“Na
‘revolução’ de 1964 [...] só não eliminaram o Cabral porque não tiveram
condição. [...] não dava para dizer que o Brasil havia sido descoberto
em 1964. Tudo o que aconteceu antes de 1964, não só o movimento
operário, tinha de ser esquecido. [...]. E alguns intelectuais entraram
nessa da reação. Descobriram uma palavra, o populismo, que até hoje eu
não consegui ninguém que me explicasse. Eles jogaram muito tempo
sozinhos, num período em que uns estavam na cadeia, no exílio, e outros
nem na cadeia, nem no exílio. [...]. Essa gente jogou sozinha e sozinha
se convenceu que estava abafando. [...]. Eles começam a ter dificuldades
para se manter nessa linha de raciocínio. Se 1964 foi tudo isso que
eles concluíram e querem passar para a nossa geração, a pergunta é: por
que deram o golpe? Ora, se tudo era populismo, então os generais estavam
todos bêbados e não tinham nada para fazer. ‘Ah! Não temos o que fazer,
vamos dar um golpe?’ E deram. A conclusão tem que ser essa. Porque, se
antes estava tudo dentro da linha, se não havia um conteúdo
revolucionário, se não havia uma mobilização de classe, não tinha nenhum
motivo para mexer no poder da classe dominante.”
Affonso Delellis, presidente do sindicato dos metalúrgicos de São Paulo (1963-1964), em debate no ano de 1979.
FREDERICO, Celso. A imprensa de esquerda e o movimento operário (1964-1984). São Paulo: Expressão Popular, 2010, p. 11-12.
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