham boas condições para fazê-lo, como foi o caso do Brasil.

Essa “onda da terceira via” chegou ao fim de diferentes modos nos diversos países latino- americanos que se instalou. Mas podemos definir como “marco” para o fim do período o ano de 2016. Evidente que esses governo de terceira via (pintados de esquerda radical pelos mais conservadores e reacionários) enfrentaram resistências ao longo dos anos que estiveram no poder, mesmo de suas políticas mais moderadas. Porém, o ano de 2016 é preciso graças a dois fatos: a eleição do republicano Donald Trump nos Estados Unidos, e o golpe/impeachment de Dilma Rousseff no Brasil. É também a partir de 2016 que uma verdadeira onda conservadora/obscurantista/conspiracionista/reacionária e ultraliberal ganhou força e arregimentou uma legião de fanáticos em redes sociais que foram as ruas protestar por coisas absurdas (como no Brasil). Esses elementos estavam sendo gestados pelo menos desde a crise de 2008.

Essa “onda obscurantista” mostrou claramente os limites e as fragilidades da terceira via latino-americana. Contudo, há resistências. Na Venezuela, apesar de muitos erros e acertos, Nicolas Maduro segue resistindo aos ataques nacionais e internacionais que pretendem aprofundar o neoliberalismo imperialista no país. Na Bolívia, Evo Morales renunciou em 2019 após denúncias de fraude por parte da OEA (organização pró Estados Unidos, portanto contrária aos interesses nacionais bolivianos).

Este texto, evidentemente, não tem a pretensão de analisar cada país latino-americano. Minha ideia foi apenas pontuar algumas questões dentro dessa ideia de que a “terceira via” latino- americana pretendeu ser de esquerda mas acabou mostrando os limites e contradições desse modelo aplicado a uma região periférica do capitalismo que é “moldada” pelos organismos financeiros internacionais do sistema para ser eternamente uma região fornecedora de matérias-primas (commodities) para os núcleos de onde o capital erradia seus tentáculos.


Notas:

[1] http://geaciprianobarata.blogspot.com/2017/01/miseria-das-nacoes-divisao.html

[2] http://geaciprianobarata.blogspot.com/2016/09/chile-1973-o-outro-11-de-setembro.html



Referências

ALLEN, Robert C. História econômica global: uma breve introdução. Porto Alegre: L&PM,
2017.
HARVEY, David. O Neoliberalismo, história e implicações. São Paulo: Loyola, 2008.
__________. 17 contradições e o fim do capitalismo. São Paulo: Boitempo, 2016.
DABENE, Olivier. América Latina no século XX. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003.
DOWBOR, Ladislau. A era do capital improdutivo. São Paulo: Autonomia Literária, 2017.
KISHTAINY, Niall. Uma breve história da economia. Porto Alegre: L&PM, 2018.
SANTOS, Fábio Luís Barbosa dos. Uma história da onda progressista sul-americana (1999-
2016). São Paulo: Elefante, 2018.



Sobre o Autor:
 
Fábio Melo: Historiador. Membro Permanente e fundador do Grupo de Estudos Americanista Cipriano Barata. Pesquisa sobre História Social da América e Educação na América (América Latina e Estados Unidos). Produtor e radialista do programa "História em Pauta" na rádio web e FM A Voz do Morro. Professor de História e Geografia. Tem diversos textos escritos sobre educação, cultura e política.


TRABALHADORES DOS SETORES ESTRATÉGICOS E A LUTA DE CLASSES

Hoje, agora, quase 150.000 brasileiros morreram de COVID-19; e temos mais de 4,5 milhões de pessoas infectadas em uma população de 211 milhões. Ao mesmo tempo, mais da metade da população brasileira está sem carteira assinada. O processo de desindustrialização e as taxas de crescimento desaceleraram desde a década de 1980, com décadas perdidas; o país se torna uma grande fazenda, uma mina a céu aberto, um cassino financeiro; enquanto a massa salarial e o poder dos trabalhadores encolhem diante do ataque capitalista. Em uma alegoria do futebol, a defesa é muito pior do que o ataque. Nos últimos anos, observamos uma queda nas lutas populares e uma queda de mais de 20% no número de trabalhadores sindicalizados. Mais da metade do país vive da renda da previdência e da ajuda emergencial de um governo de extrema direita, mas aprendeu a viver assim com a social-democracia desenvolvimentista. E embora 10 milhões de trabalhadores passem fome no Brasil, a matemática parece simples: dê apenas o suficiente para impedir qualquer tipo de revolta que possa começar a qualquer momento.
 

Mural de Diego Rivera

Analisar a realidade concreta da luta concreta é o desafio de cada “quadro”' revolucionário, este estudo quer dialogar com todos os quadros da esquerda revolucionária brasileira, para que observem, a partir de sua realidade prática e concreta, o déficit organizacional geral da Revolução Brasileira, no déficit de estruturas organizacionais da revolução brasileira. Este artigo não se limita às razões do surgimento da extrema direita no Brasil, de seu governo sob uma pandemia mortal de COVID-19 e seu desastre sanitário; ou sua comparação com a Social-Democracia que esteve 13 anos no poder com Lula-Dilma, para dizer que esta teria enfrentado a crise com mais humanidade. É uma reflexão para analisar a pandemia no marco da estratégia organizacional da revolução socialista no Brasil. Onde cada “quadro” organizacional, sua atuação junto às massas populares, bem como as prioridades escolhidas coletivamente, com o apoio das estruturas de classe desempenham um papel fundamental na compreensão da crise brasileira.

Devemos continuar o estudo da revolução brasileira, a partir do conhecimento profundo da realidade brasileira. Este estudo faz parte da grande pesquisa brasileira para conhecer o Brasil no contexto da América Latina; mas também visa funcionar como um manifesto dos trabalhadores em seu estado de massacre e como um desenvolvimento de uma defesa mais eficaz contra o ataque do sistema. A exploração dos trabalhadores achatou o salário médio em salário mínimo. A morte de nossa juventude majoritariamente negra devido à violência nas periferias tem os índices de países em guerra. O índice de mortes pela pandemia indica o fracasso do SUS sistema único de saúde pública. A catástrofe ambiental na Amazônia, no Pantanal, no Cerrado, na Mata Atlântica nunca foi tão horrível desde que os portugueses invadiram esta parte da América.

Este artigo pretende discutir em maior profundidade como funciona a sociedade sob uma “democracia capitalista chamada democracia ocidental”. Um governo na periferia do sistema mundial, no contexto da crise que começou em 2008, intensificou-se em 2012-2013; passou pela perda de direitos decorrentes do fim do pacto social da social-democracia pelo golpe de 2016, sendo aprofundada com a eleição da extrema direita em 2018, e atingiu a crise pandêmica em 2020. Queremos mostrar que a crise é do capitalismo; mostrando que o capitalismo, e mesmo o neofascismo, não pode ser derrotado pela social democracia, mas pelo socialismo em sua estratégia de criar o poder popular, a partir desses setores mais estratégicos; ou seja, capazes parar a economia mundial localmente, parar definitivamente o capitalismo a nível nacional, no contexto latino-americano e global.

Optamos por discutir a guerra de classes no Brasil e não temos receio de apresentá-la como ela é: uma guerra contra os trabalhadores. Uma guerra de trabalhadores nos setores de transportes, nos setores mais estratégicos, devido à pandemia, ao desastre ambiental, à exploração, à precariedade do trabalho da classe, ao desemprego dos trabalhadores e à violência que assola as periferias. A guerra de classes no Brasil não deixa espaço para a esquerda festiva; a guerra de classes mata a juventude negra precária e periférica, destrói a biodiversidade terrestre, acumula latifúndios; explora altas taxas de mais-valia, e testemunha a exploração como evidenciado pela pandemia que força os trabalhadores a voltarem ao trabalho removendo o direito à greve dos trabalhadores mais estratégicos. O socialismo precisa de paz, mas conhece apenas a guerra. O socialismo no Brasil no contexto da América Latina se constrói na guerra de classes e nascerá desse conflito. Portanto, a organização da guerra não é para vencer a pandemia, mas para superar a doença do capitalismo.

Neste momento de refluxo das lutas populares, onde muitos “quadros” ativistas se desencorajam e outros se arriscam a dizer que é '' o fim do trabalho '' com o aumento do “home office” trabalho à distância, as casas da periferia abrigam famílias inteiras agrupadas em mini-casas, onde o único lugar possível para não “fazer aglomeração” na pandemia é deixar estas casas e ficar na rua. Estas são as teorias do fim do trabalho que reaparecem, enquanto as teorias da “composição mutante da classe trabalhadora” servem como a principal razão para o refluxo da organização revolucionária. Nós argumentamos que as razões se encontram no déficit organizacional; com base na teoria da estratégia revolucionária e sua teoria organizacional, ou por causa do abandono de ambas. Afirmamos uma necessidade organizacional básica e clássica nos setores mais estratégicos na pandemia, que ao invés de diminuir, aumentaram trabalho, a taxa de exploração; produzindo uma ainda maior mais-valia durante a pandemia para os capitalistas; a pandemia, mais do que o aumento da miséria, mostra sua face mais perversa. Investigaremos a organização média e as formas mais básicas de organização de base, estudando criticamente o processo de “trabalho de base”, crítico, em detalhes desde o início da pandemia no Brasil.

Notamos a dificuldade de construir unidade de uma ação comum para sensibilizar os trabalhadores de setores estratégicos, assim como, a massa periférica e precária. A realidade concreta dos trabalhadores é sua fragmentação em sua representação revolucionária; que não parece existir, e porque não aparece, parece existir ainda menos. Mas o desafio da organização revolucionária não é aparecer, mas existir em seus lugares mais estratégicos. O método proposto para este estudo é verificar o nível da conscientização dos trabalhadores estratégicos, sua solidariedade para os trabalhadores precários; os trabalhadores mais afetados pela morte, desemprego, exploração do sistema, perda de direitos, e a violência do estado burguês; compreendendo as razões da morte, violência, exploração, opressão e destruição do meio ambiente. E observar e medir a formação política e sindical existente para a unidade de ação a partir da realidade concreta, e os diferentes níveis de consciência, de compromisso e estudo.

Mais uma vez, o que está em jogo não parece estar na luta contra a pandemia, mas na luta contra o sistema pelo combate à pandemia, onde a luta concreta e imediata se junta à luta de classes pelo poder popular, que enfrenta uma pandemia global no Brasil da forma mais favorável e cooperativa. O nível de comprometimento e consciência varia dependendo do que cada trabalhador vê na realidade e se engaja na transformação da realidade. A tarefa organizacional/ de treinamento é unificar essas subjetividades de classe na prática. A unidade dos explorados e dos que sofrem as mais diversas opressões desta doença, gênero, raça, orientação sexual ou contra a xenofobia, para que haja um só fim. As mais diversas estruturas, estruturas de classe e solidariedade, os partidos ou sindicatos; as estruturas de classe e de solidariedade devem estar a serviço da esquerda revolucionária como um todo, não para garantir a unidade de ideias, mas a unidade de ação, baseada no debate de ideias e no alto grau de consciência dos seus ativistas.

A falta de presença no local de trabalho e nos espaços de moradia, com teoria e prática revolucionárias associadas a uma prática organizacional específica do próprio setor não apenas demonstra a falta de estratégia e prática organizacional revolucionária, mas também os meios de superar a teoria atual e a forma de organização diante do ataque. Convencer não significa uma questão de autoridade, mas de exemplo e muito trabalho, para elevar o espírito crítico pelo prestígio dos dirigentes, pela leitura, pelo respeito à base e pela prática do dia a dia. O déficit de “quadros organizadores” também se deve à falta de ação como um todo. Qualquer organização deve priorizar e valorizar a presença física do “quadro” através do “trabalho substantivo e básico” experiente, suficiente, qualificado, bem apoiado, revolucionário, competente e especializado dos trabalhadores de cada setor, atentos ao território e momento específicos da luta de classes na guerra de classes; um "trabalho de base" que respeita o conhecimento transformador e a contribuição revolucionária de uma base organizada. No bom trabalho de base, a divisão do trabalho, diferentes tarefas e diferentes compromissos determinam a prática diária.

Nossa questão central é, portanto, prática, como o "quadro" revolucionário opera em suas tarefas cotidianas mais simples em áreas onde o sistema é mais fácil de atacar. A pandemia mostra essa ferida exposta. Como está a organização de “quadros”' nos setores de transporte e estratégico? Organizar estrategicamente uma pequena quantidade de trabalhadores mais estratégicos, e dessa pequena quantidade, mas de qualidade, de trabalhadores organizados, para acumular forças para se organizarem mais, de forma mais estratégica, a partir dos “quadros”, desde o ponto de visão organizacional, estruturas de apoio à classe. Mais a força que resulta da recuperação do instrumento sindical, a serviço da luta concreta na luta de classes, de forma organizada, com a formação dos conselhos operários, até a organização ser de massa. Da classe trabalhadora para a classe trabalhadora, haverá mais força para o processo organizacional pós pandemia.

O trabalho do “quadro” organizador, portanto, como se observa na maioria das áreas estratégicas que agora delinearemos, é útil em número e qualidade. Com o déficit organizativo acompanha a falta de estruturas de classe para apoiar a luta concreta na luta da classe trabalhadora; a ausência de uma base sindicalizada, organizada e consciente; e a falta de orientação dos trabalhadores para o local de trabalho, mas também para o local de moradia. Portanto, a tarefa do “quadro revolucionário e organizador” não é apenas saber onde atuar e se especializar neste setor específico, mas também o aperfeiçoamento pessoal para melhorá-lo, trabalhar melhor e aprender continuamente; ou estar bem apoiado nas estruturas de classe e internacionalistas mais combativas; para transformar essas estruturas em bases organizadas, e a para construção paralela de conselhos de trabalhadores.

O governo Bolsonaro, resultado do golpe de estado de 2016 no Brasil, representou e representa um avanço significativo das forças reacionárias e neofascistas, da extrema direita conservadora no que diz respeito às diretrizes do “apelo moral e bons costumes”, incluindo o fundamentalismo religioso, e também os neoliberais na economia; que conjuntamente trabalham pela destruição dos direitos da classe trabalhadora, pelo ataque às minorias e pela contribuição para a destruição da vida no planeta, por meio das políticas de destruição dos biomas em sua contribuição para o aquecimento global. Enfrentar um governo de extrema direita nas áreas macroeconômicas significa também enfrentar esse governo nas micro-áreas, desde sua organização mais simples. Qualquer insatisfação deve se tornar uma arma organizacional contra este governo. A explicação e a compreensão são a ferramenta organizacional que transforma o micro e o macro em uma revolução micro-macro. A comparação da luta do local no contexto nacional, no contexto da comparação com um exemplo concreto da América Latina, faz parte do processo de amadurecimento da consciência em uma micro-macro revolução no contexto latino-americano. Essa é a natureza da revolução brasileira, que compreende a organização mais simples no contexto regional mais amplo.

A cobiçada pandemia expôs o sistema capitalista de três maneiras: Sem trabalhadores, o sistema capitalista não funciona, embora quase 15% dos trabalhadores estejam atualmente sem trabalho. O declínio da pandemia traz de volta o trabalho, mas o contrato de trabalho é intermitente e temporário. O sistema quer que todos os trabalhadores escolhidos trabalhem para aumentar os lucros do capitalista. A segunda coisa é que os trabalhadores estratégicos que têm o poder de parar a economia global localmente têm ainda mais poder em tempos extremos. A terceira coisa importante é que a pandemia provou que sem um processo de cooperação global entre os trabalhadores não há possibilidade de vida saudável no planeta. O sistema capitalista é incompatível com isso, não tem solidariedade nem cooperação. A recuperação das ferramentas sindicais para a luta de classes, para a construção de bases organizadas para lutas mais amplas, e a construção do poder popular pela construção de conselhos de trabalhadores são uma oportunidade única neste momento de cooperação anticapitalista.


Um governo que se apóia em três pilares: na barricada teocrática fundamentalista que o elegeu; sobre os militares a serviço do imperialismo sem nenhum plano para o Brasil, mesmo que usem um verniz nacionalista; e, finalmente, sobre a burguesia neoliberal associada à agroindústria e à exploração predatória de minerais, petróleo e matérias-primas. Além disso, a propaganda de extrema direita construiu um caminho por fora do sistema político tradicional e anti-institucional, que conquistou as massas populares e os corações da nova classe trabalhadora precária e periférica, cansada das promessas dos social-democratas de fé nas instituições e na república burguesa. Para encerrar, as classes médias apóiam como força auxiliar o governo de extrema direita e se alimentam de um discurso anti-PT, anti-operário, anti-ex-presidente Lula da Silva, e no limite anticomunista. Os conselhos operários mais apegados à realidade concreta devem superar as falsas contradições que o anticomunismo apresenta, para a preocupação prática da transformação social. Uma base organizada a partir de estruturas ao serviço da luta de classes deve ir além da social-democracia no sistema. O processo educacional revolucionário de consciência e compromisso não deve recuperar a fé nas instituições burguesas, mas sim fazer o “trabalho de base” para construir a transição socialista.

A pandemia expõe a necessidade de construir solidariedade para além do debate em torno de uma religião específica; que o papel dos militares na situação atual do Brasil é tomar o lado oposto ao que ocupam atualmente na guerra de classes; o neoliberalismo na pandemia é a face mais exposta da doença capitalista. A organização de base é confrontada com um debate paciente nos espaços de trabalho e nos locais de moradia, mostrando como funciona a sociedade do egoísmo que o fundamentalismo religioso não supera, mas aumenta; a busca de militares que se posicionem ao lado das forças populares para a construção da união cívico militar; demonstrando que os liberais não criam trabalho, renda ou poder para os trabalhadores, mas operam a política parasitária deste mundo. Para isso, é necessário expor a forma teórica e organizacional da social-democracia para superá-la. Para derrotar o capitalismo, é preciso também derrotar a social-democracia desenvolvimentista brasileira.

É no centro dessa situação, aparentemente mostrando o enfraquecimento ou fim de toda defesa efetiva contra a extrema direita, que este trabalho critica o processo de organização dos trabalhadores nos últimos 40 anos. O que a pandemia COVID-19 tem a ver com isso? Ela aprofunda a crise econômica estrutural do sistema capitalista de 2008. Mas a verdadeira crise é a da organização revolucionária para construir uma ruptura que levará este sistema até sua crise final, uma ruptura socialista para a revolução brasileira. O problema é organizacional, uma organização que coloque os trabalhadores no centro, que discute sua exploração, que discute todas as formas de opressão, inclusive aquelas que apontam para a maior crise ambiental da história brasileira. Como explicamos antes: A Amazônia e o Pantanal estão em chamas enquanto a maior crise de saúde do Brasil se desenrola. Ao mesmo tempo, o governo de extrema direita não mostra sinais de fraqueza. O problema é como superar o déficit organizacional da classe trabalhadora. Devemos fazer essa disputa colocando a palavra socialismo traduzida em ações concretas que os trabalhadores em geral querem ver realizadas.

A social-democracia está paralisada agora, mas por muito tempo foi a social-democracia que paralisou a força da luta coletiva revolucionária da classe trabalhadora; o movimento sindical, o movimento político, da juventude e popular, tudo ficou paralisado, desarmando os trabalhadores para a luta concreta na luta de classes. Enquanto a social-democracia paralisou a classe trabalhadora praticando a conciliação com aqueles que dariam o golpe de 2016, a extrema esquerda desafiou o protagonismo da extrema direita. A extrema direita tem sido muito melhor em alcançar o poder e permanecer no poder até agora. Mas isso não significa que o 'trabalho de base' crítico no Brasil tenha deixado de existir. Novamente, na alegoria do futebol, o ataque é muito melhor do que a defesa, mas o jogo ainda não acabou, e a solução para este problema é armar a defesa e treinar forte para um contra ataque. Cabe à extrema esquerda denunciar o desarmamento da classe nos últimos 40 anos por meio de práticas de conciliação de classes, e propor uma nova teoria e uma nova práxis organizacional para colocá-la em prática. A extrema direita parece à vontade no poder, enquanto a social-democracia permanece perplexa com sua própria queda. Na alegoria do futebol, com os mesmos jogadores e a mesma equipa adversária, só podemos mudar a forma de jogar para lutar bem neste jogo.

Enquanto a teoria ligada à tradição do novo sindicalismo afirma que o trabalho formal tornou-se precário e periférico, que a pandemia obrigou os trabalhadores a ficar em casa tornando o "trabalho de base" impossível devido à sua fragmentação, portanto, exigindo novas formas de organização. A extrema esquerda está intensificando o trabalho de base nos locais de trabalho e moradia, e continuou a organizar os profissionais de saúde de um lado; e outros profissionais estratégicos, como os do setor de transporte e petróleo. A organização desses setores visa fortalecer o poder de paralisar a economia nos setores mais sensíveis ao sistema capitalista. A social democracia, em sua maior parte, assiste à televisão em casa, longe dos processos de organização de classe; esses quadros prostrados e derrotados aguardam remédios institucionais e novas eleições. Mas se os trabalhadores têm a mesma forma de jogar o jogo, como podemos esperar um resultado diferente? Acontece que a classe trabalhadora não parou de se organizar. Também não deixou de ser confrontada e cortejada ao mesmo tempo pela extrema direita. A diferença é que a partir de 2012, a extrema esquerda entra no processo, embora a extrema direita tenha vencido grandes batalhas até agora, há um processo cumulativo de 'trabalho de base' crítico em andamento, e um forte desejo de mudar o jogo para definitivamente ganhar o jogo.

Desde a recuperação das ferramentas sindicais das mãos da burocracia, à luta concreta na luta de classes, passando pelas formas clássicas de organização à luta pela formação de uma base organizada e sindicalizada; qual seria o motor que geraria a construção desse fenômeno? Uma correta política de “quadros”, de organizações sindicais, como as acima descritas, recuperadas pela luta de classes e capazes de competir pela solidariedade de setores estratégicos, apoiando os trabalhadores precários e periféricos da economia. E, por fim, a organização dos setores mais estratégicos para a construção do poder popular. Isso é possível pelo exercício da constituição de conselhos de trabalhadores nos locais de trabalho e de moradia. Infelizmente, vivemos um momento, no meio de uma pandemia, no meio da exploração capitalista, no meio de grandes queimadas, e estamos no meio do jogo, mas cada vez mais trabalhadores vêm a necessidade de “mudar a maneira de jogar”. Não basta apenas esperar que antes do final do jogo o socialismo consiga vencer um jogo perdido contra a barbárie, é preciso “entrar no jogo”. As condições são desfavoráveis, ainda piores na crise pandêmica, com poucas bases organizadas, poucas estruturas de classe e solidariedade, poucos “quadros revolucionários organizativos” na base e poucos conselhos de trabalhadores. Mas hoje temos uma necessidade organizacional clara, enfrentar o sistema para vencer o sistema.

A mesma maioria da classe trabalhadora que coloca a extrema direita no poder também tem aversão às instituições, porque servem ao sistema de exploração existente. Neste momento de pandemia de COVID-19 a organização de “quadros” sobre uma base organizada, com a formação de conselhos operários, para o trabalho de defesa das lutas imediatas ligadas à luta de classes é o caminho mais importante para organização revolucionária. Devemos apontar na mesma direção, que a democracia controlada pelo patrão não cria trabalho, mata através da doença, pela violência e também queima a metade do país. Mas é possível ir além do desarmamento e da imobilidade da social-democracia diante do neofascismo. É possível organizar-se no caso de uma pandemia, é possível lutar e acumular forças no trabalho formal e estratégico, quando a maioria fala em “home office”. Desenvolver uma mensagem que possa ir para todas as localidades do Brasil no contexto da América Latina no mundo. A mensagem de extrema direita não foi suficientemente confrontada com uma mensagem de poder popular. Portos, navios, aeroportos, ferrovias, metrô, caminhões, ônibus, plataformas de petróleo e forças armadas e de segurança não pararam. Eles trabalharam sem parar. E os mais precários, os mais informais e periféricos não pararam completamente, apesar das esmolas em forma de ajuda governamental, que se recusa a promover a criação de trabalho formal para mais da metade da força de trabalho desempregada do país.

Na realidade, na guerra de classes aprofundada no Brasil pela extrema direita governante, a violência, exploração visível, opressão, tudo isso trouxe à luz o pequeno grupo de pessoas da elite imperial brasileira no poder, subordinada ao imperialismo, com o apoio de parte da classe trabalhadora. Não é um problema apenas que o grupo de revolucionários seja pequeno, o problema é onde reside o apoio das massas. A forma de reverter este jogo é aumentar o número de quadros da organização revolucionária, e trabalhar muito e um pouco mais nos locais de trabalho mais estratégicos, para que aumente o número de trabalhadores que apóiam a revolução. O problema organizacional exposto por esta pandemia é deixar o inimigo nu, para que possamos melhor mostrar o desarmamento da organização social-democrata e apontar para uma organização revolucionária efetiva. Vamos agora analisar, durante e após a pandemia, os lugares / momentos em que a organização revolucionária pode ser mais eficaz.

Portanto, propomos o estudo de onze setores "chave" no Brasil: A mensagem do poder popular, dos trabalhadores do transporte, dos petroleiros, das massas precárias e periféricas e das forças armadas. Como construir uma coalizão estratégica, um grande encontro de trabalhadores, movimentos populares e juventude a partir de uma mensagem de poder popular são as tarefas a serem cumpridas; com comitês de trabalhadores nos lugares mais estratégicos para se organizar para a revolução brasileira.

A mensagem do poder popular -
A mensagem do poder popular, que hoje parece não existir, existe nas lutas mais imediatas dos setores mais estratégicos, apontando para os setores mais precários e periféricos das massas populares. Uma mensagem de otimismo e esperança da revolução brasileira surge da convicção de todos, coletivamente, para o engajamento dessa revolução, algo que vai do "quadro" à massa e retorna ao “quadro organizador”, que transformam uma mensagem popular em sua própria mensagem, em poder popular. A mensagem do poder popular tem suas origens no debate de ideias populares dos ‘quadros organizativos’ nas bases, nos locais de trabalho e de moradia. Ainda que o adversário e o inimigo capitalista possam não concordar, a mensagem será ouvida e compreendida desde o trabalhador mais poderoso até o trabalhador mais simples da terra, tal é o desafio: fazer passar a mensagem através do a sociedade, à partir dos setores mais estratégicos, em direção às massas populares, conquistando as massas, pelo seu papel na revolução, para tomar parte e manter e defender o poder popular. A mensagem mais simples falará na linguagem do trabalhador brasileiro, do trabalho, do pão, da paz e da terra. A mensagem do poder popular terá que ser apreciada pelas massas como um capítulo importante da 'novela mais assistida' do Brasil.

Petroleiros - Os petroleiros estão entre os trabalhadores mais massacrados, mas também os mais estratégicos. Os petroleiros estão divididos em duas grandes federações de trabalhadores. Uma representando a forma como os trabalhadores estão organizados nos últimos 40 anos. Esta primeira federação é defensiva, conciliatória e dependente de governos populares e nacionais desenvolvimentistas, muito comprometida com o símbolo da preservação da Petrobras, mas que na prática desarma a organização dos trabalhadores no dia a dia. A outra federação, em toda a sua diversidade, é menor, e significa a diversidade da proposta socialista, portanto cumpre um papel estratégico. A federação petroleira tem como objetivo estratégico ocupar a área de exploração de petróleo no pré-sal. Um desafio ainda maior é unir a classe petroleira, reunir todos os trabalhadores estratégicos, na cadeia estratégica e logística do petróleo e frete brasileiro. Unir os petroleiros em torno de uma grande mensagem de poder popular. Unir os trabalhadores em torno da mensagem de defesa da Petrobras. A defesa de toda a cadeia produtiva logística estratégica dos trabalhadores brasileiros para o fortalecimento da classe trabalhadora brasileira como um todo com a construção da greve geral.

Ferroviários - A quase destruição dos trabalhadores ferroviários no Brasil tinha apenas um objetivo: controlar e destruir a logística deste país, e substituir uma forma de operação logística competente para as mercadorias e passageiros através de trilhos, por uma nova forma de transporte e de logística. Destruir o poder dos ferroviários também fazia parte do objetivo principal. Hoje esses trabalhadores estão muito fracos, mas há uma oportunidade para a organização com o aumento do transporte ferroviário de mercadorias e passageiros. Os ferroviários ousaram um dia equiparar o seu salário ao dos militares, “pela greve da paridade”; e os trabalhadores em geral no passado também ousaram comparar o seu próprio salário com o número de salários que pretendiam receber. Hoje, os ferroviários não podem nem sonhar com isso, pois muitos têm dificuldade para receber um salário mínimo miserável. O maior patrimônio do ferroviário era sua organização. Uma organização baseada em pequenos grupos estratégicos, em um pequeno número de trabalhadores organizados para construir uma organização de massa. O trabalho dos ‘quadros’, trabalhando técnica e politicamente a partir da condição de trabalho coletivo do trabalhador foram fundamentais na atuação histórica e estratégica na luta concreta na luta de classes. Esta foi a maior contribuição dos ferroviários à classe trabalhadora. Esse poder que foi uma vez poderá ser novamente, na alocação e interiorização de pessoas e cargas neste país. Um novo poder estratégico aproveitando o posicionamento estratégico trazendo de volta um novo poder.

Metroviários - Os trabalhadores do metrô no Brasil são uma modernização dos trabalhadores das ferrovias na região metropolitana. Muitas vezes são complementares e deveriam ser. No caso do Brasil hoje, a maior dicotomia é a comparação desses trabalhadores no setor público com o do setor privatizado, nas mais precárias condições, terceirizados, com um enorme acúmulo de funções. Os trabalhadores privatizados do metrô são os mais massacrados do setor. Por outro lado, os trabalhadores que ainda estão no setor público estão estrategicamente posicionados, tanto para defender seu poder estratégico quanto para mostrar solidariedade com os demais trabalhadores brasileiros. As greves solidárias dos trabalhadores do metrô são uma das mais famosas do Brasil. Sua luta contra o governo neoliberal de São Paulo inspira trabalhadores estratégicos e a massa trabalhadora no coração da maior cidade do Brasil. Mas as greves do metrô e dos transportes não podem se tornar greves gerais artificiais, quando a maioria justifica não trabalhar "por causa da greve dos transportes". Todos devem saber por que existe a greve geral e ter a oportunidade de defendê-la.

Aeroviários - Os trabalhadores de aeroportos no solo foram duramente atingidos pelo declínio do turismo doméstico e internacional. A nova organização do capitalismo mundial baseada na entrega “just in time” ou entrega rápida diminuiu muito na pandemia. Os aeroportos certamente não podem parar, mas as companhias aéreas têm usado esse momento para esmagar o poder dos trabalhadores do aeroporto. Mais de 50% desses trabalhadores estratégicos foram afetados. Muitos deles estão sem trabalho. Os direitos de décadas acumulados por sucessivas lutas e bons acordos coletivos diminuíram, a classe viu seus ganhos desaparecerem. A razão é que os patrões estão unidos e globalizados. Por outro lado, trabalhadores fragmentados e liderados por “pequenos líderes locais” sem importância. Os maus líderes enfrentam um desafio: parar o sistema global localmente. Os líderes sindicais na pandemia sucumbiram à sua própria incompetência em face do capitalismo global. O poder dos salários caiu absurdamente e a memória da luta quase desaparece. O remédio amargo para o problema geral passará pela unificação nacional, e serão os maiores e mais estratégicos aeroportos que exigirão um maior esforço representativo e organizacional; desde aqueles lugares onde os aviões decolam pela manhã, e precisam ficar no chão na greve geral, é fundamental a organização de grandes ‘hubs’ em torno de São Paulo.

Aeronautas - Pilotos e comissários de bordo também foram gravemente afetados pela pandemia de COVID-19, seja devido à suspensão de seus contratos ou à perda permanente de seus empregos. Seus dirigentes, que seguiram o caminho técnico e não políticos da construção institucional também alcançaram a excelência organizacional, com a marca importante de mais de 80% dos sindicalizados. Eles conquistaram leis através das grandes greves enquanto a maioria dos trabalhadores perdia seus direitos. E egoisticamente não fizeram parte das frentes operárias, e se recusaram a participar da greve geral de 2017. Aí a pandemia chegou e os patrões tomaram conta da pauta da organização "sem política" e de seus sindicalistas, no seu trabalho ‘técnico’ institucional baseado apenas em argumentação e negociação. Agora, os patrões, além das dispensas, da suspensão do contrato de trabalho, têm um projeto de terceirização para os pilotos, os trabalhadores mais fortes do setor aéreo. A má escolha dos aeronautas, as escolhas políticas dos seus dirigentes levaram o conjunto dos trabalhadores a fazer uma aliança estratégica com a direita e a extrema direita. Então vieram as recentes perdas de classe. E isso prova que as escolhas políticas devem ir além da recuperação da ferramenta sindical e além do processo de sindicalização, mas devem estar vinculadas às lutas concretas na luta de classes.

Rodoviários - Os trabalhadores rodoviários e mais especificamente os motoristas de ônibus são os trabalhadores mais estratégicos locais e acessíveis às organizações trabalhistas e políticas. Portanto, aqueles que estão mais acessíveis ao "trabalho de base" crítico e estratégico. Hoje, a luta pode ser vista como uma luta para recuperar a ferramenta sindical das mãos da burocracia sindical que governa a maioria dos trabalhadores do setor no Brasil. Nessa pandemia o esforço maior existe para combater o maior número de mortes entre os trabalhadores do setor de transportes. Esta exposição revela uma tragédia: se os trabalhadores dos transportes e setores estratégicos estão tão expostos e vulneráveis, outros trabalhadores comuns estão quase mortos. A economia em todo o mundo não pode parar. No momento, existem tentativas de organização que colocam três grandes desafios: Recuperar o instrumento sindical para a luta concreta na luta de classes, para que se torne uma referência de classe, uma organização classista, unitária, internacionalista. Segundo, organizar uma base, trabalhar com respeito às massas, a classe, com base na sindicalização e no engajamento diário nas lutas imediatas e históricas dos trabalhadores. E por último, criar conselhos de trabalhadores por local de trabalho, onde os trabalhadores, sem medo, aprendem coletivamente na luta mais concreta e na luta por seus direitos. A participação dos “quadros” na organização é muito importante. A luta dos trabalhadores hoje na pandemia significa uma luta absurda para tentar manter os salários integrais, quando os empregadores tentam cortar os salários pela metade e trouxe o espectro do desemprego; a ‘dupla função’ de quem cobra e dirige se aprofunda e trabalhadores fechados em uma caixa na pandemia estão ainda mais vulneráveis. O que antes era um trabalho com alto estresse, violência nas estradas e na cidade, é agora o maior índice de exposição à pandemia entre os trabalhadores dos transportes. O descontentamento dos trabalhadores está atingindo níveis elevados e a conscientização está aumentando. Portanto, parafraseando um dos maiores marítimos brasileiros de todos os tempos: “Enquanto o patrão não inventar uma maneira de fazer os trabalhadores passarem de um lado ao outro da cidade, pela tela do computador ou da televisão, os motoristas de ônibus terão o poder e deverão, sob pena de serem massacrados, que exercer esse poder."

Caminhoneiros - Os trabalhadores rodoviários nos caminhões são os navegadores das terras do Brasil, e também viajam pelas estradas da América Latina. Nas cidades, eles entregam todo tipo de mercadoria, internalizando a carga nacional. Sua importância é altamente estratégica para o sistema capitalista. Mas o sistema também tenta fazer esses trabalhadores pensarem na forma do próprio sistema. Entretanto, isso pode ser revertido se houver um trabalho de base fundamental para organizar o trabalhador para seu poder estratégico coletivo. O sistema, portanto, também se esforça para deixá-los fragmentados e enfraquecidos. Esse enfraquecimento começa com o “pensamento empreendedor” da maioria dos caminhoneiros autônomos. Os caminhoneiros se dividem em: Autônomos, Auxiliares agregados, empregados formais, precários intermitentes, e cooperativados. A representação sindical acompanha essa fragmentação. A ferramenta sindical reúne: muitas representações fragmentadas, fragilizadas e muitas vezes atuando contra os interesses dos caminhoneiros. Durante a pandemia COVID-19, esses trabalhadores foram expostos à doença e não tiveram condições de combatê-la, pois a maioria dos postos comerciais nas estradas foi fechada. Logo, as empresas encontraram uma forma de agir para ajudar esses trabalhadores ocupando um espaço político. Podemos dizer que a organização desses trabalhadores é tão difícil quanto estratégica. A organização deve acompanhar a saga do caminhoneiro pelo país e ser descentralizada, pode ser digital, mas acima de tudo precisa ser presencial. É preciso aproveitar o longo período de solidão dos navegadores de longa distância, estar nos pontos estratégicos dos trabalhadores metropolitanos, acompanhando as necessidades concretas da classe, para conectar outros trabalhadores estratégicos. A maior crítica é o caráter conservador e pequeno-burguês do caminhoneiro. Mas o desafio é mostrar: que todos nós nascemos sob uma ideologia capitalista sob o capitalismo, o sonho de ter seu próprio negócio e seu próprio caminhão, de ser empresário, torna-se realidade apenas para poucos, e a maioria está sob dívidas enormes, na informalidade e na precarização. É preciso ter coragem e assumir o desafio de construir o poder popular por meio da organização dos caminhoneiros, principalmente dos autônomos, porque na maioria das vezes os metropolitanos já se organizam em sindicatos de ônibus. O déficit da revolução brasileira é organizacional em seu maior setor dentro do setor de transportes, e diante dessa desorganização tem uma tarefa do tamanho dos trabalhadores brasileiros.

Estivadores e portuários – Hoje os portuários são atacados de frente e completamente. O objetivo é destruir o porto público e a "ponta de lança", pela destruição dos estivadores portuários. É muito importante destruir a vontade do trabalhador portuário de controlar o seu próprio trabalho, o seu exemplo de construir poder popular para a classe trabalhadora. Hoje existe um projeto de contrarreforma no porto de Santos, o maior e mais estratégico porto da América Latina. Por outro lado, existe a proposta de construção de poder da classe através do projeto "estiva em nossas mãos". Uma tentativa de construção do poder da estiva para a classe trabalhadora como um todo a partir da construção de poder dos trabalhadores estratégicos que se juntam aos trabalhadores do transporte estratégico, em um grande pacto de unidade e ação da classe trabalhadora, o PUA. Outro grande projeto tenta fazer o mesmo unificando as instituições existentes no setor e agrupá-las para criar a nível nacional um comando geral de trabalhadores de transporte e trabalhadores estratégicos, CGT, para organizar toda a classe trabalhadora no institucional e para a greve geral. Marítimos, estivadores, caminhoneiros, ferroviários e outros trabalhadores de transporte e logística estratégica unidos nestes projetos. O projeto: "estiva em nossas mãos" é talvez o projeto mais ousado da organização do trabalho de base crítico nos portos. Unificar estiva portuária, os trabalhadores portuários, os trabalhadores de transporte, os trabalhadores estratégicos e unificar toda a classe trabalhadora na luta concreta na luta de classes.

Marítimos e aquaviários - O maior desafio para os trabalhadores marítimos de longo curso e de navegação interior no Brasil é "garantir seu trabalho" na batalha ‘BR do mar’. A outra luta muito importante é a garantia de direitos na luta pelo respeito e pelo trabalho no elo marítimo da região metropolitana do Rio de Janeiro. Esta luta pelos direitos imediatos dos trabalhadores do setor está baseada na capacidade histórica de ir além da luta imediata e construir unidade na luta dos trabalhadores envolvidos na logística do Brasil e do conjunto da classe trabalhadora brasileira. O comando dos trabalhadores marítimos tem ajudado a formar a frente dos trabalhadores do transporte, e pretende construir uma estratégia de representação para os trabalhadores terceirizados que atuam nas plataformas de petróleo; e paralelamente uma associação estratégica com os trabalhadores do petróleo, para a construção de uma greve no setor. É contra-atacar localmente o controle capitalista global da economia, na área onde mais danos podem ser causados. O processo de construção deste contra-ataque está na capacidade da direção dos trabalhadores de convencer os trabalhadores como um todo de sua responsabilidade e de seu poder. A co-construção desta greve de solidariedade teria um impacto muito direto e significativo; que envolveria toda a cadeia logística de carga do país, e significaria na prática a construção de uma greve geral, a partir do setor mais estratégico da economia.

Trabalhadores precários e periféricos – ‘Para cada trabalhador, um trabalho que faz parte da construção do Brasil no contexto da América Latina’: Isso não será possível sem uma revolução popular e socialista. Partimos do princípio de que a transformação da sociedade brasileira só será possível pelo conjunto da massa trabalhadora. Hoje estamos vendo metade da classe trabalhadora brasileira sem trabalho. Esta é a nova condição da maioria da classe trabalhadora que vai determinar o futuro da revolução brasileira. A organização da classe operária não pode prescindir da organização de seus trabalhadores mais precários e periféricos incluídos no sistema capitalista desde sua condição menos favorável. A questão que se coloca é transformar essa massa trabalhadora em condição de vetor da revolução, onde seu protagonismo de massa nasce a partir da solidariedade dos trabalhadores estratégicos e de seus ‘quadros organizacionais’' inseridos na periferia da classe. O objetivo é a construção do ataque ao centro local partindo da periferia do sistema em direção ao seu centro.

Trabalhadores soldados - A organização dos operários inclui a organização dos soldados trabalhadores. Os trabalhadores armados e as forças de segurança em geral são os trabalhadores menos organizados na atual pandemia de COVID-19. Aqueles que poderiam construir hospitais, pontes, estradas, escolas, garantir o isolamento forçado ou contribuir para a defesa da população trabalhadora. Impedir ou minimizar os desastres naturais como os incêndios na Amazônia ou no Pantanal hoje não fazem nada, não fazem porque estão inseridos no sistema, ou, melhor, obedecem cegamente aos ditames do sistema capitalista brasileiro. A frase "o exército não tem planos" nunca foi tão correta. No momento, 3.000 militares estão treinando na Amazônia, nenhum está envolvido na contenção dos incêndios, no "pantanal" não existe estratégia militar para conter o fogo que está queimando há um mês sem parar, consumindo 2 milhões de hectares de áreas de preservação. O objetivo da revolução brasileira não pode ser alcançado sem corrigir o déficit organizacional do setor militar, é preciso separar a parte popular das forças armadas e de segurança da parte que é inimiga da classe trabalhadora, isso se faz através de um processo de organização classista permanente. A união das massas populares da classe trabalhadora com os militares é fundamental para a revolução brasileira. Construir a união cívico militar neste momento parece ser a coisa mais importante no atual processo de organização.

Queremos destacar a importância de organizar esses setores para a revolução brasileira da forma mais clara e direta a partir da estratégia de formação do poder popular através da “crítica ao trabalho de base”. O peso da organização crítica e massiva não repousa apenas em um processo de simplificação da teoria revolucionária no Brasil, mas em sua assimilação no processo de maturação crítica, assimilação crítica e transformação crítica da teoria revolucionária pelos próprios trabalhadores. Em todos os setores descritos acima, enumeramos a necessidade de organizar os trabalhadores a partir de "quadros organizacionais", ao mesmo tempo em que apontamos o estudo do seu déficit em cada um desses setores, como um dos problemas mais importantes para a revolução brasileira. A energia da organização carece da sua permanência e não se confunde com a energia impulsiva e espontânea da classe, nem mesmo quando reage à exploração, morte pela pandemia, violência nas ruas e na periferia; ou pela repulsa diante da negligência do governo com o fogo que consome o país, ou a fome na mesa do brasileiro.

A energia para recuperar estruturas burocráticas e sindicais, para se tornarem estruturas de apoio à luta de classes, é a mesma de organizar. Organizar e sensibilizar os trabalhadores para a luta imediata e concreta da luta de classes. Finalmente, a mesma energia deve ser usada para construir conselhos de trabalhadores que, embora não tenham uma base organizada nem uma estrutura guarda-chuva e apoio para a luta de classes pode constituir um pequeno grupo de trabalhadores pronto para lutar, pelos seus direitos no local de trabalho e de moradia. A diferença é que a constituição desses conselhos pode aproveitar a enorme recusa de participação sindical e política, participar no conselho pode levar à uma forma mais organizada, até que o grau de maturidade permita a participação nos três lugares: direção, base sindicalizada e conselho.

Os conselhos podem e devem aproveitar a aversão dos trabalhadores às estruturas políticas e sindicais existentes e aproximá-los da estrutura que se tornou revolucionária e da base que se organizou, na sua constituição autônoma e paralela do poder popular, que defende seu direito e o de outros. O objetivo do poder popular é opor-se ao estado burguês e não às ferramentas dos trabalhadores ou aos sindicalistas, mas o objetivo final é a educação, a conscientização, a construção do 'novo homem e da nova mulher' para a nova sociedade, para a construção socialista, protegida da pandemia, protegida do fogo e da exploração. Livre da doença do capitalismo. Quem está passando por esta crise de saúde também pode ousar se insurgir e passar pela escravidão capitalista. Não basta vencer a pandemia no Brasil, é preciso debater a pandemia nos conselhos, nas estruturas sindicais, nas bases organizadas, nos movimentos populares, na juventude. Devemos também discutir o desenvolvimento do trabalho humano para o desenvolvimento das forças produtivas, o desenvolvimento da comuna, do município para o desenvolvimento social, o controle da produção e distribuição de tudo o que é produzido e a gestão de todos os excedentes do mundo. O desenvolvimento do controle popular para construir, reparar e preservar tudo no planeta Terra, Nós não podemos deixar o capitalismo destruir a Terra, mas sim enfrentar todos os desafios da construção do poder popular por meio do trabalho de base crítico e humanizado dos próprios trabalhadores.

Aumentar a habilidade de luta de todos na alegoria final do futebol é ensinar todos a jogar, preparando a defesa e o contra-ataque para vencer o jogo, o que não acontecia verdadeiramente há pelo menos 40 anos. O conhecimento da paralisação da produção nunca foi tão valioso no mundo de hoje. Aterrar o sistema ou parar as áreas mais estratégicas é o passo mais importante neste mundo pós pandêmico. Atacando o sistema agora, onde, naquele lugar onde ele é mais seriamente danificado. Trazer prejuízo. Isso não pode ser feito sozinho. Construir frentes populares, socialistas e, acima de tudo, uma frente operacional revolucionária; esta é a tarefa revolucionária imediata. A tarefa dos “quadros”, os organizadores das bases organizadas e a construção de conselhos de trabalhadores, que se organizam para garantir trabalho e pão na mesa. São "os quadros organizativos" que levam a ideias revolucionárias a serem debatidas nos espaços que estarão em contato com esses conselhos. Se o "quadro organizacional revolucionário" não age e organiza a revolução brasileira ela para no caminho, segue em curso sem ser revolucionária. A pandemia de COVID-19 não fechou suas portas, mas bagunçou o sistema e aprofundou sua crise, dando novas oportunidades às forças revolucionárias no Brasil no contexto da América Latina. Resta saber se o grupo revolucionário de esquerda superará seu déficit organizacional para derrotar o governo de extrema direita, não pelo governo institucional, mas pela construção do governo de transição socialista e ruptura popular, nacional, latino-americana, e internacionalista.


REFERÊNCIAS:

https://covid.saude.gov.br/


https://valor.globo.com/brasil/noticia/2020/06/24/pandemia-deixa-sem-trabalho-mais-da-metade-dos-brasileiros-aptos-diz-ibge.ghtml


https://www.ibge.gov.br/estatisticas/multidominio/condicoes-de-vida-desigualdade-e-pobreza.html


https://valor.globo.com/brasil/noticia/2020/09/17/fome-volta-a-crescer-no-brasil-e-atinge-103-milhoes-aponta-ibge.ghtml


https://noticias.sapo.ao/economia/artigos/numero-de-trabalhadores-sindicalizados-caiu-mais-de-20-em-tres-anos-no-brasil


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https://www.camara.leg.br/noticias/687051-minirreforma-na-lei-dos-portos-e-sancionada-com-regras-para-portuarios-durante-pandemia


https://www.youtube.com/watch?v=JmMTvzD5d50


SCHMIDT, Marcelo - Micro-macro revolução Latino-Americana – GLU – Kassel Universitaet / Berlin Horschule - 2010


https://roteirodenoticias.com.br/uncategorized/2020/09/forcas-armadas-realizam-a-operacao-amazonia-com-3-mil-soldados/


https://www.aeronautas.org.br/not%C3%ADcias-secund%C3%A1rias/318-destaque-1/7846-nova-lei-do-aeronauta-resguarda-categoria-da-terceiriza%C3%A7%C3%A3o-e-da-precariza%C3%A7%C3%A3o.html


https://www.youtube.com/watch?v=29whlb_dIyQ


https://pcb.org.br/portal2/25594/trabalhadores-maritimos-e-luta-de-classes/


https://pcb.org.br/portal2/25846/a-critica-do-trabalho-de-base-e-os-rodoviarios/


https://pcb.org.br/portal2/25338/caminhoneiros-e-trabalho-de-base/


https://tvcultura.com.br/videos/68756_provocacoes-raphael-martinelli-2012.html


https://www.youtube.com/watch?v=MJbYBubUGvA


Entrevistas com estivadores em Santos e Rio de Janeiro - 2017-2020


Entrevistas com militares do exército e militares da marinha - 2018-2020


Entrevistas com trabalhadores precários de transporte em aplicativos, Uber e vans - 2018-2020


Entrevistas com rodoviários do Rio de Janeiro, Nova Iguaçu, Niterói em Cabo Frio - 2016-2020


Entrevistas com trabalhadores do aeroporto - 2018-2020


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Entrevistas com trabalhadores marítimos - 2017-2020


Entrevistas com petroleiros - 2017-2020, entrevista com Dinarco Reis Filho - 2018-2019-2020


Entrevistas com caminhoneiros - 2017-2020
 
Sobre o autor:
 

 

Marcelo Schmidt: Diretor executivo da  Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transporte Aquaviário e Aéreo, na Pesca e nos Portos - CONTTMAF. Tem pesquisa sobre todas as categorias e setores de transportes, estudando também os setores estratégicos. É doutorando da universidade de Paris X Nanterre. Militante do PCB e membro da coordenação estadual da Unidade Classista no Rio de Janeiro.


CRIANÇAS MIGRANTES – DRAMA ESTADUNIDENSE OU TRAGÉDIA CENTRO-AMERICANA?

Por Juliana Vitorino*
Publicado originalmente no website da rede O ISTMO www.oistmo.com


A literatura acadêmica que trata das migrações centro-americanas é vasta, embora conte com uma agenda de pesquisa desorganizada. Por conta do lugar periférico que ocupa a América Central, a explicação número um para o deslocamento de pessoas vem dos clássicos argumentos socioeconômicos: pobreza, desigualdade social e de acesso a políticas públicas fundamentais, desemprego, crises econômicas. Por conta do singular histórico de violências, ditaduras, guerras e ingerências externas, construiu-se uma segunda explicação: a da migração por violência ou perseguição política.

Após o fim das Guerras Centro-americanas (Nicarágua, 1979; El Salvador, 1980-1992; Guatemala, 1966-1996), todas elas com aparato repressivo financiado pelo governo dos Estados Unidos, a região encontrava-se frágil, destruída, politicamente polarizada e economicamente inviável. Apostou-se na responsabilidade internacional para amenizar alguns problemas e foi assim que ONGs internacionais adentraram nos países, organismos internacionais financiaram projetos de infraestrutura e seus governos endividaram-se com organismos financeiros, forçando uma dependência externa que abriu caminho para um neoliberalismo ainda mais profundo e radical.

Persistiram a pobreza, o desemprego, a fragilidade institucional e sucessivas crises econômicas. Nesse contexto, milhares de pessoas migraram, sobretudo, para os Estados Unidos, em busca de uma forma melhor de vida. No início dos anos 1990, a América Central ainda contou com a impertinência do Governo Bush (1989-1993), que deportou milhares de centro-americanos membros de gangues que haviam cumprido pena em prisões estadunidenses. As gangues, conhecidas na América Central por maras ou pandillas, eram um dos grandes problemas de segurança para os Estados Unidos e muitas delas eram compostas por imigrantes, como a Mara Salvatrucha 13 e a Pandilla Barrio 18, que eram, em resumo, formadas por imigrantes centro-americanos que haviam fugido das Guerras.

No início dos anos 2000, as estruturas criminais tanto da Mara Salvatrucha 13, como da Barrio 18, hoje consideradas duas das maiores gangues do mundo, estavam bem enraizadas em uma América Central ainda pobre e de instituições frágeis. Foi quando começou o período de fortalecimento e recrutamento de novos membros, que passaram a ser não somente os jovens que outrora admiravam o poder dos “caras que vieram do Norte”, mas jovens moradores de bairros pobres ou estudantes de escolas secundárias, ambos ambientes controlados pelas gangues. Dentre os recrutados, chama a atenção o número de adolescentes que veem na gangue uma espécie de família, que ampara e aceita, mas que pode punir e até matar. O fato de pertencerem a famílias desestruturadas pela migração os une. Foram crianças que cresceram longe de seus pais e mães e que não tiveram em seu processo de formação a presença de figuras norteadoras que foram obrigadas a emigrar em busca das oportunidades de sobrevivência negadas em seus países.

Há alguns anos que se constata uma crescente evasão escolar, que vem ocorrendo cada vez mais cedo. Suspeitava-se que isso se devia à migração para reencontro familiar. Porém, a perseguição de gangues e o recrutamento começaram a se impor como principais motivadores da fuga para os Estados Unidos. O padrão migratório tornou-se tão evidente que academicamente começamos a usar termos mais apropriados à realidade centro-americana, como é o caso da migração ocasionada por violência. E também houve a defesa, por parte de organismos internacionais, da concessão de refúgio para migrantes perseguidos pela violência de gangues. Estas eram sinalizações de que as migrações passavam por um período de agravamento, no entanto, os Estados centro-americanos não tomaram nenhuma medida resolutiva.

Migração infantil
Recentemente, vários meios de comunicação internacionais e brasileiros começaram a repercutir uma situação peculiar: a chegada de milhares de crianças (estima-se entre 50 e 60 mil) à fronteira do México com os Estados Unidos. Apesar da migração infantil não ser novidade, 2014 representou o auge, em termos numéricos, do atravessamento de crianças. De forma quase unânime, também nos informam que as crianças chegam “desacompanhadas” à fronteira, nada mais distante da realidade. Toda travessia, de qualquer migrante, é feita por coiotes, que cobram entre 4.000 e 7000 dólares para realizar a viagem em direção aos Estados Unidos. Geralmente, famílias que já migraram recorrem a esse tipo de serviço para reunirem-se com seus filhos, retirando-os do perigo que representam as pandillas, para que tenham a chance de sobreviver em um lugar melhor. Elas fogem da incerteza do futuro, fogem para tentar ter vida. Mas, parece que querer vida, no entanto, é querer demais, já que o governo estadunidense informou que não permitirá a entrada dessas crianças em seu território. Serão todas enviadas de volta, em mais uma onda de deportação de centro-americanos.

Outro discurso que acabou se construindo foi o de que supostamente a crise das crianças, como está sendo chamada, foi ocasionada por causa da falsa informação de que as crianças, ao chegar à fronteira, “desacompanhadas e sem documentos”, não podem ser deportadas pelas autoridades fronteiriças e lhes seriam dadas documentos para que possam entrar de forma regularizada nos Estados Unidos. Novamente, algo longe da realidade. É difícil acreditar que imigrantes indocumentados, acostumados a perecer toda sorte de perseguições e conviver em um submundo com suas subcidadanias, acreditem que essa opção seja factível. Por outro lado, de acordo com autoridades diplomáticas centro-americanas, uma explicação melhor seria a própria melhora de vida dos centro-americanos nos Estados Unidos, que lhes proporciona a possibilidade de planejar uma reunificação familiar a qualquer custo.

É compreensível que o Presidente Barack Obama – aquele Democrata que defendeu durante a campanha à reeleição uma Reforma Migratória e, até agora, pouco fez para viabilizá-la – decida proteger a Terra da Liberdade de imigrantes indocumentados. A justificativa da fragilidade econômica pós-crise de 2008 e a salvaguarda de empregos podem até passar como aceitáveis. Porém, existe um argumento que tem passado despercebido: o problema das migrações massivas para os Estados Unidos, que descamba na atual crise que envolve as crianças indocumentadas, deve ser tratado como responsabilidade compartilhada entre governos centro-americanos e governo estadunidense. Nesse cenário, o governo dos EUA não é isento de culpa, já que foi, ele mesmo, promotor de desestabilizações políticas, ingerências, financiador de guerras civis na América Central, além de ter transplantado e piorado o problema da violência do pós-guerra com a deportação de membros de gangues para El Salvador, Guatemala e Honduras, países onde nasceram esses novos migrantes indesejáveis.

A resolução do problema, seja permitindo o reencontro familiar ou concedendo refúgio, é ação que deve ser pleiteada. E, se concedida, não deve ser encarada como benevolência, mas como reparação por haver ocasionado ou aprofundado as causas estruturais que fizeram com que a migração fosse encarada como valorizado mecanismo de sobrevivência.

Sobre o Autor:
Juliana Vitorino Doutoranda em Ciência Política no PPGCP-UFPE, professora de Relações Internacionais da Faculdade Estácio-Recife, pesquisadora do IAL-UFPE e membro da coordenação da rede O ISTMO.