COM A BUNDA EXPOSTA NA JANELA PARA PASSAR A MÃO NELA (Gonzaguinha)

É inconcebível em tempos de acirramento das lutas de classes históricas, de IA, narcotráfico/violência galopante, neocolonização, neofascismo, belicismo e depredação ambiental beirando o colapso irreversível imperialista sem precedentes por todo o planeta, que numa economia de arcabouço (calabouço) fiscal - PIB - de destaque (para qual classe?) como a brasileira, onde nossa classe dominada, proletariado, indígenas, quilombolas, campesinos seguem cada vez mais oprimidas, espoliadas, vilipendiadas, que o pelego mor neoliberal entreguista dom moluscone Lula PT, tenha "atravessado" livre e leve seu mandato de frente ampla burguesa, em "lua de mel" com o Imperialismo e as esquerdas cirandeiras conciliadoras de classes, sem ser importunado, pressionado, cobrado por pelo menos uma greve geral. Que paralisasse a produção por todo o país. Como se fosse por uma agenda mínima de pautas pelo menos reformistas (econômicas sindicais salariais). Jornada 6 x 1, nas ruas? Nem em sonho!


"Ah, mas se criticar para organizar, ou "derrubar" o governo e/ou fazer greve contra Lula e o PT, a extrema direita neofascista neoliberal golpista bolsonarista pode 'voltar' ". Esse tem sido e segue sendo o surrado mantra do Pinochio vermelho petista. A falsa polarização.

Igualmente seguiu intocável, imperturbável e sacro santo sagrado o (des)governo de extrema direita neofascista neoliberal golpista bolsonarista de 2018/2022.

Onde estavam e estão as esquerdas cirandeiras conciliadoras de classes? As grandes centrais sindicais pelegas governistas encabeçadas pela CUT? O movimento estudantil secundarista e acadêmico da UNE/UBES? O MST?

Onde estão os partidos/organizações marxistas revolucionários comunistas, únicos (os que são insubornáveis) que são capazes (em tese, teoria política) para organizar, conscientizar e mobilizar boa parte do proletariado? 

E, durante um eventual (caso seja eleito) (des)governo da extrema direita neofascista neoliberal golpista bolsonarista, qual será ou seria a tática e estratégia política teórica das esquerdas petistas cirandeiras conciliadoras de classes, seguirão hibernando em berços esplêndidos diante da total neocolonização estadunidense? 

Qual será o papel - ação - movimento de táticas de massas dos marxistas revolucionários comunistas?


Por Adauto Moura. Militante do PSTU do Ceará



Análise da música "Espártaco, Gladiador Rei", da banda Santuário




A contextualização da canção "Espártaco, Gladiador Rei" da banda Santuário no cenário de 1985 no Brasil — ano que marca o fim formal da ditadura civil-militar com a conclusão do governo Figueiredo — joga uma hipótese sobre o papel do heavy metal como movimento de contracultura no país. Confrontando as letras da música com a pesquisa de Neemias Oliveira da Silva em sua tese "Os mitos de Espártaco", compreende-se como a figura do gladiador romano pôde representar uma forma de resistência para uma juventude que rompia com os anos de silêncio e repressão cultural.

Abaixo, uma breve tentativa de interpretação da letra da música:

"Um certo povo, escravo do poder / Cresceu e se multiplicou (...) O rei, o rei, o rei para sempre, apesar das correntes".

O Brasil era o de 1985, recém-saído de mais de duas décadas de um regime ditatorial que controlou rigidamente os meios de comunicação e perseguiu manifestações artísticas. Para a juventude que consumia e produzia rock pesado na época, os versos que descreviam um "povo escravo do poder" e a luta "apesar das correntes" podem ter soado de forma muito real, traduzindo o sufocamento social recém-vivido.

Neemias aponta que, a partir do século XVIII, Espártaco passou a ser sistematicamente apropriado como um "símbolo de revoluções" e de emancipação popular. No Brasil de 1985, a contracultura do heavy metal resgatou esse símbolo de revolta. O Espártaco do Santuário tornou-se o veículo para externalizar a indignação reprimida contra o terrorismo de Estado que havia marcado o regime anterior.

"A podridão os fez crer / Que nada os salvaria / Covardes, matar pra viver / Na arena sobreviveria".

A tese de Neemias critica o processo contemporâneo da Indústria Cultural, que reduziu o mito de Espártaco a uma "mercadoria", voltado ao consumo de suplementos, jogos eletrônicos e estética de academias. No entanto, em 1985, a banda Santuário utilizou o guerreiro em um sentido oposto. A "podridão" e a necessidade de lutar para "sobreviver na arena" poderiam expressar a repulsa à hipocrisia social do período de transição. Nos termos de Dominique Kalifa citados na tese, os jovens headbangers encontravam na "afirmação de uma virilidade agressiva um instrumento de defesa coletiva" contra as pressões cotidianas de uma sociedade que ainda mantinha as estruturas do autoritarismo intactas.

"E junto dele surgiu um novo rei / Espártaco se denominou (...) Mas até os reis morrem, / E a fé perpetua".

Enquanto o campo político da esquerda brasileira de 1985 se reorganizava pela via partidária clássica, a juventude contracultural do heavy metal buscava canais de expressão que privilegiavam a emoção e o mito.

Transformar Espártaco em "rei" individualiza o herói, afastando-o da realidade de escravizado miserável. No heavy metal de 1985, essa leitura heróica e messiânica de um "rei que morre, mas cuja fé perpetua" alinha-se perfeitamente ao que Paul Veyne define como a "estética da intensidade". A juventude contracultural do heavy metal parecia buscar a inspiração de um herói trágico e inconformista que preferiu cair em combate de forma gloriosa a se submeter às regras do poder constituído.


Em 1985, durante mais uma redemocratização, a banda Santuário encontrou no mito de Espártaco uma boa metáfora para o seu tempo. Ao cruzar a crueza das arenas romanas com a poeira de um Brasil que sacudia o entulho autoritário, a canção pode ser considerada um manifesto sonoro de libertação. O Spartacus do heavy metal oitentista recusou-se a ser apenas um produto domesticado e provou que, sob o peso das distorções de guitarra, o grito de "Espártaco libertou. Avante guerreiros!" pode ser a voz de quem resiste contra as correntes de seu próprio tempo.


Sobre o autor:


Rafael Freitas: professor de História.

Victor Raúl Haya de la Torre e a tese do imperialismo como primeira etapa




Wilhelm Christian Ludwig Dilthey: filósofo hermenêutico, psicólogo, historiador, sociólogo e pedagogo alemão.

A necessidade de investigar o pensamento original dos intelectuais da América Latina — superando o eurocentrismo e a aplicação mecânica de conceitos europeus — é fundamental para compreender a nossa própria história. Essa busca por uma análise autêntica encontra forte respaldo epistemológico na hermenêutica de Wilhelm Dilthey, que buscou estabelecer os fundamentos filosóficos das ciências humanas em oposição às ciências naturais. Dilthey argumentava que, enquanto as ciências da natureza focam em explicar os fenômenos através de leis gerais e causais universais, as ciências humanas devem buscar compreender as ações e os significados dentro de seus contextos históricos específicos. Ora, as categorias de análise europeias muitas vezes não se encaixam na realidade dos nossos países, o que torna vital o resgate de intelectuais que pensaram a região a partir de suas próprias "vivências" e especificidades, em consonância com a rejeição diltheyana a determinismos universais. Para compreendermos melhor como o historicismo é válido para entendermos a América Latina, citaremos um parágrafo do livro “Ideologias e Ciência Social. Elementos para uma análise marxista”, de Michael Löwy:


Dilthey chega à conclusão que as ciências sociais são produtos históricos e têm sua validade historicamente limitada. Suas verdades não são verdades absolutas como dois mais dois é igual a quatro. As verdades, os conhecimentos produzidos pelas ciências do espírito não são desse tipo, são verdades e conhecimentos historicamente relativos. E isso vale para o conjunto de produções culturais da sociedade. (1989, p. 74)


Para compreender o desenvolvimento econômico e social da região sob uma ótica autêntica, podemos relacionar esse esforço à figura de Cipriano Barata. Considerado uma voz radical da história popular brasileira, Barata já denunciava em seus escritos a dependência e o despotismo, defendendo um projeto de nação soberana, federalista e avessa à submissão. A partir da perspectiva de Dilthey, na qual a história é um processo contínuo de interações que devem ser compreendidas a partir de seu interior e de suas próprias estruturas de experiência, a postura de Barata reflete a busca por uma consciência histórica própria da nossa formação. Mas ele esteve longe de ser o único.

O pensamento de Victor Raúl Haya de la Torre (fundador da Aliança Popular Revolucionária Americana- APRA), ao lado da reflexão de outros intelectuais críticos, exemplifica essa busca por interpretar a realidade latino-americana a partir de suas particularidades, propondo uma inversão radical da leitura clássica sobre o desenvolvimento do capitalismo. Rejeitando a ideia de que as teorias gerais poderiam predizer de forma inexorável o comportamento histórico de todas as sociedades, Haya argumentava que, enquanto na Europa o capitalismo se desenvolveu internamente a partir do feudalismo até transbordar em imperialismo, na América Latina o processo foi o oposto: o capitalismo  foi importado e imposto de fora pelas potências imperialistas.

Homenagem a Víctor Raúl Haya de la Torre (1964). Fonte: https://arkivperu.com/homenaje-a-haya-de-la-torre-1964/


Assim, para Victor Raúl Haya de la Torre, o imperialismo é a força que introduz as relações capitalistas em sociedades que ainda eram predominantemente feudais ou coloniais. Compreender essa especificidade é o que nos permitiria analisar as características do Brasil e da América Latina sem encaixá-los em determinismos ou modelos puramente importados. Essa abordagem ecoa a defesa de Barata por um país que não dependesse da dominação estrangeira e materializa o postulado de Dilthey de que a vida humana, em sua complexidade, não pode ser submetida a leis gerais que ignorem suas singularidades históricas.

Nesta visão, o capital estrangeiro atuou como o motor inicial do nosso subdesenvolvimento. Haya de la Torre via o imperialismo como uma força indutora para a modernização técnica e industrial da região, uma vez que as burguesias locais não tinham condições de liderar esse processo sozinhas. Isso reforça a tese hermenêutica de que a história de nossas nações precisa ser analisada a partir de sua própria formação, e não à luz de uma "etapa" universalista e engessada. O que o levou a distinguir dois tipos de imperialismo:

Imperialismo como estágio final (Europa): O resultado de um capitalismo maduro que busca mercados e exporta capitais.

Imperialismo como estágio inicial (América Latina ou Indo-América): Uma força externa que gera um capitalismo dependente e singular.

Como o imperialismo seria a primeira etapa do capitalismo na América Latina, Haya de la Torre acreditava que a região ainda não estava pronta para uma revolução puramente socialista. O objetivo imediato deveria ser a Libertação Nacional. Isso justificava a criação de um partido de frente ampla, sem almejar uma revolução social.

Vimos que resgatar o pensamento original dos intelectuais latino-americanos nos mostra que o desenvolvimento histórico da América Latina possui suas próprias determinações. Além disso, como podemos observar, essas interpretações relativistas tiveram diversas implicações em nossa história política. No caso do APRA, resultando em “um programa anti-imperialista, nacionalista, latino- americanista e socializante que deveria unir intelectuais, trabalhadores e camponeses em um partido-frente de âmbito latino-americano,” (2014, p. 7)

A contribuição epistemológica de Dilthey nos ajuda a  compreender as estruturas sociais americanas, analisar o contexto ao qual cada ação pertence,  e escrever uma História Popular das Américas bem longe de um mero resquício das ciências naturais. O historicismo do filósofo alemão nos serve para abandonar o eurocentrismo dogmático,  investigar as nossas raízes e construir interpretações originais, com amplas possibilidades para compreendermos as realidades sociais e históricas genuínas dos povos americanos.

Referências:

KAYSEL, André. Três Vozes, Duas Polêmicas e Um Problema: Mariátegui, Haya de La Torre, Julio Antonio Mella e as fundações do marxismo latino-americano. Trabalho preparado para o IV Seminário Discente da Pós-Graduação em Ciência  Política da USP, de 07 a 11 de abril de 2014-02-27. Disponível em: https://sdpscp.fflch.usp.br/sites/sdpscp.fflch.usp.br/files/inline-files/135-440-1-PB.pdf. Visualizado em: 10/07/2026.

LÖWY, Michael. Ideologias e Ciẽncia Social. Elementos para uma análise marxista. 5° ed. São Paulo: Cortez, 1989.

SCOCUGLIA, Javonka Baracuhey Cavalcanti. A hermenêutica de Wilheim Dilthey e a reflexão epistemológica nas ciências humanas contemporâneas. Disponível em: https://www.scielo.br/j/se/a/xmhyYJDn7xsc7VL8zbbNGqz/?lang=pt. Visualizado em: 10/07/2026.

Sobre o autor:


Rafael Freitas:
professor de História.



GUIA DE ESTUDOS: A História do Brasil mostra que só é nacional o que é popular




Este guia de estudos procura mostrar que  a História do Brasil é uma construção contínua realizada pelo povo no "solo do tempo". Através da análise de movimentos sociais, revoltas populares, greves operárias e resistências diversas, demonstra-se que a verdadeira identidade nacional reside naquilo que emana das massas e das suas lutas por dignidade, terra e liberdade.

20 teses para fundamentar a História Popular do Brasil


1. O povoamento europeu inicial foi alicerçado sobre os degredados, os excluídos da metrópole lusitana. O sistema de degredo utilizou prisioneiros, vadios e heréticos como bucha de canhão para o reconhecimento das terras e o povoamento inicial. Esses indivíduos, muitas vezes malvistos pela sociedade colonial, foram os primeiros a assimilar costumes indígenas e garantir a posse do território para a Coroa, revelando que a base da colonização não foi a nobreza, mas a "ralé" anônima.

2. O Quilombo dos Palmares representa a única revolução social profunda e autêntica da História do Brasil. Palmares não foi apenas um refúgio, mas uma nova sociedade construída por quem produzia: negros, indígenas e brancos pobres. Ao resistir por décadas a holandeses e portugueses, estabeleceu relações sociais alternativas que superavam o modelo colonial escravista, tornando-se o modelo de revolução mais completo do continente.

3. A Rebelião de Nheçu exemplifica a resistência indígena ativa contra o projeto colonizador jesuítico. Em 1628, o cacique Nheçu liderou um levante contra a imposição da fé cristã e a destruição das tradições guaranis. Ao atacar as reduções e eliminar os padres missionários (os "feiticeiros de burla"), os indígenas demonstraram que a colonização nunca foi pacífica e que os povos originários lutaram com ferocidade para manter seu "antigo modo de vida".

4. A educação popular e o combate ao parasitismo social são as chaves para a verdadeira soberania nacional. Segundo Manoel Bomfim, o Brasil sofre de um parasitismo colonialista e classista que suga a energia do povo. Para ele, só é nacional o que promove a educação das massas e a radicalização democrática, rompendo com as "aparências" de progresso que escondem a espoliação do trabalhador.

5. A Insurreição Pernambucana de 1817 foi o primeiro movimento de independência com participação popular efetiva. Diferente de outras conspirações, a "Revolução dos Padres" mobilizou a "arraia miúda" e propôs medidas concretas como a redução do preço de alimentos e a abolição de tratamentos nobiliárquicos. Líderes como Pedro da Silva Pedroso treinaram tropas negras e decretaram a primeira lei abolicionista do Brasil, ainda que temporária.

6. As mulheres brasileiras foram protagonistas esquecidas nas lutas republicanas e de independência. Figuras como Bárbara de Alencar, a "primeira presidenta" da República do Crato, e Gertrudes Marques mostram que a resistência ao autoritarismo monárquico contou com a liderança feminina. Essas mulheres enfrentaram prisões e perseguições para defender ideais de liberdade que a historiografia oficial muitas vezes silencia.

7. O jornalismo de Cipriano Barata funcionou como uma rede de articulação política nacional para as massas. Através da "Sentinela da Liberdade", Barata disseminou ideias republicanas e combateu a militarização do Estado. Seus jornais uniram diversas províncias em um ideário comum de resistência ao despotismo, provando que a opinião pública popular foi um motor essencial para a Independência.

8. O Levante dos Periquitos demonstrou a insatisfação dos soldados negros com a estrutura escravista pós-independência. Em 1824, o Batalhão dos Periquitos, formado por soldados negros, rebelou-se em Salvador contra o medo da reescravização e os maus-tratos da oficialidade. A revolta uniu a população pobre contra comerciantes e monarquistas, revelando a luta de classes que pulsava sob o governo imperial.

9. A Confederação do Equador foi a resposta democrática do Nordeste ao autoritarismo de Dom Pedro I. Liderada por nomes como Frei Caneca e Manoel de Carvalho Paes de Andrade, a Confederação propôs um projeto republicano e federativo. O movimento criticava a outorga da Constituição de 1824 e o Poder Moderador, mostrando que o povo não aceitava passivamente a troca de um senhor por outro.

10. A Cabanagem foi o movimento popular mais sangrento e profundo da Amazônia, levando os humildes ao poder. Composta por lavradores, indígenas e quilombolas que viviam em cabanas, a revolta tomou Belém e estabeleceu sucessivos governos populares. A morte de até 100 mil pessoas durante o conflito atesta a violência do Estado contra uma insurgência que buscava o fim dos privilégios da elite branca e portuguesa.

11. A Revolta dos Malês na Bahia uniu a identidade religiosa e étnica em um projeto de libertação urbana. Em 1835, negros muçulmanos escravizados organizaram um levante sofisticado em Salvador. Embora derrotada, a revolta espalhou o terror entre a classe proprietária e forçou o Estado a criar novos planos de segurança pública, provando que o trabalhador escravizado era o maior perigo para a ordem vigente.

12. A Balaiada no Maranhão foi a insurgência dos pequenos contra os grandes proprietários e o poder central. Liderada por artesãos como o "Balaio" e quilombolas como o Negro Cosme (o "Imperador da Liberdade"), a revolta uniu vaqueiros e escravos contra os abusos das autoridades. O Negro Cosme defendia o fim da escravidão e alfabetizava seus seguidores, representando a vanguarda intelectual e armada do povo sertanejo.

13. A Guerra do Paraguai transformou o Exército em uma força abolicionista e politizada pelo contato com as massas. Soldados negros e brancos pobres que lutaram no Paraguai retornaram ao Brasil recusando-se a caçar escravos fugitivos. O contato com a realidade paraguaia e a bravura dos negros na guerra aceleraram o fim da Monarquia e a crise do sistema escravista, transformando o quartel em espaço de debate social.

14. Canudos foi uma alternativa comunal e igualitária que desafiou a exclusão da República Velha. Antônio Conselheiro liderou milhares de sertanejos na construção de Belo Monte, onde a terra "não tinha dono" e a sobrevivência era garantida pelo trabalho comunitário. A destruição total de Canudos pelo Exército mostrou o pavor das elites diante de uma experiência social que negava a propriedade privada e o latifúndio.

15. A Revolta da Chibata marcou o fim da escravidão simbólica dentro das forças armadas. João Cândido, o "Almirante Negro", liderou marinheiros em 1910 para exigir o fim dos castigos corporais e melhores condições de trabalho. Ao apontarem os canhões para o Rio de Janeiro, os marujos mostraram que a República ainda tratava o trabalhador como escravo e que o povo estava disposto a inverter a hierarquia naval.

16. O Tenentismo representou a pequena burguesia militar como vanguarda na moralização da política. Apesar de suas limitações elitistas, movimentos como os "18 do Forte" e a "Coluna Prestes" colocaram a "questão social" na pauta nacional. A marcha de Prestes pelo interior do Brasil despertou a consciência sobre a miséria camponesa e a corrupção das oligarquias do "café com leite".

17. As Greves Gerais de 1906, 1917 e 1953 foram as verdadeiras criadoras das leis sociais no Brasil. A legislação trabalhista não foi uma "concessão magnânima" de governantes como Getúlio Vargas, mas fruto de décadas de paralisações e sangue operário. A Greve dos 300 Mil em 1953, por exemplo, forçou o aumento de 100% no salário mínimo, provando que o poder popular move a caneta do Estado.

18. A criação da Petrobras foi o resultado de uma intensa campanha de massas e soberania nacional. O lema "O Petróleo é Nosso" uniu estudantes, militares nacionalistas e intelectuais como Monteiro Lobato. A pressão popular foi o que garantiu a Getúlio Vargas a base política para instituir o monopólio estatal, enfrentando interesses internacionais e consolidando uma vitória do nacionalismo popular.

19. A resistência operária sob o Estado Novo manteve viva a luta por direitos, mesmo sob censura. Apesar do controle do DIP e da criação de sindicatos tutelados, o proletariado urbano utilizou as brechas do sistema para se organizar. A própria CLT é uma síntese da pressão das massas que, mesmo sob ditadura, não abdicaram de cobrar os compromissos sociais prometidos pela Revolução de 1930.

20. A História do Brasil só pode ser compreendida através da ótica daqueles que "vêm de baixo". Conforme defendido por Nelson Werneck Sodré, a identidade nacional é inseparável da luta de classes. Estudar o Brasil é reconhecer o protagonismo do negro, do indígena, do caboclo e do operário, pois são eles que, no solo do tempo, escrevem a história real que as elites tentam ocultar.


Glossário de Termos Históricos


Degredado

Indivíduo condenado ao exílio (degredo) pela justiça ou igreja portuguesa, usado como mão de obra no povoamento colonial.


Poder Moderador

Quarto poder criado pela Constituição de 1824, que dava ao Imperador autoridade absoluta sobre os demais poderes.


Jacobinismo (Brasileiro)

Setor radical do florianismo, composto por classe média e operários, defensores de uma república forte e nacionalista.


Trabalhismo

Ideologia política (Varguismo) focada na intervenção do Estado para harmonizar capital e trabalho através de leis sociais.


Arraia Miúda

Termo histórico usado para designar o povo comum, trabalhadores e pessoas de baixa condição social.


Tenentismo

Movimento político-militar de jovens oficiais (tenentes) que buscavam reformas no sistema oligárquico da República Velha.


Cabanos

Pessoas humildes que viviam em cabanas na Amazônia e protagonizaram a Cabanagem (1835-1840).


Malês

Negros de origem africana e religião islâmica (imalê) que lideraram a revolta de 1835 na Bahia.


Queremismo

Movimento popular em 1945 ("Queremos Getúlio") que pedia a permanência de Vargas no poder e uma Assembleia Constituinte.


Quiz de Fixação

1) Quem foram os primeiros povoadores europeus do Brasil quinhentista, muitas vezes usados para contatos iniciais com nativos?

( ) Grandes latifundiários.


( ) Degredados prisioneiros da metrópole.


( ) Padres jesuítas da alta nobreza.


2) Qual movimento é considerado a primeira revolução social da América Latina, unindo negros, indígenas e brancos pobres?

( ) Revolução de 1930.


( ) Quilombo dos Palmares.


( ) Inconfidência Mineira.


3) O cacique Nheçu liderou uma rebelião em 1628 contra qual instituição colonizadora?

( ) As Capitanias Hereditárias.


( ) A Companhia de Jesus (Missões).


( ) O Governo Geral de Salvador.


4) Quem foi o líder abolicionista radical da Insurreição Pernambucana de 1817 conhecido como "Pardo de Recife"?

( ) Frei Caneca.


( ) Pedro da Silva Pedroso.


( ) Cipriano Barata.


5) A "Lei de Terras" de 1850 foi criada com qual objetivo principal após a proibição do tráfico negreiro?

( ) Distribuir terras gratuitamente para imigrantes.


( ) Garantir que a terra fosse adquirida apenas por compra, dificultando o acesso de negros e imigrantes pobres.


( ) Devolver as terras aos povos indígenas.


6) Qual revolta popular na Bahia em 1835 foi organizada por escravos alfabetizados de religião islâmica?

( ) Balaiada.


( ) Sabinada.


( ) Revolta dos Malês.


7) Quem liderou a Revolta da Chibata em 1910 contra os castigos corporais na Marinha?

( ) Luiz Carlos Prestes.


( ) João Cândido (Almirante Negro).


( ) Marechal Deodoro da Fonseca.


8) Qual intelectual brasileiro defendia que o Brasil sofria de um "parasitismo colonial" e precisava de educação popular?

( ) Gilberto Freyre.


( ) Manoel Bomfim.


( ) Oliveira Viana.


9) O que motivou a Greve Geral dos 300 Mil em 1953, durante o governo democrático de Getúlio Vargas?

( ) A volta da Monarquia.


( ) O combate à inflação, carestia e a luta por 60% de aumento salarial.


( ) O apoio ao golpe militar de 1964.


10) A Guerrilha do Caparaó foi organizada por qual movimento para enfrentar a ditadura instalada em 1964?

( ) Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR).


( ) Aliança Nacional Libertadora (ANL).


( ) Partido Republicano Rio Grandense (PRR).


Gabarito

1) Degredados prisioneiros da metrópole.

2) Quilombo dos Palmares.

3) A Companhia de Jesus (Missões).

4) Pedro da Silva Pedroso.

5) Garantir que a terra fosse adquirida apenas por compra, dificultando o acesso de negros e imigrantes pobres.

6) Revolta dos Malês.

7) João Cândido (Almirante Negro).

8) Manoel Bomfim.

9) O combate à inflação, carestia e a luta por 60% de aumento salarial.

10) Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR).


Sobre o autor:



Rafael Freitas:  Professor de História.


REVOLTA DOS PROFESSORES EM CANOAS – A GREVE HISTÓRICA DE 2026



Reposição salarial. Pagamento do piso nacional. Quadro completo de professores nas escolas. Salas de aula superlotadas – espaços onde cabem 20 alunos são abarrotadas com 35; muitas sem ar-condicionado em temperaturas que chegam a 49 graus! Enquadramento na categoria de profissionais da educação para profissionais da educação infantil. Melhorias no plano de carreira. Segurança nas escolas. Inclusões reais de alunos atípicos, com atendimento especializado e não simplesmente jogados em escolas sem estrutura e profissionais para atendê-los. São muitas demandas, mas todas elas urgentes para os professores no município de Canoas.

Para que todas essas demandas sejam cumpridas, os professores de Canoas organizaram a maior greve da categoria desde 1992! Nunca antes na história do município, tantos professores paralisaram e exigiram seus direitos, repudiados sistematicamente pelas sucessivas administrações municipais.

É curioso que Canoas, o município com o 3 maior PIB do estado e uma arrecadação bilionária, tenha tanta dificuldade em oferecer um plano de carreira decente para seus profissionais da educação. Também é inaceitável que um município com economia tão robusta tenha tantas escolas sem a mínima estrutura para conforto climático.  

As articulações para um movimento forte dos professores de Canoas, iniciaram ainda em fevereiro, em reuniões no Sindicato dos Profissionais em Educação Municipal de Canoas (SINPROCAN). Na ocasião, as aulas ainda não haviam começado. Pelo calendário escolar de 2026, o início do ano letivo era dia 06 de fevereiro. Após uma reunião no sindicato e a ameaça de paralisação, a prefeitura resolveu adiar o início das aulas para dia 20 daquele mês, em meio a uma intensa onda de calor no estado, e com a maioria dos alunos sem conforto climático nas escolas – pois a prefeitura não instalou os equipamentos de ar-condicionado.

Com o início do ano letivo, os professores começaram a sentir na pele a precariedade da educação no município. Todas escolas iniciaram o ano sem o quadro completo. Para atender as turmas, professores de uma matéria passaram a dar aula de outra. Por exemplo, professores de matemática dando aula de educação física. Professores de português dando aula de biologia etc. Sem um profissional adequado na sua respectiva área do conhecimento, como as crianças vão aprender os conteúdos? Como os “índices” vão ser bons? 

Essa falta de professores no início do ano letivo é simplesmente inexplicável: visto que o município fez concurso em 2025. Porque não chamou a tempo os aprovados? 

Em meio a esse caos de falta de recursos humanos, temos o grave problema das falsas inclusões. Para os gestores da prefeitura e a Secretaria de Educação, a inclusão é simplesmente jogar crianças atípicas numa sala de aula. Porém, sabemos que existem vários tipos de crianças atípicas: autistas, deficientes intelectuais, deficientes motores entre outros. A prefeitura de Canoas não oferece atendimento e espaço adequado para as atipias de cada criança. Algumas nem poderiam frequentar o ambiente escolar regular, mas sim escolas especializadas. Infelizmente muitas famílias não se atentam a isso, pois sem saber dos seus direitos, e sem uma estrutura pública que a oriente, vê na escola uma espécie de “depósito” onde pode ser “livrar” do seu filho atípico por algumas horas. Ocorre que, quem acaba sofrendo com isso são os professores, uma vez que, sem monitores para auxiliar, tem que lidar com 32 crianças em sala de aula, e mais 3 ou 4 inclusões. Isso torna o trabalho docente simplesmente impraticável! 

Em cerca de um mês após o retorno das aulas, a situação ficou insustentável. A falta de professores colapsava a organização das escolas. A prefeitura, diante disso, anunciava prazos. E quando esses prazos chegavam, nada mudava. 

Diante do caos na educação pública de Canoas, foi organizada uma paralisação por respostas das grandes demandas da categoria. Assim, no dia 14 de abril praticamente todas escolas paralisaram pedindo respostas à prefeitura de Canoas: quando teremos mais professores nas escolas? Quando os alunos atípicos serão atendidos de verdade? Quando a categoria receberá seu aumento real de salário, que não é feito há 24 anos?

A prefeitura, sob o governo de Airton Souza (PL), ficou sob pressão. O que se seguiu foi uma grande mobilização, que chegou a contar com quase 1 mil professores na frente da prefeitura de Canoas. Algo nunca antes visto no município! As mobilizações ficaram mais fortes ao longo dos dias 15, 16 e 17 de abril e a categoria decidiu por entrar em greve. No dia 22 de abril, primeiro dia de greve, uma passeata pelas ruas do centro, esclareceu a população sobre os motivos da greve. Importante salientar, muitas mães e responsáveis de alunos estavam juntos aos professores, contribuindo e apoiando o movimento. 

Ao longo de 23 dias, inúmeras reuniões foram feitas entre a prefeitura, direção sindical e comando de greve. As propostas enviadas pelo governo bolsonarista de Airton Souza, nunca contemplavam o mínimo que a categoria exigia. A prefeitura sempre alegava contenção de despesas e falta de verbas públicas. Porém, ao longo da greve, com o apoio de parlamentares do PT e PSOL, Sofia Cavedon, Luciana Genro e Laura Sito, ficou mais do que evidente que Canoas possui recursos, mas a má gestão não os aplica direito.

No dia 28 de abril, uma comitiva de grevistas foi ao encontro dos vereadores de Canoas solicitar apoio e que eles cobrassem do prefeito as verbas destinada a educação. Os vereadores, com exceção de Gabriel Constantino e Emilio Neto (ambos do PT), titubearam em realizar seu trabalho: fiscalizar o executivo.

No dia 30 de abril um golpe abalou o movimento grevista. Os vereadores, que dias antes declaram apoio aos professores, votaram uma proposta do prefeito na qual o reajuste da inflação foi parcelado em 6 vezes! Esta manobra foi um golpe, pois não passou por negociação com a direção sindical e comando de greve. Ainda assim, esse reajuste “beneficiou” todos servidores do município – que não receberiam nada ou receberiam em 12 vezes, como queria a prefeitura, se não fosse o poder dos professores em greve.

Ao longo de quase um mês, denúncias surgiram contra a prefeitura e que, inevitavelmente entravam na pauta da greve. Uma das mais polêmicas foi o obscuro contrato da prefeitura para o programa Conecta+, que ultrapassa os 40 milhões! Qual a finalidade desse programa? Nenhum professor foi consultado sobre. Com o dinheiro desperdiçado neste programa pedagogicamente ineficaz, quantas escolas poderiam ser construídas?

A truculência da prefeitura e a falta de diálogo se agravou na última semana de greve, entre os dias 11 e 15 de maio. O prefeito e seus assessores, simplesmente fecharam a porta para qualquer negociação, indo contra orientações judiciais inclusive, que dão um prazo legal para negociações entre sindicato e prefeitura. Essa situação chegou até a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul, que requisitou uma audiência com o prefeito.

No dia 15 de maio, em assembleia, os professores decidiram pelo fim da greve. Foi uma decisão estratégica, pois a luta segue por via judicial, com prazos próprios. Ou seja, o prefeito saiu derrotado. Agora ele terá que explicar porque aplica apenas 23% dos recursos municipais na educação, quando o mínimo é 25%? Onde estão esses 2% que faltam, e que contabilizam alguns milhões de reais? Qual fundamento para o contrato milionário do Conecta+? Por que a prefeitura se recusou a negociar? São questões que em breve devem ser respondidas.

De qualquer forma, uma coisa é certa: os professores de Canoas fizeram história!


Cartazes de professores sobre as reivindicações da categoria:






(Fotos: Fábio Melo)



Sobre o autor:

 
Fábio Melo: Historiador. Membro Permanente e fundador do Grupo de Estudos Americanista Cipriano Barata (GEACB). Professor de escola pública. Produtor e radialista do programa "História em Pauta", que já passou por rádios comunitárias de Porto Alegre e Alvorada. Desenhista amador, tem um blog sobre quadrinhos, com resenhas e ênfase em histórias autorais: https://guerrilhacomix.blogspot.com/. 





RESENHA DE LIVRO: “A que custo?”

Livro: A que custo? O capitalismo (moderno) e o futuro da saúde

Autor: Nicholas Freudenberg

Editora: Elefante

Ano: 2022


Quais os custos individuais e sociais do capitalismo? Quais impactos na saúde física e mental de trabalhadores, homens e mulheres, das grandes corporações? Como construir alternativas sólidas e coletivas de resistência e enfrentamento ao sistema? Essas e outras questões importantes são abordadas no livro “A que custo? O capitalismo (moderno) e o futuro da saúde”, escrita pelo professor de saúde pública da Universidade da Cidade de Nova York Nicholas Freundenberg.

Ao longo de mais de 500 páginas, o professor Freundenberg destrincha o custo social, ambiental, físico e mental que o capitalismo moderno vem causando na humanidade. Para isso, o autor divide o livro em cinco “pilares da saúde”: alimentos, educação, sistema de saúde, trabalho, mobilidade urbana e relações sociais. Em cada um destes cinco pilares, Freudenberg analisa os impactos nocivos do capitalismo, tal como está estruturado hoje: grandes corporações, redes sociais que promovem o individualismo e o consumismo, trabalho precarizado, privatização da saúde pública etc. Publicado originalmente em 2021, o autor traz também os impactos da pandemia global de covid-19 nos seus 5 pilares da saúde.

Embora a obra tenha um foco maior nos Estados Unidos, é perfeitamente possível fazer associações com o Brasil, visto que aqui também se adotou um receituário neoliberal para gerir o capitalismo brasileiro.




TRECHOS DO LIVRO:


“A crise financeira de 2008 poderia ter sido um ponto de virada. Poderia ter levado o povo e o governo dos Estados Unidos a examinar de maneira mais detida se a crescente influência da economia de mercado na vida cotidiana precisava mudar. Mas não houve mudança. Em vez disso, durante a última década testemunhamos a deterioração da saúde de muitos estadunidenses, o endividamento crescente, a desigualdade sistemática, o aumento da mão de obra com baixos salários, a desconfiança da maioria das instituições sociais, conflitos políticos aparentemente irreconciliáveis e o agravamento do aquecimento global. Poderá o declínio econômico global desencadeado pela pandemia de covid-19 proporcionar outra oportunidade para construir alternativas?” (p. 42).


“As longas jornadas de trabalho, as tarefas de cuidado da casa e dos filhos e o tempo necessário para alocar recursos limitados para assegurar a sobrevivência do ambiente familiar impõem, muitas vezes, um sentimento de urgência temporal aos trabalhadores mal-remunerados, uma sensação associada a problemas de saúde mental e física […]. Tanto os ricos quanto os pobres experimentam a escassez de tempo, mas os ricos podem comprar tempo de volta no mercado. Podem, por exemplo, pagar empregadas domésticas para limpar a casa, babás para cuidar dos filhos e contadores para elaborar a declaração de impostos. Para os trabalhadores mal-pagos, o fardo adicional da escassez de tempo esgota ainda mais a capacidade de proteger a saúde” (p. 318).


“Hoje, embora o capitalismo global tenha características próprias, ele não é monolítico ou homogêneo, mas varia ao longo do tempo e lugar. Cada variante tem arranjos diferentes para o que é público, o que é privado e quem decide o quê, e cada variante é forjada por interações locais e nacionais entre forças sociais concorrentes” (p. 464).



Sobre o autor:

 
Fábio Melo: Historiador. Membro Permanente e fundador do Grupo de Estudos Americanista Cipriano Barata (GEACB). Professor de escola pública. Produtor e radialista do programa "História em Pauta", que já passou por rádios comunitárias de Porto Alegre e Alvorada. Desenhista amador, tem um blog sobre quadrinhos, com resenhas e ênfase em histórias autorais: https://guerrilhacomix.blogspot.com/. 



HQ sobre a "Revolta da Chibata"


O GEACB apresenta mais uma produção em quadrinhos sobre momentos da história do Brasil. 

Desta vez o historiador Fábio Melo apresenta sua versão da Revolta da Chibata de 1910. Confira:





Leia e baixe a HQ completa:

https://drive.google.com/file/d/1Nq0Al7dzXhW0sNtkvzIQ6TIuIneqnBZH/view?usp=sharing



Sobre o autor:

 
Fábio Melo: Historiador. Membro Permanente e fundador do Grupo de Estudos Americanista Cipriano Barata (GEACB). Professor de escola pública. Produtor e radialista do programa "História em Pauta", que já passou por rádios comunitárias de Porto Alegre e Alvorada. Desenhista amador, tem um blog sobre quadrinhos, com resenhas e ênfase em histórias autorais: https://guerrilhacomix.blogspot.com/. 




Cipriano Barata: a sentinela radical da soberania popular



Em sua época, Cipriano José Barata de Almeida (1762–1838) foi a voz mais radical e incômoda da história popular brasileira. O personagem histórico que dá nome ao nosso grupo de estudos americanista foi cirurgião, filósofo e jornalista, a sua trajetória desenha um projeto de país que, 200 anos depois, ainda lutamos para se concretizar. A sua trajetória merece homenagens no cancioneiro latino-americano, ou em versos pelos nossos poetas, algo que, infelizmente, também não aconteceu.

O breve estudo a seguir tem como principal objetivo promover pesquisas mais amplas sobre a História Popular do Brasil. O nosso blog segue com espaço aberto para debates fraternos.


Iluminismo Rebelde

Nascido em Salvador, sua formação acadêmica em Coimbra (Filosofia e Medicina) contribuiu para o tornar um intelectual orgânico. O contato com o Iluminismo resultou em acusações de heresia pelo Santo Ofício, provando que, desde cedo, seu pensamento desafiava as estruturas de controle espiritual e político. Ao retornar, mergulhou no turbilhão das revoltas populares brasileiras, ganhando a alcunha futura de “revolucionário de todas as revoluções”. Não é exagero dizer que Cipriano é indispensável para quem deseja entender a história brasileira sob a ótica popular.

Seu jornal, Sentinela da Liberdade na Guarita de Pernambuco, inaugurou uma forma de comunicação política agressiva e pedagógica. O brado "Ó do Brasil! Alerta!" era um chamado à consciência política e à vigilância contra o despotismo. Precursor do jornalismo de opinião e das redes de mobilização, Barata via a informação como antídoto contra a tirania. Em tempos de desinformação, sua tese de que um povo educado é uma barreira contra o autoritarismo permanece atual.

Um dos aspectos mais proféticos de sua atuação foi o combate ferrenho à interferência militar na política. Cipriano defendia a supremacia absoluta do poder civil. Para ele, um exército que se torna ator político é o carrasco da liberdade. Ele entendia que a farda deve servir à nação, nunca tutelá-la.

Cipriano viveu o que muitos opositores enfrentaram na ditadura civil-militar brasileira: a tentativa de silenciamento através do cárcere. Preso por quase toda a década de 1820, ele transformou a cela em redação. Mudava o nome do jornal conforme a cidade onde era encarcerado e fundava comitês de solidariedade para garantir dignidade aos demais presos políticos. Sua luta antecipou os debates sobre direitos humanos no sistema carcerário e a proteção aos perseguidos por suas opiniões políticas. Barata sobreviveu a ameaças de morte e tentativas de suborno com uma integridade que desafia os vícios da política profissional contemporânea.

Identidade e soberania popular brasileira

Crítico feroz da centralização do poder no Rio de Janeiro, ele defendia um Brasil federalista, aonde as províncias tivessem voz. Seu "nativismo" era prático: vestia chapéu de palha e sapatos de couro de bezerro nacional para rejeitar a estética e a dependência europeia. Conforme afirmou Leonardo Lima Breda: “Em Lisboa, Cipriano era um dos poucos deputados das cortes que demonstravam uma espécie de nacionalismo brasileiro, mais assemelhado a um nativismo antilusitano, vestindo-se com casaca de algodão, sapato de couro de bezerro, chapéu de palha e bengala, todos utensílios de vestimenta originários de sua terra.“ Portanto, podemos notar que a pauta da soberania nacional autêntica, avessa ao imperialismo é um eco direto das lutas de Cipriano.

Enquanto figuras como José Bonifácio representavam a conciliação das elites, Cipriano era o lado do “underground” republicano, "maçom" (termo usado na época para estigmatizar opositores, como "subversivo" foi usado no regime de primeiro de abril) e radical. Ele não aceitava que a independência fosse um arranjo de cúpula que mantivesse a escravidão e a exclusão popular.

Provocações para o presente

Cipriano Barata é o "espírito" que assombrava o autoritarismo brasileiro há dois séculos. Seu legado é um convite à vigilância: devemos até hoje ser uma "Sentinela", afinal o Brasil pelo qual ele foi preso e perseguido ainda está em construção. O "Alerta!" de Cipriano Barata ainda ressoa, pois a guarita da liberdade não pode ficar vazia e o Grupo de Estudos Americanista Cipriano Barata (GEACB) busca trazer a tona essa História.

Sobre o autor:

Rafael Freitas: professor de História.









A VERDADEIRA HISTÓRIA DO BRASIL - Desenho



Sobre o autor:

 
Fábio Melo: Historiador. Membro Permanente e fundador do Grupo de Estudos Americanista Cipriano Barata (GEACB). Professor de escola pública. Produtor e radialista do programa "História em Pauta", que já passou por rádios comunitárias de Porto Alegre e Alvorada. Desenhista amador, tem um blog sobre quadrinhos, com resenhas e ênfase em histórias autorais: https://guerrilhacomix.blogspot.com/. 





 

VOCÊ CONHECE NELLIE BLY?


Imagine uma mulher de apenas 25 anos dar a volta no mundo sozinha em 72 dias, com apenas uma mala para seus pertences e roupas. Agora imagine isso no ano de 1889! 

A propósito, nem é preciso imaginar. Esse feito realmente aconteceu. Em 1889, a jornalista Nellie Bly (cujo nome de nascimento era Elizabeth Jane Cochram) partiu de Nova York para uma impressionante volta ao mundo em 72 dias. 


Inspirada pela obra “Volta ao Mundo em 80 dias” do escritor francês Júlio Verne, e pelos avanços nos transportes em fins do século 19, Bly propôs a ideia ao seu chefe, editor do jornal New York World (de Joseph Pulitzer) onde trabalhava. Ela já era conhecida por elevar o jornalismo ao extremo. Sua primeira grande reportagem impactante foi investigar as condições de vida dos internos no Hospício Blackwell, em Nova York. Na época, várias denúncias de tratamentos inadequados aos internos eram relatadas. Para descobrir se os relatos eram mesmo verdadeiros, Bly fingiu-se de louca para conseguir ser internada por 10 dias no tal hospício. Essa experiência impressionante deu origem ao livro “Dez Dias no Hospício”, publicado em 1887. O sucesso foi imediato. E lhe valeu uma promissora carreira de jornalista pelas décadas seguintes. 





Em novembro de 1889, Nellie partiu de Nova York para o Reino Unido, de lá foi para a França, onde se encontrou com o famoso escritor Júlio Verne. Após o breve e agradável encontro, Bly partiu para a Itália, de lá  pegou um navio para o Egito. Cruzando o Canal de Suez e o Mar Vermelho, Bly chegou às regiões que na época pertenciam ao império colonial britânico: atuais Sri Lanka, Malásia e China; e ao Japão, que não era colonial britânica, mas estava em plena Revolução Meiji (iniciada em 1868 e que deu ao país as condições de virar uma potência imperialista nas décadas seguintes). 


Apesar de não muito atenta e crítica em relação à história e ao desenvolvimento econômico dos lugares por onde passou, o olhar de Bly não deixou escapar a miséria influenciada pelo imperialismo estrangeiro. No Egito, Bly testemunha uma passagem interessante:


"Mal a ancora afundou, o navio foi cercado por uma frota de pequenos barcos, guiados por árabes seminus, lutando, agarrando, puxando, gritando em sua louca pressa de serem os primeiros. Nunca em minha vida vi tal demonstração de ganância voraz pelos poucos centavos que esperavam ganhar levando os passageiros para terra. Alguns barqueiros chegavam a empurrar outros para fora de seus barcos e os jogavam na água num esforço frenético de roubar os lugares uns dos outros. Quando a escada do navio foi lançada, muitos entre eles a agarraram como se fosse questão de vida ou morte, e lá se prenderam até que o capitão fosse obrigado a mandar os marinheiros baterem nos árabes para que saíssem, o que fizeram com bastões compridos, antes que os passageiros ousassem dar um passo adiante" (2021, p. 86). 


A viagem de Bly ao redor do mundo terminou em janeiro de 1890. Sua volta a Nova York foi uma festividade no país. Tornando-a ainda mais famosa. 


A curiosidade de Nellie ao chegar nos lugares mais distantes e pitorescos da época, como o Egito, Sri Lanka, China e Japão, não escondem um ar de darwinismo social e higienismo. Porém, é preciso ter em mente a época em que Bly se aventurou por esses lugares. Nos países industrializados, tal como sua terra natal, os Estados Unidos, essas ideias eram parte de um arcabouço científico que se estabelecia. 


Após a sua aventura pelo mundo, Bly se retirou por um tempo do jornalismo. Casou com um industrial, chamado Robert Seaman, e se dedicou a patentes inventivas para a indústria. Ao longo da década de 1910 ela se dedicou à causa sufragista nos EUA (onde as mulheres só conseguiram o direito de votar em 1920!). Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), Bly foi a primeira mulher a visitar como correspondente uma zona de guerra na Áustria, chegando a ser presa pelos austríacos.


Nellie Bly faleceu em janeiro de 1922. Seu legado para o jornalismo e a história, porém, são inegáveis. Viajar pelo mundo, sob a ótica de Bly, ajuda a entender as culturas e os preconceitos da época, onde a globalização ainda não tinha avançado tanto como hoje; bem como as muitas consequências nefastas do capitalismo no mundo. 





Sobre o autor:

 
 
Fábio Melo: Historiador. Membro Permanente e fundador do Grupo de Estudos Americanista Cipriano Barata (GEACB). Professor de escola pública. Produtor e radialista do programa "História em Pauta", que já passou por rádios comunitárias de Porto Alegre e Alvorada. Desenhista amador, tem um blog sobre quadrinhos, com resenhas e ênfase em histórias autorais: https://guerrilhacomix.blogspot.com/.