GUIA DE ESTUDOS: A História do Brasil mostra que só é nacional o que é popular




Este guia de estudos procura mostrar que  a História do Brasil é uma construção contínua realizada pelo povo no "solo do tempo". Através da análise de movimentos sociais, revoltas populares, greves operárias e resistências diversas, demonstra-se que a verdadeira identidade nacional reside naquilo que emana das massas e das suas lutas por dignidade, terra e liberdade.

20 teses para fundamentar a História Popular do Brasil


1. O povoamento europeu inicial foi alicerçado sobre os degredados, os excluídos da metrópole lusitana. O sistema de degredo utilizou prisioneiros, vadios e heréticos como bucha de canhão para o reconhecimento das terras e o povoamento inicial. Esses indivíduos, muitas vezes malvistos pela sociedade colonial, foram os primeiros a assimilar costumes indígenas e garantir a posse do território para a Coroa, revelando que a base da colonização não foi a nobreza, mas a "ralé" anônima.

2. O Quilombo dos Palmares representa a única revolução social profunda e autêntica da História do Brasil. Palmares não foi apenas um refúgio, mas uma nova sociedade construída por quem produzia: negros, indígenas e brancos pobres. Ao resistir por décadas a holandeses e portugueses, estabeleceu relações sociais alternativas que superavam o modelo colonial escravista, tornando-se o modelo de revolução mais completo do continente.

3. A Rebelião de Nheçu exemplifica a resistência indígena ativa contra o projeto colonizador jesuítico. Em 1628, o cacique Nheçu liderou um levante contra a imposição da fé cristã e a destruição das tradições guaranis. Ao atacar as reduções e eliminar os padres missionários (os "feiticeiros de burla"), os indígenas demonstraram que a colonização nunca foi pacífica e que os povos originários lutaram com ferocidade para manter seu "antigo modo de vida".

4. A educação popular e o combate ao parasitismo social são as chaves para a verdadeira soberania nacional. Segundo Manoel Bomfim, o Brasil sofre de um parasitismo colonialista e classista que suga a energia do povo. Para ele, só é nacional o que promove a educação das massas e a radicalização democrática, rompendo com as "aparências" de progresso que escondem a espoliação do trabalhador.

5. A Insurreição Pernambucana de 1817 foi o primeiro movimento de independência com participação popular efetiva. Diferente de outras conspirações, a "Revolução dos Padres" mobilizou a "arraia miúda" e propôs medidas concretas como a redução do preço de alimentos e a abolição de tratamentos nobiliárquicos. Líderes como Pedro da Silva Pedroso treinaram tropas negras e decretaram a primeira lei abolicionista do Brasil, ainda que temporária.

6. As mulheres brasileiras foram protagonistas esquecidas nas lutas republicanas e de independência. Figuras como Bárbara de Alencar, a "primeira presidenta" da República do Crato, e Gertrudes Marques mostram que a resistência ao autoritarismo monárquico contou com a liderança feminina. Essas mulheres enfrentaram prisões e perseguições para defender ideais de liberdade que a historiografia oficial muitas vezes silencia.

7. O jornalismo de Cipriano Barata funcionou como uma rede de articulação política nacional para as massas. Através da "Sentinela da Liberdade", Barata disseminou ideias republicanas e combateu a militarização do Estado. Seus jornais uniram diversas províncias em um ideário comum de resistência ao despotismo, provando que a opinião pública popular foi um motor essencial para a Independência.

8. O Levante dos Periquitos demonstrou a insatisfação dos soldados negros com a estrutura escravista pós-independência. Em 1824, o Batalhão dos Periquitos, formado por soldados negros, rebelou-se em Salvador contra o medo da reescravização e os maus-tratos da oficialidade. A revolta uniu a população pobre contra comerciantes e monarquistas, revelando a luta de classes que pulsava sob o governo imperial.

9. A Confederação do Equador foi a resposta democrática do Nordeste ao autoritarismo de Dom Pedro I. Liderada por nomes como Frei Caneca e Manoel de Carvalho Paes de Andrade, a Confederação propôs um projeto republicano e federativo. O movimento criticava a outorga da Constituição de 1824 e o Poder Moderador, mostrando que o povo não aceitava passivamente a troca de um senhor por outro.

10. A Cabanagem foi o movimento popular mais sangrento e profundo da Amazônia, levando os humildes ao poder. Composta por lavradores, indígenas e quilombolas que viviam em cabanas, a revolta tomou Belém e estabeleceu sucessivos governos populares. A morte de até 100 mil pessoas durante o conflito atesta a violência do Estado contra uma insurgência que buscava o fim dos privilégios da elite branca e portuguesa.

11. A Revolta dos Malês na Bahia uniu a identidade religiosa e étnica em um projeto de libertação urbana. Em 1835, negros muçulmanos escravizados organizaram um levante sofisticado em Salvador. Embora derrotada, a revolta espalhou o terror entre a classe proprietária e forçou o Estado a criar novos planos de segurança pública, provando que o trabalhador escravizado era o maior perigo para a ordem vigente.

12. A Balaiada no Maranhão foi a insurgência dos pequenos contra os grandes proprietários e o poder central. Liderada por artesãos como o "Balaio" e quilombolas como o Negro Cosme (o "Imperador da Liberdade"), a revolta uniu vaqueiros e escravos contra os abusos das autoridades. O Negro Cosme defendia o fim da escravidão e alfabetizava seus seguidores, representando a vanguarda intelectual e armada do povo sertanejo.

13. A Guerra do Paraguai transformou o Exército em uma força abolicionista e politizada pelo contato com as massas. Soldados negros e brancos pobres que lutaram no Paraguai retornaram ao Brasil recusando-se a caçar escravos fugitivos. O contato com a realidade paraguaia e a bravura dos negros na guerra aceleraram o fim da Monarquia e a crise do sistema escravista, transformando o quartel em espaço de debate social.

14. Canudos foi uma alternativa comunal e igualitária que desafiou a exclusão da República Velha. Antônio Conselheiro liderou milhares de sertanejos na construção de Belo Monte, onde a terra "não tinha dono" e a sobrevivência era garantida pelo trabalho comunitário. A destruição total de Canudos pelo Exército mostrou o pavor das elites diante de uma experiência social que negava a propriedade privada e o latifúndio.

15. A Revolta da Chibata marcou o fim da escravidão simbólica dentro das forças armadas. João Cândido, o "Almirante Negro", liderou marinheiros em 1910 para exigir o fim dos castigos corporais e melhores condições de trabalho. Ao apontarem os canhões para o Rio de Janeiro, os marujos mostraram que a República ainda tratava o trabalhador como escravo e que o povo estava disposto a inverter a hierarquia naval.

16. O Tenentismo representou a pequena burguesia militar como vanguarda na moralização da política. Apesar de suas limitações elitistas, movimentos como os "18 do Forte" e a "Coluna Prestes" colocaram a "questão social" na pauta nacional. A marcha de Prestes pelo interior do Brasil despertou a consciência sobre a miséria camponesa e a corrupção das oligarquias do "café com leite".

17. As Greves Gerais de 1906, 1917 e 1953 foram as verdadeiras criadoras das leis sociais no Brasil. A legislação trabalhista não foi uma "concessão magnânima" de governantes como Getúlio Vargas, mas fruto de décadas de paralisações e sangue operário. A Greve dos 300 Mil em 1953, por exemplo, forçou o aumento de 100% no salário mínimo, provando que o poder popular move a caneta do Estado.

18. A criação da Petrobras foi o resultado de uma intensa campanha de massas e soberania nacional. O lema "O Petróleo é Nosso" uniu estudantes, militares nacionalistas e intelectuais como Monteiro Lobato. A pressão popular foi o que garantiu a Getúlio Vargas a base política para instituir o monopólio estatal, enfrentando interesses internacionais e consolidando uma vitória do nacionalismo popular.

19. A resistência operária sob o Estado Novo manteve viva a luta por direitos, mesmo sob censura. Apesar do controle do DIP e da criação de sindicatos tutelados, o proletariado urbano utilizou as brechas do sistema para se organizar. A própria CLT é uma síntese da pressão das massas que, mesmo sob ditadura, não abdicaram de cobrar os compromissos sociais prometidos pela Revolução de 1930.

20. A História do Brasil só pode ser compreendida através da ótica daqueles que "vêm de baixo". Conforme defendido por Nelson Werneck Sodré, a identidade nacional é inseparável da luta de classes. Estudar o Brasil é reconhecer o protagonismo do negro, do indígena, do caboclo e do operário, pois são eles que, no solo do tempo, escrevem a história real que as elites tentam ocultar.


Glossário de Termos Históricos


Degredado

Indivíduo condenado ao exílio (degredo) pela justiça ou igreja portuguesa, usado como mão de obra no povoamento colonial.


Poder Moderador

Quarto poder criado pela Constituição de 1824, que dava ao Imperador autoridade absoluta sobre os demais poderes.


Jacobinismo (Brasileiro)

Setor radical do florianismo, composto por classe média e operários, defensores de uma república forte e nacionalista.


Trabalhismo

Ideologia política (Varguismo) focada na intervenção do Estado para harmonizar capital e trabalho através de leis sociais.


Arraia Miúda

Termo histórico usado para designar o povo comum, trabalhadores e pessoas de baixa condição social.


Tenentismo

Movimento político-militar de jovens oficiais (tenentes) que buscavam reformas no sistema oligárquico da República Velha.


Cabanos

Pessoas humildes que viviam em cabanas na Amazônia e protagonizaram a Cabanagem (1835-1840).


Malês

Negros de origem africana e religião islâmica (imalê) que lideraram a revolta de 1835 na Bahia.


Queremismo

Movimento popular em 1945 ("Queremos Getúlio") que pedia a permanência de Vargas no poder e uma Assembleia Constituinte.


Quiz de Fixação

1) Quem foram os primeiros povoadores europeus do Brasil quinhentista, muitas vezes usados para contatos iniciais com nativos?

( ) Grandes latifundiários.


( ) Degredados prisioneiros da metrópole.


( ) Padres jesuítas da alta nobreza.


2) Qual movimento é considerado a primeira revolução social da América Latina, unindo negros, indígenas e brancos pobres?

( ) Revolução de 1930.


( ) Quilombo dos Palmares.


( ) Inconfidência Mineira.


3) O cacique Nheçu liderou uma rebelião em 1628 contra qual instituição colonizadora?

( ) As Capitanias Hereditárias.


( ) A Companhia de Jesus (Missões).


( ) O Governo Geral de Salvador.


4) Quem foi o líder abolicionista radical da Insurreição Pernambucana de 1817 conhecido como "Pardo de Recife"?

( ) Frei Caneca.


( ) Pedro da Silva Pedroso.


( ) Cipriano Barata.


5) A "Lei de Terras" de 1850 foi criada com qual objetivo principal após a proibição do tráfico negreiro?

( ) Distribuir terras gratuitamente para imigrantes.


( ) Garantir que a terra fosse adquirida apenas por compra, dificultando o acesso de negros e imigrantes pobres.


( ) Devolver as terras aos povos indígenas.


6) Qual revolta popular na Bahia em 1835 foi organizada por escravos alfabetizados de religião islâmica?

( ) Balaiada.


( ) Sabinada.


( ) Revolta dos Malês.


7) Quem liderou a Revolta da Chibata em 1910 contra os castigos corporais na Marinha?

( ) Luiz Carlos Prestes.


( ) João Cândido (Almirante Negro).


( ) Marechal Deodoro da Fonseca.


8) Qual intelectual brasileiro defendia que o Brasil sofria de um "parasitismo colonial" e precisava de educação popular?

( ) Gilberto Freyre.


( ) Manoel Bomfim.


( ) Oliveira Viana.


9) O que motivou a Greve Geral dos 300 Mil em 1953, durante o governo democrático de Getúlio Vargas?

( ) A volta da Monarquia.


( ) O combate à inflação, carestia e a luta por 60% de aumento salarial.


( ) O apoio ao golpe militar de 1964.


10) A Guerrilha do Caparaó foi organizada por qual movimento para enfrentar a ditadura instalada em 1964?

( ) Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR).


( ) Aliança Nacional Libertadora (ANL).


( ) Partido Republicano Rio Grandense (PRR).


Gabarito

1) Degredados prisioneiros da metrópole.

2) Quilombo dos Palmares.

3) A Companhia de Jesus (Missões).

4) Pedro da Silva Pedroso.

5) Garantir que a terra fosse adquirida apenas por compra, dificultando o acesso de negros e imigrantes pobres.

6) Revolta dos Malês.

7) João Cândido (Almirante Negro).

8) Manoel Bomfim.

9) O combate à inflação, carestia e a luta por 60% de aumento salarial.

10) Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR).


Sobre o autor:



Rafael Freitas:  Professor de História.


DEGREDO E FEITIÇARIA NA AMÉRICA PORTUGUESA: rascunhos de uma pesquisa


A História Popular do Brasil estuda os movimentos dos trabalhadores, como as lutas dos sindicatos, as revoltas populares, os quilombos. Mas não fica nisso, adentrando na magia, feitiçaria, bruxaria, macumba, e nas práticas espirituais e religiosas marginais como algo de igual importância.

Dentro deste campo de pesquisas, está o culto a entidade de Maria Padilha no Brasil, presente desde os tempos coloniais. Ora, como afirma Laura de Mello e Souza, no prefácio à obra “Maria Padilha e toda a sua Quadrilha – De amante de um rei de Castela, a pomba-gira de Umbanda”, ela era presença constante nos rituais realizados por mulheres  degredadas da Europa. 

O nome de Maria Padilha era conjurado em magias feitas a serviço da clientela que procurava Antonia para soluções amorosas ou para  enfrentar problemas do cotidiano. Somado a isso, observamos que o estudo sobre Antonia Maria é muito relevante para a historiografia, considerando que foi o primeiro registro de devoção à Maria Padilha do Brasil.

Este texto é uma introdução a uma pesquisa sobre o culto a Maria Padilha na América Portuguesa, com foco na trajetória de Antonia Maria, feiticeira degredada que atuou na província de Pernambuco no século XVIII. A partir desta experiência, a investigação busca compreender de que modo a feitiçaria operou como forma de resistência e expressão de religiosidades populares no Brasil Colonial, utilizando como fontes primárias os processos inquisitoriais de Antônia Maria, preservados no Arquivo Nacional da Torre do Tombo.


Detalhe de processo de Antonia Maria


Natural de Portugal, Antônia Maria foi denunciada à Inquisição pela primeira vez. Em seguida , degredada para Angola, mas por razões não esclarecidas pelos registros oficiais, acabou se estabelecendo no Recife. E, apesar da sua inicial condenação, continuou com sua prática mágica, agora de forma mais constante — mas não menos perigosa. Afinal foi punida em uma segunda condenação, desta vez por relapsia com os mesmos crimes de antes.

Em Recife, além dos trabalhos para terceiros, a feiticeira também usava seus conhecimentos para benefício próprio. Seduziu um vizinho que também era casado, que a descreveu para a Inquisição com uma mistura de culpa e fascínio: “de pequena estatura, alva de rosto, olhos pretos e fermosos”.

Essa descrição não é só física. Revela o impacto que ela causava. Maria Padilha e toda a sua quadrilha, nesse contexto, não era apenas uma entidade ou um demônio. Era um símbolo de liberdade feminina, transgressão e domínio sobre os próprios desejos.

As casas onde Antonia morou — todas alugadas na Ilha de Santo Antônio — logo se tornaram pontos de movimento frequente. Mas não por escândalo… por interesse. Gente de todo tipo começou a procurá-la. Pediam rezas. Previsões. Trabalhos. Amarrações.

Sem família, sem proteção, com apenas poucas aliadas ao lado — Joana Pereira, também feiticeira e também degredada, além da bruxa Pascoal Maria, Antonia fez do estigma uma estratégia de sobrevivência. E da sua casa, um espaço de fluxo vivo.

Entre suas frequentadoras mais fiéis estavam mulheres que trabalhavam com o sexo. Em pouco tempo, Antonia deixou de ser a degredada maldita. Virou a mulher que muitos queriam ouvir… esposas proibidas de saírem das suas casas pelos seus maridos, mulheres que tinham relações extra conjugais e que não queriam que seus companheiros descobrissem, além de seus clientes que eram padres, comerciantes… enquanto outros a  temiam por seus feitiços, se tornavam inimigos e  acabaram por denunciar Antônia para o Tribunal do Santo Ofício.

Antonia Maria foi uma das feiticeiras que estabeleceram na América Portuguesa a magia de conjuração, influenciadas pelas rezas dos livros atribuídos ao São Cipriano.  Ela conjurava nos portais de casa, nas cozinhas com seus fervedouros, com oferendas nas encruzilhadas.

Fonte: TRIGUEIRO (2001)

Trabalhamos com uma hipótese. O caso de Antonia Maria se insere perfeitamente na lógica do degredo como mecanismo de controle social e povoamento europeu detalhado no nosso texto Degredo no Brasil Colonial. Ela foi enviada a Angola por ”ações vans e superticiosas, feitiçaria, pacto expresso com o demônio” — uma prática que, no sistema jurídico da época, recaía sobre condutas criminalizadas pelo moralismo religioso e pelo Estado absolutista, sobretudo quando praticadas por mulheres marginalizadas. Por outro lado, no Recife, a fama de feiticeira degredada se transformou em propaganda: ao ser citada na Gazeta, tornou-se procurada para rituais, consultas e feitiços, o que confirma como o sistema tentava excluir, mas a própria vítima conseguia ressignificar o estigma em sobrevivência e atenção — exatamente o tipo de dinâmica invisível e resistente que por um tempo escapou ao antigo sistema que usava o degredo como instrumento que visava disciplinar corpos e mentes, para o povoamento europeu da América Portuguesa.

Na esteira do estudo da historiadora Gilmara Cruz “Práticas de feitiçaria. O caso de Maria Gonçalves Cajada”, propomos que as feiticeiras degredadas para o Brasil Colonial estabeleceram resistências culturais ao sistema rígido de normas religiosas da Igreja Católica. Em outras palavras, apesar das intenções da metrópole lusitana e do Santo Ofício, o degredo ajudou a criar novas religiosidades híbridas. Não há muitas informações sobre a vida de Antonia Maria em Portugal e na Terra de Santa Cruz, somente que seu pai era lavrador, que seu cônjuge era escrivão do judicial de Beja, e que na sua segunda condenação estava viúva. Era analfabeta- não assinou documento algum incluído em seus processos. Praticava feitiçarias, sendo muito pobre, para comer, conforme denunciantes e a ré. E conseguiu seu sustento por meio do ofício de feiticeira, em consequência ao degredo e em contradição a este sistema colonial.

Diante de tudo isso, torna-se evidente que a trajetória de Antônia Maria não é apenas um caso isolado de "feitiçaria" no Brasil Colonial, mas um marco significativo para compreendermos as formas de resistência simbólica, religiosa e existencial das mulheres degredadas à América Portuguesa. Sua atuação revela como figuras marginalizadas não apenas sobreviveram ao aparato punitivo do Estado e da Igreja, como também criaram espaços de saber e influência cultural. O culto a Maria Padilha, ao que tudo indica iniciado formalmente no Brasil com Antônia, se entrelaça à própria formação de uma religiosidade popular híbrida, nutrida no choque entre o sagrado oficial e o sagrado popular. Antônia Maria incorpora, portanto, não só o início documentado da devoção a essa entidade, mas também o arquétipo da mulher que transformou opressão em ofício. Estudá-la é conhecer a história das feiticeiras do passado, para reconhecer as bases espirituais e sociais de uma História do Brasil escrita também por gestos proibidos e por bocas que, mesmo silenciadas, continuaram a conjurar. Degredo e feitiçaria, nesse contexto, não foram apenas punição e transgressão — mas as duas faces de um mesmo processo: das tentativas de excluir, afastar corpos indisciplinados, acenderam novas formas de religiosidades no coração do mundo colonial.


REFERÊNCIAS

ANDERSON, Perry. Linhagens do estado absolutista. 2° ed. São Paulo: Brasiliense, 1989.

CRUZ, Gilmara. Práticas de feitiçaria. O caso de Maria Gonçalves Cajada. São José dos Pinhais: Página 42/ Editora Estronho, 2017.

HOORNAERT, Eduardo. A igreja no Brasil-colônia (1550-1800). São Paulo: Brasiliense, 1982)

MEYER, Marlise. Maria Padilha e toda a sua Quadrilha – De amante de um rei de Castela, a pomba-gira de Umbanda. São Paulo: Duas Cidades, 1993.

PIERONI, Geraldo. Vadios e ciganos, heréticos e bruxas: os degredados no Brasil-colônia. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.

PIERONI, Geraldo. Os excluídos do reino: a inquisição e o degredo para o Brasil Colônia. 2° ed. Brasília/DF: UnB, 2007.

SCHWARTZ, Stuart B. Burocracia e sociedade no Brasil colonial: a Suprema Corte da Bahia e seus juízes. 1609-1751. São Paulo: Perspectiva, 1979.

SOUZA, Laura de Mello e. O diabo e a terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil Colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

TRIGUEIRO, Tatiane de Lima. Um caso de feitiçaria na Inquisição de Pernambuco. Recife, 2001. Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Pernambuco

VAINFAS, Ronaldo. Dicionário do Brasil Colonial. 1500-1800. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000.


Sobre o autor:

Rafael Freitas: professor de História.

ZUMBI DOS PALMARES: vendo mais ao homem e menos ao mito PARTE 06: o surgimento do mito



Antes de qualquer outra observação sobre o fenômeno do símbolo Zumbi, precisamos agora nos ater a alguns pontos básicos sobre como surge a imagem de um herói que passa a representar toda uma coletividade. Pois de outro jeito corremos risco de fazer uma análise extremamente parcial, meramente pendendo para um lado ou para outro. Ou exaltando ou difamando a este personagem. Justo, o contrário do que queremos fazer aqui que tentar encontrar uma visão mais próxima possível de quem foi realmente Zumbi dos Palmares. Assim como ele de fato se tornou o vulto de tamanho impacto no imaginário popular que hoje conhecemos.

Então primeiramente temos que ver como se forma a figura de um herói em qualquer lugar, qualquer tempo. Para tanto observemos que todo o herói em um imaginário coletivo surge para preencher aos anseios ideológicos deste mesmo coletivo em questão. Podendo este herói representar a um grupo que detém o poder ou mesmo a um grupo, de algum modo, excluído, marginalizado. Tanto um grupo em situação privilegiada como em condições, de alguma forma, desfavoráveis. Sendo que no primeiro caso, comumente este herói é lembrado por suas vitórias, ao contrário dos heróis dos grupos mais oprimidos ele é lembrado justamente por seus fracassos, por suas derrotas, por assim dizer.

Ou seja, diante da falta de sucessos que possam ser atribuídos a este herói, ele passa a ser exaltado pelo que pode ser entendido como o seu sacrifício (martírio) que, por sua vez, o que se entende como sua coragem e/ou idealismo, como um modelo de admiração a todo um grupo. Ou seja, não sendo possível este herói ser admirado por suas conquistas, é preciso encontrar nele outros elementos a despertar a admiração dos que venham a se sentir representados por este ídolo a ser escolhido para lhes representar. Neste caso, também, pode acontecer que a figura deste herói alimente uma ideia romântica de que os que sofrem ao fim serão consolados, os agora derrotados um dia terão a justa vitória.

Sendo um exemplo desta afirmação, o povo hebreu, no Velho Testamento, que sofre a escravidão no Egito, assim como é oprimido por povos variados (como os assírios, egípcios, os babilônicos, etc.), seus profetas sofrem perseguições, dentre outros tormentos que são destacados com o intuito de passarem a mensagem de que os males que os afligem são a provação se eles são, de fato, o povo escolhido por Deus. E, portanto, a vitória, ao fim estará com eles. A despeito de que isso acontecerá em um futuro que não tem previsão de quando poderá vir a acontecer. Ademais cabendo basicamente entendermos que qualquer símbolo/herói de uma coletividade se faz o elemento que permite um sentimento de identidade, pertencimento, empoderamento a um coletivo que se sente representado por ele.

Ou seja, um herói derrotado precisa tanto criar um sentimento de agregamento ao grupo que se espera que ele represente, como também precisa criar uma expectativa de triunfo, compensação futura quando essa coletividade se entende como desamparada, sofredora. Passando a ver este seu símbolo quando exaltado, adorado, como um reflexo de uma expectativa igual de em um futuro a grandeza, o triunfo, igualmente vir a seus adoradores.

Entendido isso, torna-se fácil constatar porque a coletividade negra em nosso país, como qualquer outra coletividade, igualmente precisava ter um herói que a representasse como um todo, congregando todas as demais diferenças possíveis, de forma que todos, por meio deste símbolo, se entenderiam como negros e herdeiros das lutas contra um sistema de exploração atroz - que foi a vergonhosa existência do sistema escravagista no Brasil.

Tanto que por ocasião da abolição total da escravidão em nosso país, este símbolo para o orgulho negro não se fez Zumbi, mas sim a Princesa Isabel de Bragança, filha de Dom Pedro II e responsável pela assinatura da lei Aurea, em 13 de maio de 1888. O que pode parecer estranho, a escolha de uma personagem branca, ligada a elite da época como representante da identidade de um coletivo marginalizado, oprimido. Contudo, como toda tradição, de alguma forma inventada, pois condicionada a dados interesses, o fim da escravidão se nutriu de uma intencionalidade voltada a “amenizar” a memória dos conflitos entre brancos e negros, se fazendo a princesa Isabel, assim, o símbolo ideal para atender a esse objetivo.


Princesa Isabel

De forma que por muito tempo a data de 13 de maio passou a ser celebrada como um elemento de identidade negra, presente inclusive em várias entidades negras, em todo o país, que por isso eram denominadas como 13 de Maio. O que aconteceu não pela falta de personalidades negras na época que combateram a escravidão neste mesmo período em que a Lei Aurea foi assinada. Tanto que houve sim grandes protagonistas neste sentido como, por exemplo, Luiz Gama e André Rebouças. Contudo, a mentalidade racista e eugenista presente no final do século XIX até a metade do século XX, queria justamente apagar essa passagem da história (o ressentimento pelos séculos de escravidão) e por consequências, aos descendentes dos envolvidos nela. Mas enfim, importando dizer que dali em diante a identidade negra, independente de ter ou não participado desta escolha, tinha agora um símbolo a lhe representar.

Dado que a mentalidade racista e eugenista presente no final do século XIX até a metade do século XX, queria justamente apagar essa passagem da história (a escravidão) e por consequências, aos descendentes dos envolvidos nela. Ou seja, um interesse em apagar ao máximo a memória de todo o protagonismo dos negros em sua luta.

O que só mudaria com o surgimento de uma nova intelectualidade com um pensamento diferente da visão elitista em voga no final do século XIX e o estouro de um anseio reprimido por décadas de maior valorização que chega ao seu ápice por ocasião do declínio do brutal regime militar em nosso país que durou de 1964 a 1985. Quando agora não só se viam os militantes negros buscando por maior valorização social que cria a necessidade de um herói negro, como também que representasse a ideia de resistência à atual estrutura de caráter sócio politica de nosso país, onde historicamente uma maioria demograficamente era feita uma minoria em termos de direitos sociais.

É a partir deste contexto se forma, a partir de 1978, o mito identitário de Zumbi dos Palmares começa a se formar. Momento em que a data de 20 de novembro, também começa a ocupar espaço nesta novo entendimento que então está se formando. Devendo se compreender mito identitário no sentido de se buscar num vulto histórico, como representação de um ideal e não necessariamente observar ao homem real por trás dela. O que não quer dizer que a escolha de sua pessoa se fez meramente aleatória ou mesmo totalmente forjada. De modo algum.

Pois, primeiramente é um fato incontestável que a manutenção de sua memória ao longo de séculos, apesar dos esforços das autoridades coloniais escravagistas em fazê-la cair no esquecimento, mostra que ele não se fez um herói de todo “fabricado”. Assim o dizendo, pois outros como, por exemplo, Joaquim José da Silva Xavier (o Tiradentes) igualmente se fez um personagem condenado ao esquecimento pelos seus algozes que, do mesmo modo, se tornou um símbolo semelhante a Zumbi. Tanto na exaltação, como nas críticas atualmente em voga sobre o seu legado.

E que, tanto um como outro, alcançou a sua posição no imaginário geral, para atender a uma necessidade ideológica. Vindo de cima para baixo, seja Tiradentes por obra do governo republicano no final do século XIX, seja Zumbi pelos intelectuais que precisavam de um símbolo que representasse justamente a luta e não a espera por concessões. Por mais que o processo concluído com o dia de 13 de Maio de 1888, em nada se fez uma concessão e personalidades negras, como os já citados Gama e Rebouças tem sim grande mérito nesta luta.

Tanto que para finalizarmos nossa jornada em busca do homem por trás do mito identitário, o Zumbi dos Palmares como homem e como símbolo; precisamos agora refletir sobre os aspectos positivos e negativos dele figurar como o principal representante de um ideal de classe. Pois é importante se discutir às motivações e desdobramentos de duas correntes opostas: defensores irrestritos de Zumbi e críticos revisionistas sobre o seu papel real na história. Por isso no próximo artigo abordaremos sobre isso, finalizando nossa longa, mas necessária jornada sobre a sua trajetória que transcende que a sua mera existência.

Haja vista quantos aspectos nós encontramos a refletir sobre o ambiente antes de seu nascimento que o pode ter assim moldado, tanto quanto aos impactos de sua memória atualmente.

Sobre o autor:

LUIS MARCELO SANTOS: natural da cidade de Ponta Grossa (estado do Paraná) é professor de História da Rede Pública Estadual do estado do Paraná, Escritor e Historiador. Especialista em ensino de História e Geografia, especialista em ensino religioso e mestre em História formado pela UEPG, já publicou artigos para jornais como o Diário da Manhã e o Diário dos Campos (de Ponta Grossa) e Gazeta do Povo (de Curitiba), assim como as obras locais “A Saga do Veterano: um pouco dos 100 anos (1905-2005) em que o Clube Democrata marcou Ponta Grossa e os Campos Gerais” (em parceria com Isolde Maria Waldmann) e “Memórias e reflexões sobre um povo: Colônia Sutil”