A CRISE DE 2008

Crise 2008

Após os ataques terroristas às Torres Gêmeas na cidade de Nova York, em 11 de setembro de 2001, a economia dos Estados Unidos, sob a orientação do presidente George W. Bush (Republicano), iniciou um período de consumo sem controle – com crédito fácil e juros baixos. O presidente e seus assessores acreditavam que só um amplo estímulo ao consumismo faria a população superar o trauma dos ataques terroristas.

Em 2007-2008, a falta de regulamentação nas instituições financeiras que forneciam créditos nos Estados Unidos, provocou uma grande crise econômica que em pouco tempo (graças aos fluxos de capitais) se espalhou por vários países.

A origem desta crise está nas hipotecas de imóveis. Muitos cidadãos estadunidenses hipotecavam seus imóveis para conseguir créditos ou dinheiro em bancos. Os imóveis tinham seu valor definido pela especulação imobiliária. Mas algumas pessoas não tinham um “bom histórico” de pagamento; ainda assim, os bancos concediam-lhes créditos chamados de “alto risco” (chamados de subprime). Essas hipotecas eram negociadas em instituições financeiras – os chamados “banco de investimento”. Os compradores destas subprimes acreditavam que podiam resgatar o dinheiro desses créditos com juros.

Quando bancos e outras instituições financeiras executavam as hipotecas, tomando a casa das pessoas, por exemplo, estas propriedades ficavam disponíveis para a venda. Os bancos esperavam recuperar o dinheiro com a venda dos imóveis por um valor muito mais alto do que eles realmente tinham. Mas praticamente não haviam compradores – visto que muita gente havia feito suas hipotecas. Essa bola de neve só cresceu e se espalhou pelo mundo. Uma “bolha imobiliária” cresceu. Apesar das críticas dos defensores do “livre mercado” e da “não interferência estatal”, a falta de regulamentação desse sistema especulativo baseado em créditos de pessoas que não tinham condições de pagar arrastou o sistema financeiro dos EUA e do mundo.

Uma das maneiras de exemplificar as causas da crise é relacioná-la ao chamado “esquema Ponzi”. Esse “esquema” deve seu nome ao italiano Carlo Ponzi (1882-1949), que imigrou para os Estados Unidos no início do século XX. Na década de 1920, Ponzi foi condenado por suas “trapaças” e falsificação no Canadá; vindo a morrer no Brasil! O esquema é o mesmo usado nas atuais “pirâmides financeiras”. Uma pessoa promete algum lucro (vamos chamá-lo de investidor número 1), mas o lucro virá só se interessados estiverem dispostos a investir num “negócio”. Os interessados investem seu dinheiro e precisam incluir mais pessoas no negócio, ficando com parte do lucro dos novos investidores; enquanto que o investidor número 1 fica com parcelas de lucro de todos que vão sendo inseridos nos “esquema” – por isso a alusão à pirâmide. Na prática, o “negócio lucrativo” é um chamariz que na maioria das vezes não produz nenhum valor. Exemplos deste tipo de “esquema de Ponzi” são dos mais variados. Aqui no Brasil se destacam os casos da empresa Avestruz Master[1] (na qual os donos da empresa prometiam lucros fabulosos para quem investisse na compra e venda de avestruzes) e da Fazenda Boi Gordo[2] ; ambos os casos ocorridos nas décadas de 1990 e 2000.

Protesto nos EUA

O bizarro é que esses esquemas se multiplicam, mesmo após a experiência em escala global da crise de 2008. Investimentos em criptomoedas (como no caso Kriptacoin nos EUA, em 2017- 2018[3] ) e em empresas que vão de produtos alimentícios até de investidoras em “ações” são maus exemplos de que essa prática ainda é muito comum. Voltando as raízes da crise. “Os bancos concedem empréstimos na esperança de que os preços dos imóveis continuem subindo, mas ao emprestar tanto dinheiro ajudam a inflar os preços. Nos dez anos que antecedem a crise, os preços de imóveis norte-americanos mais do que duplicaram. Credores e tomadores criavam uma espiral ascendente autorrealizada, o que os economistas chamam de ‘bolha’. [...] O problema é que as bolhas explodem. Então vem o momento Minsky* quando os credores se acovardam e começam a pedir que os empréstimos sejam saldados. Eles param de emprestar dinheiro para tomadores arriscados, e os preços dos imóveis param de subir tão de pressa. Isso mina o esquema de finanças Ponzi, que depende de aumentos rápidos. As pessoas começam a vender os imóveis, e os preços caem. Os tomadores percebem que não conseguem saldar os empréstimos, e os bancos começam a apoderar-se de suas casas. As empresas de construção param de construir imóveis novos, o investimento na economia é interrompido, e o país entra em recessão”[4]

Um dos símbolos desta crise foi a falência do famoso banco de investimento Lehman Brothers, em setembro de 2008. O Lehman Brother foi fundado em 1850 e tinha atuação global, ou seja, tinha uma larga tradição e experiência em finanças. Por isso, a falência deste banco se tornou um dos símbolos da crise. Crise de 2008 teve consequências desastrosas. Basta pensarmos que a economia global está conectada na estrutura da Divisão Internacional do Trabalho[5] , reforçada com a globalização. Porém, alguns países sofreram mais que outros, de acordo com os “mecanismos de defesa” disponíveis em cada um. Os Estados Unidos, país onde o fundamentalismo especulativo teve início com a questão dos subprimes, começou esforços para resolver a crise dando dinheiro para os bancos! No último ano de governo George W. Bush, o governo dos EUA concedeu empréstimos milionários aos bancos e empresas falidas. O presidente seguinte, Barack Obama (Democrata), seguiu com a política de empréstimos; chegando a cerca de US$ 700 bilhões de dólares em 2009.

As causas e consequências dessa crise, que muitos historiadores avaliam como a mais impactante desde a crise de 1929, nos faz pensar na regulação do sistema financeiro e na proibição da especulação. O sistema capitalista vive em constante crise. Uma centena de instituições econômicas jogam com as finanças mundiais para o lucro de poucas famílias, as mais ricas do mundo que detém cerca de 90% das riquezas produzidas no mundo[6] . O dinheiro não é investido em produção, é colocado nos circuitos internacionais especulativos (improdutivos). Um sistema assim é inviável em várias dimensões: sociais, ambientais e culturais. Ainda assim, se mantém de pé graças ao que chamo de “capitalismo de reserva” (conceito que pretendo desenvolver em uma série de artigos).

Notas:


1 https://jornalggn.com.br/economia/consumidor/relembrando-o-golpe-do-avestruz-master/
2 https://oglobo.globo.com/economia/investidores-da-boi-gordo-vao-comecar-ser-ressarcidos-22882739
3 https://g1.globo.com/df/distrito-federal/noticia/2019/10/09/kriptacoin-justica-do-df-aumenta-pena-e-mantem- condenacao-de-envolvidos-em-esquema-de-piramide.ghtml
* Momento Minsky é se refere ao economista estadunidense Hyman Minsky (1919-1996) que estudou as crises financeiras.
4 KISHTAINY, p. 257-8
5 http://geaciprianobarata.blogspot.com/2017/01/miseria-das-nacoes-divisao.html
6 https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/01/160118_riqueza_estudo_oxfam_fn

REFERÊNCIAS

DOWBOR, Ladislau. A era do capital improdutivo. São Paulo: Autonomia Literária, 2017.
FERGUSON, Niall. A ascensão do dinheiro: a história financeira do mundo. São Paulo: Planeta,
2017.
HARVEY, David. 17 contradições e o fim do capitalismo. São Paulo: Boitempo, 2016.
KISHTAINY, Niall. Uma breve história da economia. Porto Alegre: L&PM, 2018.

Sobre o Autor:
Fábio Melo
Fábio Melo: Membro Permanente e fundador do Grupo de Estudos Americanista Cipriano Barata. Pesquisa sobre História Social da América e Educação na América (América Latina e Estados Unidos). Produtor e radialista do programa "História em Pauta" na rádio A Voz do Morro. Tem diversos textos escritos sobre educação, cultura e política. 

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